quarta-feira, 30 de julho de 2008

O Sucesso a Qualquer Preço



Finalmente foi lançado em dvd uma pequena peróla dos anos 90: “O Sucesso a Qualquer Preço”, de James Foley, um filminho amargo que chama a atenção pelos diálogos (roteiro de David Mamet) e pelo excelente elenco, todo masculino (Jack Lemmon, Al Pacino, Ed Harris, Kevin Spacey, Alan Arkin, Alec Baldwin).


O filme se passa durante uma noite e a manhã seguinte, quando um grupo de vendedores de imóveis precisa se virar para terminarem bem na disputa criada pela própria empresa, onde o melhor vendedor ganhará um Cadillac, o segundo lugar ganhará um jogo de facas e o terceiro vai para o olho da rua. De estrutura quase teatral (é baseado numa peça do próprio Mamet), o filme se resume a conversas entre os personagens (basicamente em dois ambientes: o escritório onde trabalham e um bar) e suas tentativas fracassadas de vender via telefone. Sendo assim, texto e elenco devem ser afiados para manter o espectador interessado.


Tem sido comum nos últimos anos filmes que abordam os efeitos nocivos do trabalho nas relações humanas e a perversidade que surge das estruturas do mercado cada vez mais competitivo: "A Agenda", "O Corte", "O Adversário", "As Loucuras de Dick e Jane", o novo "A Questão Humana" e tantos outros. Cada um deles, a seu modo, traz situações pertinentes de como o trabalho, além de enobrecer o homem, pode corrompê-lo ou mesmo destruí-lo. "O Sucesso a Qualquer Preço" foi lançado há 16 anos e parece estar mais atual do que nunca, abordando as mesmas questões que estes filmes, já com uma acidez e pessimismo bastante incômodos.




Ao limitar o espaço e o tempo do filme, Foley e Mamet nos sufoca com a rotina de trabalho desses vendedores, que recebem as dicas da matriz sobre os compradores de terreno em potencial, em sua maioria pessoas que por motivos diversos preencheram uma ficha em algum lugar demonstrando interesse por algum imóvel e que, na verdade, não querem comprar nada. O problema é que para receber novas e melhores dicas da empresa, eles precisam fechar essas vendas e acompanhamos o desespero que isso gera.


Não há exatamente um protagonista no filme, mas é o personagem de Jack Lemmon quem ocupa mais tempo de tela, um vendedor experiente que se considera numa maré de azar e não tem conseguido concluir vendas. As estratégias de venda do personagem, suas frustrações e humilhações talvez sejam o exemplo máximo do tipo de relações perversas que a lógica do mercado determina e o espectador pode se sentir mal pelo vendedor, tamanha a crueldade do sistema. Ajuda o fato de Lemmon ser brilhante (venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza) e encarnar com perfeição um personagem que, se merece toda nossa compaixão, também sabe viver neste mercado, como em uma cena em que humilha o personagem de Kevin Spacey, que administra o escritório mesmo sem experiência nenhuma em vendas.


Em uma participação especial que não deve durar mais do que cinco minutos, Alec Baldwin tem o seu melhor momento da carreira (até viver Jack Donaghy em "30 Rock", obviamente), representanto toda a arrogância e desumanidade das organizações, que exigem unicamente que seus funcionários sejam produtivos não até o seu próprio limite, mas o necessário para vender, vender e vender. Já Al Pacino, tem em suas mãos personagem e texto perfeitos para exercer todo o talento e histrionismo que lhe é peculiar, com gestos e tom de voz que viraram marca registrada do ator nos anos 90 (não a toa foi indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante por este papel no mesmo ano em que venceu na categoria principal por "Perfume de Mulher"), interpretando o único vendedor do escritório que tem se dado bem e que, no filme, joga toda sua lábia e discurso filosófico para garantir mais uma venda (a "vítima" sendo vivida por Jonathan Pryce).




Completando o elenco, Ed Harris e Alan Arkin, também vendedores que vêem as coisas com pontos de vistas diferentes. Na verdade, todo o elenco parece representar tipos específicos a fim de dar conta da complexidade de relações que podem surgir de ambiente tão sufocante e alienante.


Discutindo a moralidade não só das empresas, mas de seus funcionários, "O Sucesso a Qualquer Preço" termina numa nota amarga, sem trazer soluções fáceis ou agradáveis, e apontando com grande eficácia a realidade degradante das relações trabalhistas, baseadas no lucro e na prosperidade. Um filme a ser descoberto pelos cinéfilos.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Listas

Enquanto não escrevo sobre os últimos filmes que vi, inspirado pelo Moviola Digital, acrescento aí no layout do blog minha listinha de melhores filmes deste e do ano passado. De 2008, um top 20 que, obviamente, estará mudando até o fim do ano. O desejo é que as primeiras posições sejam constantemente alteradas, claro.

Já de 2007, um top 10 doído, de onde eu tive que deixar de fora filmes como "Ratatouille", "As Leis de Família", "Medos Privados em Lugares Públicos", "Piaf", "Zodíaco", "Planeta Terror" e outros que certamente cometi o pecado de não me lembrar. Mas acho que listas só servem mesmo pra isso: pra cometermos injustiças.

Pensei também em colocar as listas de piores, só para ter o gostinho de "reverenciar" porcarias como "Babel", "O Cheiro do Ralo", "A Vida dos Outros", "Batismo de Sangue", "Perfume", "Transformers", "Caótica Ana" e "O Orfanato". Mas quanto mais rápido estes filmes caírem no esquecimento, melhor.

Editando: Acrescentei ao top 10 de 2007 a última temporada de Sopranos, acima de todas as coisas, sem classificação. Sempre foi muito mais do que uma série de tv, rivalizando com o que de melhor o cinema produziu na última década. Seu fim foi absolutamente genial e pra ficar pra História.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Tempo Que Resta


Com os últimos dias sem ter visto filmes (mas os 27 episódios da segunda temporada de Boston Legal não foi pouco), só vale a pena escrever alguma coisa sobre “O Tempo Que Resta”, um dos últimos que vi, juntamente com “Conversas com Meu Jardineiro” e “Jogo de Vida ou Morte”.


Só que estes dois não me agradaram: o primeiro, um francês chato que se resume ao próprio título, ou seja, várias conversas entre um artista e seu jardineiro, ex-colega de infância, sem o mínimo de inventividade e com aquela coisa já meio clichê nesse tipo de filme que é discutir temas profundos a partir de diálogos banais do dia a dia – deve agradar aos fãs do “cinema de arte”; o segundo, uma bobagem sem tamanho que junta dois grandes atores de gerações diferentes (Michael Caine e Jude Law) para um suposto jogo de gato e rato, só que não é tão surpreendente ou interessante como o diretor Kenneth Branagh parece achar que é.


Já “O Tempo Que Resta”, de François Ozon, é muito bom. A trama é simples e batida: um homem de 31 anos descobre que tem um câncer incurável. O resto é conseqüência dessa descoberta e acompanhamos o que ele faz nesse tempo que lhe sobra. Não há grandes dramas, importantes questões a resolver, nada disso. O filme é extremamente simples, evita ao máximo o pieguismo, acreditando que o fato de assistirmos a alguém morrendo já é suficientemente dramático. Os conflitos com familiares ou namorado (o protagonista é gay) são comuns e podem ou não serem resolvidos. Uma outra trama (que tem relação com o bonito cartaz) surge lá pelo meio do filme e dá uma sensação maior de incompletude, coisa que pode frustrar muitos espectadores. Visto de outra forma, é um filme que respeita a idéia do tempo que resta, incapaz de ser plenamente realizado quando se é tão jovem, e a busca de sentido e paz para aceitar o inevitável. O final é belíssimo.


Ozon realmente trata tudo com muito respeito e sem sensacionalismo, a ponto de uma cena explícita de sexo entre dois homens ser filmada com bastante sentimento, sem o objetivo de chocar. O elenco também é ótimo, dominado obviamente por Melvil Poupaud, que consegue expressar todo o medo, irritação e demais sentimentos e emoções que vive o protagonista. O ator que faz seu pai e a musa do cinema francês Jeanne Moreau no papel de sua avó protagonizam as seqüências mais sensíveis. A bela (e comportada) trilha sonora completa um filme que, se não chega a ser uma obra-prima, é um dos mais belos dramas recentes.

sábado, 19 de julho de 2008

Dark Knight Fever


Não, este post não é um comentário sobre "O Cavaleiro das Trevas". Só devo ver o novo filme do Batman quando sair em dvd, no final do ano. Isso porque o Moviecom, a única e péssima empresa de cinema que tem aqui, lançou uma cópia dublada do filme. E aí não dá.


Mas estou impressionado com a sensação que virou este novo filme, que já ganhou status de "obra-prima" antes mesmo de ser lançado e que neste fim de semana certamente quebrará alguns recordes de bilheteria: atualmente, nos EUA, é o Homem-Aranha 3 o filme que mais arrecadou no fim de semana de estréia (incríveis 151 milhões de dólares), mas parece que o novo Batman deve fazer algo em torno dos 160 milhões. E a que se deve isso?


Claro que no final das contas, não importa quanto um filme arrecada, mas sim o que ele nos causou, mas acho muito interessante tentar entender esses fenômenos, até porque a forma que percebemos um filme muitas vezes é influenciada por esses fatores: pode-se amar uma obra por conta de todo o marketing envolvido ("Po! É o novo filme do Batman que até a crítica tá babando! Difudê..."), como pode-se odiar, seja por uma antipatia que muitos têm com tudo que nos é empurrado goela abaixo, seja pra ser do contra mesmo. Fato é que às vezes fica difícil avaliar uma obra como essa apenas pelo que está ali na tela.


No caso de "O Cavaleiro das Trevas", não é só a brilhante campanha de marketing, que envolve cartazes geniais e excelentes trailers. Acredito que a morte de Heath Ledger tenha sido o principal catalisador dessa febre que virou o filme. Claro que de qualquer forma ia ser um dos filmes mais assistidos do ano. Mas duvido muito que se Ledger estivesse vivo, o filme seria o que certamente vai ser: um recordista e a maior bilheteria do ano. E isso não se deve ao fato de ter morrido um ator querido e talentoso, mas (talvez a morbidez de tudo isso) ter morrido o cara que fez o Coringa, aquele personagem sádico, feio, tão facilmente associado a morte, ao bizarro, ao macabro. E possível suicídio, como foi o caso de Ledger, é bizarro, macabro. As pessoas estão indo em massa ver o último trabalho de um ator, mas na verdade o motivo maior é saciar uma curiosidade mórbida, de ver um filme novinho com alguém que já não está entre nós, e ainda mais interpretando um símbolo do mal, ainda que seja um símbolo inofensivo, um personagem de história em quadrinhos. Na época da morte do ator, houve até a suposição absurda de que interpretar o Coringa teria mexido psicologicamente com ele, o que só comprova nosso fascínio pelo macabro e como a arte do entretenimento é tão levada a sério pela nossa sociedade.





Seja como for, "O Cavaleiro das Trevas" acabou juntando toda uma campanha de marketing brilhante, com o fator Heath Ledger e possivelmente bastante qualidade, ou ao menos o suficiente para impressionar platéias e críticos mundo afora, que na sua maioria só tem elogios a fazer ao filme. De minha parte, enquanto não vejo o filme, perdi um pouco de tesão quando soube que a censura era 12 anos, o que não condiz com a aura sinistra e pesada passada pelo trailer que vi, ou pela própria imagem aterrorizante do Coringa. A censura está obviamente ligada a uma necessidade de mercado e só vou poder imaginar que filme teríamos caso o diretor Christopher Nolan pudesse ter a liberdade de fazer algo mais adulto. Também fico com um pé atrás com a duração: um filme do Batman não precisa de 150 minutos, mas essa é uma praga presente em todo filme-evento de Hollywood atualmente. A auto-importância que os produtores e diretores dão a esses filmes (penso em Piratas do Caribe e o último Homem-Aranha) não os permite trabalharem com menos de 120 minutos. Viva o Shyamalan, que nos presenteou com desconcertantes 90 minutos de cinema!


Mas vou parar por aqui os pré-julgamentos. Quando o filme chegar em dvd, volto a falar sobre ele.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Fim dos Tempos


Quase tão interessante quanto discutir os filmes de Shyamalan, é tentar entender porque público e uma certa crítica “especializada” reagem tão negativamente a sua obra. Porque “Fim dos Tempos” é mais um filme incrível em sua carreira grandiosa e, no entanto, vem recebendo críticas até piores que “A Dama na Água”, que já havia sido bastante condenado.


Para mim, a experiência de ver “Fim dos Tempos” foi a de um estranhamento que fascina, comparada com o que senti vendo “A Vila” pela primeira vez. Assim, nem sei bem o que dizer a respeito deste novo filme, ainda fresco e marcante em minha memória e que, sem dúvida, merece uma revisão na tentativa de as coisas ficarem mais claras. Só não sei se essa revisão virá logo, porque o péssimo cinema da cidade diminuiu a intensidade da experiência, com projeção de som e imagem que não fazem jus ao filme.


Esse estranhamento (acompanhado certamente de um maravilhamento) se deve ao fato de que os últimos filmes de Shyamalan exigem uma reflexão sobre o porquê vemos filmes, quais as expectativas que temos, por que temos essas expectativas e por que um filme tem que corresponder a elas. Porque me parece que seus filmes só podem ser apreciados com uma espécie de “reeducação do olhar”, especialmente porque Shyamalan trabalha dentro de um esquema que envolve grandes custos e espera-se um retorno que só pode vir de um público que já tem expectativas bem definidas, e aí incluo essa tal crítica “especializada” que espera uma certa lógica e verossimilhança na história ali contada, rechaçando qualquer projeto de cinema que saia desta formatação que estamos habituados.


Na verdade, fiquei até surpreso quando acabou o filme, porque não entendi críticas tão duras. Mesmo gostando de "A Dama na Água", compreendi porque foi tão criticado, já que Shyamalan investe numa trama de conto de fadas bastante ingênua para o mundo cínico que vivemos. Mas se tivesse visto "Fim dos Tempos" antes de todo mundo, acho que nunca suspeitaria que o filme pudesse ser tão massacrado. Pessoas correndo do vento é mais ridículo que pessoas correndo de monstros feitos por computador? O tal "acontecimento" é mais absurdo e tolo do que um homem que se veste de morcego (!!) para combater o crime? Ninguém percebe que as atuações estão acima do tom desde o início do filme e que isso só pode ser proposital (até por já conhecermos a excelência de alguns dos atores e das atuações em filmes anteriores do diretor)? Toda a seqüência com a velha é mesmo sem sentido e nada acrescenta ao filme? E se for assim (o que discordo), por que precisaria acrescentar?


Shyamalan se utiliza do filme de gênero (de suspense, de terror, de ficção científica), mas o desdramatiza, esvazia-o de sentido (ao menos o sentido clássico ou habitual que já estamos acostumados) para reconstruí-lo de acordo com seus interesses. E que interesses seriam? Acredito que uma nova relação com a imagem, com a força que surge da encenação, dos planos criados, do efeito sensorial causado. Porque, ainda que as pessoas fiquem na superfície criticando o roteiro de "Fim dos Tempos", não é possível negar o brilhantismo de muitas de suas seqüências, de corpos caindo de um edifício, passando pelo magnífico travelling em que pessoas se matam usando a mesma arma ou a forte cena em que os dois garotos morrem com tiro de espingarda.


Essas e outras tantas imagens já tornariam o filme especial, mas não vejo só isso. Para além da tal denúncia que Shyamalan supostamente estaria fazendo ao descaso do homem com o meio ambiente, vejo as temáticas que tanto o perseguem em seus filmes, que é a atribuição de responsabilidade, da necessidade de um entendimento das coisas que supera a razão, da fé no homem como ser de relação e a importância da comunicação.


Eu teria mais coisas a falar sobre o filme, mas como disse antes, é preciso fazer uma revisão. Sei que o espectador, em geral, sai do cinema meio que parecido com aqueles cientistas e comentaristas que vemos no filme tentando responder e enquadrar o "acontecimento" nos esquemas existentes para que o todo de alguma forma faça sentido. E aí, tentando enquadrar o filme, este se torna ruim. Acho que "Fim dos Tempos" necessita de um novo olhar.


O bom, para os fãs de Shyamalan, é que Hitchcock (uma de suas inspirações mais evidentes) também era extramente criticado na época em que fazia seus filmes. Talvez seja questão de tempo para que o indiano seja admirado como deve.


(Observação: antes do filme passou o trailer de "O Nevoeiro", filme que comentei abaixo e que disse que seria lançado diretamente em dvd. Parece que me enganei e deve estrear no próximo mês. Só não sei se isso vai adiar o lançamento nas locadoras.)



sábado, 12 de julho de 2008

O Nevoeiro (The Mist)



Uma agradável surpresa foi ter visto "O Nevoeiro", novo terror de Frank Darabont, adaptado de obra de Stephen King. O filme chegará diretamente em DVD no Brasil em Setembro, uma má notícia, já que merecia ser visto nos cinemas, onde os sustos e o clima de suspense sempre são maiores por serem compartilhados entre um grupo de pessoas.


Darabont parece ser o cara certo a adaptar Stephen King para o cinema. Ambos parecem ter uma sintonia muito grande, e dessa parceria já saíram o muito bom "Um Sonho de Liberdade" e o muito ruim "À Espera de um Milagre", ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme. Não vou entrar nos méritos do primeiro, mas "O Nevoeiro" reforça algumas coisas já sentidas em "À Espera de um Milagre": que o diretor não é eticamente confiável, utilizando com talento os recursos mais maniqueístas possíveis para que o espectador sinta-se bem com a morte daqueles que (segundo nós mesmos) merecem. O problema é que o filme com Tom Hanks é um drama "sério" sobre a pena de morte, enquanto "O Nevoeiro" tem ares de filme de terror B, e sua visão de mundo condenável acaba não sendo tão relevante. Ou deveria ser, mas confesso que acabei me divertindo mais do que me chocando com o fascismo do diretor.


A tempestade anuncia o que está por vir...


Não vou me alongar na sinopse, porque uma história de Stephen King sempre traz um ponto de partida interessante para se afundar nas suas conclusões, na maioria das vezes, ruins. O que importa em "O Nevoeiro" é a viagem e não o destino, muito embora é o final do filme que está sendo vendido como a grande sensação da obra.


Mas o filme se passa em uma pequena cidade invadida por um nevoeiro após uma forte tempestade que deixa o local sem energia elétrica. Mas não se trata de um simples nevoeiro... e não sou eu quem vai dizer o que acontece, mas o fato é que Darabont cria um crescendo impressionante de terror e suspense, desde o início do filme, que torna irrelevante todos os aspectos ruins presentes.


... o nevoeiro que vêm...


Porque, sim, há muita coisa risível no filme, a começar pelo elenco, especialmente péssimo. O protagonista, particularmente, um tal de Thomas Jane (que fez "O Justiceiro") é de doer na alma, e são dele as cenas dramáticas mais importantes. Os diálogos também não contribuem e, juntando-se a um uso muito tosco de CGI, talvez a defesa da obra é que a proposta seja mesmo se tratar de um filme B dos mais divertidos.


... e engole a cidade...



Algo que me chamou a atenção é como o filme gasta um tempo incomum para mostrar os personagens sem acreditar no que está acontecendo, o que me lembrou ideologicamente "Cloverfield" e a nossa obsessão por imagens para acreditarmos no real. "O Nevoeiro" também investe tempo na representação de uma microsociedade, através de personagens que se tornam a Lei e a Religião do local, com comentários ácidos para ambos os lados. Para além de todo terror recheado de sangue e cenas escatológicas, trata-se também de um filme político que o fascismo de Darabont acaba prevalecendo.


O ponto central do filme talvez seja a personagem de Marcia Gay Harden, uma religiosa fundamentalista que rapidamente se torna a figura mais irritante em cena, cujo discurso irá gerar conseqüências mais assustadoras que o próprio nevoeiro, beirando o absurdo e exigindo do espectador total adesão ao que ocorre na tela. A crítica aos movimentos religiosos é forte, mas é de se perguntar se o objetivo era realmente este ou um outro moralmente indefensável, que é gerar na platéia alguns dos sentimentos mais terríveis que o ser humano pode ter. Porque, pelo que já li em fóruns sobre o filme, é isso que acontece.


... e esconde o horror.


Já o final tão comentado do filme, é realmente corajoso e seria muito mais forte se tivéssemos bons atores em cena. O problema é que a resolução parece reforçar justamente o discurso que o filme todo parecia condenar, o que me leva a crer que o Frank Darabont é um fundamentalista cristão dos mais cretinos (até porque, me disseram, o final da obra de King é diferente). No entanto, trata-se de um cretino com talento para manipular emoções. Os sustos e a tensão não param, o caos é construído de forma exemplar, a ponto de deixarmos pra lá as explicações bobas que o filme tenta dar para o que acontece. Depois de "O Nevoeiro", acho que Darabont deveria se restringir aos filmes de terror.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Pretty Handsome

Este período do ano é a época dos "vazamentos" das emissoras de tv norte americanas. É quando os pilotos das principais novas séries da temporada (que começa em Outubro) começam a vazar na internet. Claro que não passa de uma jogada de marketing: como o download de séries é algo bastante popular, as emissoras liberam o primeiro episódio de suas principais apostas na esperança de que isso atraia uma maior audiência para seus novos produtos, em um mercado cada vez mais competitivo.


O caso mais curioso desta temporada é o de "Pretty Handsome", a nova série de Ryan Murphy. O piloto foi produzido pela Fox para exibição no canal fechado FX, que desistiu de exibi-la. O episódio, então, acabou sendo disponibilizado na internet com o objetivo de gerar interesse no público e, com isso, a série ganhar uma nova casa para ser exibida. A desistência do FX e a dificuldade de se encontrar uma emissora para a exibição da série, deve-se ao seu tema polêmico: a transexualidade.



Joseph Fiennes e a calcinha. Um pouco grande demais?



“Pretty Handsome” traz como protagonistas dois atores conhecidos no cinema: Joseph Fiennes (Shakespeare Apaixonado) e Carrie-Anne Moss (a Trinity de Matrix). Fiennes interpreta um ginecologista bem sucedido, com esposa (Moss) e dois filhos, e esconde um segredo: desde criança tem um prazer especial em se vestir de mulher, a ponto de ser obcecado em comprar e usar calcinhas sem que a esposa saiba. Esta situação começa a se tornar insustentável, quando a falta de sexo começa a incomodar a esposa, ao mesmo tempo que recebe como paciente uma mulher com características masculinas e que quer remover seu aparelho reprodutor feminino e, assim, ter uma vida completa com sua esposa, um transexual.


Se esta sinopse já traz drama suficiente para enriquecer e polemizar o piloto de uma série, o episódio ainda nos apresenta outras tramas: o filho mais velho, de 18 anos, que esconde de todos a gravidez de sua namorada, já com 8 meses; o filho caçula, de 10 anos, super dotado, precoce também na sua sexualidade (com os hormônios a toda, o garoto procura mulheres mais velhas, acessa sites pornográficos e não mede esforços para ter um encontro marcado virtualmente). Além do melhor amigo do filho mais velho, que nutre por ele um amor que pode ser mais do que apenas amizade. Ou não, já que ele também não esconde o interesse sexual que tem pela mãe do amigo...


Completando a família, temos os pais do protagonista: uma mãe dondoca que se preocupa apenas com aparências, e o pai com quem compartilha a clínica e o trabalho, mas não os mesmos preceitos morais, sendo totalmente contra a cirurgia de mudança de sexo, mas tem um caso extraconjugal.




O piloto da série consegue equilibrar muito bem todos esses elementos em um episódio mais longo que o habitual (pouco mais de uma hora). O roteiro traz um bom número de seqüências interessantes, que enriquecem a discussão, como uma apropriada festa de Halloween (onde o protagonista pode exercer seu desejo de ser mulher e ser aceito por todos), diálogos carregados de ambigüidade e um final belíssimo envolvendo cavalos marinhos. Do lado negativo, não gostei de um recurso utilizado em que a filmagem é substituída por uma imagem digital, provavelmente com a intenção de tornar o drama mais realístico ou realçar o psicológico dos personagens. Não acho que há necessidade, a narrativa acaba ganhando uma montagem epiléptica e também parece não haver critérios para o uso deste recurso, ora com o objetivo de nos mostrar um flashback, ora para encenar uma situação imaginada pelo personagem (situação bastante clichê nas séries, tendo sido realmente eficiente, pelo que me lembro, apenas em "A Sete Palmos"), ora para enfatizar uma cena mais dramática. Acredito que se a série tiver futuro, isso seja um maneirismo a se deixar de lado.


O piloto cumpre muito bem o papel de gerar expectativa em quem assiste. É de se imaginar o que pode acontecer a partir daí, uma vez que não fica claro até que ponto o protagonista está insatisfeito com seu corpo. É apenas um caso de crossdresser, travestismo ou ele gostaria mesmo de “mudar” de corpo (caracterizando a transexualidade)? Seja como for, o tratamento dado não é sensacionalista, algo que já era de se esperar vindo de Ryan Murphy.



Troca de papéis sexuais. Mas só no Halloween.


Murphy é o responsável por “Nip/Tuck”, uma das séries mais cultuadas dos últimos anos, que aborda o mundo das cirurgias plásticas, destilando ironia e sarcasmo sobre a obsessão do homem por corpos bonitos e perfeitos, aliados a uma boa dose de dramas humanos. A série também chama a atenção pelo conteúdo sexual mais ousado para os padrões televisivos, além de inúmeras seqüências de cirurgia bastante explícitas, um trabalho impecável e impressionante de maquiagem. Para mim, “Nip/Tuck” atingiu seu ápice na segunda temporada (quando venceu o Globo de Ouro de Melhor Série Dramática) e o resto é "ladeira abaixo", chegando ao cúmulo da mediocridade na quarta temporada, quando desisti de vê-la.



Família reunida. E um Cavalo Marinho.


Ver "Pretty Handsome" deu a sensação de estar acompanhando a história de personagens saídos de "Nip/Tuck", até porque esta série já trouxe, mais de uma vez, histórias envolvendo travestis e transexuais. Este novo projeto, no entanto, parece querer ir um passo além, não só por colocar este como o tema principal, mas a própria idéia de um homem bonito, galã de cinema como Joseph Fiennes certamente é, tendo este desejo "marginal", normalmente tido no cinema e na tv por pessoas não tão bonitas assim. Nesse sentido, a série pode ser considerada inovadora e é uma pena que talvez não saia deste piloto, o que já comprova algo mostrado mais de uma vez no episódio: o preconceito, o medo e a intolerância com o tema.


Como disse um jornalista americano: sexo vende; trans-sexo, não.


sábado, 5 de julho de 2008

WALL-E



Faz apenas uma semana que "Wall-E" invadiu os cinemas do planeta, mas já se tornou um dos fenômenos do ano. Difícil encontrar um blog ou site de cinema que não tenha dado atenção ao filme, geralmente com os comentários mais positivos possíveis. Nos EUA, alguns críticos já iniciaram uma campanha para que o novo produto da Pixar seja reconhecido pelos membros da Academia do Oscar na categoria de Melhor Filme e não deixá-lo relegado a Melhor Animação (que já é a primeira premiação certa do Oscar do ano que vem).


Essa paixão por "Wall-E" não é por acaso. Já é fato que os filmes da Pixar se destacam de todas as outras animações feitas em Hollywood, tanto pela qualidade técnica (com riqueza visual impressionante), quanto pelos roteiros que sempre trazem discussões pertinentes sobre nosso mundo. A genialidade está na capacidade de aliar uma típica animação para crianças (com personagens fofos e engraçados vivendo situações não muito complicadas) com tramas inteligentes que atingem o público adulto ao levá-lo a reflexão a partir das sutilezas que estão na tela.


Mas "Wall-E" parece atingir outro patamar. Não vou perder tempo descrevendo a trama ou como o filme se propõe a ser um comentário simples e inteligente sobre uma das grandes preocupações da humanidade hoje (a destruição do planeta decorrente do nosso descaso com o ambiente e o desenvolvimento tecnológico que deteriora as relações humanas). Isto já foi bastante discutido e comentado, e está no mesmo nível de excelência já praticado pela Pixar nos seus melhores momentos com outras temáticas (para mim, "Ratatouille" e "Os Incríveis", mas os demais são muito bons, com exceção de "Carros" que realmente não gosto). Também não falarei sobre o incrível mundo criado pelo filme, uma Terra apocalíptica que certamente já fica para a história como um dos mais assustadores já feitos pelo cinema.


O que me chama a atenção é a linguagem cinematográfica de "Wall-E". Numa época em que os filmes estão cada vez mais tomados por uma montagem acelerada, com overdoses de cortes que não nos deixa mais apreciar as imagens por muito tempo, e a necessidade de se fazer graça com diálogos espertos e piadas que remetem a cultura popular, os criadores de "Wall-E" têm a coragem de nos presentear com uma obra que em boa parte do tempo não tem falas, prendendo nossa atenção quase que exclusivamente através da montagem de suas imagens maravilhosas. É o perfeito exemplar de um cinema americano clássico.


O mais importante, talvez, é que essa estrutura narrativa do filme não foi feita como uma homenagem a determinado tipo de cinema ou, pior, uma paródia ou subversão para fazer humor. Há um resgate sincero de uma forma de filmar que quase não existe mais no cinema. Nesse sentido, Wall-E, o personagem, é quase chapliniano, na sua ingenuidade, doçura e graça realçadas por uma história narrada sem tiques moderninhos, com situações criadas que privilegiam os sons (trilha sonora incluída) e as imagens para nos manter interessados. Não é à toa que o personagem passa seus dias vendo um antigo musical ("Hello, Dolly", a internet me informa) em VHS: não só uma belíssima forma de colocar a arte como reflexo e atribuidora de sentido para nossos sentimentos, mas também uma valorização de formas clássicas de se expressar. E não há nada mais clássico na sétima arte do que o cinema mudo ou os musicais de hollywood.




Desta forma, a crítica de "Wall-E" ao nosso desenvolvimento tecnológico está mais voltada ao esquecimento de formas de se expressar e se relacionar que disso decorre. E mais importante, é a nossa própria postura ética que pode reverter esta questão, de modo que o filme não se limita a criar heróis e vilões, sendo o Auto-pilot apenas uma conseqüência dos atos humanos. Aliás, aqui cabe um parênteses para elogiar a caracterização do "vilão": a referência ao HAL9000 de "2001" é óbvia, mas o que me chamou a atenção foi uma rápida cena em que o Auto-pilot é filmado em silêncio, o exato momento em que ele é revelado como o vilão do filme, uma das muitas seqüências de "Wall-E" que falam tanto sem diálogo nenhum.





Por último, mas não menos importante, "Wall-E" é uma história de amor. Das mais lindas, porque o filme traz seqüências de pura beleza e poesia, como quando EVA vê a filmagem do que Wall-E fez por ela quando estava desligada, ou, a minha favorita, quando o capitão pede para o computador definir "Dança" e o casal baila no universo com a ajuda de extintores. E há também o encanto do protagonista, que não se resume a mais uma criação fofinha dentre tantas outras já criadas pelas animações: na maioria dos filmes (inclusive nos da Pixar), os personagens sempre têm grandes objetivos, muitas vezes nobres e/ou existenciais; Wall-E passa o filme TODO desejando apenas pegar na mão de EVA. Quem pode resistir a uma coisa dessas?


sexta-feira, 4 de julho de 2008

Bonitinhos, mas ordinários.

Comédia romântica, romance água com açúcar, draminha light. Essas são algumas formas de categorizar certos filmes, quando os clientes chegam na locadora querendo algo "pra passar o tempo". As mulheres adoram. Os homens levam, segundo eles, para ver com as namoradas ou esposas. O fato é que estes filmes recheados de clichês e com gente bonita sofrendo moderadamente de amor são sucessos absolutos, tanto quanto os filmes hollywoodianos de ação, como a melhor opção para "fugir da realidade do Jornal Nacional". Nada contra o gênero (ou qualquer outro), mas o lugar comum nestes filmes é EXTREMAMENTE comum, onde as exceções se destacam, invariavelmente, pelo carisma dos atores ou pelos diálogos um pouco melhor escritos e bem humorados.

Dito isto, é bom ver que três dos últimos lançamentos em DVD no Brasil são comédias românticas (ou "romances engraçadinhos"?) simpáticas que, se não chegam a ser geniais, ao menos saem um pouco deste lugar comum do gênero:

Um Lugar na Platéia - Sendo um filme francês, é claro que "Um Lugar na Platéia" tinha que ser algo mais sofisticado, o que não o impede de ser tão bobinho quanto os similares hollywoodianos. Cinéfilos que acham que é perda de tempo ver os "enlatados americanos" devem achar este a coisa mais fofa. É a história dos encontros e desencontros de personagens da classe artística em um bairro de Paris onde ocorrerá, na mesma noite, o último concerto de um grande pianista, a estréia da nova peça teatral de uma famosa atriz e um leilão de obras de arte de um colecionador que quer aproveitar sua velhice ao máximo. Tudo isto é acompanhado de perto por uma moça do interior que consegue um emprego de garçonete no café local. Claro, há os interesses românticos e as intrigas, mas nada de muito dramático, com um tom leve do início ao fim, foge um pouco dos clichês, e diálogos espertos ditos por gente da elite, intelectual e social, o que explica o sucesso do filme nas salas "de arte" do Brasil. É um biscoito fino, sem dúvida, mas nada além disso. De todo modo, é sempre bom ver comentários precisos sobre algumas coisas da vida, como o velho colecionador muito consciente de seu futuro, a engraçada atriz que luta por um reconhecimento que não tem na tv, ou o pianista cansado de ver sua arte admirada pelo seleto público dos concertos.

O Clube de Leitura de Jane Austen - Um grupo de mulheres forma um clube de leitura com a intenção de discutir toda a obra da escritora inglesa Jane Austen. O motivo para isso é que algumas delas estão sofrendo de amor e as amigas acham que revisitarem os livros de Austen - de quem todas são fãs - é a melhor idéia para saírem da fossa. Um rapaz nerd, fã de ficção científica, é o único homem do clube, convidado como estratégia de uma delas para que namore uma das amigas. Se este filme fosse lançado dez anos atrás, teria sido um sucesso: Austen estava na moda, quase 200 anos depois de sua morte, com adaptações de sucesso para o cinema, como "Razão e Sensibilidade" e "Emma". Lembro que na época um crítico americano chegou a dizer que os melhores diálogos escritos em Hollywood eram de Quentin Tarantino e Jane Austen. Como quase tudo no cinema é questão de moda, hoje esse filme passa desapercebido pelo público. Não que merecesse muito, mas achei uma delícia de se ver. É cheio de defeitos, com diálogos bobos e furos enormes. Por exemplo, o clube se encontra uma vez por mês para discussão de um livro da autora (ou seja, seis livros, seis meses), mas tudo que ocorre na vida dos personagens parece ocorrer em questão de dias, e tudo rodando em torno destes encontros mensais. Mas um elenco simpático, dramas bem construídos e as discussões em torno dos livros de Austen valem a conferida. Não que sejam discussões profundas, mas é bom ver um grupo de pessoas entusiasmado com uma arte e dando interpretações apaixonadas do que sentiram. Quem costuma fazer isso pela internet com certeza se identifica.

Um Divã em Nova York - Um filme em que homem e mulher vão se conhecer numa situação em que um está mentindo para o outro, o amor surge quase que à primeira vista, mas nenhum dos dois se declara e um desencontro dará o clímax do ato final. Este poderia ser o resumo de uma grande parte das comédias românticas, e "Um Divã em Nova York" seria uma delas. A diferença é que estes elementos fazem parte de uma trama que certamente muita gente achará absurda. Isso porque as pessoas do filme não parecem habitar este mundo. Há um estranhamento que percorre a narrativa desde o seu início, quando um famoso psicanalista (William Hurt) resolve tirar umas férias de seus loucos pacientes e, através de um anúncio no jornal, troca de apartamento com uma moça francesa (Juliette Binoche). Sem se conhecerem, ele vai para Paris e ela vai para Nova York, onde cuidará das plantas e do cachorro do psicanalista. Inverossímil? Não mais do que quando os pacientes do psicanalista resolvem continuar suas sessões de terapia com a francesa... A diretora Chantal Akerman é considerada uma das grandes cineastas da Europa, mas infelizmente não conhecia nada dela. Aqui o que ela parece fazer é uma subversão do gênero, onde apenas a estrutura de comédia romântica permanece. Aceitando a proposta do filme, é impossível não se divertir com o que acontece, em especial o sarro tirado com a psicanálise, quando a amiga de Binoche a ensina como um analista deve se comportar. No fim, é uma história de amor que celebra a importância da comunicação direta e do contato entre as pessoas.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Rapidinhas

Até por uma obrigação como dono de videolocadora, eu deveria estar vendo mais filmes novos. O problema, além de tempo, é a minha chatice de cinéfilo, que não me permite me submeter a certas coisas que eu tenho certeza que serão dolorosas de se ver. Então tenho visto pouco. E esse pouco que tenho visto só confirma meu argumento, infelizmente:

O Orfanato - Uma grande decepção. É quase inacreditável que a Espanha tenha selecionado esse suspense chinfrim para ser seu representante na disputa pelo Oscar de Filme Estrangeiro. Pior ainda é ver que teve gente que achou absurda a ausência do filme na seleção final. A história de fantasmas com crianças e casas mal assombradas é um velho clichê, mas sempre funciona quando os elementos de terror são bem construídos e narrados. Só que "O Orfanato" cai na besteira de dar importância demais à trama (que envolve violências do passado e fantasmas vingativos) e esquecendo-se de criar um clima mais sombrio e assustador, que é constantemente frustrado pelo excesso de informações e elementos francamente bizarros: uma criança "fofinha", uma velha misteriosa, uma caça ao tesouro, um teste de HIV positivo, uma festa a fantasia, um desaparecimento, uma médium, os meses que se passam, etc., etc. e etc., tudo embalado por uma bagunça de estilos, trilha sonora de terror alternando com uma mais melosa, câmera na mão, alternando com estática, situações dramáticas mescladas com cômicas... é o samba do crioulo doido! A única seqüência de genuíno terror é aquela em que a protagonista brinca de "1, 2, 3... bate, bate na parede", com a câmera colada no seu rosto, mas a conclusão desta cena é tão anticlimax, que eu acabei perdendo as esperanças de ver algo assustador no filme. Enfim, um desastre.

A Família Savage - Mais um drama independente americano com gente desajustada e seus problemas ordinários. Eu já estou de saco cheio, até porque há quase sempre um tratamento piedoso para com essas pessoas, que parecem clamar por nossa compaixão e rir um pouco com elas dessa vida tão difícil mas prazeirosa que temos. Coisa que já saturou com "Pequena Miss Sunshine". "Juno" talvez seja a única exceção recente desse tipo de cinema que realmente seja interessante, com uma postura ética admirável em relação a seus personagens. Na "Família Savage" há Laura Linney (indicada ao Oscar de Melhor Atriz por este filme) e Philip Seymour Hoffman dando boas interpretações, mas isso já era esperado de atores tão formidáveis. Não é um filme ruim. Só é uma nulidade.

Cloverfield - Muito melhor é este ótimo filme de monstro. Talvez eu tenha gostado tanto de "Cloverfield" porque a trama é absolutamente simples e batida, mas filmada de forma não convencional (tudo é visto pela câmera digital de um dos personagens que filma a invasão de um monstro a Nova York). E é um filme enxuto. Com pouco mais de 80 minutos, quando a ação começa, ela não pára mais e a criatividade na criação das situações e na inserção de elementos essenciais (como a informação de que além do monstro, há os monstrinhos) é incrível. O som também é algo fantástico no filme, que é corajoso o suficiente para não perder tempo dando justificativas desnecessárias e terminando da única forma possível. "Cloverfield" também é um belo retrato de nosso próprio tempo, marcado por uma obsessão pelo registro das coisas em imagens. Não é à toa que o personagem com a câmera na mão constantemente diz que está "documentando" o que ocorre (primeiro uma festa de despedida, depois a catástrofe). Nesse sentido, a cena emblemática é aquela em que várias pessoas empunham seus celulares e filmam e tiram fotos da cabeça da Estátua da Liberdade, que momentos antes havia sido jogada sensacionalmente em nossos protagonistas. Filmaço.

Carlos Reygadas

Pra variar, pouco tempo para filmes, mas nas últimas semanas acabei visitando alguns cineastas de interesse. Um deles é uma das sensações da atualidade, o mexicano Carlos Reygadas. Atualmente com o seu último filme, “Luz Silenciosa”, em cartaz nos cinemas “de arte” do Brasil, Reygadas é admirado com a mesma intensidade com que é odiado. Seus filmes têm aquela marca inconfundível de autor, com modos de filmar e tratar temas e seres humanos de forma bem particular, o que o fez ganhar muitos fãs e também detratores. Dentre os admiradores, está a organização do Festival de Cannes, que certamente foi a principal responsável pela divulgação dos três filmes já realizados pelo diretor (“Japón”, “Batalha no Céu” e “Luz Silenciosa”), em diferentes mostras – o último passou na mostra principal, inclusive.

Não vi “Japón”, o filme que lançou o nome de Reygadas no cinema, mas “Batalha no Céu” e “Luz Silenciosa” me causaram admiração e desconforto. O primeiro é uma crônica louca de amor, de gente excluída se afundando na própria merda (e também urina) e nas estruturas da sociedade mexicana. O protagonista, junto com a esposa, seqüestra uma criança, algo dá errado, a criança morre e precisam arcar com as conseqüências. No meio disso tudo, seu envolvimento com a filha de seu chefe, que é prostituta de luxo numa casa insuspeita situada em bairro nobre. Reygadas filma sexo explícito envolvendo corpos longe dos padrões de beleza habituais (protagonista e esposa são obesos), tipo de coisa que acaba polarizando comentários do tipo "feito pra chocar" ou "corajoso". De minha parte, acho que o filme peca pelo tratamento dado aos personagens, que mais parecem estar ali apenas como marionetes do cineasta, sem muitas possibilidades de expressarem vida, objetos que servem unicamente para expor as idéias de Reygadas sobre a situação de seu país. Mas há um cuidado todo especial em se narrar o filme, com enquadramentos precisos, ênfase no extracampo e tomadas longas que beiram o exibicionismo.

Essa idéia de exibicionismo fica mais forte no filme seguinte, "Luz Silenciosa". É a história de um homem casado e com filhos que não sabe o que fazer após se envolver com outra mulher e se apaixonar perdidamente. Esteticamente, o filme é lindo desde sua abertura. Há poucos diálogos e seqüências longas que valorizam o silêncio e a geografia do lugar (uma fazenda numa comunidade de menonitas imigrantes no México - informação que não existe no filme - que falam um dialeto alemão chamado Plautdietsc). O problema é que diante de tanta beleza, repete-se o tratamento dado aos personagens, que parecem zumbis em cena.

É interessante que o estilo de atuação nos filmes de Reygadas não está muito distante do encontrado nos filmes de Aki Kaurismaki ("O Homem Sem Passado"), ou seja, os atores falam pouco e atuam o mínimo possível. A diferença é que nos filmes do finlandês, a própria estrutura narrativa traz graça e leveza aos personagens, que acabam sendo carismáticos. Nos filmes de Reygadas, tudo é tão grandioso e chama a atenção para si, que os personagens acabam sendo sufocados. Não é a toa que as melhores seqüências de "Luz Silenciosa" envolvem o choro de dois personagens, raros momentos em que a emoção toma conta dos protagonistas. Só que no restante do filme a história de amor não parece nada crível. Exemplo máximo é a seqüência extremamente bem filmada, logo no início do filme, do beijo entre os amantes. Mas o beijo é tão frio que acaba sendo um "clímax" desastroso. Tão gélido quanto, é a discussão no piloto automático entre o protagonista e seu pai, acerca das obrigações familiares e da possibilidade de se viver um grande amor. E o filme segue assim, com uma paixão pelos planos e um descaso pelas pessoas. Há quem fique satisfeito com isso, mas eu não consegui me envolver com o que vi.

Acredito que essa adoração pelo Reygadas tem mais a ver com uma necessidade de se ver algo diferente nos cinemas, algo que privilegie novas formas de narrar e de filmar (ou velhas formas resgatadas, já que o diretor muitas vezes é comparado com o russo Andrei Tarkovsky). De minha parte, eu gostaria que toda essa beleza fosse acompanhada de um interesse real por gente, por personagens que não fiquem à mercê dos caprichos do diretor. Seja como for, Carlos Reygadas tem um domínio da linguagem cinematográfica lindo demais para ser ignorado. É um cineasta que a se acompanhar.