domingo, 25 de maio de 2008

E em Cannes...

... deu Brasil, com o prêmio de Melhor Atriz para a desconhecida Sandra Corveloni, no papel da mãe dos protagonistas de "Linha de Passe", de Walter Salles e Daniella Thomas. A última vez que o Brasil venceu algo na principal competição de Cannes foi há mais de 20 anos, também com um prêmio de atriz para Fernanda Torres.

O prêmio principal foi para o novo filme de Laurent Cantet, "Entre Les Murs", que só foi exibido ontem. Se não me engano, a última vez que a Palma de Ouro surgiu tão em cima da hora foi há 6 anos com "O Pianista", de Roman Polanski. Nos últimos anos os vencedores surgiram nos primeiros dias de Festival. Este é o quarto filme de Cantet, sendo que dois deles existem em dvd no Brasil: o ótimo "A Agenda" e "Em Direção ao Sul" (que não tenho na locadora, mas o erro está sendo corrigido em breve). O primeiro filme do diretor, "Recursos Humanos", continua sem previsão de lançamento.

Claro que a gente sempre torce pra os filmes brasileiros, mas eu queria mesmo era que o James Gray ganhasse. Quem sabe um empurrão de Cannes faça com que prestem melhor atenção no cara. Infelizmente, não foi dessa vez.

De resto, o que vale notar é o prêmio de Melhor Ator para Benicio del Toro, por "Che", provavelmente primeiro de uma série de prêmios que deverá culminar, no mínimo, com a indicação ao Oscar ano que vem; e o prêmio de Melhor Roteiro para os irmãos Dardennes, que com apenas 4 filmes já devem ser campeões de prêmios em Cannes, com duas Palmas de Ouro, dois prêmios ecumenicos, uma melhor atriz, um melhor ator e agora um melhor roteiro.

Se tudo der certo, em Outubro estarei na Mostra de Cinema de São Paulo e espero ver boa parte desses filmes por lá. Tomara!

Indiana Jones

Eu achei que logo que assistisse ao quarto Indiana Jones, iria vir ao blog correndo para escrever. Mas já se passaram três dias e a empolgação não veio. Então deixa eu colocar logo uma pedra nisso.

O filme me divertiu bastante. É claro que Spielberg sabe filmar cenas de ação, sem a overdose de cortes que um Michael Bay promove nos seus lixos. E é claro que ele tem uma proposta de cinema, sempre futucando os temas que lhe interessam (relação entre pai e filho é o mais óbvio). Mas o filme nunca vai além da mera diversão, um passeio num parque de diversões esquecível, assim como tantos outros que surgiram nos últimos 19 anos, como A Múmia, alguns 007, algumas seqüências de Piratas do Caribe 1 e 2 (o terceiro é um tédio só).

Talvez algumas cenas tivessem sido memoráveis caso eu assistisse ao filme numa sala de cinema decente. A explosão nuclear no início do filme e a destruição final parecem ter um design de som absurdo. Mas o Moviecom de Vitória da Conquista, como eu já disse antes e não vou me cansar de dizer, é um lixo.

De qualquer forma, isso não é desculpa. Spielberg tem talento de sobra pra nos surpreender com cenas mágicas, de encher os olhos. Ao menos tinha lááá nos anos 80. Mesmo Jurassic Park e Guerra dos Mundos, filmes mais recentes, tem destes momentos. Indy 4, não.

Claro que a trilha clássica e cenas de Mister Jones Jr. e Marion causam uma certa comoção e arrepio, mas isso é por conta de uma adoração que todo cinéfilo tem com os personagens e os filmes anteriores. Quase nada é devido ao filme novo.

Seja como for, é divertido. Gosto da caricatura EXTREMA que é a Cate Blanchett, acho que combina com o tom que Spielberg resolveu dar a aventura, onde Indiana se safa das situações mais absurdas de toda a série (geladeira de chumbo?). Ponto positivo também para as referências da época: a bomba atômica, as roupas, a obsessão do personagem de Shia L. com o cabelo. A cena final também é ótima: nada de passar o chapéu.

Mas pelo fato de Spielberg não abusar dos efeitos, tentando ser fiel ao espírito de aventura à moda antiga que era característica básica da série, esperava por algo que durasse mais na memória. Infelizmente, não é o caso. Mas é divertido enquanto dura.

sábado, 24 de maio de 2008

Pablo Trapero

Aproveitando que o cineasta argentino Pablo Trapero acaba de lançar seu novo filme, "Leonera", no Festival de Cannes (com chances de levar prêmios, inclusive), resolvi conferir seus dois filmes lançados comercialmente por aqui: "Do Outro Lado da Lei" e "Família Rodante". Não achei sensacionais, mas me agradou muito o estilo do diretor, trazendo histórias de gente muito comum em situações nada extraordinárias, com um olhar bem de perto, mas sem julgamentos.

"Do Outro Lado da Lei" é a história de Zapa, um chaveiro ingenuamente envolvido num roubo que vai para a prisão e de lá, através de contatos, um tio o manda para a capital para treinar e ser policial. Corrupção é um dos temas do filme, presente desde o início, mas Trapero não se limita focando em determinado assunto. Na verdade, tudo parece existir de forma muito natural, o filme não chama atenção para nada em particular, ficamos apenas com a história do rapaz, suas relações e como isso vai operando mudanças no personagem.

Já "Família Rodante", impossível não fazer a comparação com "Pequena Miss Sunshine", porque ambos trazem famílias viajando de kombi. Mas a diferença é enorme. Enquanto no filme americano os personagens parecem existir para cumprirem funções bem específicas de roteiro, no filme argentino há aquela diversidade que é tão característica de uma família de verdade. Os personagens são revelados em pequenos gestos, Trapero filme com a câmera bem de perto, dando uma sensação de proximidade saudável, porque nunca julga as ações dos mesmos.

Descobri, depois de ter visto o filme, que a avó da família (responsável pela viagem feita) é interpretada pela própria avó de Trapero, o que pode explicar o respeito e a graça das situações, dando um ar de obra muito pessoal (e o filme começa com uma dedicatória "a minha família rodante"), mas desde o filme anterior percebe-se que a marca do diretor é a do registro minimalista, de um olhar ético, de uma preocupação com o cotidiano e só a partir daí é possível apreciar e tentar entender a vida e as relações que nos marcam.

Vendo estes dois filme é inevitável não pensar em como se trata de um cinema que infelizmente não encontra semelhanças no cinema brasileiro. Coisas da Globo Filmes estão sempre lá mostrando uma beleza plástica da vida de gente vazia e desinteressante. A complexidade (que vem das coisas simples no cinema de Trapero) passa longe. Mesmo nos nossos melhores filmes, há quase sempre um registro de denúncia, algum aspecto que chama a atenção para si. A única exceção que vejo no cinema brasileiro recente é o Cão Sem Dono, do Beto Brant.

Enfim, que venha o "Leonera", do Pablo Trapero. Já aguardo ansioso. Um diretor a se aguardar com expectativa alta.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Enquanto isso em Cannes...

Cartaz oficial de Cannes '08, by David Lynch.



Já que o tempo está escasso para os filmes, o jeito é ficar acompanhando de longe o maior festival de cinema do planeta. Deve ter mais de dez anos que durante o mês de maio é leitura obrigatória tudo o que eu conseguir encontrar sobre o que anda rolando em Cannes. O curioso é que a maioria dos filmes que rolam por lá não chega ao nosso mercado, ficando restrito a, no máximo, o festival do Rio ou a Mostra de São Paulo. De qualquer forma, é sempre interessante acompanhar o que de melhor é feito no cinema. Ou, pelo menos, o que andam dizendo que é o melhor feito pelo cinema, já que o festival de Cannes é uma verdadeira vitrine e definidor de tendências.


"Ensaio sobre a Cegueira" não agradou a todos. Saramago gostou.


Pelo que ando lendo, as coisas não estão tão espetaculares neste ano. O filme do Fernando Meirelles, "Ensaio Sobre a Cegueira", teve um grande número de críticas negativas, enquanto grandes nomes do cinema atual apresentaram filmes considerados menores em suas carreiras: os irmãos Dardennes, que fizeram três obras-primas em seqüência ("Rosetta", "O Filho" e "A Criança") não empolgaram com "Le Silence de Lorna"; a argentina Lucrecia Martel, que é venerada pelo desagradável (mas bom pra caramba) "O Pântano" e o interessante "Menina Santa", não causou o frisson esperado com "La Mujer Sin Cabeza"; e o mestre Clint Eastwood dividiu opiniões com o novo "The Exchange", estrelado pela Angelina Jolie (parece que os críticos americanos adoraram, críticos brasileiros nem tanto).



Encontro de mestres: o septuagenário Clint Eastwood e o centenário Manoel de Oliveira.


Quem se deu bem até agora foi o Walter Salles e Daniella Thomas. "Linha de Passe" parece ter agradado a todos, embora não tenha chegado ao nível do espetacular. Outro que parece ter empolgado foi o americano James Gray, com "Two Lovers". Gray é admiradíssimo na França e tratado como um zé ninguém em seu país e em boa parte do mundo. O que é uma lástima, porque filmes como "Caminho Sem Volta" e "Os Donos da Noite" podem ser facilmente descartados como meros filmes policiais, mas um olhar mais atento revela um autor que domina a arte da montagem, do enquadramento, do som... que faz uso sensacional de fotografia para expressar os interiores de seus personagens, além de me provar que o Joaquin Phoenix é um ator extraordinário (também protagonista de "Two Lovers"). Espero que Gray saia com algum prêmio este ano.



Cena de "Linha de Passe".


Uma coisa legal de Cannes é que os prêmios são dados por um júri que muda a cada ano, composto por nomes importantes do cinema. Então nunca se sabe o que esperar da premiação, à mercê das idiossincrasias dos jurados. Dizem, por exemplo, que certa vez o diretor Nanni Moretti ameaçou deixar a presidência do júri caso os jurados quisessem dar algum prêmio para "Violência Gratuita", de Michael Haneke, filme que causou polêmica, sendo chamado de fascista por boa parte do público. Este ano o júri é presidido pelo ator Sean Penn e inclui nomes como a atriz Natalie Portman, o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul ("Mal dos Trópicos") e Alfonso Cuaron ("Filhos da Esperança"). Por ser Penn o presidente, há uma expectativa que Eastwood saia premiado, ainda mais considerando que o diretor talvez seja o mais respeitado e querido das Americas e que nunca ganhou Cannes.



Del Toro, como Ernesto "Che" Guevara.


O Festival acaba neste fim de semana e ainda faltam os filmes de outros grandes nomes, como a cinebio "Che", de quatro horas de duração, por Steve Soderbergh (Benicio DelToro como Che Guevara já é sério candidato ao prêmio de melhor ator), "Synecdoche, New York", a aguardada estréia na direção do cheio de idéias estranhas Charlie Kaufman (roteirista de "Quero Ser John Malkovich", "Adaptação", "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças"), além dos novos de gente respeitada como Atom Egoyan, Wim Wenders e Philippe Garrel. Quem sabe o vencedor da Palma ainda está por vir.


sábado, 17 de maio de 2008

Às moscas.

O blog anda abandonado, infelizmente. Também não tenho visto filmes, o que não chega a ser uma desculpa, porque tenho me mantido fiel às séries de tv e poderia estar escrevendo sobre elas. Minha tentativa de escrever sobre "Battlestar Galactica" semanalmente na Comentários em Série não deu certo, mas ao menos não abandonei de vez. Aqui o negócio está mais feio.

Enfim, sobre filmes a única coisa que fiz nas últimas semanas foi ter ido ao cinema rever o apocalíptico "Onde os Fracos Não Têm Vez", tão bom na revisão quanto da primeira vez. Achei que só voltaria ao cinema daqui uns cinco meses, após a onda de filmes dublados que o péssimo Moviecom de Vitória da Conquista tem nos oferecido. Felizmente eles resolveram exibir o novo Indiana Jones com legendas. Não sou daqueles que estão morrendo de ansiedade pelo filme (os únicos filmes que realmente quero ver desta temporada de blockbusters são o novo do Shyamalan e "O Cavaleiro das Trevas"), mas estou curioso pra saber como Spielberg vai resolver a questão de ressuscitar um herói de uma época em que filmes de aventuras eram bem diferentes do que temos atualmente. Semana que vem estarei lá.