sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Lost - Quarta Temporada até agora (episódio 4)

Lost é uma série que vicia. Acho que quem assiste não duvida disto. Aliás, séries em geral viciam, às vezes mesmo quando não são muito boas. Mas Lost vicia um pouco mais. Gosto até mais de outras séries atuais (House, por exemplo), mas Lost é a única que me faz acordar bem cedo para acompanhar o episódio inédito da noite anterior. Posso ficar até uma semana sem ver novos episódios de House ou The Office, mas não com Lost. Vai ver é toda a aura criada pela série, um mistério sem fim que te faz especular sobre o que diabos está acontecendo. Mas ao mesmo tempo, a série te frustra sempre, sem respostas para os enigmas, coisa que eu acho que acabou fazendo parte da diversão de se assistir a Lost. O fato é que os responsáveis pela série conseguem não apenas manipular bem os mistérios, mas também têm muito talento para a narrativa dos episódios, o desenvolvimento de personagens interessantes e um elenco fantástico. Lost poderia passar tranqüilamente como uma série da HBO.

Esta quarta temporada começou muito bem. Se compararmos com o famigerado início da temporada anterior, é um avanço formidável. Acho que o motivo é simples: a série estava com um problema terrível de não conseguir mais manter flashbacks interessantes de seus personagens principais, coisa que era uma das principais marcas de Lost. Com a espetacular reviravolta do último season finale, esta 4ª temporada tem sabor de coisa nova e anda com um nível que QUASE se equipara ao do seu primeiro ano.

A grande sacada de incluir "flashfowards" na série é que agora temos uma definição de algo importante que acontecerá (o resgate de 6 sobreviventes do vôo), mas não sabemos como isso se dará. Á medida que acompanhamos os FF, só ficamos sabendo que tal evento é marcante o suficiente para mudanças drásticas nos sobreviventes.

Daí que ficamos curiosíssimos para saber quem é o defunto no final da 3ª temporada, que tanto abalou Jack; saber porque, aliás, que ele está tão desesperado a ponto de querer se matar ou voltar para a ilha (o homem da ciência agora vive em vôos com a fé de que um dia cairá na ilha novamente); saber porque Hurley pede desculpas a Jack por ter seguido Locke; saber porque Sayid vendeu a sua alma ao diabo; saber como Kate acabou ficando com Aaron... Enfim, esta é uma temporada em que os roteiristas podem aproveitar as idas e vindas no tempo para segurar todo mundo na cadeira com pequenas informações que nos deixam salivando por mais.

A equipe de Naomi por enquanto é o elemento estranho na série. É sempre perigoso acrescentar mais personagens a uma série como Lost, mas estes parecem ter a função de trazer as informações a respeito da ilha que tanto queremos, desde que tudo começou. Resta saber se, como personagens, serão tão interessantes quanto aqueles que já conhecemos. Até agora, o destaque maior foi o médium Miles. Embora eu não goste da idéia do sobrenatural FORA da ilha, Miles é o único que se revelou até agora, sendo desagradável com todos, querendo cumprir a missão o mais rápido possível, e tentando extorquir Ben. Os outros andam um tanto apáticos, com o físico mais próximo de interesse, apenas porque é ele quem fará os experimentos que (talvez) nos darão algumas respostas sobre a ilha.

Por enquanto, tudo está indo muito bem na série, e acredito que não será diferente daqui pra frente. O próximo episódio será do Desmond, o que significa que já saberemos qual foi o destino do helicóptero que levou ele e Sayid para o barco da Naomi. Também fica a curiosidade de que tipo de fragmentação do tempo teremos: Flashfoward? Se Desmond saiu da ilha, ele não pode ser considerado um dos "Oceanic 6", então como ele foi recebido? Mas pode não ser um FF, já que o personagem teve aquele bizarro episódio na temporada passada que envolvia misteriosas viagens no tempo. O que aconteceu com seu dom? Se a série continuar neste nível, as respostas (e os mistérios, claro) do próximo episódio serão bastante empolgantes.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Medo da Verdade (Gone Baby Gone)

“Medo da Verdade” é a adaptação para o cinema do livro “Gone Baby Gone”, do escritor Dennis Lehane, considerado um dos grandes autores de romances policiais da atualidade. Lehane já foi adaptado antes, com o seu “Sobre Meninos e Lobos”, por Clint Eastwood e resultou num filmaço. Como fã dos livros do cara, lamentei quando soube desta nova adaptação por dois motivos:


“Gone Baby Gone” é o quarto romance de uma série de cinco aventuras dos detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro, principais personagens criados por Lehane, e que são envolvidos nestes livros em tramas densas, onde a violência e a sordidez estão sempre presentes e que afetam fisica e psicologicamente a vida dos dois. São histórias que podem ser lidas e entendidas individualmente, mas em ordem cronológica são bem mais interessantes, pois o leitor compreende melhor o comportamento dos personagens (protagonistas e secundários) e o fardo que carregam. São cinco livros que dariam grandes filmes policias. Com o lançamento do quarto livro nos cinemas, infelizmente torna-se bem improvável que os outros sejam adaptados, ao menos da forma como deveriam, ou seja, com uma continuidade entre as obras, mesmo elenco, etc.


O segundo motivo de lamentação era saber que “Gone Baby Gone” estava sendo adaptado por Ben Affleck, um desses galãs canastrões que surgem de vez em quando, que nunca fez nada de muito expressivo como ator (embora goste dele nos filmes do Kevin Smith, “Procura-se Amy” e “Dogma” – dizem que ele está ótimo em “Hollywoodland”) e, apesar de já ter levado um Oscar de roteirista por “Gênio Indomável”, nada fazia crer que tinha talento por trás das câmeras. Estrear justamente na adaptação de um livro que gostei tanto me causava tristeza imensa.


Quanto ao primeiro motivo, realmente estava certo. Com a escolha de Casey Affleck para o papel de Patrick Kenzie, o personagem do filme lembra muito pouco o protagonista dos livros, que não só é mais velho, mas também já traz em si as marcas dos traumas sofridos com as três grandes investigações anteriores, narradas em “Um Drink Antes da Guerra”, “Apelo às Trevas” e “Sagrado” (a última aventura é narrada em “Dança da Chuva”). Só este detalhe já acaba com qualquer possibilidade de se criar uma saga cinematográfica da dupla Kenzie-Gennaro, a não ser que refilmem “Gone Baby Gone”, algo muito improvável.


Para os fãs da obra de Lehane, há outras alterações imperdoáveis, como a pouca atenção dada a Angie Gennaro, que virou figurante de luxo no filme; e a caracterização de Bubba, bem distante do que conhecemos no livro. Um dos personagens mais queridos, Bubba é o amigo psicopata de Patrick e Angie, grandalhão e ameaçador, que só tem carinho pela dupla de investigadores e mais ninguém. No filme, Bubba não só aparece pouco (algo até aceitável para essa adaptação), mas é encarnado por um ator gordo, com cara de moleque e nada assustador. São detalhes que deixam os fãs indignados (eu, pelo menos), mas que pouco importam para a análise da obra em si, que é o que deve ser feito por um cinéfilo.


Então vamos ao outro motivo de receio por essa obra. Primeiro, é bom dar uma sinopse do filme: é a história do desaparecimento de uma menina de quatro anos, que causa comoção nacional, por não haver a mínima pista do que realmente aconteceu. Dias já se passaram e mesmo com toda a polícia local investigando, os detetives particulares Patrick Kenzie e Angela Gennaro são contratados por parentes da criança, na esperança que eles descubram algo, já que são moradores da vizinhança e teriam maior facilidade em fazer contato com pessoas que poderiam estar envolvidas no caso (a mãe da menina é usuária de drogas e anda com gente barra pesada). É na investigação, junto a uma dupla de policiais, que o casal descobrirá que o caso é bem mais complexo e perigoso do que se esperava.


Contra todas as expectativas, o trabalho de Ben Affleck foi bem recebido pela crítica. Affleck, inclusive, apareceu na lista feita pelo The New York Times dos 10 novos cineastas a se observar (o brasileiro Bruno Padilha foi outro a estar na lista). Na verdade, minha impressão é que o filme foi elogiado mais por ter um roteiro de interesse, boas interpretações (Casey Affleck, irmão mais novo de Ben, está bem e Amy Ryan, como a mãe da criança desaparecida ganhou quase todos os prêmios da crítica) e uma direção contida de Affleck. O ator filma bonitinho, certinho e só. O roteiro acerta nas coisas que deixa de lado no livro, acrescenta uma narração em off no início bastante apropriada, além de uma conversa do protagonista com o personagem de Morgan Freeman já próximo do fim do filme que bem poderia ter estragado tudo, mas que no final das contas deu certo.


Para mim, o problema da direção de Affleck é não saber dar conta de toda tensão criada por alguns dos momentos-chave do filme: as seqüências em que os personagens encontram um corpo em decomposição; o suposto resgate com a troca pelo dinheiro; a invasão à casa de um casal de drogados; e o assalto no restaurante. Embora o diretor não tenha abusado de cortes rápidos (uma praga que assola boa parte dos filmes atuais), ficou a impressão de uma correria para que coubesse tudo em 120 minutos de filme. Um corte ridículo, quando Angie está no topo do precipício olhando para o lago e imediatamente ela já está mais afastada pegando impulso para pular, é um bom exemplo da falta de experiência de Affleck, que deveria ter investido mais tempo nestas seqüências para efeitos mais dramáticos.


Este ato de Angie acaba se tornando um tanto apressado e patético e não tem a força que o livro expressa tão bem. Isso porque, além de tudo, a personagem é deixada de lado e suas preocupações e sentimentos são expressos apenas em diálogos breves, como seu medo de aceitar o caso por não querer saber o que realmente aconteceu com a menina (o tal “medo da verdade” do título nacional). Um acontecimento importante, deixado de fora do filme, é a sua reação depois da visita do casal a um bar barra pesada, em busca de informações, e um dos homens ameaça estuprá-la (no livro, ela chora e demonstra horror pela violência arbitrária e sem sentido que tem presenciado). Não só situa melhor o papel da personagem, em especial no final do filme, como também ressoa o principal tema da obra.


Essa falta de ressonância dos personagens, e também da encenação de muitas das seqüências acaba por diminuir o filme como um todo, que só resulta em discussão interessante por conta do que já estava lá no livro de Lehane: o belo final, com decisões éticas e morais difíceis por parte do protagonista e que realmente emociona. Mas como cinema, não vemos muito disso nas imagens, nos enquadramentos, no aprofundamento de personagens. É só comparar o filme de Affleck com o de Eastwood. As histórias de Lehane trazem personagens ambíguos, com marcas de um passado doloroso, a violência que contamina e perpassa pela sociedade e a perda da inocência (pedofilia é algo caro ao autor). O clima sombrio de “Sobre Meninos e Lobos”, o filme, é expressão perfeita do que o escritor quis com seu livro (e tema de interesse do cineasta Eastwood). Eu não vejo em “Medo da Verdade” nada em suas imagens que causem forte impressão, coisa que deveria pelo material que o diretor tinha em mãos. A fotografia e a trilha sonora são vitais nesse sentido, mas o que o diretor fornece é apenas aquela coisa certinha, competente tecnicamente, mas artisticamente falha miseravelmente.


O trabalho de Affleck é louvável. Só acho que não deveria ter começado com obra tão densa. Ainda mais com um livro que é o quarto de uma série de cinco ótimos livros policiais. Por que não começou pelo primeiro, hein?