sexta-feira, 4 de julho de 2008

Bonitinhos, mas ordinários.

Comédia romântica, romance água com açúcar, draminha light. Essas são algumas formas de categorizar certos filmes, quando os clientes chegam na locadora querendo algo "pra passar o tempo". As mulheres adoram. Os homens levam, segundo eles, para ver com as namoradas ou esposas. O fato é que estes filmes recheados de clichês e com gente bonita sofrendo moderadamente de amor são sucessos absolutos, tanto quanto os filmes hollywoodianos de ação, como a melhor opção para "fugir da realidade do Jornal Nacional". Nada contra o gênero (ou qualquer outro), mas o lugar comum nestes filmes é EXTREMAMENTE comum, onde as exceções se destacam, invariavelmente, pelo carisma dos atores ou pelos diálogos um pouco melhor escritos e bem humorados.

Dito isto, é bom ver que três dos últimos lançamentos em DVD no Brasil são comédias românticas (ou "romances engraçadinhos"?) simpáticas que, se não chegam a ser geniais, ao menos saem um pouco deste lugar comum do gênero:

Um Lugar na Platéia - Sendo um filme francês, é claro que "Um Lugar na Platéia" tinha que ser algo mais sofisticado, o que não o impede de ser tão bobinho quanto os similares hollywoodianos. Cinéfilos que acham que é perda de tempo ver os "enlatados americanos" devem achar este a coisa mais fofa. É a história dos encontros e desencontros de personagens da classe artística em um bairro de Paris onde ocorrerá, na mesma noite, o último concerto de um grande pianista, a estréia da nova peça teatral de uma famosa atriz e um leilão de obras de arte de um colecionador que quer aproveitar sua velhice ao máximo. Tudo isto é acompanhado de perto por uma moça do interior que consegue um emprego de garçonete no café local. Claro, há os interesses românticos e as intrigas, mas nada de muito dramático, com um tom leve do início ao fim, foge um pouco dos clichês, e diálogos espertos ditos por gente da elite, intelectual e social, o que explica o sucesso do filme nas salas "de arte" do Brasil. É um biscoito fino, sem dúvida, mas nada além disso. De todo modo, é sempre bom ver comentários precisos sobre algumas coisas da vida, como o velho colecionador muito consciente de seu futuro, a engraçada atriz que luta por um reconhecimento que não tem na tv, ou o pianista cansado de ver sua arte admirada pelo seleto público dos concertos.

O Clube de Leitura de Jane Austen - Um grupo de mulheres forma um clube de leitura com a intenção de discutir toda a obra da escritora inglesa Jane Austen. O motivo para isso é que algumas delas estão sofrendo de amor e as amigas acham que revisitarem os livros de Austen - de quem todas são fãs - é a melhor idéia para saírem da fossa. Um rapaz nerd, fã de ficção científica, é o único homem do clube, convidado como estratégia de uma delas para que namore uma das amigas. Se este filme fosse lançado dez anos atrás, teria sido um sucesso: Austen estava na moda, quase 200 anos depois de sua morte, com adaptações de sucesso para o cinema, como "Razão e Sensibilidade" e "Emma". Lembro que na época um crítico americano chegou a dizer que os melhores diálogos escritos em Hollywood eram de Quentin Tarantino e Jane Austen. Como quase tudo no cinema é questão de moda, hoje esse filme passa desapercebido pelo público. Não que merecesse muito, mas achei uma delícia de se ver. É cheio de defeitos, com diálogos bobos e furos enormes. Por exemplo, o clube se encontra uma vez por mês para discussão de um livro da autora (ou seja, seis livros, seis meses), mas tudo que ocorre na vida dos personagens parece ocorrer em questão de dias, e tudo rodando em torno destes encontros mensais. Mas um elenco simpático, dramas bem construídos e as discussões em torno dos livros de Austen valem a conferida. Não que sejam discussões profundas, mas é bom ver um grupo de pessoas entusiasmado com uma arte e dando interpretações apaixonadas do que sentiram. Quem costuma fazer isso pela internet com certeza se identifica.

Um Divã em Nova York - Um filme em que homem e mulher vão se conhecer numa situação em que um está mentindo para o outro, o amor surge quase que à primeira vista, mas nenhum dos dois se declara e um desencontro dará o clímax do ato final. Este poderia ser o resumo de uma grande parte das comédias românticas, e "Um Divã em Nova York" seria uma delas. A diferença é que estes elementos fazem parte de uma trama que certamente muita gente achará absurda. Isso porque as pessoas do filme não parecem habitar este mundo. Há um estranhamento que percorre a narrativa desde o seu início, quando um famoso psicanalista (William Hurt) resolve tirar umas férias de seus loucos pacientes e, através de um anúncio no jornal, troca de apartamento com uma moça francesa (Juliette Binoche). Sem se conhecerem, ele vai para Paris e ela vai para Nova York, onde cuidará das plantas e do cachorro do psicanalista. Inverossímil? Não mais do que quando os pacientes do psicanalista resolvem continuar suas sessões de terapia com a francesa... A diretora Chantal Akerman é considerada uma das grandes cineastas da Europa, mas infelizmente não conhecia nada dela. Aqui o que ela parece fazer é uma subversão do gênero, onde apenas a estrutura de comédia romântica permanece. Aceitando a proposta do filme, é impossível não se divertir com o que acontece, em especial o sarro tirado com a psicanálise, quando a amiga de Binoche a ensina como um analista deve se comportar. No fim, é uma história de amor que celebra a importância da comunicação direta e do contato entre as pessoas.

4 comentários:

mi do carmo. disse...

Eu, de verdade, gostei de Um divâ em NY.
É bizarro, estranho, o povo é excêntrico..mas eu adorei. Divertidissimo! E sim, Binoche é linda de morrer!

Bjos.

Rafael Carvalho disse...

Ei Hélio, beleza? Desses aí só vi Um Lugar na Platéia e não gostei tanto assim. Bobinho e que nem me deixou tantas lembranças, mas pelo menos é consciente de sua proposta light, ou como você mesmo disse de seus "romances engraçadinhos". Abração!!

Rafael Carvalho disse...

E sobre o Wall-E, não vai escrever nada não?

Wally disse...

Não cheguei a ver nenhum desses, mas tenho uma especial vontade de ver O Clube de Leitura de Jane Austen, por adorar o elenco e a escritora Austen. Verei em breve. ;)

E às vezes, esses simples filmes conseguem valer ouro. De bonitinhos ou apenas ordinários, obras apaixonantes!

Ciao!

ps: te linkei lá no Cine Vita