terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Cidade dos Homens - O Filme

Chegou em dvd o filme "Cidade dos Homens" e deu pra constatar o que eu perdi no cinema: que quando um filme da Globo Filmes não vai bem de bilheteria, é bem provável que se trata de algo legal.

É impressionante como só faz sucesso coisas como "Sexo, Amor e Traição", "Se eu Fosse Você", "Os Normais" e "A Grande Família". Todos esses filmes têm em comum o fato de que simplesmente migram a linguagem televisiva para a tela grande e, sinceramente, isso não é cinema. É o filme dos Simpsons que tira sarro disso logo no início: somos idiotas pra pagar pra ver no cinema o que vemos de graça na televisão.

Mas não é o caso de "Cidade dos Homens". O filme traz os personagens Acerola e Laranjinha, bastante conhecidos pela série de mesmo nome que passa na Globo, mas não é simplesmente um episódio mais longo do que é visto na tv. O filme tem linguagem cinematográfica, ritmo e narrativa ágeis e, o mais importante, com algo a dizer, um tema defendido pelo filme desde seu início, que é a passagem da adolescência para a vida adulta, uma maturidade que os personagens precisam alcançar um pouco mais cedo do que o normal, devido ao seu contexto social.

O filme poderia ter caído na armadilha de ser mais um filme sobre a favela, miséria, tráfico e outras mazelas, mas tudo isso é apenas pano de fundo para contar a história desses rapazes no exato momento em que estão completando 18 anos de idade. Não é que o filme despreza essas questões, mas o que interessa é falar sobre esses personagens e suas posturas diante da vida.

Então temos Acerola aprendendo a ser pai (teve um filho, ainda na série) e Laranjinha aprendendo a ser filho (ao ir atrás da identidade de seu pai). O filme se beneficia de imagens da própria série que são usadas como flashbacks, o que torna a obra uma espécie de fim de ciclo, inciado pelo curta-metragem Palace II e desenvolvido pelo seriado da globo. O benefício dessas imagens é que o filme se torna independente dos outros projetos, tendo vida própria e sendo interessante mesmo para aqueles que não conhecem as aventuras anteriores dos personagens.

Além do amadurecimento dos jovens, com a relação pai e filho bastante presente, o filme também é sobre a amizade entre Acerola e Laranjinha. Um dos clímax do filme está na cena (presente no trailer) em que um aponta a arma para o outro. Curiosamente, é um dos momentos mais frouxos do filme. "Cidade dos Homens" tem seus piores momentos quando se concentra no seu lado "filme de ação", mas cresce bastante quando fixa a atenção nos seus personagens diante dos seus problemas familiares: Acerola (em flashback) pegando seu filho no colo pela primeira vez ou toda a relação de Laranjinha com seu pai, por exemplo.

Muito bem atuado, narrado e com diálogos e gírias que situam bem a trama, "Cidade dos Homens" é uma bela representação da realidade, com foco firme nos seus protagonistas, carismáticos e com dilemas sinceros o suficiente para prender nossa atenção. O final, com três personagens andando de mãos dadas, é lindo e deixa aquele clima de esperança por dias melhores, mesmo com um futuro incerto e cheio de obstáculos. Isso tudo sem ser maniqueísta e piegas. É um filme com mais acertos do que erros e é lamentável que não tenha sido visto no cinema como merecia.

Infelizmente, assim como "Antonia", "Cidade dos Homens" é o outro bom filme de 2007 que ninguém foi ver porque acharam que já viram a mesma coisa na tv. Ledo engano. O curioso é que ninguém pensou nisso quando lotaram as sessões de "A Grande Família" ou "Os Normais".

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