quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Sicko e No End in Sight

Dos cinco documentários indicados ao Oscar deste ano, vi dois: "Sicko", de Michael Moore e "No End in Sight", de Charles Ferguson. Ambos têm em comum uma abordagem crítica do governo Bush, utilizam-se de imagens de arquivo do presidente e outros políticos, e tratam de temas essenciais da política estadunidense atual: seu decadente sistema de saúde e a invasão ao Iraque. Mas o enfoque de ambos não podiam ser mais diferentes. No entanto, se um dos dois levar o Oscar, minha opinião é que o prêmio estará em boas mãos.

O filme de Moore é genial. Mesmo com tanta polêmica e críticas a seus filmes e a forma como ele distorce fatos e manipula depoimentos e imagens, o cara continua no seu estilo inconfundível. E me pareceu melhor do que nunca. É claro que é preciso aceitar as manipulações do Moore, porque realmente seus críticos têm razão. Mas seus filmes são de grande relevância, ridicularizam o desastroso governo dos EUA, expõem dados importantes e faz tudo isso com um certo charme, é divertido e emocionante, e nunca perdem o interesse.

"Sicko" (no Brasil, "S.O.S. Saúde") já começa com aquele tom solene de Moore, informando-nos que 50 milhões de americanos não possuem plano de saúde e logo de cara conhecemos um homem que acidentalmente decepou a ponta de dois de seus dedos da mão esquerda e que, por não ter um plano de saúde, teve que optar por qual dedo operar: um custaria 60 mil dólares; o outro custaria 12 mil; optou pelo de 12 mil.

Mas o filme, informa Moore, não é sobre esses 50 milhões de americanos. E nem sobre os 250 milhões que possuem plano de saúde. Então começa sua jornada, às vezes engraçada e (principalmente) trágica do falido sistema de saúde de seu país. O cineasta entrevista pessoas que tiveram familiares mortos porque seus planos não autorizaram os tratamentos necessários; pessoas que enfrentam a burocracia para conseguir tratar suas doenças; ex-funcionários de empresas responsáveis pelos planos de saúde que tinham por objetivo recusar despesas médicas o máximo possível; etc. Um dos casos mais curiosos é o da criança que estava perdendo a audição e obteve a autorização para a cirurgia de apenas um dos ouvidos (!!!). Quando seus pais enviaram uma carta para a empresa dizendo que relataria o caso para o novo filme de Michael Moore, logo receberam a liberação para a cirurgia do outro ouvido.

Os relatos tornam explícito o total desinteresse das "companhias de saúde" pelos seus clientes, importando-se apenas em não diminuir seus lucros com cirurgias e tratamentos muito caros. Não se contentando apenas com essa denúncia, Moore vai ao Canadá (da mesma forma que em "Tiros em Columbine") verificar como as coisas são por lá e, claro, seu sistema de saúde socializado é bem mais eficiente que o de seus vizinhos. Mas o diretor vai além e visita a Inglaterra e a França para mostrar o verdadeiro paraíso da medicina paga pelo estado. Nessa parte do filme, Moore se deleita com suas dramatizações, faz cara de espanto para cada "descoberta" que faz do serviço prestado por esses países e usa e abusa de manipulações.

O que faz do filme um espetáculo agradável de se ver é que o diretor tem pleno domínio de sua arte. Os vídeos de Bush, além de perfeitamente escolhidos, são colocados no ponto de maior efeito dramático, seu acervo de imagens de filmes, comerciais e sabe-se mais lá o quê também é perfeito e o uso da música é quase sempre certeiro para causar as maiores emoções. Claro que aqui e ali nota-se a mão pesada de Moore (como conduzir o médico inglês a falar de todo o luxo que tem, apenas com o salário ganho pelo governo), mas uma vez que entramos no jogo do cineasta, isso é um mero detalhe. Sua divertida jornada pela madrugada de Paris, por exemplo, ao lado de um médico que trabalha numa espécie de Disk-Médico totalmente gratuito para a população, é um desses momentos que voce percebe a encenação. Óbvio que para entrar em todas aquelas casas, houve uma preparação prévia e sabe-se lá até que ponto aqueles atendimentos eram verídicos. Mas o serviço existe, a seqüência é engraçada, e é um verdadeiro choque de realidade para todos que estão bem distantes de ter disponível algo parecido (nós, brasileiros, principalmente).

E quando eu já estava sentindo falta daquelas provocações que normalmente o cineasta dispara contra o inimigo (Walmart, Charlton Heston, parlamentares), eis que ele reserva o melhor para o final do filme: vai atrás dos voluntários que tentaram salvar vidas no 11 de Setembro e que agora sofrem de vários problemas decorrentes disso (respiratórios, por exemplo), mas que foram abandonados pelos serviços de saúde. Moore convida alguns deles e outros personagens do filme para uma pequena viagem até a base militar americana de Guantanamo, onde os presos (incluindo terroristas) possuem gratuitamente todos os serviços médicos que precisarem.

Não conseguindo ter o atendimento desejado, Moore parte para Cuba com seu bando de enfermos. É ali que há os momentos de maior pieguismo por parte do diretor, mas também os mais impressionantes. Os americanos são tratados gratuitamente de todos os males que não conseguiam tratar nos EUA e, numa das cenas mais impactantes do filme, uma das personagens chora ao descobrir que o remédio que ela necessita e que custa 120 dólares no seu país, é vendido numa farmácia cubana por 5 centavos.

Moore fecha seu filme com aquele seu lance genial (e eticamente questionável) de ter feito uma doação anônima para o criador do principal site Anti-Moore, que estava prestes a encerrar o portal por conta das despesas com a esposa enferma, cujo plano de saúde não cobria o tratamento. O "caridoso" cineasta faz um discurso de solidariedade que, se não for totalmente sincero, ao menos é analisado pelo filme como algo possível e extremamente necessário para um novo sistema de saúde de seu país. Belo filme.

Já "No End in Sight" não preciso escrever tanto. É um documentário mais sóbrio, basicamente fixando a câmera no rosto de seus entrevistados, pessoas diretamente envolvidas com a invasão norte-americana ao Iraque, e imagens de arquivo que traçam o painel que resultou no caos absoluto que o país vive hoje. O filme tem intenção clara de deixar explícitos todos os fatos, todas as decisões estúpidas tomadas pelo governo Bush que afetaram profundamente os iraquianos, levou à morte de milhares e destruiu todo um patrimônio histórico e cultural de um povo. É assustador perceber que boa parte da desastrosa interferência americana veio de apenas três ou quatro pessoas próximas ao presidente que, de forma leviana, enviavam pessoas sem experiência para as funções exercidas no Iraque.

O documentário, perfeitamente editado, traz todas as imagens do horror que acompanhamos pela tv, mas contextualizadas por pessoas que estiveram lá: soldados, tenentes, jornalistas, políticos, etc. Como se não bastasse todas as tragédias ocorridas, no final o filme nos informa do valor indecente gasto pelo governo americano nessa empreitada sem sentido: 1,8 TRILHÕES de dólares.

Quando vi esse valor na tela, confesso que quase chorei. Pode ser um pensamento ingênuo, mas não pude evitar de imaginar que essa quantia provavelmente acabaria com a fome e a miséria de todo o continente africano e ainda sobraria algo para o povo brasileiro...

Enfim, dois documentários com tratamentos bastante distintos de suas respectivas temáticas, mas que são igualmente importantes ao documentar os horrores causados por um governo que será sempre lembrado pela infâmia.



terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Cidade dos Homens - O Filme

Chegou em dvd o filme "Cidade dos Homens" e deu pra constatar o que eu perdi no cinema: que quando um filme da Globo Filmes não vai bem de bilheteria, é bem provável que se trata de algo legal.

É impressionante como só faz sucesso coisas como "Sexo, Amor e Traição", "Se eu Fosse Você", "Os Normais" e "A Grande Família". Todos esses filmes têm em comum o fato de que simplesmente migram a linguagem televisiva para a tela grande e, sinceramente, isso não é cinema. É o filme dos Simpsons que tira sarro disso logo no início: somos idiotas pra pagar pra ver no cinema o que vemos de graça na televisão.

Mas não é o caso de "Cidade dos Homens". O filme traz os personagens Acerola e Laranjinha, bastante conhecidos pela série de mesmo nome que passa na Globo, mas não é simplesmente um episódio mais longo do que é visto na tv. O filme tem linguagem cinematográfica, ritmo e narrativa ágeis e, o mais importante, com algo a dizer, um tema defendido pelo filme desde seu início, que é a passagem da adolescência para a vida adulta, uma maturidade que os personagens precisam alcançar um pouco mais cedo do que o normal, devido ao seu contexto social.

O filme poderia ter caído na armadilha de ser mais um filme sobre a favela, miséria, tráfico e outras mazelas, mas tudo isso é apenas pano de fundo para contar a história desses rapazes no exato momento em que estão completando 18 anos de idade. Não é que o filme despreza essas questões, mas o que interessa é falar sobre esses personagens e suas posturas diante da vida.

Então temos Acerola aprendendo a ser pai (teve um filho, ainda na série) e Laranjinha aprendendo a ser filho (ao ir atrás da identidade de seu pai). O filme se beneficia de imagens da própria série que são usadas como flashbacks, o que torna a obra uma espécie de fim de ciclo, inciado pelo curta-metragem Palace II e desenvolvido pelo seriado da globo. O benefício dessas imagens é que o filme se torna independente dos outros projetos, tendo vida própria e sendo interessante mesmo para aqueles que não conhecem as aventuras anteriores dos personagens.

Além do amadurecimento dos jovens, com a relação pai e filho bastante presente, o filme também é sobre a amizade entre Acerola e Laranjinha. Um dos clímax do filme está na cena (presente no trailer) em que um aponta a arma para o outro. Curiosamente, é um dos momentos mais frouxos do filme. "Cidade dos Homens" tem seus piores momentos quando se concentra no seu lado "filme de ação", mas cresce bastante quando fixa a atenção nos seus personagens diante dos seus problemas familiares: Acerola (em flashback) pegando seu filho no colo pela primeira vez ou toda a relação de Laranjinha com seu pai, por exemplo.

Muito bem atuado, narrado e com diálogos e gírias que situam bem a trama, "Cidade dos Homens" é uma bela representação da realidade, com foco firme nos seus protagonistas, carismáticos e com dilemas sinceros o suficiente para prender nossa atenção. O final, com três personagens andando de mãos dadas, é lindo e deixa aquele clima de esperança por dias melhores, mesmo com um futuro incerto e cheio de obstáculos. Isso tudo sem ser maniqueísta e piegas. É um filme com mais acertos do que erros e é lamentável que não tenha sido visto no cinema como merecia.

Infelizmente, assim como "Antonia", "Cidade dos Homens" é o outro bom filme de 2007 que ninguém foi ver porque acharam que já viram a mesma coisa na tv. Ledo engano. O curioso é que ninguém pensou nisso quando lotaram as sessões de "A Grande Família" ou "Os Normais".

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Antes Que o Diabo Saiba que Você Está Morto

Sidney Lumet deve ser o cineasta mais velho em atividade nos EUA. Com 83 anos e vários clássicos no currículo (12 Homens e Uma Sentença, Serpico, Um Dia de Cão, etc), o homem é mais "muderno" que muita gente nova que faz cinema por aí. É só ver a seqüência que abre este novo filme dele, "Antes que o Diabo Saiba Que Você Está Morto", com uma cena de sexo um pouco mais explícita que o convencional no cinema hollywoodiano. Também há uma narrativa não-linear, fragmentada. São coisas que provavelmente Lumet não faria 30 anos atrás, mas hoje são bastante comuns, o que comprova que o bom velhinho se adapta muito bem aos novos tempos. Mas não são coisas do tipo que fazem de "Antes que o Diabo Saiba..." um filme espetacular, claro. São apenas os detalhes que dão uma roupagem contemporânea.

Vi o filme sabendo absolutamente nada a respeito, o que eu sugiro pra todos, pois a trama é estruturada de modo que as informações cheguem aos poucos, com pequenas surpresas do início ao fim.

Então, sem estragar o filme para quem não viu, trata-se da história de um assalto que não segue como o planejado e as conseqüências disso para meia dúzia de personagens. Não é um filme com grandes reviravoltas e o que importa é o percurso dos protagonistas, uma verdadeira descida ao inferno na vida dessas pessoas. "Antes que o Diabo Saiba..." é pesado, com personagens desagradáveis fazendo as piores escolhas, afundando cada vez mais na lama que criaram.

Apesar da fragmentação narrativa, Lumet filma de maneira clássica, sem malabarismos de câmera, com a tranqüilidade de um mestre, que respeita os silêncios e a necessidade de as cenas durarem o suficiente para "entrarmos" na história. O tal assalto, logo no início do filme, parece durar uma eternidade, exatamente como esse tipo de coisa deve durar. Há bastante tensão também em relação a segredos que precisam ser mantidos, mas que sabemos que logo (quando?) serão revelados.

Ao final, tudo que acontece é perfeitamente coerente com o que foi visto durante o filme. O maravilhoso roteiro não se preocupa em explicitar as personalidades de seus personagens. Tudo o que precisamos saber está sendo narrado pelas imagens (de fotografia extremamente sombria) e pelas relações que os personagens criam entre si. Alguns diálogos, cheios de verdades dolorosas, mostram muito bem quem são e o que foi feito de suas vidas.

Para finalizar, além de Lumet aliado a um grande roteiro, temos também um elenco fabuloso, encabeçado por Phillip Seymour-Hoffman (sempre ele) e Ethan Hawke, com Albert Finney como um coadjuvante fundamental para o filme.

Um dos grandes do ano.






quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Brasil na "semifinal" para Filme Estrangeiro

No maior clima de campeonato, a Academia do Oscar cada vez mais faz uma espécie de pré-seleção entre seus competidores nas categorias "menores". Como se não bastasse apenas um filme por país ter o direito a concorrer ao prêmio de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa (porque os ingleses podem ser estrangeiros lá, mas concorrem como filmes "normais", o mesmo vale para os australianos), a seleção dos 5 indicados é feita por um comitê específico da Academia, o que reflete não a preferência dos mais de 6 mil membros que votam no Oscar (o que já não é boa coisa), mas apenas deste seleto grupo, em sua maior parte composta pelos membros mais velhos e conservadores. Sabe-se lá porque, agora eles anunciam um número reduzido de candidatos que estão quase lá.

Ontem foram anunciados nove filmes para a semifinal e um deles é o brasileiro "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger. Ninguém está muito surpreso porque sempre pareceu haver um consenso de que o filme tem grandes chances de ser um dos 5 indicados. O surpreendente é que com esta pré-seleção, o filme brasileiro tem chances reais de até mesmo vencer o prêmio.

Isso porque os principais filmes de língua não-inglesa do ano (leia-se "os mais badalados") ficaram de fora da disputa: o francês Persepolis e o espanhol O Orfanato não "passaram" de fase, filmes aclamados como Piaf - Um Hino Ao Amor, Lust, Caution e O Escafandro e a Borboleta (que acabou de vencer o Globo de Ouro de diretor e filme estrangeiro) sequer foram submetidos pelos seus países e, surpresa das surpresas, o romeno "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", até então favorito absoluto para ganhar o prêmio, também não está entre os 9 selecionados.

Já li em vários sites a insatisfação provocada com a ausência do filme romeno, mas cá entre nós, desde que "Cidade de Deus" ficou de fora, sabemos muito bem que certas coisas não devem ser filmadas ou ditas se quiser ganhar o Oscar, ainda mais nesta categoria onde os membros vêm mostrando que gostam mesmo é dos melodramas sem riscos que se aproximam do estilo narrativo hollywoodiano. Os últimos vencedores, o alemão A Vida dos Outros e o sul-africano Tsotsi (dois filmes fracos na minha opinião) são bons exemplos disso. O "4 Meses..." nem é a obra-prima que muitos andam pintando e acho o filme do Hamburger bem mais honesto nas suas intenções.

Quais os obstáculos agora? Sobraram filmes de gente conhecida, como Tornatore e Arcand (ambos ja disputaram entre si em 1990, inclusive, quando Tornatore levou a melhor por Cinema Paradiso - Arcand concorria por Jesus de Montreal e ganhou o prêmio 13 anos depois com As Invasões Bárbaras), "12" de Nikita Mikhalkov, que é uma versão russa do clássico americano "12 Homens e uma Sentença" e filme novo do cultuado polonês Andrzej Wajda. E sempre tem aquele desconhecido que acaba derrubando todas as previsões, simplesmente porque trata-se de uma categoria em que, para escolher o melhor, o votante tem que provar que viu todos os concorrentes e aí um boca-a-boca de última hora sempre pode ocorrer.

Como nenhum deles deve ter criancinha em comunidade judaica, eu aposto no brazuca.

A lista dos 9:

Austria, “The Counterfeiters,” Stefan Ruzowitzky, director
Brazil, “The Year My Parents Went on Vacation,” Cao Hamburger, director
Canada, “Days of Darkness,” Denys Arcand, director
Israel, “Beaufort,” Joseph Cedar, director
Italy, “The Unknown,” Giuseppe Tornatore, director
Kazakhstan, “Mongol,” Sergei Bodrov, director
Poland, “Katyn,” Andrzej Wajda, director
Russia, “12,” Nikita Mikhalkov, director
Serbia, “The Trap,” Srdan Golubovic, director