segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O Som ao Redor


O que "O Som ao Redor" faz, e que boa parte do cinema nacional não consegue (ou não se interessa), é falar tão claramente de um Brasil que se vive na pele, diariamente. O procedimento não é simples, mas Kleber Mendonça tem uma enorme sensibilidade para reprocessar a realidade que ele (e todos nós) sentimos, em forma cinematográfica, onde o som tem vital importância, mas não só.


Desde a primeira cena, após as fotos em preto-e-branco, em que acompanhamos uma criança de patins a se juntar com diversas outras no pátio de um prédio, há um processo de imersão nas ruas, prédios e casas daquele bairro que se alcança de diversas formas: a trilha cria um clima de tensão constante (mais sobre isso abaixo); os sons ambientes são ressaltados, inclusive com fins dramáticos; as conversas casuais entre personagens que não só revelam algo deles, mas também de relações historicamente construídas (há uma estranheza na "bondade" e na graça com que patrões se dirigem a empregadas domésticas, aqui perfeitamente captada nas cenas em que um dos protagonistas interage com a empregada e seus familiares); a câmera que observa e revela a intimidade e atos daquelas pessoas, do dia-a-dia da dona de casa entediada ao zoom nos adolescentes que se beijam num canto do prédio, passando pelo guardador de carros que se vinga da mulher que o destrata ou até mesmo o tempo dedicado a simplesmente olhar para a empregada que tira seu uniforme e se torna uma mulher desejável; e, claro, o registro da própria arquitetura do lugar, a verticalização da cidade, com seus prédios enormes e iguais (o "hermano" que se perde, em ótima sequência de humor), com seus apartamentos de portas reforçadas por grades, que engole a memória afetiva e individual (Sofia, personagem que tem a oportunidade de ver pela última vez o lugar em que morou e que será substituído por um prédio de 21 andares), as pessoas que transitam por ali, os "pegas", o carro suspeito que revela uma mulher vomitando por embriaguez.


Se, como diz Eric Rohmer, todo filme é um documentário sobre o seu tempo, "O Som ao Redor" ficará para a história como um dos maiores documentários de nossa época. É um catálogo fascinante de situações, relações, medos e angústias do que vivemos hoje em um país cheio de contradições, herdeiro de uma cultura escravocrata e de fazendeiros poderosos. Não à toa o filme começa com fotografias desta época e encerra com um acerto de contas envolvendo este passado, na única subtrama com "início, meio e fim": é o tipo de vingança cinematograficamente ligada ao western, gênero americano por excelência que mais fala sobre as raízes de uma nação.


Se está é a única trama redonda, todo o resto parece girar em torno da incerteza, da incompletude, que me parece casar perfeitamente com as intenções do diretor em não buscar respostas, mas sim criar uma obra que serve de comentário sobre um certo estado de coisas. Me chama a atenção, por exemplo, o fato de nunca sabermos se o porteiro do prédio é desleixado no trabalho propositalmente; ou se os seguranças são responsáveis por algum delito nas ruas como forma de "marketing". É que são situações possíveis, numa realidade em que há exploração e injustiças sociais, mas aqueles que estão por baixo arranjam formas de tentar "dobrar" ou se beneficiar de algum jeito dentro dessas relações cristalizadas. Há uma preocupação em não vitimizar ninguém, mas fica claro que há algo de muito errado nesta classe média/alta nossa, na forma egoísta como seguimos a vida. A excelente sequência da reunião de condomínio reflete bem isso, não só naqueles que propõem a demissão do porteiro ("vamos resolver logo isso porque preciso subir, tomar um banho e descansar"), mas até naqueles que o defendem - o protagonista "bonzinho" emite sua opinião, mas logo se retira, mais preocupado com a menina por quem se apaixonou.


O filme também é certeiro no clima que cria para si com aquela trilha que acompanha alguns personagens que andam à noite por aquelas ruas, criando uma atmosfera tensa que me parece falar muito diretamente a todo mundo que faz este tipo de percurso noturno em qualquer cidade do país: a desconfiança e o medo por sua própria integridade física, a tensão da possibilidade de ser assaltado, etc. A todo momento parece que alguma tragédia vai ocorrer. É um filme que se divide em capítulos com "guarda" nos títulos e a questão de segurança hoje no Brasil é tão tênue e frágil, que a aura de filme de terror que Kleber Mendonça constrói me parece bastante apropriada. Vendo o filme pela segunda vez, a cena que encerra o filme me lembrou também o plano final de "Intervenção Divina", onde uma panela de pressão serve de metáfora para as questões da Palestina. As coisas estão para explodir por aqui também...


Neste sentido, "O Som ao Redor" traz as duas sequências mais memoráveis do ano, perfeitas como cinema e comentário social: o momento em que um casal faz sexo em um lugar onde não deveriam fazer e, logo em seguida, o pesadelo de uma criança em que toda uma população indesejável toma sua sala de estar. Como cinema, porque são imagens fortes, no uso do som, do enquadramento e iluminação, daquelas que ficam na memória por bastante tempo (assustam também pelo estranhamento e o inusitado); como comentário social, porque são cenas de terror que ilustram perfeitamente os medos mais básicos de qualquer um que pertença a classe média/alta, que é o desconforto e pavor da "invasão" de pessoas que claramente estão em outro nível (certamente mais baixo), contaminando e violando espaços tão privados.


Há muito mais a se falar. Particularmente, adoro tudo que envolve a personagem de Maeve Jinkings (percebi que amaria o filme quando se dedicou a um longo close no rosto dela, chapada, ao som de "Crazy Little Thing Called Love", momento em que o cachorro volta a latir) e há tantos pequenos detalhes de composição de espaços e personagens (grande direção de atores) que certamente não lembraria de todos aqui - além de tantos outros que eu não devo ter percebido. É um grande filme de cinéfilo, de autor. De alguém que tem inquietações com a realidade em sua volta e que consegue traduzi-las em imagens e sons devidamente articulados num conjunto que empolga. Que venham mais filmes nacionais assim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Piores e Melhores de 2010/2011 (inéditos no Brasil)

Não dá pra ficar numa seleção que só leve em conta o que foi lançado comercialmente no Brasil. Vemos filmes em mostras e festivais, disponíveis na internet e até em blu-rays importados que chegam no mercado internacional muito antes de aparecerem por aqui.

Então sem enrolação, valendo produções de 2010 e 2011, seguem as seguintes listas:


Um top 10 com o melhor que vi EM 2010 e que infelizmente continua inédito no Brasil.

1. O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira
2. Mistérios de Lisboa, de Raoul Ruiz
3. Memórias de Xangai, de Jia Zhang-ke
4. As Quatro Voltas, de Michelangelo Frammartino
5. Caterpillar, de Kôji Wakamatsu
6. The Myth of the American Sleepover, de David Robert Mitchell
7. A Espada e a Rosa, de João Nicolau
8. Vocês São Todos Capitães, de Oliver Laxe
9. Silent Souls, de Aleksei Fedorchenko
10. Aurora, de Cristi Puiu



Um top 10 com o pior que vi em 2011 e felizmente continua inédito no Brasil - descartei os que já chegaram aqui em 2012, como "Histórias Cruzadas" e o abominável "Precisamos Falar Sobre Kevin" (seria meu número 1), mas mantive os que já tem data certa:

1. Another Earth, de Mike Cahill
2. Girlfriend, de Justin Lerner
3. A Lonely Place to Die, de Julian Gilbey
4. Green, de Sophia Takal
5. La Proie (The Prey), de Eric Valette
6. Waiting For Superman, de Davis Guggenheim
7. Punished, de Law Wing-cheong
8. No Lugar Errado, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti
9. Moneyball - O Homem Que Mudou o Jogo, de Bennet Miller
10. Bellflower, de Evan Glodell



Três filmes que não gostei, mas que têm seu interesse ou que podem ser interessantes pra alguém:

1. City of Life and Death, de Chuan Lu
2. Drive, de Nicolas Winding Refn
3. Sauna on Moon, de Zou Peng



Três filmes que merecem ser revistos porque não os vi na melhor das circunstâncias (também conhecida como "fadiga de maratona na Mostra de SP"):

1. Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio
2. Histórias da Insônia, de Jonas Mekas
3. Low Life, de Nicholas Klotz



E agora, o top 50 de filmes que merecem chegar ao Brasil. Mais uma vez, não vi cinquenta grandes filmes, mas esta é uma lista até mais forte do que a dos filmes que chegaram no país. Os cinco primeiros são os mais especiais para mim; do 6º ao 14º são grandes filmes que poderiam facilmente trocar de posições entre si; do 15º ao 24º são obras de grande força também na maior parte do tempo; e a outra metade da lista é de bons filmes, embora confesso que os 10 ou 15 últimos estão aí mais para cumprir tabela. Também excluí da lista os que já chegaram por aqui em 2012, como os belos "A Separação" e "O Espião Que Sabia Demais", e os bons "Guerreiro", "Tomboy" e "50%".


1. Habemus Papam, de Nanni Moretti
2. The Day He Arrives, de Hong Sang-Soo
3. O Cavalo de Turim, de Béla Tarr
4. Essential Killing, de Jerzy Skolimowski
5. Um Método Perigoso, de David Cronenberg
6. Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, de Júlia Murat
7. Oki's Movie, de Hong Sang-Soo
8. 13 Assassinos, de Takeshi Miike
9. Era uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan
10. Kill List, de Ben Wheatley
11. O Homem Que Não Dormia, de Edgard Navarro
12. Crazy Horse, de Frederick Wiseman
13. O Abrigo, de Jeff Nichols
14. Detective Dee and the Mistery of the Phantom Flame, de Tsui Hark
15. Wu Xia (Swordsmen), de Peter Chan
16. Les Géants (The Giants), de Bouli Lanners
17. I Saw the Devil, de Kim Jee-woon
18. Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper
19. Ajeossi (The Man From Nowhere), de Lee Jeong-beom
20. Burke and Hare, de John Landis
21. Hanezu, de Naomi Kawase
22. Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.
23. Exit Through the Gift Shop, de Banksy
24. Yellow Sea, de Na Hong-jin
25. The Robber, de Benjamin Heisenberg
26. Another Year, de Mike Leigh
27. Atmen (Respirar), de Karl Markovics
28. Eu Receberia as Piores Noticias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant
29. Kaboom, de Greg Araki
30. No Limite da Mentira (The Debt), de John Madden
31. Snowtown, de Justin Kurzel
32. Catfish, de Henry Joost e Ariel Schuman
33. Angele e Tony, de Alix Delaporte
34. Labrador, de Frederikke Aspöck
35. Cold Weather, de Aaron Katz
36. Vida Que Segue, de Géraldine Doignon
37. O Futuro, de Miranda July
38. Jane Eyre, de Cary Fukunaga
39. Retreat, de Carl Tibbetts
40. Maluco Beleza (Our Idiot Brother), de Jesse Peretz
41. Miss Bala, de Gerardo Naranjo
42. As Presas, de Antoine Blossier
43. Negócio Fechado (Cedar Rapids), de Miguel Arteta
44. The Innkeepers, de Ti West
45. Las Acacias, de Pablo Giorgelli
46. Uma Vida Tranquila, de Claudio Cupellini
47. O Dominador, de Kim Min-suk
48. Headhunters, de Morten Tyldum
49. Paul, de Greg Mottola
50. Por Que Você Está Chorando?, de Katia Lewkowicz








domingo, 5 de fevereiro de 2012

Melhores e Piores de 2011 (lançados no Brasil)

Resolvi fazer várias listas para resumir o ano de 2011. Neste post, tudo que diz respeito aos filmes comercialmente lançados no Brasil, seja em cinema ou diretamente em DVD/Blu-Ray. Isso significa colocar no balaio filmes que vi há mais de 2 anos (caso dos excelentes "Singularidades de uma Rapariga Loura" e "Faça-me Feliz") ou realizados até há mais tempo - o interessante "Esquizofrenia" finalmente foi lançado em DVD e é de 2004!

Começando pelos piores do ano.

Preferi uma seleção diferente do que se vê por aí e fiz três "top 5" de naturezas diferentes:


OS PIORES: os que realmente considero verdadeiras lástimas. Mas não chuto cachorro morto. Enquanto obras como "As Viagens de Gulliver", "Transformers 3", "Lanterna Verde" ou "Amanhecer" são presenças constantes neste tipo de lista, meus piores podem até mesmo constarem na lista de melhores de alguém. Não importa se um deles venceu prêmios importantes e que tem qualidades visíveis, mas sim a relação que estabeleci enquanto o via, a irritação, impaciência, o martírio que foi chegar até o fim. Não duvido que o mesmo poderia ter acontecido com os filmes que citei aí em cima, mas não os vi. Tempo é uma coisa importante e acho que é preciso ter PRÉ-conceitos, até porque é impossível ver tudo. Na lista dos filmes que não vi e nem quero ver inclui também obras elogiadas como "Lixo Extraordinário", "Biutiful", "Incêndios", "Em um Mundo Melhor" e "Ganhar ou Ganhar". Poderia gostar de algum desses? Sim, mas prefiro não arriscar por uma série de (pré?)concepções que tenho e passar meu tempo cinéfilo tentando dar conta de tantos outros milhares de filmes que me interessam muito mais.

Sendo assim, eis o famigerado top 5:

1. Sem Limites, de Neil Burger
2. Capitães de Areia, de Cecília Amado
3. O Discurso do Rei, de Tom Hooper
4. Meu País, de André Ristum
5. Os Monstros, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti


Ainda cabe uma menção honrosa aos três filmes do ano que desisti de ver antes mesmo de chegar na metade. Isso talvez significasse que seriam os três piores do ano, mas foi apenas um momento de sensatez em perceber que não valia a pena chegar até o fim, momento este que eu poderia ter usado, por exemplo, nos cinco casos acima.

Dizem que a grande crítica americana Pauline Kael teria abandonado uma sessão para a crítica do filme "O Resgate do Titanic", com 15 minutos de projeção. Sua justificativa aos produtores: "Life's too short". Foi pensando na Kael que me livrei dos seguintes filmes:


1. O Retrato de Dorian Gray, de Oliver Parker
2. Balada de Amor e Ódio, de Álex de la Iglesia
3. Trabalho Sujo, de Christine Jeffs



OS SUPERESTIMADOS: queria um termo melhor que este (aceito sugestões), pois dá a ideia de se referir a filmes que me incomodaram por terem recebido mais atenção do que acho que mereciam. E tem menos a ver com que outros acham e mais com o fato de realmente considerá-los ruins, independente de recepção, e que poderiam estar num top 10 ou próximo disto. Por outro lado, se existe um top 5 só para eles, significa que levo em conta o entusiasmo alheio. Aliás, é inevitável uma irritação maior quando as pessoas elogiam algo que você vê claramente que não presta, não é?

Estes seriam:

1. Melancolia, de Lars Von Trier
2. Cisne Negro, de Darren Aronofsky
3. Homens e Deuses, de Xavier Beauvois
4. Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2, de David Yates
5. O Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges



AS DECEPÇÕES: aqui entram filmes que nem considero ruins (alguns são, sim), mas que por serem de cineastas que admiro, merecem destaque pelo tanto que me decepcionaram.


1. O Garoto da Bicicleta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
2. Caminho da Liberdade, de Peter Weir
3. Aterrorizada, de John Carpenter
4. Bravura Indômita, de Joel e Ethan Coen
5. Meia-Noite em Paris, de Woody Allen



OS MELHORES: Resolvi selecionar 50 filmes para esta lista. Não significa, claro, que consegui encontrar 50 grandes filmes lançados no Brasil. Infelizmente, está longe deste número. A bem da verdade, neste top 50 apenas os 9 (nove) primeiros me parecem bastante especiais, que achei superiores. Do 10º ao 20º lugar, filmes que achei bem bons, sólidos, divertidos ou emocionantes, mas que faltaram algo que os elevassem a um patamar maior (em alguns casos, até pela própria limitação do gênero). Do 21º ao 24º lugar, casos curiosos de obras que mesclam seus grandes momentos com outros que me incomodaram. Quando são bons, são melhores que maior parte dos filmes do top 20, mas ficaram abaixo pela irregularidade. Do 25º em diante, todos bons filmes com um aspecto ou outro que me agradaram o suficiente para lembrar deles. As posições em que se encontram são uma tentativa meio arbitrária de hierarquia, podendo ser diferentes caso eu refizesse em outro momento.


Sem nome dos realizadores, para não atrasar:


1. Além da Vida
2. Cópia Fiel
3. Trabalhar Cansa
4. A Pele Que Habito
5. Um Lugar Qualquer
6. Singularidades de uma Rapariga Loura
7. Faça-Me Feliz
8. Super 8
9. As Praias de Agnès
10. Isto Não É um Filme
11. O Vencedor
12. Tudo Pelo Poder
13. Incontrolável
14. Inquietos
15. Como Você Sabe
16. X-Men: Primeira Classe
17. Planeta dos Macacos: A Origem
18. Missão Madrinha de Casamento
19. Passe Livre
20. As Canções
21. Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
22. A Árvore da Vida
23. A Caverna dos Sonhos Esquecidos
24. Vênus Negra
25. Ataque ao Prédio
26. Ricky
27. Potiche - Esposa Troféu
28. Belair
29. Missão: Impossível - Protocolo Fantasma
30. Margin Call - O Dia Antes do Fim
31. Um Sonho de Amor
32. Os Agentes do Destino
33. Poesia
34. Turnê
35. Velozes e Furiosos 5
36. Esquizofrenia
37. Estamos Juntos
38. Avenida Brasilia Formosa
39. Bahêa Minha Vida
40. Desconhecido
41. Restrepo
42. Uma Noite Mais Que Louca
43. Deixe-me Entrar
44. Bróder
45. A Última Estrada da Praia
46. 30 Minutos ou Menos
47. Pânico 4
48. Contágio
49. Em Busca de um Assassino
50. Toda Forma de Amor


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Blog de Ouro 2012 (SBBC)

Posso não atualizar quase nunca isso aqui, mas ainda faço parte da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos, que neste domingo anunciará os melhores do ano, segundo votação realizada entre seus membros. Não votei em todas as categorias (algumas eram facultativas), e achei um péssimo ano, com poucas dúvidas de minha parte.

Imagino que não vou emplacar muita coisa, mas foi assim que votei (em ordem de preferência):


MELHOR FILME

1. Além da Vida
2. Cópia Fiel
3. A Pele Que Habito
4. Um Lugar Qualquer
5. Super 8


MELHOR DIREÇÃO

1. Clint Eastwood, por Além da Vida
2. Abbas Kiarostami, por Cópia Fiel
3. Sofia Coppola, por Um Lugar Qualquer
4. Pedro Almodovar, por A Pele Que Habito
5. J.J. Abrams, por Super 8


MELHOR ATRIZ

1. Yahima Torres, por Vênus Negra
2. Kristen Wiig, por Missão Madrinha de Casamento
3. Juliette Binoche, por Cópia Fiel
4. Jeong-hie Yun, por Poesia
5. Hailee Steinfeld, por Bravura Indômita


MELHOR ATOR

1. Paul Rudd, por Como Você Sabe
2. Stephen Dorff, por Um Lugar Qualquer
3. Damian Lewis, por Esquizofrenia
4. Matt Damon, por Além da Vida
5. Emmanuel Mouret, por Faça-me Feliz


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

1. Bryce Dallas Howard, por Além da Vida
2. Elle Fanning, por Super 8
3. Amy Adams, por O Vencedor
4. Jessica Chastain, por A Árvore da Vida
5. Miranda Colclasure, por Turnê


MELHOR ATOR COADJUVANTE

1. Christian Bale, por O Vencedor
2. Chris O'Dowd, por Missão Madrinha de Casamento
3. Hunter McCracken, por A Árvore da Vida
4. Jan Cornet, por A Pele Que Habito
5. Olivier Gourmet, por Vênus Negra


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

1. Cópia Fiel
2. Trabalhar Cansa
3. Missão Madrinha de Casamento
4. O Vencedor
5. Ataque ao Prédio


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

1. A Pele Que Habito
2. Tudo Pelo Poder
3. X-Men: Primeira Classe
4. Planeta dos Macacos: A Origem
5. Potiche - Esposa Troféu


MELHOR ELENCO

1. Super 8
2. A Pele Que Habito
3. Missão Madrinha de Casamento
4. O Vencedor
5. X-Men: Primeira Classe


MELHOR FILME NACIONAL

1. Trabalhar Cansa
2. As Canções
3. Bróder

(completaria cinco com A Última Estrada da Praia e Estamos Juntos, mas não constaram de uma seleção de pré-finalistas dada pela SBBC. Preferi não completar com filmes medianos)


MELHOR DOCUMENTÁRIO

1. As Praias de Agnès
2. Isto Não É um Filme
3. As Canções
4. A Caverna dos Sonhos Esquecidos
5. Avenida Brasília Formosa


MELHOR FOTOGRAFIA

1. A Árvore da Vida
2. Cópia Fiel
3. Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
4. Bravura Indômita
5. Super 8


MELHOR MONTAGEM

1. Além da Vida
2. O Vencedor
3. Super 8
4. Incontrolável
5. Vênus Negra


MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

1. Vênus Negra
2. Singularidades de uma Rapariga Loura
3. Faça-me Feliz
4. Potiche - Esposa Troféu
5. Meia-Noite em Paris


MELHOR FIGURINO

1. Potiche - Esposa Troféu
2. Bravura Indômita
3. Vênus Negra
4. Um Sonho de Amor
5. Super 8


MELHORES EFEITOS VISUAIS

1. Planeta dos Macacos: A Origem
2. Super 8
3. X-Men: Primeira Classe
4. Além da Vida
5. A Árvore da Vida


MELHOR SOM

1. Missão: Impossível - Protocolo Fantasma
2. Super 8
3. Incontrolável
4. Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
5. X-Men: Primeira Classe


Infelizmente, deixei para a última hora e minhas escolhas foram às pressas. Algumas delas nem sei o que estão fazendo aí, mas são poucas. É quase o que representa o que penso do ano. Mas em breve farei post sobre os melhores do ano (tanto com lançamentos no Brasil e inéditos).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Guerreiro

Guerreiro chegará ao Brasil diretamente em DVD e Blu-ray em Janeiro, sem uma chance de ser visto nos cinemas. Uma pena, porque se trata de um surpreendente “filme de luta” (no caso, o já famoso entre nós UFC), em que um drama familiar batido é narrado de forma econômica e segura, dando uma sustentação bastante eficaz para as cenas de lutas mais bem filmadas em muito tempo.

O Vencedor, de David O. Russell, consegue criar personagens bem mais interessantes, mas vez ou outra as cenas de boxe me incomodaram por eu não conseguir enxergar o que acontecia. “Guerreiro” é melhor neste sentido, usando a agressividade das lutas para criar tensão a partir de uma câmera que não é trêmula, que enquadra os lutadores, que nos deixa sentir a emoção que esse tipo de esporte estimula nos seus apreciadores.

E mesmo se você não é fã, poderá apreciar não apenas por ser um belo trabalho de câmera, montagem e sonorização, mas por nos importarmos com os personagens, dois irmãos que tomaram rumos diferentes em conseqüência de um pai alcoólatra e abusivo e que, por motivos diversos, participam de um torneio milionário de MMA (Mixed Martial Arts ou “vale-tudo”). Não há muitas firulas (exceto talvez o treinamento dos protagonistas com uso de split screen), e os ressentimentos e problemas de ambos são perfeitamente compreensíveis, não havendo mocinho e bandido nesta família, o que ainda gera o suspense sobre quem vencerá o torneio, quando se dará o confronto entre eles (se é que haverá), como um deles, que é considerado “zebra”, chegará tão longe.

Gavin O’Connor, diretor e roteirista que ainda não tinha nada de expressivo na sua carreira, resolve tudo isso muito bem, inclusive com uma curiosa opção de não usar os narradores televisivos na última luta do filme. Por outro lado, abusa do velho clichê de usar vários coadjuvantes torcendo, vibrando e pulando, que assistem ao evento pela televisão.

Todos os atores estão bem em cena, com Tom Hardy (o Bane do novo Batman de Nolan) impressionando com um tipo silencioso que quando sobe na arena é realmente assustador. Nick Nolte é o único que vem recebendo alguma atenção dos prêmios de final de ano, sendo inclusive indicado como Coadjuvante pelo Sindicato dos Atores, o que lhe dá boas chances de chegar ao Oscar. Não é nada especial, no papel do pai dos protagonistas que está arrependido de seu passado e que é chamado por Hardy para ser seu treinador, mas Nolte tem uma daquelas famosas explosões em cena em que o sangue em sua cabeça parece que vai entrar em ebulição. Ele é sempre bom nisso, mas é uma cena rápida e sua participação muito se resume a um olhar bondoso e carente de perdão, torcendo pelos filhos.

Meu País, Trabalhar Cansa, Melancolia, Contra o Tempo, A Alegria

Quando fui para a Mostra de São Paulo vi estes 5 filmes antes do evento começar e, sem nada pra fazer, rabisquei umas primeiras impressões:


Comecei com dois filmes nacionais bastante comentados: Meu País foi o grande vencedor do último Festival de Brasília, com 5 prêmios (Montagem, Trilha Sonora, Ator, Diretor e Filme) e conta com os galãs (e bons atores) Rodrigo Santoro e Cauã Reymond como protagonistas. Trabalhar Cansa foi lançado no último Festival de Cannes com muitas críticas positivas. Têm em comum o fato de abordarem famílias enfrentando problemas pessoais, mas não poderiam ser mais opostos: o primeiro trabalha na chave do melodrama, com a já tradicional história de irmãos bem diferentes reconciliados por uma tragédia; o segundo faz comentário e crítica social de maneira inusitada, flertando com o fantástico e o sobrenatural.


Mas o que me fez amar "Trabalhar Cansa" e achar "Meu País" um filme bem decepcionante não é o fato de um ser mais original que o outro. A priori, um melodrama cheio de clichês pode ser muito bom e uma trama incomum pode acabar sendo vítima de sua própria originalidade. O que importa é como a narrativa se desenvolve, como a história é contada através do que é próprio do cinema (o uso da câmera, a montagem, a fotografia, etc). O filme de Ristum me parece muito fraco nesse sentido. Santoro é um bem sucedido homem de negócios na Itália que volta ao Brasil ao saber da morte do pai e reencontra seu irmão mais novo (Reymond), irresponsável e viciado em jogos de azar, além de descobrir que tem uma irmã com problemas mentais (Débora Falabella), fruto de um relacionamento obscuro de seu pai. Infelizmente, os personagens só existem em cena para sabermos quem eles são dentro de um estereótipo, não há espaço para um desenvolvimento maior ou interessante; espaço, aliás, é outro problema, já que a encenação em sua maior parte é de planos fechados, closes e dificilmente podemos ver o que está em volta ou sentir os personagens e o peso daquela casa e dos objetos sobre eles (e o filme é basicamente sobre a tentativa de reconciliação com o passado e a possibilidade de seguir em frente). É tudo muito bem intencionado, será (está sendo) um sucesso, mas não me conquistou.


"Trabalhar Cansa", ao contrário, me empolgou do início ao fim. A trama é simples: mulher aluga um galpão para montar um pequeno mercado enquanto seu marido é demitido e tem dificuldades de arranjar um novo emprego. Novos personagens surgem aos poucos: uma empregada em casa, os funcionários do mercado, e o mistério que há (coisas estranhas acontecem/aparecem no mercado) surge aos poucos e discretamente, e quando se revela impressiona pelo quanto é contido (e pode frustrar muitos nas poucas respostas). E tudo que "Meu País" falha, este resolve lindamente: a câmera é generosa, temos espaço e tempo para observar os personagens; estes são ricos e cheios de nuances, mesmo os mais periféricos. O comentário social funciona porque, embora sob a sombra do fantástico, as relações que vemos no filme são muito próximas da realidade, a tensão entre empregador e empregado e as dificuldades do mercado de trabalho são muito bem trabalhadas, transitando com eficiência entre o humor, a ironia e o carinho pelos personagens. Grande filme.


Já "Melancolia", de Lars Von Trier, não é fácil de se comentar. Principalmente porque é muito fácil desprezar o filme pela forma como ele ilustra seu drama, da mesma maneira que na visão de outros seria muito fácil elogiar pelos mesmos motivos. Explico: o prólogo do filme, por exemplo, basicamente resume e informa o que acontecerá no fim, através de simbolismos e imagens em câmera lenta, compostas como pinturas, ao som de música clássica, mais ou menos a forma que Trier já se utilizou no seu filme anterior, "Anticristo". Para muitos, é pura beleza. "Poesia em imagens". Para outros, fácil dispensar algumas dessas imagens como "bregas" ou a crença de que "beleza em excesso" atrapalha um filme que se pretende narrar uma história de tristeza, depressão e, no fim das contas, o apocalipse. O mesmo vale para o que se segue depois, a parte 1 do filme (que é dividido em 2 partes), que traz a festa de recepção do casamento entre Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgard, de True Blood) com câmera na mão e tremida, um retorno de Von Trier à época do Dogma 95. Algumas pessoas podem gostar desta opção estética do cineasta, alegando que a instabilidade da câmera ilustra bem o nervosismo da situação, uma festa que vai se afundando cada vez mais por conta das relações familiares e do estado emocional da protagonista (o que lembra o filme mais famoso do movimento criado por Von Trier, "Festa de Família"). No meu caso, acho profundamente irritante uma câmera que não para, que não se interessa pelos personagens (e nem pelos atores), que não cria tensão e nem constrói o drama que não seja pela histeria da montagem. Von Trier também cria personagens devidamente asquerosos ou patéticos, o que me distancia de um envolvimento mais emocional. E o filme é justamente essa tentativa de nos narrar o fim do mundo através de duas mulheres tão diferentes (a depressiva Justine e a controlada Claire, protagonista da parte 2, e vivida por Charlotte Gainsbourg de "Anticristo") e como elas reagem diante daqueles que as cercam e são importantes em suas vidas, e diante da melancolia (nome também do planeta que se aproxima da Terra, metáfora mais grosseira impossível) que as consome. Não consegui me importar com o que acontecia justamente pela estética adotada por Von Trier. E isso mata qualquer filme.


Sobre "Contra o Tempo" não tenho muito o que falar. Principalmente porque vi sem saber do que se tratava (evito ler sinopses, e fui por indicação de alguns amigos, sugiro que façam o mesmo) e o filme é estruturado de forma que a trama se revele aos poucos, tanto para nós quanto para o protagonista vivido por Jake Gyllenhall, que acorda em um trem com uma mulher conversando como se fossem grandes amigos e ele não tem ideia de como e porque foi parar ali. Basta dizer que é uma aventura de ficção divertida e agitada, apesar de uma premissa que não faz o menor sentido e que, aposto, comoverá várias pessoas ao final. Não gostei muito, mas recomendo.


"A Alegria" é um filme nacional curioso. Ou pelo menos fico com a curiosidade em saber como está sendo a recepção dele por um público menos cinéfilo ou que não conhece as referências que os cineastas tiveram. Porque é um filme que tenta emular, homenagear e é altamente influenciado por um certo cinema contemporâneo que faz bastante sucesso em festivais e circuito "de arte", mas pouquíssimo conhecido pelo grande público. Me refiro mais exatamente ao cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul, cineasta que tem uma obra incomum e desconcertante, parecida com nada mais que se vê hoje e que acabou ganhando mais visibilidade após seu último filme, "Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", vencer a Palma de Ouro em Cannes no ano passado. "A Alegria" bebe nessa fonte, até descaradamente, buscando uma atmosfera onírica, misteriosa e por vezes assustadora que envolve seus personagens (adolescentes insatisfeitos com as coisas como elas são em fábula bizarra de super-heróis) através dos mesmos elementos usados pelo tailandês: o uso do som (muitas vezes ambiente, especialmente no meio da "natureza"), da câmera (ou planos estáticos ou travellings) e de relações inusitadas entre corpo e ambiente que causam estranhamento e fascínio. Mas no final das contas me desagrada porque toda essa fabulação parece destoar do discurso panfletário, das frases de efeito e da afetação generalizada. Especialmente para quem conhece as referências importantes para este filme, é possível perceber com maior evidência sua fraqueza, se preocupando em estruturar algo (politicamente ou em gênero, como é o caso do "filme de super-herói") como o cinema de Apichatpong, que foge de qualquer tipo de estruturação. De qualquer forma, vale a experiência para quem busca um cinema nacional diferente e ousado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Os Melhores da 35ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Top 10 - Novos Filmes
1. Habemus Papam, de Nanni Moretti * * * * 1/2
2. The Day He Arrives, de Hang Sang-Soo * * * * 1/2
3. Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, Júlia Murat * * * *
4. Era Uma Vez na Anatolia, de Nuri Bilge Ceylan * * * *
5. Tudo Pelo Poder, de George Clooney * * * *
6. Isto Não É um Filme, de Jafar Panahi * * * *
7. Les Géants, de Bouli Lanners * * * 1/2
8. As Canções, de Eduardo Coutinho * * * 1/2
9. O Homem Que Não Dormia, de Edgard Navarro * * * 1/2
10. Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio * * * 1/2


Restrospectiva Elia Kazan
1. Rio Violento (1960) * * * * *
2. Laços Humanos (1945) * * * * *
3. Clamor do Sexo (1961) * * * * 1/2
4. Uma Rua Chamada Pecado (1951) * * * * 1/2
5. Vidas Amargas (1955) * * * *
6. Um Rosto na Multidão (1957) * * * *
7. Terra de Um Sonho Distante (1963) * * * 1/2
8. Sindicato de Ladrões (1954) * * * 1/2

Não visto: O Justiceiro (1947)


Clássicos Restaurados
1. O Leopardo, de LuchinoVisconti (1963) * * * * *
2. Cabra Marcado Para Morrer (1985) * * * * *
3. La Dolce Vita, de Federico Fellini (1960) * * * * 1/2
4. Taxi Driver (1976) * * * * 1/2
5. Despair, de R. W. Fassbinder (1978) * * * *