sábado, 24 de maio de 2008

Pablo Trapero

Aproveitando que o cineasta argentino Pablo Trapero acaba de lançar seu novo filme, "Leonera", no Festival de Cannes (com chances de levar prêmios, inclusive), resolvi conferir seus dois filmes lançados comercialmente por aqui: "Do Outro Lado da Lei" e "Família Rodante". Não achei sensacionais, mas me agradou muito o estilo do diretor, trazendo histórias de gente muito comum em situações nada extraordinárias, com um olhar bem de perto, mas sem julgamentos.

"Do Outro Lado da Lei" é a história de Zapa, um chaveiro ingenuamente envolvido num roubo que vai para a prisão e de lá, através de contatos, um tio o manda para a capital para treinar e ser policial. Corrupção é um dos temas do filme, presente desde o início, mas Trapero não se limita focando em determinado assunto. Na verdade, tudo parece existir de forma muito natural, o filme não chama atenção para nada em particular, ficamos apenas com a história do rapaz, suas relações e como isso vai operando mudanças no personagem.

Já "Família Rodante", impossível não fazer a comparação com "Pequena Miss Sunshine", porque ambos trazem famílias viajando de kombi. Mas a diferença é enorme. Enquanto no filme americano os personagens parecem existir para cumprirem funções bem específicas de roteiro, no filme argentino há aquela diversidade que é tão característica de uma família de verdade. Os personagens são revelados em pequenos gestos, Trapero filme com a câmera bem de perto, dando uma sensação de proximidade saudável, porque nunca julga as ações dos mesmos.

Descobri, depois de ter visto o filme, que a avó da família (responsável pela viagem feita) é interpretada pela própria avó de Trapero, o que pode explicar o respeito e a graça das situações, dando um ar de obra muito pessoal (e o filme começa com uma dedicatória "a minha família rodante"), mas desde o filme anterior percebe-se que a marca do diretor é a do registro minimalista, de um olhar ético, de uma preocupação com o cotidiano e só a partir daí é possível apreciar e tentar entender a vida e as relações que nos marcam.

Vendo estes dois filme é inevitável não pensar em como se trata de um cinema que infelizmente não encontra semelhanças no cinema brasileiro. Coisas da Globo Filmes estão sempre lá mostrando uma beleza plástica da vida de gente vazia e desinteressante. A complexidade (que vem das coisas simples no cinema de Trapero) passa longe. Mesmo nos nossos melhores filmes, há quase sempre um registro de denúncia, algum aspecto que chama a atenção para si. A única exceção que vejo no cinema brasileiro recente é o Cão Sem Dono, do Beto Brant.

Enfim, que venha o "Leonera", do Pablo Trapero. Já aguardo ansioso. Um diretor a se aguardar com expectativa alta.

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