quarta-feira, 21 de maio de 2008

Enquanto isso em Cannes...

Cartaz oficial de Cannes '08, by David Lynch.



Já que o tempo está escasso para os filmes, o jeito é ficar acompanhando de longe o maior festival de cinema do planeta. Deve ter mais de dez anos que durante o mês de maio é leitura obrigatória tudo o que eu conseguir encontrar sobre o que anda rolando em Cannes. O curioso é que a maioria dos filmes que rolam por lá não chega ao nosso mercado, ficando restrito a, no máximo, o festival do Rio ou a Mostra de São Paulo. De qualquer forma, é sempre interessante acompanhar o que de melhor é feito no cinema. Ou, pelo menos, o que andam dizendo que é o melhor feito pelo cinema, já que o festival de Cannes é uma verdadeira vitrine e definidor de tendências.


"Ensaio sobre a Cegueira" não agradou a todos. Saramago gostou.


Pelo que ando lendo, as coisas não estão tão espetaculares neste ano. O filme do Fernando Meirelles, "Ensaio Sobre a Cegueira", teve um grande número de críticas negativas, enquanto grandes nomes do cinema atual apresentaram filmes considerados menores em suas carreiras: os irmãos Dardennes, que fizeram três obras-primas em seqüência ("Rosetta", "O Filho" e "A Criança") não empolgaram com "Le Silence de Lorna"; a argentina Lucrecia Martel, que é venerada pelo desagradável (mas bom pra caramba) "O Pântano" e o interessante "Menina Santa", não causou o frisson esperado com "La Mujer Sin Cabeza"; e o mestre Clint Eastwood dividiu opiniões com o novo "The Exchange", estrelado pela Angelina Jolie (parece que os críticos americanos adoraram, críticos brasileiros nem tanto).



Encontro de mestres: o septuagenário Clint Eastwood e o centenário Manoel de Oliveira.


Quem se deu bem até agora foi o Walter Salles e Daniella Thomas. "Linha de Passe" parece ter agradado a todos, embora não tenha chegado ao nível do espetacular. Outro que parece ter empolgado foi o americano James Gray, com "Two Lovers". Gray é admiradíssimo na França e tratado como um zé ninguém em seu país e em boa parte do mundo. O que é uma lástima, porque filmes como "Caminho Sem Volta" e "Os Donos da Noite" podem ser facilmente descartados como meros filmes policiais, mas um olhar mais atento revela um autor que domina a arte da montagem, do enquadramento, do som... que faz uso sensacional de fotografia para expressar os interiores de seus personagens, além de me provar que o Joaquin Phoenix é um ator extraordinário (também protagonista de "Two Lovers"). Espero que Gray saia com algum prêmio este ano.



Cena de "Linha de Passe".


Uma coisa legal de Cannes é que os prêmios são dados por um júri que muda a cada ano, composto por nomes importantes do cinema. Então nunca se sabe o que esperar da premiação, à mercê das idiossincrasias dos jurados. Dizem, por exemplo, que certa vez o diretor Nanni Moretti ameaçou deixar a presidência do júri caso os jurados quisessem dar algum prêmio para "Violência Gratuita", de Michael Haneke, filme que causou polêmica, sendo chamado de fascista por boa parte do público. Este ano o júri é presidido pelo ator Sean Penn e inclui nomes como a atriz Natalie Portman, o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul ("Mal dos Trópicos") e Alfonso Cuaron ("Filhos da Esperança"). Por ser Penn o presidente, há uma expectativa que Eastwood saia premiado, ainda mais considerando que o diretor talvez seja o mais respeitado e querido das Americas e que nunca ganhou Cannes.



Del Toro, como Ernesto "Che" Guevara.


O Festival acaba neste fim de semana e ainda faltam os filmes de outros grandes nomes, como a cinebio "Che", de quatro horas de duração, por Steve Soderbergh (Benicio DelToro como Che Guevara já é sério candidato ao prêmio de melhor ator), "Synecdoche, New York", a aguardada estréia na direção do cheio de idéias estranhas Charlie Kaufman (roteirista de "Quero Ser John Malkovich", "Adaptação", "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças"), além dos novos de gente respeitada como Atom Egoyan, Wim Wenders e Philippe Garrel. Quem sabe o vencedor da Palma ainda está por vir.


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