sábado, 22 de março de 2008

Skins

Algo que descobri apenas recentemente foi "Skins", uma série inglesa sobre um bando de adolescentes às voltas com sexo, drogas, relações amorosas, amizade e, claro, problemas com seus pais. O fato de ser protagonizada por adolescentes não significa que seja direcionada para o público jovem.

"Skins" foi pensada para adultos, abordando o universo teen com talento, dramaticidade incomum, fugindo de clichês e nunca banalizando seus personagens. Quando a trama parece um novelão, logo aparece alguém em cena para dizer que aquilo está parecendo "The O.C.". O humor é aquela coisa britânica, sem a vergonha e hipocrisia dos americanos em falar sobre sexo, por exemplo, e a série não tem medo de arriscar, com situações dramáticas mais sérias, ou exageros que levam os episódios para as direções mais inusitadas e surpreendentes.

Cada episódio é entitulado com o nome de um dos adolescentes, que irá protagonizar a estória. Acompanhamos suas rotinas diárias (basicamente escola e muita farra) e seus problemas, normalmente envolvendo as dores do amor e seus pais. A série não escapa das velhas intrigas, como triângulos amorosos, desentendimentos e desencontros, interesse romântico mais velho, ou separação de pais. Aliás, a presença (ou ausência) dos pais é muito forte em "Skins".

O diferencial maior está na forma como os autores da série tratam seus protagonistas: embora defenda que somos muito o que nossos pais nos tornaram, em nenhum momento os personagens são transformados em vítimas ou são justificados por conta dos pais que têm, mesmo nos casos mais graves, como a moça com transtorno alimentar ou o rapaz que se droga o dia todo. O que "Skins" defende, e de forma muitas vezes comovente, é que sempre há alternativas, que todo dia pode ser um novo início e que a vida segue em frente. Cassie dando uma bela mordida em um sanduíche; Jal tocando clarinete numa competição; Sid dando conta de fazer seu dever de casa: muitos episódios terminam num tom de esperança, de que no fim das contas somos os maiores responsáveis pelo que acontece conosco. Ou pelo menos que é preciso manter a cabeça erguida e seguir em frente contra as adversidades.

Se isso já não fosse o suficiente para admirar a série, há ainda opções narrativas incomuns. Quando menos se espera, as tramas tomam rumos inusitados, seja pelo comportamento inexplicável de algum personagem, ou uma situação absurda, ou o próprio uso de recursos estilísticos não muito usuais. O final da primeira temporada, por exemplo, é um primor, com uma seqüência musical em que até mesmo um personagem à beira da morte entoa a canção. Tudo bem, Paul Thomas Anderson já havia feito isso de forma antológica em Magnólia, mas estamos falando de uma série (supostamente) teen, oras!

A primeira temporada de "Skins" tem apenas 9 episódios e foi exibida no ano passado. Em fevereiro deste ano teve início a segunda temporada, com reviravoltas interessantes e acredito que até mesmo elevando a qualidade da série. Os seis episódios exibidos até agora (não sei quantos serão nesta temporada) foram excelentes, com seqüências memoráveis, como o choro e o abraço entre dois amigos no meio de uma boate ensurdecedora (ao som de... Crystal Castles?), ou uma peça musical genial chamada Osama no meu episódio preferido desta temporada (a introdução da nova personagem, Sketch), ou ainda todo o desenvolvimento do episódio 6 ("Tony"), uma viagem que os roteiristas não perdem tempo com explicações.

"Skins" é muito boa, foi uma grata surpresa e um sopro de ar fétido em meio a tantas séries adolescentes tão limpinhas, tão assépticas, com seus personagens estereotipados e rasos, vivendo as situações mais clichês e simplórias. Recomendo.


segunda-feira, 10 de março de 2008

Piaf e Proibido Proibir

Ontem, domingo, vi os dois filmes do título, que acabaram de chegar em dvd pela Europa Filmes. Fiquei adiando em ver o filme sobre a Edith Piaf, simplesmente porque não parecia interessante. Quer dizer, mais uma cinebiografia convencional, certamente com outra atuação mediúnica do protagonista como qualidade maior. Foi assim com Ray. Foi assim com Johnny e June. Então deixei pra lá, torci muito para a maravilhosa Julie Christie não perder o Oscar para a Marion Cotillard (o que não adiantou) e criei uma certa antipatia pelo filme. E aí ontem eu vi. E adorei.

O filme tinha tudo para ser a mesmice de sempre, quando resolvem filmar a vida de alguém que foi extraordinário. E já começa apontando para essa direção, quando vemos um momento alto da carreira de Piaf, para em seguida um flashback nos mostrá-la ainda criança. Quão original...

Mas para minha surpresa, o filme adota uma estrutura narrativa toda fragmentada. O vai e vem no tempo dura até o final, com legendas nos informando ano e local, mas chegando a um ponto que essa informação começa a desaparecer. Achei a escolha muito acertada, porque fazer um filme sobre alguém que de fato existiu sempre corre o risco de uma mitificação, glorificação e /ou simplificação da vida dessa pessoa e essa montagem já dá o tom de que o autor de "Piaf" não quer simplificar ou justificar nada, levantando os pontos principais da vida da cantora, mas sem se ocupar com justificativas de causa e efeito ou eventos mais íntimos que poderiam facilmente ser distorcidos.

Se ficamos sem saber como o descobridor do "Pequeno Pardal" foi assassinado, ou mais detalhes da relação entre Piaf e Mômone, é porque o diretor/roteirista Olivier Dahan sabe que um filme nunca vai dar conta de toda a complexidade de uma vida e prefere se ater a pontos-chave da Piaf que foi mitificada. O maior choque em relação a isso é a informação que vem quase ao final do filme, um dos momentos mais importantes da vida da cantora que foi ignorado pelo filme até aquele momento e surge como uma memória da personagem, já no seu leito de morte. Achei maravilhoso, porque me pareceu um grande respeito pela Edith, não o Mito. Se as passagens de tempo durante o filme que não justificavam algumas coisas já era um ponto muito positivo, essas memórias finais concluem maravilhosamente essa idéia de que há muito mais sobre a cantora que uma obra nunca poderia atingir completamente. O mistério continua.

No mais, nem é preciso elogiar toda a parte técnica do filme. Mas é preciso reconhecer que a maquiagem vencedora do Oscar é uma coisa fantástica. Me lembrei do envelhecimento constrangedor de Jennifer Connelly em Uma Mente Brilhante e como o trabalho de gente tão talentosa e pouco reconhecida faz toda a diferença. Merece elogios também a já clássica seqüência sem cortes em que Piaf recebe más notícias, e aquela entrevista tão simples e tão linda que ela dá à beira da praia, com mérito maior da Cotillard.

A atriz é um caso à parte. Eu nunca duvidei da tal interpretação mediúnica (aquela em que atores simplesmente "baixam" o espírito da pessoa interpretada: Jamie Foxx como Ray Charles, Jim Carrey como Andy Kaufman, Joaquim Phoenix como Johnny Cash, Val Kilmer como Jim Morrison e, este ano, além de Cotillard, Sam Riley como Ian Curtis), mas tem algo nessa atuação que é muito maior que a mera personificação idêntica. Talvez porque Piaf tenha sido uma mulher feia (no sentido de beleza física, claro), mas que tinha um brilho que a tornava extremamente interessante. E Marion traz esse brilho. E o filme mostra uma decadência do corpo que é incrível. E Marion se entrega a essa decadência. Pra mim foi impossível não chorar quando Edith ouve pela primeira vez "Non, Je Ne Regrette Rien" e diz que aquilo é a vida dela. E não só o filme já havia dado mostras disso, mas Marion fala de uma forma tão contundente, tão cheia de verdade, que parece que ela realmente viveu aquilo. Desculpem-me Julie Christie e Ellen Page, mas este foi o Oscar de melhor atriz mais bem dado desde... sei lá que ano ou década.

Não significa que é um filme perfeito. Mais longo que o necessário, boa parte dos personagens secundários desinteressantes. Mas muito bom, pelo acerto em não ser explorador de uma vida interessante e por Marion Cottilard.


Proibido Proibir - Já esse filme nacional tem seus altos e baixos. Não é um filme fácil de se criticar. É a história de três jovens universitários às voltas com o amor, as responsabilidades vindas com a vida adulta e a profissão que lhes espera e a dura realidade social que lhes bate à porta. O filme sai em desvantagem por trazer alguns dos defeitos mais marcantes do cinema nacional: gente falando de forma pedante sobre os problemas do Brasil, policiais malvados e diálogos muitas vezes artificiais.

Mas aí eu pensei em quantos universitários eu já vi falando de forma pedante sobre os problemas do Brasil. E o filme tem a grande vantagem de mostrar de forma bastante natural a vida dos personagens nos vários locais do campus universitário. Aliás, não só lá. O diretor Jorge Duran filma muito bem os pequenos detalhes da vida de seus protagonistas, filmados em aula, em estágio, fazendo trabalhos escolares em casa, fazendo pesquisa de campo na periferia... É tudo muito bom, porque essa simplicidade e naturalidade são poucas vezes alcançadas pelo nosso cinema. E isso também vale para os diversos brasis que temos: é gente pobre, de classe média e rica vivendo juntos no filme, com os espaços se misturando (a namorada rica, que paga um lanche para os rapazes que não tem um tostão, nunca vira um estereótipo por ser rica) como normalmente é na "vida real". Não é a toa que vemos um cartaz de O Invasor em determinado momento, filme que melhor que nenhum outro brincou com as fragilidades desses limites sociais.

Infelizmente, toda essa verossimilhança do que é filmado e bem atuado se diminui com alguns diálogos fracos e, principalmente, a montagem do filme. A edição é o maior problema de Proibido Proibir. Se as cenas isoladas são naturais, não há fluidez nenhuma quando ligadas uma a outra. O ritmo é terrível, muitas vezes o que se segue parece sem propósito com o que foi visto na cena anterior e o filme parece ser mais longo do que realmente é.

A segunda parte é marcada por mais clichês, os policiais estereotipados (e aí me pergunto: são realmente estereotipados?), há mais drama e o filme tem que dar conta de tudo a que se propôs, e que não é pouco: um triângulo amoroso, as visões de mundo distintas entre os dois amigos, a amiga que faz a pesquisa de campo, o rapaz que testemunhou um crime. Para este último caso, temos um tiroteio um tanto over, chato mesmo, que destoa de tudo. Para todo o resto, o filme até que não se sai mal. Na verdade, é o "ficar em aberto" a solução, o que me parece bem condizente com o filme. "Proibido Proibir" traz jovens lidando com as dificuldades de se posicionar no mundo, saber o que fazer da vida e como contribuir com a sociedade. Não há respostas fáceis, nem prontas. Só há um "continuar vivendo", e acho o final a melhor coisa do filme, a partir do momento em que os três se abraçam.

Em suma, não é a melhor das realizações do nosso cinema atual, mas tem uma visão de mundo, de tratamento do espaço e personagens que me agrada muito. Acho que vale uma conferida.