quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Chronicart - Melhores

A revista francesa Chronicart, em comemoração de seus dez anos, lançou um top 10 dos melhores filmes realizados entre 1997 e 2007. Ficou assim:


1. Cidade dos Sonhos, de David Lynch

2. De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

3. O Tempo e a Maré, de Tsui Hark

4. Tropas Estelares, de Paul Verhoeven

5. 2046, de Wong Kar Wai

6. Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul

7. Gerry, de Gus Van Sant

8. Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick

9. Inteligência Artificial, de Steven Spielberg

10. A Vila, de M. Night Shyamalan


Como se sabe, a crítica francesa tem uma percepção muito mais ampla de cinema, desde que críticos como Andre Bazin, Truffaut, Godard e filósofos como Gilles Deleuze, mostraram que a linguagem cinematográfica é arte complexa e mais cheia de possibilidades do que se pensava (ou do que muitos pensam até hoje). Só assim nomes como Alfred Hitchcock, Orson Welles, Howard Hawks, Samuel Fuller e John Cassavetes se tornaram os gênios que são reconhecidos hoje em dia.


A lista aí de cima me parece trazer este reconhecimento para os gênios de hoje, alguns bem incompreendidos e ignorados pela crítica "de massa". À exceção do filme de Lynch, meu top 10 certamente seria diferente, mas é bom ver o filme de Verhoeven lembrado como a obra-prima insana que é; e Shyamalan e Van Sant, que merecem estar em qualquer lista sensata desta década - no caso do indiano, não consigo escolher entre "A Vila", "Sinais" e "Corpo Fechado"; e como não vi "Gerry", "Elefante" seria minha escolha.


De Spielberg, acho "Munique" muito melhor, maior e intenso que "A.I."; adoro o filme de Malick e o de Kubrick só vi uma vez no cinema, acho que necessita de uma revisão.


E o cada vez mais cultuado e importante cinema oriental foi representado pelo tailandês de nome impronunciável (que prefere ser chamado de Joe no Ocidente), cuja obra infelizmente só chega no Brasil por meio de mostras e festivais ("Mal dos Trópicos" foi o único dele que vi e só posso dizer que não existe nada nesse mundo parecido), pelo chinês Hark que faz maravilhas com o cinema de ação em "O Tempo e a Maré" (filme que só vi recentemente, por conta desta lista) e pelo cultuado e odiado em iguais proporções Wong Kar Wai, cujo "2046" eu não vi.


O que eu acrescentaria? Não sei exatamente, mas além de "Cidade dos Sonhos", Elefante" e um Shyamalan, teria que ter "Kill Bill" completo, um Almodovar ("Tudo Sobre Minha Mãe" ou "Fale com Ela"), um dos Dardenne ("Rosetta" ou "O Filho"), um PTA (provavelmente "Boogie Nights") e um Kiarostami ("Gosto de Cereja", "O Vento nos Levará" ou "Dez"?! Céus!).


A revista também lançou seu top 10 deste ano, também uma seleção bem curiosa (e satisfatória pro meu gosto):


1. Two Lovers, de James Gray

2. Onde os Fracos Não Têm Vez, dos Irmãos Coen

3. Wall-E, de Andrew Stanton

4. Redacted, de Brian DePalma

5. A Troca, de Clint Eastwood

6. Trovão Tropical, de Ben Stiller

7. Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan

8. Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson

9. Na Guerra, de Bertrand Bonello

10. Speed Racer, dos irmãos Wachowski



O novo filme do James Gray só estreou em alguns países da Europa, não sendo (ainda) reconhecido pelos americanos como um dos grandes autores que existe por lá. Só mesmo os franceses... A inclusão dos filmes dos Coen, DePalma, Shyamalan e Eastwood parecem óbvias por serem autores fortes, que continuam expandindo seus universos de formas surpreendentes (exceto pelo "A Troca" que ainda não vi). Wes Anderson é outro autor, mas este ainda não consegui encarar, faltou química entre a gente. O filme do Bonello foi um dos mais elogiados no último Festival do Rio, o de Stiller é impossível ficar imune ao brilhantismo da sátira e da brincadeira, enquanto ao menos por lá a incrível linguagem "cine-game" dos Wachowski foi merecidamente reconhecida. E parece que nem os franceses resistiram ao encanto de Wall-E.

Gran Torino


Com as principais premiações do cinema americano chegando, todos os grandes concorrentes ganham cópias em dvd, os screeners, que jornalistas, críticos de cinema e membros da Academia recebem das distribuidoras, para que fique claro que todos tenham visto todas as obras. Como em sua maioria são filmes que dificilmente chegarão aos cinemas de minha cidade, é bom conhecer gente que ganha esses screeners.


Dito isso, "Gran Torino" é mais um belo filme de Clint Eastwood: a América complexa em sua teia de relações, o choque entre gerações, a violência no seio da sociedade. Enfim, tudo que interessa ao cineasta, não tão profundo quanto "Sobre Meninos e Lobos", mas com o coração de "Menina de Ouro". No fim, as inevitáveis lágrimas.


Certamente não será tão adorado. Já vejo gente falando que "não é nada demais", pois a estrutura, como sempre, é clássica, simples, pura. Mas com Clint Eastwood, o buraco é sempre mais embaixo. Para além da superfície, um dos grandes filmes do ano desde já. Não espero indicações ao Oscar de Melhor Filme e Diretor, mas que pecado excluí-lo de Melhor Ator!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Melhores de 2008

Cansado das listas de melhores dos críticos americanos, com os mesmos filmes de sempre, só mudando de posição entre eles?

Pois a revista Sight and Sound publicou uma compilação com mais de 50 críticos do mundo todo comentando rapidamente sobre os seus top 5 de 2008.

Ideal para um primeiro contato com filmes que passam longe da limitada percepção que os americanos têm de cinema. Há idiossincrasias, claro, mas quem não as têm?


Recomendo a leitura.



domingo, 21 de dezembro de 2008

Rapidinhas


- Finalmente "Jogo de Cena" saiu em dvd! A obra-prima de Coutinho é imperdível, levanta um monte de discussões acerca de representação e arte, altamente psicanalítico (reparem nos temas recorrentes das muitas histórias de vida) e ainda faz emocionar muito. Um dos melhores do mestre. Enfim pude saber com certeza quem era a atriz e quem não era na história da mãe que perdeu o filho num assalto. Filme incrível.


- Não tenho paciência para filmes como "O Escafandro e a Borboleta", que gritam POESIA! a cada plano, fugindo do pieguismo, mas buscando as soluções óbvias e superficiais das metáforas e narração poéticas para o sofrimento do protagonista, apoiadas em bela fotografia. Tudo é tão bonito e estéril que não há espaço para discussões mais profundas. Um saco. A história de vida (REAL), no entanto, é bonita. Vale a pena procurar pelo livro.


- "Hellboy 2" é mais um interessante filme que sai da mesmice, desta ótima safra do verão americano (Speed Racer, Hancock, Fim dos Tempos, Wall-E), onde até boa parte da mesmice foi acima da média (O Cavaleiro das Trevas, O Homem de Ferro, O Incrível Hulk). Mas só é o que é graças ao sucesso de O Labirinto do Fauno, que certamente permitiu a Guillermo Del Toro expandir seu universo fantástico nesta continuação. E que fantasia! Visualmente um deleite, cenas de ação ok, e as entrelinhas dão prosseguimento às idéias do diretor, buscando na fábula uma forma de falar sobre preconceitos, incompatibilidades, normalidade. Tão rico em monstros e criaturas de outros mundos, que este acaba sendo também um defeito. Podia ser mais contido, com um roteiro melhor elaborado e com mais sentido. De qualquer forma, um prazer em ver.


- As indicações ao SAG Awards (Sindicato dos Atores) saíram e é mais do mesmo, com poucas variações. A notar a exclusão de Leonardo DiCaprio, Clint Eastwood e Kristin Scott Thomas, provavelmente eliminando de vez suas chances no Oscar (a maior parcela de votantes no Oscar são de atores, que votam no SAG). Surpresa também na não indicação para "O Cavaleiro das Trevas" para Melhor Elenco, aumentando as chances de "Milk" e "Doubt". "O Curioso Caso de Benjamin Button", "Slumdog Millionaire" e "Frost/Nixon" praticamente garantiram suas vagas na categoria principal do Oscar. Só não são indicados por milagre. Pior mesmo foi nas categorias televisivas: nenhuma menção a In Treatment. O que esse povo tem na cabeça?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Globo de Ouro e Comédias

Acabei não comentando sobre as indicações ao Globo de Ouro, mas deixa eu registrar que acho que este ano será o verdadeiro teste para a imprensa estrangeira provar que o GG influencia os membros da Academia e as premiações ao Oscar. Porque eles optaram em indicar para Melhor Filme - Drama duas obras até então esnobadas pela crítica (Revolutionary Road e The Reader), ao invés de filmes que pareciam certos, como Milk e O Cavaleiro das Trevas. Também colocou em evidência atores como DiCaprio e Kristin Scott Thomas, quando ninguém ainda havia lembrado deles, e deixou de indicar Clint Eastwood, Josh Brolin ou Melissa Leo, antes favoritos. Ou seja, se a Academia fizer o mesmo, quem critica o Globo de Ouro terá que engolir que esse estranho grupo influencia sim o Oscar. Se essas indicações-surpresa não mudarem em nada o rumo das coisas, então só se confirma o porquê de o Globo de Ouro estar cada vez mais indo mal das pernas, perdendo em audiência e em credibilidade.



Entre as indicações nas categorias de TV, não poderia ter ficado mais contente com o reconhecimento que "In Treatment" teve e que o Emmy absurdamente ignorou: cinco indicações e, considerando que as duas categorias de coadjuvante englobam séries dramáticas, cômicas e os filmes para tv em uma disputa só, o fato de Blair Underwood, Melissa George e Dianne Wiest estarem lá mostra que a série tem tudo para ganhar boa parte dos prêmios.



Não foi dessa vez que deram o reconhecimento a "Battlestar Galactica" (ano que vem é a última chance!), e "Lost" ficou totalmente de fora. "Dexter" depois que fica ruim é indicada e "House" só pode estar lá por conta da quarta temporada, porque atualmente encontra-se no seu pior momento. Surpresa mesmo foi a indicação de "True Blood", que eu gosto, mas não era pra tanto (o final da temporada, aliás, foi péssimo). Entre as séries cômicas, uma pena Zachari Levi não ser lembrado por "Chuck", mas se a série continuar elevando seu nível, isso será questão de tempo. No mais, não houve grandes surpresas, exceto Kevin Connolly, indicado pela primeira vez por "Entourage", o que faz da série um grande obstáculo para "30 Rock".



Voltando ao cinema, a categoria Comédia/Musical é mais fácil de se comentar, já que vi quatro dos cinco filmes indicados a Melhor Filme. Quer dizer, hoje eu tentei ver "Mamma Mia!", mas não consegui passar da metade. Imagino que o filme só foi indicado pela pressão que é ter uma categoria para filmes musicais e não ter concorrentes. Só isso explica a inclusão de um filme tão estúpido, sem graça e totalmente sem imaginação. Outra indicação surpreendente foi a de "Na Mira do Chefe". Não por ser ruim, mas porque o humor do filme é secundário. A trama é bem pesada e as piadas politicamente incorretas parecem ter saído de um filme de Guy Ritchie, mas não chegam a tornar o todo mais "agradável". Um policial amargo - e um tanto sem sal.



Não tendo visto ainda o filme de Mike Leigh, "Happy Go Lucky", sobraram então como justas indicações os filmes de Woody Allen e dos irmãos Coen. Revi "Vicky Cristina Barcelona" ontem e o filme ficou ainda melhor. Acho que gosto mais dele do que de "Match Point". As quatro indicações o tornam um favorito e se vencer, não só seria justo, como poderia ser melhor beneficiado no Oscar do que se o filme do Leigh vencesse (uma indicação a Roteiro Original, além da óbvia para Penelope Cruz - pedir indicação para Diretor seria pedir demais). Já "Queime Depois de Ler" tem momentos de humor geniais (as duas seqüências com J. K. Simmons são das mais hilárias do ano), personagens muito interessantes e o melhor elenco entre os indicados. Gosto do Tom Cruise em "Trovão Tropical", mas roubou a vaga de Brad Pitt na categoria. Também não seria mal se vencesse.



De qualquer forma, uma lástima que três grandes comédias tenham sido ignoradas: a própria "Trovão Tropical", "Forgetting Sarah Marshall" e "Pineaple Express". É possível que os votantes do Globo de Ouro tenham gostado mais de "Mamma Mia!"?! Céus... Ao menos, James Franco foi lembrado. Por mim, ele iria para o Oscar. Mas os academicos não têm muito senso de humor. Que pena.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Temporada de Prêmios

Começou a temporada de prêmios nos EUA, aquela em que destaca os melhores filmes americanos do ano e que serão os principais candidatos ao Oscar. Claro, há muita injustiça e todos sabemos que a Academia quase nunca sai de seu lugar comum, muitas vezes premiando mediocridades. Mas é divertido acompanhar e tentar adivinhar o que as cabeças votantes de Hollywood irão escolher como os melhores do ano.


Semana passada, teve início aos destaques do ano com a National Board of Review, (NBR) a associação de críticos mais antiga dos EUA, elegendo seus prediletos. Não é dos "termômetros" mais precisos do Oscar: nos últimos 20 anos, apenas em 7 vezes o melhor filme acabou sendo também o melhor da Academia. Alguns célebres vencedores sequer acabaram ganhando indicação, como os ótimos "Contos Proibidos do Marquês de Sade" e "Deuses e Monstros".


De qualquer forma, a NBR é uma das poucas a divulgar um top 10 que, nos últimos anos, quase sempre tem incluso os 5 indicados a Melhor Filme. Exceções ilustres são Sangue Negro, Menina de Ouro e a trilogia O Senhor dos Anéis, provavelmente não lembrados pelo fato de terem seu lançamento em Dezembro e a associação normalmente vota em Novembro, e nem todos os integrantes podem ter visto tais filmes.


O melhor filme foi "Slumdog Millionaire", o pequeno filme de Danny Boyle que anda arrancando aplausos (e lágrimas) por onde passa. Já é um dos favoritos ao Oscar. O top 10, sem o filme de Boyle, foi o seguinte (em ordem alfabética):


Burn After Reading (Queime Depois de Ler)
Changeling (A Troca)
The Curious Case of Benjamin Button (O Curioso Caso de Benjamin Button)
The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas)
Defiance
Frost/Nixon
Gran Torino
Milk
WALL-E
The Wrestler


Dentre os outros prêmios, destaque para David Fincher como melhor diretor, confirmando seu filme "O Curioso Caso de Benjamin Button" como o outro favorito ao lado do de Boyle (ambos dividiram o prêmio de Roteiro Adaptado); Clint Eastwood que, além de emplacar seus dois filmes no top 10, Changeling e Gran Torino, ganhou o prêmio de melhor ator por este último (que também levou Roteiro Original); Anne Hathaway, melhor atriz por "O Casamento de Rachel",onde ela está realmente encantadora; Josh Brolin, como ator coadjuvante por Milk, superando o provável oscarizável Heath Ledger; e Penelope Cruz, melhor atriz coadjuvante por Vicky Cristina Barcelona, o primeiro de uma série de prêmios que a atriz vai levar.


Após os prêmios da NBR, outra associação, desta vez de críticos da TV e Rádio lançaram seus indicados. O Critics' Choice Award, da Broadcast Film Critic Association, é tão pomposo quanto o nome sugere. É uma tentativa clara de substituir o Globo de Ouro como a prévia oficial do Oscar, já que o GG vem tendo cada vez menos prestígio. A associação lança indicados em várias categorias, anuncia os vencedores numa festa ao vivo e, nos últimos anos, tem "coincidido" seus indicados e vencedores com os da Academia, na maioria das vezes. Mas a impressão que muitos têm é de que a escolha dos melhores é feita justamente na tentativa de se aproximar do que os membros da Academia estarão elegendo e, assim, ganharem mais fama e atenção no futuro. E estão conseguindo, de fato.


A categoria de Melhor Filme do Critics´ Choice também é composta de um top 10, que difere da lista da NBR apenas um pouco: Saem Queime Depois de Ler, Defiance, e Gran Torino e entram Doubt e The Reader. Se há algo de realmente relevante nessas listas, caso se confirmem como termômetro de Oscar, é a ausência em ambas de Revolutionary Road, o novo filme de Sam Mendes, com Leo DiCaprio e Kate Winslet.


O filme também ficou de fora das premiações dos dois principais prêmios da crítica, que saíram ontem e hoje: o círculo de críticos de Los Angeles e o de Nova York.


O Los Angeles Film Critics Association considerou Wall-E o melhor filme do ano. É a primeira vez que uma animação ganha esse prêmio, e parece fazer parte de uma campanha que muitos críticos vem fazendo desde o lançamento do filme da Pixar que é o de influenciar os membros da Academia a não limitarem Wall-E à categoria de Melhor Animação, indicando-o também na categoria principal. A título de curiosidade, nos 33 anos de premiação, apenas em seis vezes o melhor filme eleito por eles NÃO foi indicado pelo Oscar: Anti-Herói Americano (2003), As Confissões de Schmidt (2002), Despedida em Las Vegas (1995), Faça a Coisa Certa (1989), Little Dorrit (1988) e Brazil (1985).


Mais interessante ainda é ver que a segunda opção deles foi "O Cavaleiro das Trevas", colocando na briga dois filmes altamente comerciais para disputar os prêmios "sérios" do ano.


Já o New York Film Critics Circle optou por Milk, de Gus Van Sant, como melhor filme. Van Sant é um dos cineastas americanos mais interessantes (pra mim, "Elefante" entra facilmente num top 10 desta década) e que até hoje só foi lembrado pelo simpático, mas de encomenda, "Gênio Indomável". Agora, ele traz a história de Harvey Milk, o primeiro político assumidamente gay a ser eleito nos EUA, e já desponta como sério concorrente ao Oscar.


Com todas essas premiações, "Slumdog Millionaire" e "Milk" parecem ser os mais certeiros até agora. "O Curioso Caso de Benjamin Button" acabou sendo pouco lembrado (em especial os astros Brad Pitt e Cate Blanchett), mas as indicações ao Globo de Ouro amanhã devem mudar isso. Aos três, "O Cavaleiro das Trevas" e "Wall-E" poderiam completar a lista dos 5 principais concorrentes, caso outros nomes anteriormente fortes e esquecidos pela crítica (Revolutionary Road e Doubt, principalmente) também não impressionem a imprensa estrangeira do GG. Gran Torino, de Clint Eastwood, corre por fora por conta de reações extremas por parte da crítica - há quem odeie, há quem ame. O filme do mestre terá vaga garantida somente se as pessoas certas gostarem dele.


Nas outras categorias:

Melhor Ator - Sean Penn (Milk), com duas vitórias importantes (LA e NY) sai na frente, mas Clint Eastwood anunciou aposentadoria com Gran Torino (apenas como ator, deusnoslivre das demais funções!) e nunca venceu nesta categoria. Me parece que seria uma despedida mais do que apropriada se tivesse o Oscar em mãos. Mickey Rourke (The Wrestler) deve ser o outro nome certo entre os indicados, mas duvido que este retorno seja tão bem visto pela Academia.

Melhor Atriz - Sally Hawkins (Happy Go Lucky) também venceu dois prêmios importantes (LA e NY), mas este é um prêmio que vem sendo entregue à estrelas ou atrizes de muito prestígio. Neste quesito, talvez apenas Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) e Kate Winslet (Revolutionary Road) preencham as expectativas. Mas sempre há Meryl Streep, a eterna indicada que terá boas chances, a depender do amor da Academia por "Doubt". Melissa Leo (Frozen River) e a maravilhosa Kristin Scott Thomas (I´ve Loved You So Long) precisarão de enorme lobby do Globo de Ouro e Sindicato dos Atores.

Melhor Ator Coadjuvante - Enquanto ninguém duvida que este prêmio seja de Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas), Josh Brolin (Milk) já ganhou dois (NBR e NY). Independente de quem seja indicado, justiça nessa categoria só será feita caso Robert Downey Jr. seja lembrado por "Trovão Tropical".

Melhor Atriz Coadjuvante - Penelope Cruz (Vicky Critina Barcelona) vem se tornando favorita absoluta a cada premiação (única a ganhar NBR, LA e NY), mas esta é uma categoria das mais imprevisíveis do Oscar, com surpresas ou formas de consolação para filmes que não ganham em outras categorias (Tilda Swinton este ano, por exemplo). De qualquer forma, não se pode duvidar do poder de Woody Allen em dar Oscar para suas atrizes.


Com as indicações do Globo de Ouro, as coisas vão se definir melhor. Desta vez, o prêmio poderá ter sua chance de recuperar prestígio, já que os vencedores serão anunciados na véspera do último dia em que os membros da Academia devem enviar seus votos.


Mas a grande questão para nós é: estes filmes serão mesmo os melhores do ano?



sábado, 6 de dezembro de 2008

Filmes vistos em Novembro

Depois da farra do mês de Outubro, com quase 70 filmes vistos (60 deles só na segunda quinzena, graças à Mostra de SP), o mês de Novembro foi fraquíssimo. Além de final de semestre na faculdade, as séries de TV ocuparam o restante do tempo: meros 12 filmes vistos, sendo que quatro deles foram revisões. Não estou contando "24: Redemption", filme que antecede a sétima temporada de "24 Horas", porque eu considero como série também. A lista, então, é esta:


A obra-prima

1. Não Estou Lá, de Todd Haynes (2007)


Os grandes

2. Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan (2008)
3. Trovão Tropical, de Ben Stiller (2008)
4. Ressaca de Amor, de Nicholas Stoller (2008)
5. Juno, de Jason Reitman (2007)
6. Breaking News, de Johnnie To (2004)


Os legais

7. Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin (2004)
8. Léolo, de Jean-Claude Lauzon (1992)
9. O Grande Lebowski, de Joel e Ethan Coen (1998)
10. Hancock, de Peter Berg (2008)
11. Agente 86, de Peter Segal (2008)


O medíocre

12. Sex and the City - O Filme, de Michael Patrick King (2008)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O que é um filme ruim?

Não, eu não pretendo responder essa pergunta. Na verdade, minha intenção era escrever como minhas revisões de "Não Estou Lá" e "Fim dos Tempos" só os confirmaram como dois dos filmes mais incríveis do ano. Mas fala-se muito mal do filme do Shyamalan. E também de "Hancock", o outro filme "ruim" que está no meu top 20 do ano e que eu só vi recentemente (na verdade, com "Queime Depois de Ler" estreando, o blockbuster terá que dar lugar ao filme dos Coen). Então me veio essa pergunta em mente, mais como uma provocação para quem acha absurdo dois filmes tão terríveis serem admirados por alguém.


Na verdade, "Hancock" nem chega a ser um grande filme, como certamente "Fim dos Tempos" é. Só que é um blockbuster muito divertido, que busca no seu conteúdo um tratamento mais original e interessante nos subtextos. Só o fato de trazer uma seqüência de combate entre dois superpoderosos não com os motivos que já estamos cansados de ver (como em Homem de Ferro e O Incrível Hulk, só pra citar dois deste ano), mas como forma de externalizar neuroses e conflitos de um casal, já mostra que o filme quer mesmo sair do lugar comum. A virada do roteiro causa estranhamento, sim, mas dá contornos existencialistas ao filme que o tornam esse ser estranho entre os blockbusters de verão, e isso certamente conta pontos comigo. Gosto também das conseqüências no "mundo real" causadas pela presença de Hancock. Tudo filmado, editado e sonorizado com muita competência. Enfim, hollywood seria muito melhor se lançasse mais superproduções que causam desconforto e pegam o espectador de surpresa. Cansei das fórmulas de sucesso.


Falando nisso, "Fim dos Tempos" é o desconforto por excelência. A diferença é que isso não é Hollywood. É Shyamalan. Aos que me acusam de gostar do filme por ser fã de Shyamalan, só posso me defender dizendo que sou fã absoluto de Woody Allen e Pedro Almodovar, o que não me impede de abandonar pela metade "Igual a Tudo na Vida" ou me entediar com "Má Educação". Felizmente, Shyamalan ainda não fez seu filme ruim.


O problema está no que as pessoas esperam de um filme. Não só de um filme de Shyamalan (porque muita gente criou uma concepção do que seria um filme deste cineasta), mas do cinema em geral. E aí a pergunta do título me vêm à mente de novo. Porque Shyamalan claramente está em seu terreno autoral, mas as provocações que faz neste filme e o tipo de cinema que lhe interessa parece não bater com as expectativas do espectador que tem toda uma percepção codificada e - por que não dizer? - domesticada.


Ter revisto "Fim dos Tempos" no mesmo dia que revi "Não Estou Lá" foi curioso, porque o filme de Todd Haynes é sobre alguém que nunca se estabeleceu em parâmetros pré definidos, que sempre viu no desvio a possibilidade de renascer. Bob Dylan é como a "pedra que rola", se reinventando, não querendo para si o que a sociedade tenta lhe estigmatizar. Sair da norma, dos padrões (ou sequer fazer parte delas), é essencial para ter liberdade e capacidade de gerenciar a própria vida, e acompanhar a trajetória de Bob Dylan é nunca acostumar o olhar, ter uma percepção flutuante, aceitar a novidade, estar aberto ao diferente e ao inesperado.


"Fim dos Tempos" é este inesperado. Diferente porque o desenvolvimento, a narrativa, as atuações, as relações entre os personagens, tudo parece estar fora do lugar. E está mesmo. Fora do padrão, do normal. Mas assim como Bob Dylan é uma metamorfose ambulante que não deixa de ser Bob Dylan na sua essência, Shyamalan também não deixa de ser Shyamalan, e seu filme pode ser apreendido pelo que de essencial existe em toda sua obra: há elementos que permitem uma compreensão de seu filme, não só em seus filmes anteriores, mas também nos autores que deixaram sua marca no cinema e que lhe servem de influência (Hitchcock? Bresson? Sjöström? já li gente falando sobre estes e mais).


Enfim, o filme só pode ser apreciado quando visto com outros olhos. Não os olhos da normalidade, dos preconceitos de como deve ser um filme. Até porque estes preconceitos estão muito ligados a toda uma domesticação e padronização da linguagem cinematográfica. "Fim dos Tempos" nem exige um olhar novo. Ele pede por um olhar antigo, por um retorno ao que Bazin, Truffaut, Godard e companhia nos ensinou sobre um filme estar muito além do que seu conteúdo latente, a superficialidade. Essa superficialidade que é facilmente padronizada e engana o olhar.


Exemplo claro do filme é como as pessoas consideram ridículo ver personagens correndo do vento. É que ninguém quer ver o novo blockbuster da temporada tendo o vento como vilão. Bom mesmo é ver pessoas correndo do Hulk, hobbits correndo de criaturas monstruosas ou Harry Potter conversando com bichinhos engraçados. Só que as pessoas nesses filmes correm do nada, e o Hulk, as criaturas monstruosas e os bichinhos engraçados são acrescentados depois, digitalmente. Shyamalan expõe o artifício, joga na nossa cara o truque. Talvez teve a idéia depois de usar CGI em "A Dama na Água". O fato é que com isso ele propõe uma renovação na crença do poder das imagens. Ele busca um cinema sensorial, algo que praticamente inexiste no cinema americano.


Daí as interpretações fugirem do naturalismo. Acho interessante como muita gente coloca as atuações em "Fim dos Tempos" nas suas listas de queixas do filme. Será que nunca viram estes atores atuando antes? Se sim, sabem que não são apáticos como no filme. Então, por que estariam tão "ruins"? Porque a forma de atuar num filme não depende apenas do ator, mas é o autor quem dará as coordenadas, que vai definir o que ele quer pro seu projeto. Ou seja, há um propósito para aquilo. Qual seria? Apenas uma grande piada de Shyamalan? Obviamente que não. A trama do filme "naturalmente" é carregada de drama, não só o acontecimento do título, mas a própria desintegração de duas famílias ocorrendo na tela (na verdade, a destruição de uma fortalecerá a outra). Ao investir no minimalismo das atuações, novamente Shyamalan causa estranhamento buscando adesão do público não pela dramaticidade convencional, mas pelo sensorial.


O filme ainda traz uma quantidade enorme de seqüências memoráveis, costuradas por uma narrativa que, no todo, está atrelada ao conteúdo das "entrelinhas". A encenação de Shyamalan é toda voltada para reforçar as temáticas que lhe interessam. Seus filmes têm em comum a colisão de dois mundos distintos e como isso irá ajudar na aproximação e fortalecimento das relações familiares: em O Sexto Sentido, o mundo dos vivos e o dos mortos, a aproximação entre mãe e filho; em Corpo Fechado, o bem e mal, a aproximação entre pai e filho, marido e esposa; em Sinais, seres humanos e extraterrestres, a união de uma família e o resgate da fé; em A Vila, a vila e o mundo externo, o fortalecimento de uma mini sociedade; em A Dama na Água, uma pequena comunidade e os Scrunts (ou seria Story e os Scrunts?), e a união que faz a força.


Em "Fim dos Tempos", há uma diferença importante: os seres humanos e a natureza não seriam dois mundos distintos, mas uma coisa só. Daí que a mensagem ecológica não fica no mero discurso panfletário; daí que os personagens de Whalberg e Leguizamo constantemente nos lembram que o apego ao pensamento científico e matemático nos torna superiores mas separados de nossa natureza; daí que a seqüência com a velha não é deslocada e surge como comentário de que se isolar da sociedade não é uma solução; daí que nem o vento, nem as plantas assassinam ninguém, os próprios humanos tiram suas vidas; daí os closes de mãos entrelaçadas; daí cenas de diálogos com plano e contraplano que deixam personagens sozinhos no enquadramento quase que diretamente olhando para a câmera, dando sentido de isolamento e distância na comunicação; daí que o "acontecimento" acaba quando este problema de comunicação se resolve.


Shyamalan não quer simplesmente apontar o dedo para questões ambientais. Sua crença é na integridade das relações, homem-homem-natureza. Por isso uma das cenas mais lindas do filme é quando Whalberg está sentado parcialmente coberto por vegetação e a criança que cochicha quando tem medo, lhe abraça ao descobrir sobre seus pais. E a distância que a câmera mantêm desse momento é essencial. O cinema de Shyamalan é ético, a duração das imagens e o ponto onde a câmera se fixa são sempre pensados na sua relação com o conteúdo, com o que lhe interessa ao filmar humanos e objetos.


Isso faz dele um dos grandes nomes do cinema. E o mais corajoso a mexer com dinheiro de hollywood.


sábado, 29 de novembro de 2008

Melhores de 2008 (parcial)

Lista aí do lado atualizada. Valendo apenas os filmes lançados comercialmente no Brasil (cinema ou dvd), ficando de fora, por exemplo, algumas grandes obras que vi na Mostra de São Paulo.

Tem coisas aí que cresceram muito com o tempo, outras foram perdendo a empolgação que tive na época em que vi. Nada definitivo, ilustra apenas a memória afetiva do momento.

sábado, 22 de novembro de 2008

Damages




Semana passada vi a 1ª temporada completa de Damages, uma das séries mais cultuadas de 2007 e que retorna para sua 2ª temporada em Janeiro. Gostei muito do que vi. A série traz um roteiro bem simples, mas executado de forma que haja reviravoltas a cada episódio, mantendo o espectador tenso e curioso o tempo todo.


Patty Hewes é uma brilhante e famosa advogada que está processando um poderoso milionário, cuja empresa faliu e deixou mais de 5 mil pessoas desempregadas. Há indícios de fraude e que o empresário teria vendido suas ações uma semana antes de ter decretado falência. Ellen Parsons é a jovem advogada que consegue o emprego dos sonhos, ao ser contratada por Patty. A série gira em torno deste caso, cujos desdobramentos afetarão a vida de todos os envolvidos para sempre.


A grande vantagem de Damages é que toda a temporada foi previamente pensada e filmada, sem passar pelo filtro da audiência, funcionando mais como uma mini-série, com começo, meio e fim já estabelecidos.


A engenhosidade da trama é ser narrada em flashback: o piloto da série tem início com Ellen fugindo de um prédio, coberta de sangue. Logo saberemos que há, no mínimo, uma pessoa morta e ela pode ou não ter cometido o crime. Os eventos que levaram a este incidente ocorreram seis meses antes e é quando se passa a maior parte da série.


De maneira 100% eficaz, as informações são dadas de forma com que o que sabemos do antes e depois do ocorrido se complementem, gerando surpresas, uma atrás da outra. Os roteiristas sabem exatamente o que revelar, no momento certo e qual efeito querem causar. Mais importante: nada soa inverossímil e, vista em retrospecto, não parece haver furos na trama (eu não achei).


Só por isso, Damages já seria um programa divertido e de qualidade, ao não subestimar nossa inteligência. Mas o interesse do telespectador é mantido também com o desenvolvimento de bons personagens e suas histórias pessoais se confundem com a trama central, seja como pretexto para mais mistérios, seja como conseqüência direta da ambição e jogos de poder envolvidos - além, claro, de ter combustível suficiente para sustentar uma temporada de 13 episódios.


Os conflitos, aliás, têm o pé firme na realidade: em Damages, a morte de um ser humano é pensada, pesada, dolorosa. O assassinato é um crime hediondo, e que vai se instalando e se tornando algo "natural" apenas com o desenvolvimento da trama, quando a lama vai se acumulando e afundando os envolvidos. Neste sentido, é só vermos o personagem de Ted Danson, o inescrupuloso empresário Arthur Frobisher, que se horroriza e recusa mandar matar uma importante testemunha do caso, ainda no início da série, e acompanharmos sua gradual transformação com o decorrer dos eventos.


Danson, a propósito, é um ator que não gosto, mas sua atuação é cheia de sutilezas, sem exageros para demonstrar todo o desespero que seu personagem passa para esconder os crimes que cometeu. O elenco de Damages, inclusive, é mais um dos motivos para se ver a série. Claro que Glenn Close (Emmy de melhor atriz) não poderia ser menos do que incrível, e a personagem de Patty Hewes é perfeita para esta brilhante atriz que já fez tantos papéis de má, mas que nunca se repetiu. As intenções da protagonista nunca são claras, e mesmo que saibamos que Hewes está sempre um passo à frente dos demais personagens, acabamos sendo pegos de surpresa pelo roteiro. E Close dá a ambigüidade necessária a personagem, com a câmera sempre exaltando seus olhares e silêncios capazes de gelar e amendrontar todos em cena.


O outro grande destaque do elenco é o ator sloveno Zeljko Ivanek, que também ganhou um Emmy, de ator coadjuvante, pelo papel do advogado de Frobisher. Ivanek começa a série com uma atuação discreta, vivendo um personagem que nunca demonstra ser uma verdadeira ameaça, mas que aos poucos vai ganhando em complexidade, e também espaço em tela. Seu Ray Fiske é um contraponto perfeito para o desespero e irresponsabilidades de Frobisher, e algumas nuances do personagem podem ser sentidas antes mesmo do tempo certo, graças à coerência do trabalho de Ivanek. Não acho que tenha merecido o Emmy (meu preferido, Blair Underwood por In Treatment sequer foi indicado, sem falar que todos que assistem a Lost certamente torciam para Michael Emmerson), mas é um ator que vem ganhando cada vez mais destaque na televisão. Completando o elenco principal, a jovem Rose Byrne no papel da outra protagonista, Ellen Parsons, e Tate Donovan, como o braço direito de Patty. Ambos não chegam a brilhar, mas também não comprometem.



Entretenimento de alta qualidade, Damages funciona muito bem dentro de sua lógica "Não confie em ninguém", abordando um universo de pessoas ambiciosas, inteligentes e engolidas pelos interesses e estratégias das grandes organizações políticas, jurídicas e administrativas, num salve-se quem puder tenso e interessante. A temporada fecha com uma conclusão nada menos que empolgante, alimentando a curiosidade pela série, mesmo que a trama do 1º ano tenha sido concluída. Um cliffhanger inteligente e excitante.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Séries de TV

Atualmente vejo oito séries que estão com temporadas inéditas sendo exibidas na tv americana. O número já foi maior, mas desisti de umas (Prison Break), abandonei temporariamente outras (Ugly Betty), e ainda há as que já encerraram o ano (Weeds, In Treatment), as que estou muito atrasado ou me iniciando (Boston Legal, How I Met Your Mother) e as que só estrearão no início de 2009 (Damages, Lost, 24 Horas, Battlestar Galactica). Do que estou vendo hoje, a qualidade varia entre o muito ruim e o muito bom.


A ordem é por dia de exibição nos EUA:





A série anda na corda bamba o tempo todo. A desenvoltura para se falar de sexo e drogas beira o exibicionismo gratuito e é muito melhor e mais engraçada quando foca nas relações entre os personagens: o quarto episódio desta 2ª temporada ("The Raw & The Cooked") se passando durante um jantar com todos os personagens é um excelente exemplo de que a série não precisa abusar da censura 18 anos para ser hilária. Ganha pontos também quando mostra sensibilidade no relacionamento entre Hank e sua filha Becca.






Apenas visto dois episódios desta 3ª temporada, já pensei até mesmo em abandoná-la. A série está se tornando enfadonha, a narração em OFF do protagonista na maioria das vezes é só para ilustrar o que já estamos vendo e percebendo, e o roteiro, além de óbvio, está domesticando Dexter que, se na 1ª temporada tentava se adaptar à sociedade ainda ficando à margem dela, agora está cada vez mais "normatizado", distante da sociopatia e premissa inicial da série. E amigos têm me dito que a coisa só piora...






Nova sensação da HBO, escrevi sobre esta curiosa série de vampiros para o blog Comentários em Série (post aqui), episódio por episódio dos dez primeiros da 1ª temporada. Alan Ball (vencedor do Oscar pelo roteiro de "Beleza Americana; criador da genial "A Sete Palmos") parece ter acertado mais uma vez. Seus párias da sociedade continuam interessantes. E desta vez têm presas.






De longe, a série mais medíocre que já vi. No entanto, eu continuo assistindo. Por quê? Não faço idéia, mas talvez haja algum divertimento (masoquista, que seja) em ver os incríveis absurdos de lógica e (in)congruência dos roteiristas mais incompetentes da TV. Os diálogos são sofríveis (a narração de Mohinder é um caso a parte) e do elenco quase ninguém se salva. A presença de Robert Forster ("Jackie Brown") melhora muito este quesito (ele faz frases ruins soarem boas) e eu teria um prazer enorme se a série fosse toda concentrada em Arthur e Angela Petrelli. Mas acho que vamos continuar acompanhando o excesso de personagens e as estúpidas e constantes mudanças nos protagonistas (Peter, Claire, Hiro e Sylar) até acertarem a mão. Ou até a série acabar de vez.





A série nerd por excelência conseguiu o equilíbrio certo nesta 2ª temporada, ao dosar os comportamentos obsessivos compulsivos de Sheldon (um tanto irritantes em boa parte da 1ª temporada) com as "nerdices" típicas de todo o grupo. Dar mais espaço para os coadjuvantes também resultou em muitos momentos engraçados, como as rixas entre Sheldon e Leslie, ou o episódio em que Koothrappali foi o destaque, ao sair na revista People. Adorei também quando os roteiristas colocaram em questão a sexualidade de Sheldon (algo que com certeza os fãs já haviam especulado) e a idéia de que ele se reproduziria por mitose foi genial. Só sinto falta da mãe dele, uma cristã fundamentalista que, com uma única participação, protagonizou um dos melhores episódios da série ("The Luminous Fish Effect", quarto episódio da 1ª temporada).






"House" sempre teve elementos que são um enorme desafio para os roteiristas manterem a atenção do telespectador (em especial porque a série é uma campeã de audiência): a necessidade de inovar a estrutura narrativa, como lidar com os coadjuvantes (principalmente a partir da 4ª temporada), como tornar House mais "humano" (e muita ênfase nessas aspas, por favor). E inevitavelmente esta 5ª temporada têm demonstrado sinais de cansaço por parte deste brilhante time de escritores. Continuam com diálogos hilários e inteligentes, e os casos ainda muito interessantes. Mas não sabem o que fazer com toda aquela enorme equipe médica, e House aos poucos vai se tornando mais frágil - só nesta temporada, o médico já se desesperou (a sua maneira, claro) para retornar sua amizade com Wilson, e já atacou Cuddy, num beijo muito aguardado pelos fãs. Isso tudo desvia do que a série tem de melhor: a lógica insuperável de House, sua ética e seu sarcasmo. Ainda assim, continua sendo uma das melhores.




A ex "melhor série cômica da atualidade" teve, pra mim, uma péssima 4ª temporada, com poucos momentos de brilhantismo em meio a um humor muito fora do tom a que estamos acostumados. Esta 5ª temporada tem retornado a algumas das melhores qualidades da série: os eventos no trabalho e toda a dinâmica interna, com os constrangimentos e idéias malucas de Michael; a presença da câmera servindo como elemento cômico; Jim sacaneando Dwight, etc. Felizmente, mesmo nos seus piores momentos, "The Office" nunca desvirtua as características básicas de cada personagem, dando espaço para todo o elenco brilhar, mesmo em pequenas participações. Isso mais este retorno à "velha forma" está fazendo a série voltar aos geniais tempos das duas primeiras temporadas.






O fenômeno que esta série se tornou certamente vai continuar por, no mínimo, mais este ano. Até agora foram apenas três episódios desta 3ª temporada, mas a metralhadora de piadas que vai do besteirol ao nonsense absoluto, passando por humor sutil e inteligente, continua a toda. O que torna a série ainda mais atraente é que tudo no cotidiano americano pode ser referenciado, os modismos, a indústria do entretenimento, a política, etc. Até o beijo que Adrian Brody deu em Halle Berry no Oscar é motivo de sarro com as lutas das minorias. Tina Fey merece todo o sucesso que está tendo, embora como atriz ela só seja uma escada para Alec Baldwin e cia. brilharem. Pontos altos do ano até agora: a meteórica escalada de Jack Donaghy ao poder, as farsas nas Olimpíadas (não existe tênis coletivo, nem corrida sincronizada!!) e as participações especiais de Oprah e Jennifer Aniston.

domingo, 16 de novembro de 2008

Juno




Semana passada, tive a oportunidade de rever “Juno”, filme que eu vi na época do lançamento e sempre tive a vontade de vê-lo novamente. Na revisão continua tão bom quanto antes. O melhor do filme é como ele consegue fugir de caminhos óbvios e dramaticamente mais irresistíveis. Dois deles parecem inevitáveis: um relacionamento amoroso entre Juno e Mark, o futuro pai adotivo de seu filho; e a desistência da adoção, com Juno decidindo amar e criar seu filho.


Felizmente nada disso acontece. O que parece interessar mais a roteirista Diablo Cody e o diretor Jason Reitman é acompanhar Juno em seu percurso de maturidade e as decisões que ela toma para si, distanciando-se de um olhar moralista ou mesmo piedoso. A gravidez de Juno nunca é vista como um erro e a sua jornada não é de redenção: estamos diante de uma adolescente que trata o bebê que carrega como “coisa”, que basta expulsá-lo de sua barriga e entregá-lo a um casal que viu no Classificados de um jornal. A visão de mundo de Juno parece ser bem irresponsável, mas pelo contrário, ela sabe bem o que quer, faz dos obstáculos não algo a se lamentar, mas algo a se driblar com soluções práticas pautadas numa vontade de viver e na crença de que se está fazendo o melhor possível.


Porque o filme é sobre isso: fazer o melhor possível, eticamente. Não moralmente. Se Juno decide não abortar, é menos por uma suposta bandeira levantada pelo filme contra o aborto e mais por uma decisão que lhe pertence e que deve ser feita longe do que a sociedade considera certo ou errado. Da mesma forma, sua família lida muito bem com a gravidez, novamente pela vontade de se fazer o que é possível para não transformar os acontecimentos em um fardo, em tristeza e em problema para todos.


O brilhantismo em “Juno”, então, é ver como os clichês são driblados, como o filme resiste à idéia de codificar e normatizar a protagonista através do pieguismo, da moral, do que o espectador possa pensar que é certo ou errado para ela. Mas isso sem esquecer que se trata de uma adolescente, daí sua ingenuidade diante das intenções de Mark. Este, por sua vez, tem uma relação com a esposa Vanessa muito bem construída pelo filme, que consegue através dos pequenos detalhes mostrar ao espectador a dinâmica do casal e a conseqüente separação. São coadjuvantes de características muito fortes e aqui quero ressaltar não só a bela atuação de Jennifer Garner, como a forma que o filme trata sua personagem.


Vanessa é uma mulher que só quer ser mãe e sua fragilidade e desespero beira o patético, algo para ser criticado e ridicularizado pela melhor amiga de Juno, mas não por Juno ou pelo filme. Há uma “esperteza” e cinismo no tal cinema independente americano que costuma tratar personagens como essa de Garner com certo descaso e deboche, ou então, bem ao contrário, com piedade e sentimentalismo exagerado. Em “Juno”, a protagonista a olha com curiosidade e até admiração pela importância que ela dá a algo que Juno ainda não consegue compreender. A seqüência em que Vanessa toca a barriga de Juno no shopping é linda justamente por este respeito que o filme tem por seus personagens. Não há superioridade de valores de um sobre o outro. E o maravilhoso final é só a conclusão deste olhar tão ético sobre pessoas que só querem tirar da convivência com o outro a alegria de viver.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Resumo da Mostra

Primeiro quero agradecer aos amigos blogueiros que deixaram comentários nos posts sobre a Mostra e que, na correria do evento, nem tive a decência de responder. Também fiquei sem visitar os blogs dos colegas, erro que estou reparando agora, já em casa e com mais calma.


Queria resumir minha experiência com a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo falando de dois aspectos: da qualidade dos filmes selecionados e da organização do evento.


Do primeiro aspecto, parece consenso que foi uma Mostra fraca de grandes filmes, com pouca coisa realmente recomendável e que faça a diferença. É só comparar com o ano passado, que teve bem mais obras-primas (ou, no mínimo, filmes muito mais comentados, adorados e causadores de discussões): Nao Estou Lá, Imperio dos Sonhos, Jogo de Cena, A Questão Humana, Na Cidade de Sylvia, A Viagem do Balão Vermelho, A Prova de Morte. Este ano, só posso colocar dois filmes no nível destes anteriores: Tulpan e Aquele Querido Mes de Agosto. O primeiro, aliás, lidera minha lista de melhores do ano apenas porque não tive a oportunidade de rever o filme português, que acredito crescer muito numa revisão.


É de se lamentar também a falta que fez algumas obras que sumiram da programação, quando pareciam presenças certas: o vencedor da Palma em Cannes, Entre os Muros, o novo da Lucrecia Martel (A Mulher Sem Cabeça, que foi exibido no Festival do Rio), Garapa de Jose Padilha (que nao ficou pronto a tempo), o novo do mestre Kiarostami (Shirin) ou mesmo o campeao de Veneza, The Wrestler (mesmo que eu nao seja fã de Aronofski).


No quesito "Organização", a Mostra deixou muito a desejar em vários aspectos, mas o principal deles sem duvida foram os constantes atrasos para inicio das sessoes, em especial no Arteplex, principal local de exibição dos filmes. Para quem programava filmes em diferentes salas baseando-se no horario do termino da sessao anterior, corria o risco de chegar atrasado ou mesmo perder o filme, já que as vezes havia atrasos de até 20 minutos. Pior demonstração de desrespeito que presenciei: a estreia do filme "Cançao de Baal" (no Espaço Unibanco) teve a presença da diretora Helena Ignez que falou na abertura da sessão por meia hora, atrasando o inicio de "Segurando as Pontas". Para quem viu o filme de Ignez e iria para outra sala depois, certamente perdeu a sessão. Aconteceu comigo na sessão de "A Festa da Menina Morta", quando juntou atraso mais fala do diretor Nachtergaele. Quinze minutos preciosos que me fizeram perder o polêmico documentário "Ninguém é Perfeito".



Mas voltando aos filmes, nos quinze dias em São Paulo, foram 56 filmes da Mostra vistos por inteiro, mais uma revisão (o cazaque "Tulpan"), uma desistência (o turco "Las Meninas"), uma boa sessão de sono (o bósnio "Neve") e dois filmes vistos do circuito comercial ("Cegueira" e "Linha de Passe"). Considerando os filmes da Mostra, minhas notas nas cédulas de votação (que iam de 1 a 5) foram oito notas 1, dez notas 2, quinze notas 3, quatorze notas 4 e nove notas 5, numa média final de 3,1.


Pensando agora, em retrospecto, algumas notas talvez não façam jus aos filmes, alguns bem melhores que outros mas com a mesma nota, ou até pior. Um filme como "Natal Bagunçado" (Nota 2) com certeza é inferior a "Che - Guerrilha" (Nota 1), mas usei critérios diferentes de avaliação, pessoais ou referentes às pretensões do cineasta - que não deixa de ser uma opinião muito pessoal também.


Seja como for, faço meu top da Mostra:


Fora de Competição: O Poderoso Chefão



Os 10 Melhores da Mostra:

1. Tulpan
2. Aquele Querido Mês de Agosto
3. Leonera
4. Segurando as Pontas
5. Se Nada Mais Der Certo
6. Horas de Verão
7. Sonata de Tokio
8. Lições Particulares
9. Encarnación
10. Acne



Os 5 piores da Mostra:

1. Tedium
2. Los Demonios del Eden
3. Liverpool
4. Eu Quero Ver
5. Sinédoque Nova York



As 3 boas surpresas que recomendo:

1. Serbis
2. Deixa Ela Entrar
3. Romance



As 3 grandes decepções:

1. O Silêncio de Lorna
2. A Festa da Menina Morta
3. Che (os dois filmes)

domingo, 2 de novembro de 2008

São Paulo - Dia 15

Último dia de Mostra. Dois filmes longos o suficiente para não me permitir ver mais nada. Ou melhor, três filmes, já que a saga de Che Guevara pode ser considerada duas obras bem distintas (com estréias programadas no Brasil para fevereiro e março). Não foi uma despedida das melhores, com a sessão de "Che" tendo atrasos (uma produtora do filme, Rodrigo Santoro e Benicio del Toro marcaram presença só para demorar mais ainda) e problemas na projeção. Sem falar no tédio que são os filmes:



58. Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin - Obra pomposa e auto-indulgente desse cineasta francês que tem acumulado fãs a cada filme (o anterior "Reis e Rainha" talvez o mais badalado). A história de uma família que beira o disfuncional, que irá se reunir no natal e cuja matriarca (Catherine Deneuve) tem um câncer e precisa que seus filhos e netos façam testes para descobrir um doador de medula que seja compatível. "Um Conto de Natal" sem dúvida tem sua elegância, e Desplechin costura sua narrativa das formas mais diversas possíveis, usando elementos do teatro, narrações em off, personagens falando para a câmera, legendas que nos apresentam os personagens. A introdução, aliás, é vertiginosa, me lembrando um pouco (não em estilo) a empolgação de Paul Thomas Anderson apresentando seus personagens em "Magnolia". O problema é que Desplechin parece muito consciente da importância de cada palavra, de cada gesto, tornando toda sequência uma afetação intelectual, faltando espaço para a construção de relações que sejam mais próximas do humano. É divertido ver o filho odiado e a mãe se alfinetando, mas fica nisso. Sem falar na longa duração do filme: 150 minutos provam o quanto Desplechin acredita estar fazendo um tratado das relações familiares, quando na verdade está fazendo uma crônica, na melhor das hipóteses, engraçada, mas que não tem fôlego para tanto tempo de película. (Nota 3)



59. Che - O Argentino, de Steven Soderbergh - A primeira reação que se tem ao ver "Che" é: "Caralho! Isso é digital?!" Soderbergh filmou a saga de Che Guevara em digital com uma câmera especial e o resultado é de um realismo impressionante. Infelizmente é a única coisa que impressiona em filme extremamente simplório e comum, relatando o envolvimento de Che na Revolução Cubana que levou Fidel Castro a tomada de poder. A revolução é narrada em paralelo a uma entrevista (em lindo p&b) de Che, anos depois, nos EUA. É a única parte do filme falada em inglês, uma das dificuldades em a obra fazer sucesso entre os americanos. A outra é a crítica sóbria feita aos EUA. Mas de modo geral, é só mais do mesmo que qualquer livro de história nos relata. Os discursos revolucionários e socialistas hoje parecem datados e não há nada de novo no olhar para os fatos. Surpreendente é notar a pouca habilidade de Soderbergh em filmar cenas de ação: a tomada da cidade de Santa Clara tem seqüências que me fizeram rir dos corpos caindo por conta de explosões, dos mortos a tiro, etc., tudo muito mal encenado. No mais, antes do filme começar Santoro disse que "Che" era sobre o homem e não o mito. Acho que ele estava se referindo a outro filme, porque não há nada de humano em Che, no que diz respeito a questionamentos, vida pessoal, conflitos internos. É só a máquina revolucionária de frases de efeito que termina o filme com um gesto anti-materialista. Que óbvio. (Nota 2)



60. Che - Guerrilha, de Steven Soderbergh - A segunda parte desta saga tem uma mudança de tom drástica: é a tentativa de Che em instaurar a revolução na Bolívia e o conseqüente fracasso. Tudo que era vitorioso no filme anterior, vemos agora fracassando. Soderbergh filma até em outro formato (a tela fica menor) para deixar bem claro o caráter mais intimista deste segundo filme. E o que já era chato, torna-se pior. Este até permite vermos uma maior movimentação do inimigo (o governo boliviano), algo que não vimos no segmento que se passa em Cuba, mas também não sai da obviedade do discurso revolucionário. Um tédio que nem me inspira a fazer maiores comentários. (Nota 1)

São Paulo - Dia 14

A Mostra chegando ao fim e o cansaço batendo, o jeito foi diminuir o ritmo. A quarta-feira foi de apenas três filmes, desistindo dos filmes das pontas (primeiro e último do dia): o documentário dos Titãs e um norueguês chamado "O´Horten".




55. O Primeiro a Chegar, de Jacques Doillon - Filme francês de difícil digestão sobre uma moça que conhece um malandro, ambos tem um caso que começa de forma violenta (mas nunca sabemos exatamente o que aconteceu) e, ao ser dispensada por ele, resolve procurá-lo em sua cidade, onde acaba por se envolver com um policial local, amigo de infância do primeiro e amante de sua ex-esposa. Obra curiosa essa, onde o espectador precisa abandonar qualquer preceito e concepção que tenha de como seres humanos deveriam agir em determinadas situações, porque as coisas que ocorrem no filme são quase inacreditáveis, personagens agindo de forma estranha e impetuosa, pelo menos no que a gente considera estranho e impetuoso se julgarmos por padrões "normais" ou caso queiramos "psicologizar" os protagonistas. Aceitando o que acontece, ainda há de se admirar o trabalho de câmera que pega os personagens se movimentando constantemente em meio a diálogos engraçados em espaços amplos e abertos onde não parece haver mais ninguém, apenas eles. Um tanto teatral e estranho. (Nota 3)



56. Lições Particulares, de Joachim Lafosse - Uma das melhores surpresas da Mostra, essa produção belga foi uma das mais comentadas do evento, pela discussão moral que incita ao final da projeção. Na sessão em que estive, enquanto as pessoas em silêncio (talvez chocadas e perturbadas com o que viram) levantavam da cadeira quando a luz se acendeu, uma senhora desceu as escadas falando muito alto sobre a organização da Mostra precisar ter mais critérios para não ficar exibindo "tamanha porcaria". Pela reação do público, que riu, vaiou e gritou "Por que ficou até o final, então?", essa senhora está em minoria. E o diretor Lafosse conseguiu o que queria: instigar e deixar o espectador refletindo sobre um filme que é dedicado "aos nossos limites". A história: Jonas é um adolescente com problemas na escola e precisa de aulas particulares, caso não queira ser mandado para uma escola técnica. Filho de pais separados, vai morar numa casa com três adultos (que nunca sabemos se são amigos muito próximos ou têm algum parentesco com sua mãe), sendo que um deles irá lhe dar aulas para passar num importante exame que lhe garantirá um futuro na universidade. Acontece que Jonas também está descobrindo o amor e o sexo, e as aulas acabarão se estendendo para esta área de sua vida... O filme foca o tempo todo em Jonas, com seqüências mostrando seu dia a dia, praticando tênis, indo a festas, estudando, perdendo a virgindade. A câmera ama o personagem, e isso é essencial para que o espectador fique incomodado com o que gradualmente vai se configurando na sua relação com os demais personagens. O que no início poderia parecer implausível vai ganhando sustentação para que a história se torne perfeitamente crível e mais importante, sem julgamentos, deixando espaço para a ambigüidade. Discutir o que acontece é entregar o principal do filme. Basta dizer que Lafosse tem o espectador na mão e só depende dos valores morais deste para que considere o filme uma obra de interesse ou recusá-la como uma porcaria. Como a senhora que esteve na minha sessão. Grande filme. (Nota 5)



57. Appaloosa - Uma Cidade Sem Lei, de Ed Harris - Nunca vi "Pollock", a estréia do ator Ed Harris na direção. Mas a julgar por este seu segundo longa, um faroeste "à moda antiga", prefiro continuar sem conhecer. Western filmado de forma clássica, "Appaloosa" é sobre dois amigos pistoleiros (Harris e Viggo Mortensen) que chegam a uma cidade onde o xerife foi assassinado por um perigoso bandido local (Jeremy Irons). A população pede ajuda e eles, em troca do controle total da cidade, tornam-se xerife e auxiliar que irão botar ordem no lugar. O filme é um desastre, recheado de humor rasteiro e sem ritmo que auxilie a trama. Harris pode até tentar ser "clássico", mas parece não saber que a decupagem de um filme assim depende de uma duração dos planos que permita que as imagens tenham ressonância, que fiquem na retina por mais tempo. A construção é toda capenga, assim como o roteiro não é dos melhores, embora a relação entre Mortensen e Harris parece sempre querer se tornar interessante, o que infelizmente nunca acontece. O curioso é que a melhor personagem é a de Renée Zellweger, atriz que eu não gosto e fisicamente cada vez mais estranha, no papel de uma viúva que chega na localidade e logo se envolve com o personagem de Harris. A dubiedade das suas atitudes e a concepção de "amor" que ela tem é bem melhor que o filme como um todo. Mas não é o suficiente para eu recomendar "Appaloosa". (Nota 2)

São Paulo - Dia 13

Terça-feira fraca de filmes - em qualidade e quantidade. Com a informação do crítico Eduardo Valente de que o novo filme de Raul Rouiz estreou no dia anterior em cópia péssima, foi o jeito mudar a programação de última hora, encaixando o novo filme de Errol Morris (que estreou neste fim de semana em algumas capitais) no lugar. Como se não bastasse, a sessão de "A Festa da Menina Morta" teve apresentação do diretor Matheus Nachtergaele, provocando um atraso que me fez perder o último filme da noite, o documentário "Ninguém é Perfeito". Pela infelicidade das escolhas, vou ser mais breve:



51. Eu Quero Ver, de Khalil Joreige e Joana Hadjithomas - Mais um documentário ruim nesta Mostra. Uma co-produção entre França e Líbano, os diretores acompanham a visita que a atriz Catherine Deneuve resolve fazer ao sul do Líbano, sendo guiada por um famoso ator local, para conhecer alguns dos horrores da guerra. A fotografia é belíssima, mas o resto me cheirou a falsidade, com a câmera muito bem posicionada para registrar supostos acontecimentos "imprevisíveis" da viagem, como a possibilidade da atriz passar por um campo minado ou passar por locais que era proibido filmar. Filme panfletário (aqui vendendo a imagem de Deneuve, a boa samaritana) que quer o espectador horrorizado e consciente do que ocorre no Líbano, mas sem a mínima sutileza para isso. (Nota 1)



52. Procedimento Operacional Padrão, de Errol Morris - Documentário que registra uma série de entrevistas que dá luz aos acontecimentos na prisão de Abu Ghraib, quando em 2004 o mundo viu horrorizado a 12 fotos que mostravam prisioneiros iraquianos sendo humilhados e torturados por soldados americanos. O filme de Morris tem o mesmo serviço de utilidade pública visto em outros documentários por aqui, com a diferença que se trata da produção de um esteta, ou seja, temos aqui uma obra bem acabada, com encenações que beiram o artístico. É o pior do filme: se um soldado diz que encontrou um prisioneiro amarrado com sangue saindo pelos ouvidos e boca, logo vemos um close em um rosto com sangue escorrendo em câmera lenta, de maneira bem estilizada. São várias cenas assim, em 120 minutos que também esgotam o espectador com tanta informação. Ainda assim, é um filme que merece ser visto, não só pela temática (porque aí eu teria que defender outros péssimos documentários), mas por algumas boas discussões que traz, infelizmente já na parte final do filme, como a maturidade dos soldados envolvidos, seus discursos sobre as atrocidades cometidas, o poder de uma imagem, as deturpações que esta mesma imagem pode sofrer, e o que numa guerra pode ser considerado "procedimento operacional padrão". (Nota 3)



53. Natal Bagunçado, de Vanessa Jopp - Comédia alemã sobre mulher que convida seus ex-maridos com respectivas esposas para a ceia de Natal, para a infelicidade de seu atual marido que mora com ela e todos os filhos das relações anteriores. A melhor coisa do filme foi tê-lo visto ao lado de Pablo Villaça, cujas reações durante a projeção me fizeram rir mais do que com todo o filme. Mas ao contrário dele, não odiei essa tentativa de fazer humor focando em uma noite onde as relações de vários personagens vão se amontoando e criando situações das mais bizarras. Na verdade, não consigo defender o filme em nenhum aspecto, mas é assistível e talvez dependendo da boa vontade do espectador, é possível rir aqui e ali com a simpatia do elenco. (Nota 2)



54. A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele - Perto do final do filme, já estava decidido em marcar uma nota 2 na minha cédula de votação. Foi o que fiz, mas foi quando eu percebi que Nachtergaele estava ali sentado no chão vendo seu filme (único diretor que vi fazendo isso, os outros não ficavam para rever seus filmes), olhos arregalados e às vezes abrindo a boca, parecendo uma criança maravilhada, sem dúvida orgulhoso de seu próprio trabalho. Fiquei pensando no direito que temos em julgar o trabalho dos outros quando, ao menos neste caso, o cineasta fez o filme que lhe interessou fazer. Mas enfim, foi algo que veio e passou. Assim como Selton Mello, a estréia de Nachtergaele é promissora, revelando um talento que ainda parece não ter identidade própria, já que "A Festa da Menina Morta" grita a todo instante "Cláudio Assis!", como referência essencial para a obra. Assis, aliás, estava na mesma fileira que eu e o vi bocejando e com cara amarrada, mas pode ser característica natural do rapaz. Quanto ao filme, é a história de um evento que ocorre num pequeno lugarejo no interior do Amazonas, que está indo para seu 20º aniversário: é a festa da menina morta, comemoração que relembra uma menina que morreu, mas que ao longo destes anos faz aparições para Santinho (Daniel de Oliveira, espetacular), médium do local que fica responsável por transmitir as palavras da Menina Morta. O filme é sobre Santinho, seu pai alcoolátra, o irmão da menina morta que passa a duvidar das supostas aparições da irmã, e mais alguns habitantes do local. Nachtergaele cria planos seqüências lindos para captar o cotidiano daquelas pessoas, que infelizmente parecem estar num palco, diálogos muitas vezes destoando das possíveis pretensões de se filmar gente de verdade em algum lugar desconhecido do Brasil. A beleza da técnica serve apenas para enfatizar o olhar exótico do diretor para seus personagens. Prova disso é que uma das melhores seqüências do filme nada tem a ver com a trama: durante a Festa da Menina Morta, a câmera se desloca para acompanhar quatro rapazes dançando. É quando o filme respira, no meio de tanta afetação, para se aproximar de verdade da vida daquelas pessoas. Pena que isso ocorre tão pouco. (Nota 2)

São Paulo - Dia 12

Nos últimos dias de Mostra, restam poucos filmes mais populares e conhecidos, com poucas estréias badaladas. O jeito então é arriscar mais, atrás daquele grande filme que está escondido ou seguir as dicas de amigos e críticos confiáveis. Na segunda-feira, apenas o filme de Woody Allen era garantia de ser visto. O restante foi na base do "vamos arriscar", com resultados diferentes:


46. A Vida Moderna, de Raymond Depardon - Documentário em que o cineasta acompanha a vida de camponeses no interior da França, mostrando seus modos de vida, não a partir de seu cotidiano, mas através de seus rostos, suas expressões, seus discursos. Depardon filma quase sempre com câmera parada, com seqüências que se alongam pelo tempo que for necessário, fazendo perguntas, ouvindo pequenos relatos sobre a vida dessas pessoas que o cineasta já vem acompanhando há mais de 15 anos. É o registro de uma forma de viver que está se acabando e como esses camponeses têm se adaptado as mudanças que insistem em invadir suas fazendas. É um filme que me lembrou um pouco o cinema de Coutinho, com o diretor sendo personagem ativo da narrativa, com a diferença que Depardon não é tão bom entrevistador quanto o brasileiro, muitas vezes guiando as conversas para o que é de seu interesse. Ainda assim, um filme muito respeitoso, carinhoso e sempre interessante. (Nota 4)


47. Encarnación, de Anahí Berneri - Arrisquei neste filme argentino sem informação alguma e foi uma agradável surpresa. A história de Erni, uma atriz de cinema que fez razoável sucesso no passado, quando mais jovem, e retorna a sua cidade natal para o aniversário de 15 anos da sobrinha. O filme de Berneri segue uma tendência do atual cinema argentino, como o de Trapero e Martel, que é a de acompanhar bem de perto seus protagonistas, com o pé firme na realidade. Como Martel, é um cinema de sensações, onde ficamos o tempo todo com os corpos das protagonistas, Erni e sua sobrinha, esta última exalando sexualidade por todos os poros. Há vários elementos no filme que poderiam resultar em situações dramáticas: a família de Erni não gosta dela (exceto a sobrinha que vê na tia uma referência de feminilidade), uma suposta má influência que a protagonista poderia exercer na sobrinha, sua decadência como atriz, um interesse amoroso que surge na viagem. Mas o roteiro se desvia de tudo isso, com um olhar atencioso para essa mulher madura que sabe driblar os percalços da vida com muita dignidade. E é curioso, porque é quase possível que sintamos pena da personagem, que vive pesquisando seu nome no Google, aceitando fazer comerciais que mais ninguém quer, ouvindo comentários jocosos sobre sua pessoa. Mas a diretora nunca torna isto motivo de piedade, e foca na alegria de viver da sua protagonista. Um filme que quanto mais eu penso, mais fico admirado. (Nota 4)


48. Los Demonios del Eden, de Alejandra Islas - Documentário que acompanha a trajetória de uma jornalista do México que, ao publicar um livro denunciando o abuso sexual de crianças, se tornou alvo de empresários e políticos inescrupulosos, que chegaram a mandar para a cadeia. O velho filme-denúncia, que certamente tem sua relevância por mostrar relações criminosas da alta sociedade do México, mas se resume a uma reportagem porcamente realizada, com trilha sonora horrorosa e edição de imagens dignas de um Globo Repórter. De boas intenções, mas cinematograficamente um desinteresse total. (Nota 1)


49. O Estranho em Mim, de Emily Atef
- Filme alemão com tema pouco explorado pelo cinema: depressão pós-parto. Ao ouvir a própria diretora apresentando seu filme, dizendo que muitas pessoas a procuram por se identificar com a situação vivida pela protagonista, já fiquei receoso, porque não há nada pior que filmes "de relevância", para mostrar uma realidade dura que algumas pessoas sofrem. Vendo o filme, o receio se tornou verdadeiro em parte: é a história de um jovem casal esperando o seu primeiro filho, mas quando este nasce, a mãe não sente o amor esperado, e aos poucos começa a rejeitar o bebê chegando a se tornar uma ameaça para a vida do filho. O filme começa muito bem, todo o desenvolvimento do estranhamento da mãe com seu filho é muito bem filmado, criando tensão que me fez achar que estaria vendo uma espécie de continuação de O Bebê de Rosemary. Mas aos poucos o que se sobressai é o próprio estranhamento do espectador com o filme: há cenas misteriosas que se revelam ser um esquisito flashforward que nada acrescenta à trama (nem mesmo em termos de surpresa), além da própria trajetória da protagonista e o que a diretora realmente quis expressar. Em certos momentos, parecia se tratar de uma crítica a forma como o afeto é substituído pela ciência (a personagem aprendendo com um vídeo como segurar o filho, mãe e "professora" discutindo em frente a tv, com o bebê abandonado ao fundo), mas em outros parece mesmo querer fazer um filme-guia, com o passo a passo para pessoas nesta situação resolverem seus problemas. Da forma como acaba, o segundo caso parece mais próximo das intenções de Atef. Uma pena, porque ela parece ser uma cineasta, do ponto de vista estético, bem interessante. (Nota 3)


50. Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen - Impressionante o prestígio de Woody Allen: a estréia de seu filme na Mostra foi a sessão mais concorrida que eu presenciei. Poltronas lotadas, com muitas pessoas sentadas no chão. E pelo visto não decepcionou o público, que ria durante todo o filme. Não é pra menos, porque se trata da melhor comédia de Allen em 10 anos. Para os fãs do novaiorquino, fica aquela sensação de dejávu, com seu estilo habitual de filmar e escrever diálogos e personagens. Não é nada de novo, já se sabe exatamente o que esperar. Mas parece que para Allen é questão de estar num bom dia, de bem com a vida. Porque em "Vicky Cristina Barcelona" dá tudo certo, o riso sai fácil. No filme, temos as duas protagonistas do título, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) passando as férias de verão em Barcelona. Vicky, prestes a casar e estudando a cultura catalã; Cristina, buscando novos ares após mais um fracasso amoroso e um curta-metragem que dirigiu e atuou e que detestou. As duas irão conhecer um pintor boêmio (Javier Bardem), que acaba de terminar um casamento de forma violenta, mas que ainda ama a ex-mulher (Penelope Cruz). É a relação destes quatro personagens que iremos acompanhar, que se desdobra em situações inesperadas, com Allen amarrando as pontas incluindo ainda o futuro marido de Vicky e o casal que hospeda as duas em Barcelona. É o roteiro de Woody Allen o grande acerto do filme, que constrói personagens perfeitamente neuróticos (e como mais seriam?), buscando o ingrediente que dará equilíbrio a suas vidas amorosas, em diálogos pomposos e engraçados (o jargão "Speak in english!" de Bardem é quase tão bom quanto o clássico "Don´t Speak!" de Dianne Wiest em "Tiros na Broadway"). Junta-se a isto uma Barcelona filmada com o prazer de um turista rico e intelectual (assim como o diretor já havia feito com Veneza e Paris em "Todos Dizem Eu Te Amo") e um beijo caliente entre Johansson e Cruz e pronto: não há motivos para fazer cara feia pra o "mais do mesmo" do mestre. (Nota 4)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

São Paulo - Dia 11

Domingo foi dia de compromissos sociais, e felizmente a programação da Mostra não trazia grandes atrações. Foram apenas três filmes, dois deles que arrisquei por conta do horário que estava apropriado. Em pelo menos um, me arrependi amargamente.




43. Mão Morta Bate à Porta, de Ramon Costafreda - Filme "mosaico" sobre vários personagens que vivem em Barcelona e se cruzam diariamente. A diferença para o que estamos habituados a ver é o tom fantástico que invade a trama nos momentos mais inesperados. Por exemplo: um dos personagens morre no meio do filme (em acidente automobilístico filmado de forma interessante) e logo há uma hilária narração sua pós-morte sobre como sua família ficou melhor sem ele. Em outro momento, outro personagem conta como morreu e pediu para São Pedro uma nova chance. Morte e histórias de amor estão o tempo todo na tela, ora com seriedade, ora com pura avacalhação. A parte técnica é pobre demais, os atores são ruins. São boas idéias perdidas aqui e ali filmadas toscamente. Mas me fez rir algumas vezes. Já foi um feito e tanto. (Nota 3)




44. Tedium, de Bahman Motamedian - fui ver pela sinopse: documentário sobre transexuais do Teerã, contando como é viver na cultura islâmica. a a primeira cena já mostra a fria que entrei: vários transexuais em uma sessão de terapia em grupo discutindo sobre o direito que eles têm de amar. Sabendo que sessões de terapias não podem ser filmadas, percebi que o que iria ver era um show de encenação para a tela. E de fato "Tedium" mostra a difícil vida de seus personagens (que podem ser atores ou não) dramatizando várias situações nas ruas, no trabalho, em casa, brigas com a família... digno das piores reportagens que temos visto no "Fantástico". Há temas riquíssimos para discussão (como o travesti que desejaria fazer mudança de sexo, caso as mulheres não fossem tão privadas de direito em sua cultura), mas tudo jogado no lixo em prol de uma representação que spostamente estaria fazendo o bem e a denúncia. Horrível. (Nota 1)




45. Juventude, de Domingos Oliveira - três amigos ricos, bem de vida, já com mais de 60 anos, reúnem-se para um final de semana de comemoração e recordação dos velhos tempos. Filme delicioso e muito largado de Domingos Oliveira, filmado em digital (projeção ruim, aliás) e cheio de licenças poéticas (a câmera aparece algumas vezes), onde basicamente temos a diversão desses homens, conversando sobre os mais diversos assuntos. Engraçado e carinhoso, é obra de quem está de bem com a vida e quer mostrar isso na tela grande. Há um ou dois dramas mais sérios no filme, mas nada que acabe com a diversão. No entanto, é de se perguntar o quanto não há de preguiça e má vontade em se fazer um cinema de maior qualidade técnica e artística. Mas aí é uma exigência de espectador e certamente o cineasta está pouco se lixando e fez o filme que quis. Recomendo para ser visto em dvd. (Nota 3)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

São Paulo - Dia 10

Estou aqui no último dia de Mostra, a poucos minutos para encarar as mais de quatro horas do "Che". Tentando agilizar os comentários do que andei vendo, vamos ao sábado. O dia que mais rendeu filmes, alguns deles muito esperados e concorridos.




37. Depois da Escola, de Antonio Campos - Um dos filmes mais comentados da Mostra. Saí com a sensação de que o cinema independente americano precisava ter esse filme, uma tentativa de tornar mais palatável o "Elefante" de Gus Van Sant. A diferença é pouca na abordagem: estamos numa escola típica americana, acompanhamos a rotina de alguns jovens, uma tragédia ocorre. Também não há uso de trilha sonora, e há longos silêncios. Mas o que interessa ao filme de Campos (que é de Nova York, apesar do nome) é fazer o retrato de uma juventude e sua relação com a imagem. Estão lá os vídeos pornôs e violentos disponíveis para qualquer um via internet, imagens capturadas pelo celular, personagens que fazem um vídeo documentário. Muitas vezes a câmera de Campos parte do ponto de vista destas imagens e surpreendentemente se sai bem, porque a narrativa poderia facilmente se tornar maçante, mas não é o caso. De todo modo, há um certo vazio e frieza no modo como o filme se relaciona com os estudantes, algo bem distante do talento que Van Sant tem em nos colocar ao lado dessas pessoas. O que se vê em "Depois da Escola" é quase como uma tese de alguém que quer comentar um certo estado de coisas e que se distancia o suficiente para tal. Como um cientista e seu objeto de estudo. Ainda assim, digno de interesse. (Nota 3)









38. Leonera, de Pablo Trapero - Sem dúvida o melhor filme de Trapero e um dos grandes da Mostra. O diretor argentino dá continuidade ao belo trabalho de câmera que já havia mostrado no anterior "Nascido e Criado" e impressiona na história de uma moça grávida que, acusada de cometer um assassinato, vai para uma prisão onde vivem outras gestantes e presidiárias com filhos de até 4 anos de idade. Trapero esquadrinha cada canto da prisão, criando lindos planos seqüências que acompanham de perto sua protagonista. Inevitável lembrar dos Dardenne, inclusive pela postura ética do diretor. Não há julgamentos morais, maniqueísmos ou clichês para contar a história de uma mulher que é uma força da natureza (Martina Gusman, atriz excepcional) imprevisível nas suas atitudes. Sequer sabemos se ela é culpada ou não pelo crime que a levou para a prisão. Emocionalmente forte, ao final saí me lembrando de Kill Bill, também sobre uma leoa que faz de tudo por sua cria. (Nota 5)









39. Serbis, de Brillante Mendoza - Inexplicável o bombardeio que esse filme filipino recebeu em Cannes. Não dá pra acreditar que a crítica "especializada" seja tão pudica. Sim, porque "Serbis" tem nudez feminina, masculina, sexo explícito, masturbação, travesti botando a boca na butija, etc. Mas isso ainda assusta alguém hoje em dia? O filme é sobre uma família dona de um cine pornô, local também onde moram. Durante as sessões, homens ficam no corredor perguntando aos clientes "Serviço?" (Serbis), para os que querem uma "mãozinha". Não é uma obra-pima, e nem pretende ser (pouco mais de 80 minutos mostrando o cotidiano dessa família), mas é um exercício de cinema bem interessante, com as personagens transitando por local tão peculiar: uma criança que espia pelos cantos, relacionamentos às escondidas ou platônicos, e a matriarca, que parece tratar tudo como um negócio qualquer, mas é moralista o suficiente para achar o fim do mundo a traição de seu ex-marido. A se destacar o som do filme, que insiste em colocar a cidade dentro daquele ambiente, e ao menos uma seqüência memorável: durante a sessão de um filme, com serviços ocorrendo, uma cabra invade o lugar... Filme inusitado, corajoso e nada imoral. (Nota 4)






40. Desierto Adentro, de Rodrigo Plá - Uma das nulidades desta Mostra, o novo filme de Plá (de quem eu gostei muito, mesmo que maniqueísta, "Zona do Crime") é aposta do México para o Oscar. Uma bobagem de bela fotografia sobre um pai de família que acredita que foi abandonado por Deus e será punido junto com seus filhos, e por isso resolve passar sua vida construindo uma igreja. Talvez tenha sido meu cansaço, mas a narrativa não me prendeu um segundo, muitas vezes mudando de foco, ora o protagonista é o pai de família, ora um de seus filhos. E cheio de auto-importância, com pinturas religiosas e frases de efeito (umas da biblia, outras de Nietzsche) abrindo os "segmentos" do filme. Tedioso. Não recomendo. (Nota 1)



41. Cry Me a River/24 City, de Jia Zhang-Ke - Dobradinha de um dos mais cultuados cineastas da atualidade. "Cry Me a River" é um curta que estreou no Festival de Veneza, sobre quatro amigos que um dia já foram casais, e que agora discutem o que foram, o que são, o que poderiam ter sido. E claro que a cidade está lá presente para se relacionar com as suas memórias. Filme de 20 minutos que acaba como um filme "de arte" tem que ser: sem respostas, deixa o espaço para a reflexão. É bonito, mas um grande "e daí?" surgiu na minha cabeça. Talvez uma boa idéia para um longa. Depois veio a atração principal, o documentário "24 City" que concorreu em Cannes. O diretor entrevista operários de uma enorme fábrica que fechou suas portas para dar lugar a um complexo residencial em uma cidade da China, misturando depoimentos verdadeiros com o de atores. Lembrar de "Jogo de Cena" é inevitável, mas a proposta é bem diferente. Zhang-ke dá continuidade ao seu tema predileto, que é registrar em imagens a passagem do tempo e transformação de seu país. Infelizmente, a projeção em digital não foi das melhores, mas o filme traz belos e impressionantes depoimentos, quase sempre com grandes prédios ou construções ao fundo. Eu juro que estava esperando um dos prédios voar a qualquer momento... De interesse, mas não me ganhou. (Nota 3)



42. Waltz with Bashir, de Ari Folman - Outra sensação vinda de Cannes, a animação israelense é o Persepolis deste ano: técnica não usual (não me perguntem qual, sou total ignorante em animações), tema autobiográfico sobre situação social e política vivida pelo autor. No caso aqui, um homem (talvez o próprio diretor) buscando resgatar a memória que lhe falta sobre um evento envolvendo sua participação na Guerra do Líbano. Através de depoimentos, reconstruímos a guerra junto com o protagonista, através de imagens surreais, oníricas e também próximas da realidade. A diferença gritante para "Persepolis", é que este israelense não faz concessões, é sisudo, violento e há até uma cena de sexo explícito. Vez ou outra, as soluções visuais são bem interessantes, mas na maior parte do tempo são óbvias (se um homem diz que estava cheio de culpa, logo as folhas de uma árvore fazem enorme sombra nele) e os monólogos/depoimentos são enormes e enfadonhos. Filme de boas intenções e experimenta partindo para uma linguagem que não é utilizada para o tema em questão. Mas seu final, com cenas "reais", mostra que o cara acaba não botando muita fé no seu projeto como forma de impactar e chamar a atenção para o que quis mostrar. (Nota 2)

São Paulo - Dia 9

Na sexta-feira foram quatro filmes. Seriam cinco, se eu não tivesse sucumbido no filme bósnio "Neve": com menos de quinze minutos de duração fechei os olhos e quando abri o filme já estava acabando. Menos efeito da obra em si do que o cansaço e sono acumulado dos últimos dias. Os outros foram:




33. Machan, de Uberto Pasolini - Baseado na história real de um grupo de homens do Sri-Lanka que, sem boas condições de trabalho, tentam sem sucesso visto para saírem do país. É quando têm a idéia de formarem um time de Handebol para disputar um torneio na Alemanha, como seleção convidada. O problema é que eles nunca ouviram falar de Handebol... Filme simpático, um dos sucessos com o público por aqui. Acho que, pelo final da trama (que não vou contar), renderia um documentário interessante. Do jeito que está, é filme comercial, com diluição de dilemas, um certo pieguismo, mas não deixa de ser visto com um sorriso no rosto, pelo carisma dos atores, principalmente. (Nota 3)



34. Romance, de Guel Arraes - Parece que a única certeza de um bom filme com o selo Globo Filmes é quando tem por trás os nomes de Guel Arraes ou Jorge Furtado. No caso de "Romance", há os dois dividindo o roteiro e Arraes dirigindo, e o resultado é dos mais interessantes. É a história de um ator/diretor de teatro (Wagner Moura) que monta a peça de Tristão e Isolda ao lado de uma atriz (Letícia Sabatella), por quem se apaixona e ambos têm um caso. Que logo não vai durar, e entre os motivos está o fato de ela conseguir um importante papel em uma novela que a eleva a estrela, enquanto ele é um homem do teatro que abomina a televisão. Alguns anos se passam e eles se reencontram quando ela o convida para dirigir um especial de final de ano para a tv, justamente sobre Tristão e Isolda. O filme é uma delícia de se ver, com texto ágil e inteligente brincando de metalinguagem, fazendo comentários ácidos sobre os interesses de mercado da televisão, falando apaixonadamente sobre a arte da dramaturgia e de amar. Apesar de sua famosa linguagem televisiva, Arraes faz cinema de verdade (ao contrário das anomalias do tipo Os Normais, etc.) com elegantes movimentos de câmera, belos enquadramentos, num roteiro bem amarradinho, com destaque para os personagens de Andrea Beltrão e José Wilker, hilários representantes dos inescrupulosos produtores de tv que pouco se importam com arte e sempre de olho no ibope. Filme engraçado, cheio de situações e sacadas inteligentes, que só peca um pouco na verossimilhança de um "quadrângulo" amoroso que surge e na pouca confiança na inteligência do público ao entregar algumas sutilezas da trama. É um filme de mercado, apesar de tudo. E dos bons. (Nota 4)




35. A Erva do Rato, de Júlio Bressane - Nunca tinha visto um filme de Bressane, mas sabia da sua fama de "ame-o ou deixe-o". Como eu não consigo ser extremista com cineastas que certamente são talentosos, achei este seu novo filme uma obra curiosa, mesmo que não tenha gostado. Selton Mello, Alessandra Negrini e um rato são os únicos seres vivos desta estranha história de... amor? Os dois atores se conhecem por acaso num cemitério e após um breve diálogo, ela passa a morar com ele, que durante todo o filme irá dita textos mais saídos de uma enciclopédia, além de preocupações com um misterioso rato que anda roendo as fotos que ele tira. Absurdamente lento, o filme tem uma fotografia linda (cortesia de Walter Carvalho, obviamente) para nos prender a toda a bizarrice vista em tela, além de seqüências muito bem filmadas que atraem o olhar. A parte final tem de misterioso e assustador tanto quanto tem de triste, embora o espectador que tenha admirado aquilo tudo de longe possa sentir um vazio ainda maior ao sair do cinema. (Nota 2)




36. Sinédoque, Nova York, de Charlie Kaufman - Não morro de amores pelos filmes roteirizados por Kaufman, embore admire muito a beleza e criatividade de suas tramas. Sua tão aguardada estréia na direção só deve mesmo agradar aos fãs mais ardorosos, porque Kaufman investiu todo seu talento em algo tão pretensioso como se fosse o último filme de sua vida, como se não houvesse amanhã. A ambição é enorme, o roteiro é bastante engenhoso, mas a coisa toda vai ganhando em complexidade na mesma medida em que perde em interesse. Isso porque Kaufman tem uma visão um tanto depressiva da vida e expressa isso num tom igualmente "pra baixo", miserável mesmo (a parte final de "Quero Ser John Malkovich" deixava isso muito claro). Seus personagens chegam a um fundo do poço que francamente não me interessa. Na verdade isso pode ser sentido desde o início do filme, quando acompanhamos um dramaturgo (Philip Seymour Hoffman, sempre bom) descendo ladeira abaixo, na relação com esposa, filha e trabalho. Mas toda essa miséria, pra mim, cheira a sofrimento de boutique. Não vejo muita verdade na sua obra, embora este filme vez ou outra traz uma piada engraçada. Tem gente que achará brilhante, complexo, objeto de estudo por conta de todos os detalhes, referências e blablablas que se acumulam até o final. Eu achei uma das experiências mais insuportáveis da Mostra. (Nota 1)