sábado, 16 de agosto de 2008

Cinema é só cinema?

Lendo a estranhíssima notícia sobre a possível mudança de data da estréia de "Harry Potter e o Enigma do Príncipe" (de novembro agora para julho de 2009) e as reações dos fãs a isto, fiquei aqui pensando como as pessoas têm levado o cinema de entretenimento com uma seriedade assustadora.

A notícia é estranha porque nunca ouvi falar de um filme-evento como este ser adiado de última hora, ainda mais que a data é confirmada com mais de um ano de antecedência. No site do UOL, leio duas possíveis justificativas para isso, ambas rídiculas: a primeira diz que o motivo da alteração é para que o filme não concorra nas bilheterias com "Quantum of Solace", o novo James Bond. Um absurdo, já que o 007 estréia duas semanas antes e o público certamente não é o mesmo.

A segunda hipótese seria o sucesso de "O Cavaleiro das Trevas" que inspirou a Warner praticar uma campanha de marketing semelhante para o verão americano do ano que vem. Faz pouco sentido, já que os filmes de Harry Potter sempre têm bilheteria inicial parecida. Afinal, é a mesma platéia que corre pra ver os filmes no primeiro fim de semana. E me desculpem o humor negro, mas a não ser que o Daniel Radcliffe morra, não vejo como o filme pode chamar mais atenção do que já tem.

Mas o que me motivou a escrever este post foi as reações dos fãs do bruxo, que já estão ameaçando boicote (me engana que eu gosto), passeatas e até mesmo rebelião (!!).

Mês passado, foi postado no blog do Inácio Araújo, um texto seu sobre "O Cavaleiro das Trevas", onde ele conclui que o filme é "chato, ruidoso e reacionário". Inácio Araújo escreve para a Folha de São Paulo e é um dos melhores e mais importantes críticos de cinema que o Brasil tem/já teve, e seu blog, que não recebe muitos comentários, teve com este post 151 comentários, em sua maioria aberrações.

Um show de horrores em que se agredia o crítico com pérolas como "você não entende nada de cinema", "filme bom pra você deve ser Velozes e Furiosos", "Agora qualquer um pode ser crítico" e ofensas pessoais e descabidas. A falta de argumentação dos fãs de Batman que se manifestaram só rivalizava com a grosseria e falta de respeito com a opinião alheia.

E agora leio o desespero dos fãs de Harry Potter e reforça o que tenho pensado ultimamente: As pessoas não têm mais o que fazer? O cinema de entretenimento (e qualquer outro) é tão importante assim nas nossas vidas?

Vemos diariamente tragédias das mais absurdas, inclusive crianças entrarem em cinemas e escolas e promover chacinas. Parece que não falta muito para aparecer um adolescente matando o amigo porque este achou o novo filme do Homem-Aranha ridículo. Ou acidentes graves envolvendo multidões de jovens ensadecidos invadindo a Warner, caso ela jogue o novo Harry Potter para 2010. É só lembrar que alguns meses atrás, uma adolescente do Norte do Brasil matou a mãe quando esta não a deixou ir a um show da banda Calypso (e como "indústria cultural", não vejo distinção nenhuma entre Calypso, Batman ou Harry Potter).

Neste sentido, e de forma bem mais amena, vejo muita gente em minha cidade irritada com o fato de "O Cavaleiro das Trevas" ter chegado dublado no péssimo Moviecom que tem aqui. Muita, mas MUITA gente aqui faz questão de ver filmes legendados, mas só uma pequena parcela dessas pessoas deixou de ir ao cinema. Os que foram ver argumentam "Não gosto de dublado, mas é o jeito" ou "odeio filme dublado, mas não resisti" ou ainda "poxa, é ruim dublado, mas tinha que ver o filme".

E acho engraçado (mas na verdade é trágico): É o jeito POR QUE? Não resistiu POR QUE? TEM QUE VER POR QUE?! A impressão que dá é que as pessoas morrerão caso não vejam o filme da semana, que a grande máquina de marketing do filme possui um super satélite que com um único raio dizimará os infiéis que se recusarem a ir ao cinema ver a mais nova e fantástica obra-prima jamais realizada. E como conseqüência óbvia, os filmes dublados continuarão chegando por aqui porque, afinal de contas, as pessoas PRECISAM ver os filmes, de qualquer jeito, oras.

Como dono de videolocadora, até estou acostumado com esse imediatismo, essa necessidade pelo que é novo antes que pereça. É óbvio que os filmes "lançamentos" são os mais procurados, mas às vezes tenho vontade de perder a compostura quando um cliente chega no sábado à noite, por exemplo, e diz que naquele horário "não deve ter mais nada de bom pra alugar". De vez em quando até alfineto e digo que filmes bons existem muitos, mas os NOVOS (que nem por isso são bons, claro) realmente estão alugados. Mas tento manter a educação. É incrível como o filme que chegou em dvd 6 meses atrás já não interessa a muita gente, só porque ele não está mais naquela prateleira escrita LANÇAMENTOS.

O mesmo vale no cinema: em Maio, era o Homem de Ferro a grande sensação, depois veio Speed Racer, Cronicas de Narnia, Indiana Jones, Wall-E... e a cada semana, o anterior parecia coisa do passado, só importava ver e falar sobre o último grande filme em cartaz. Prova disso? Só depois de quase dois meses, o filme "Sex and the City" estreou por aqui e o que li no orkut foram pessoas reclamando "agora que não tem mais GRAÇA, o moviecom lança o filme aqui". Ou em outras palavras, para que eu quero ver um filme que já existe há dois meses?!

Enfim, são coisas que passam pela minha cabeça de vez em quando, essa loucura que o cinema de Hollywood provoca nas pessoas. Já virou clichê parafrasear o Coringa, mas... why so serious?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Melhores Filmes da Década de 90 - #7



7. Rosetta, de Jean & Luc Dardenne (1999)







Quando “Tudo Sobre Minha Mãe” foi lançado no Festival de Cannes de 99, ninguém duvidava que o filme de Pedro Almodovar sairia com a Palma de Ouro, um reconhecimento que o maior festival de cinema do mundo nunca havia dado ao cineasta espanhol.


Mas para surpresa geral, o júri (presidido por David Cronemberg) acabou elegendo um pequeno filme chamado “Rosetta” como o melhor da Mostra Oficial. Quem viu tinha achado muito bom. O problema é que poucas pessoas se prestaram a esse serviço e, felizmente, a decisão do júri acabou chamando a atenção para o filme de dois irmãos belgas, Jean e Luc Dardenne, que a partir daí se tornaram nomes essenciais do cinema atual, com uma autoria bastante reconhecível depois de mais dois outros grandes filmes também lançados e reconhecidos em Cannes: “O Filho”, em 2002 (prêmio do Júri Ecumênico e Melhor Ator) e “A Criança”, em 2005 (outra Palma de Ouro). O novo filme dos irmãos, “O Silêncio de Lorna”, apesar de não ter empolgado a crítica presente em Cannes, acabou levando o prêmio de Melhor Roteiro este ano.


O início de “Rosetta” já chama a atenção para o tipo de cinema que os Dardenne se propõe: através de uma câmera na mão bem próxima a uma garota, acompanhamos uma situação nervosa em que ela acaba de ser demitida. Pegamos a coisa toda em andamento, o que estabelece um dos elementos chave dos irmãos, que é a incompletude. Os filmes dos Dardenne não partem de um início bem definido, assim como não se concluem, não há um fechamento. São
trajetos na vida de personagens que passam por um aprendizado, um amadurecimento diante da vida, quando têm que tomar posicionamentos perante situações difíceis ou aceitar as conseqüências de suas próprias escolhas. No caso da jovem Rosetta, a dificuldade em conseguir um emprego e sustentar a casa, onde vive com sua mãe alcoólatra.


A câmera na mão e próxima a protagonista também é uma marca dos Dardenne. Não é à toa o título do filme ser o nome da personagem. A câmera não se separa dela em nenhum momento, criando uma intimidade incrível com o espectador, que chega a sentir a respiração de Rosetta. A montagem também é seca, as longas tomadas não são interrompidas por planos e contraplanos que normalmente são utilizados para um enquadramento melhor ou para ressaltar algum elemento de cena (ou close-ups), não há trilha sonora e a vida pulsa na tela, sem muitos artifícios.


Toda essa técnica torna os filmes dos Dardenne uma fascinante experiência cinematográfica, muito rara no cinema atual. Mas o que torna seus filmes obras-primas é essa linguagem a serviço de tramas verdadeiramente humanas e sensíveis, com um olhar ético e distante da moralidade de julgar as atitudes de seus personagens. As decisões tomadas pela protagonista nem sempre são as mais apreciadas pelo espectador, que acaba se encontrando na desconfortável posição de condená-la (ou quem sabe apoiá-la) e, assim, revendo seus próprios valores. É um cinema que põe em xeque a moral e os relacionamentos humanos produzidos por ela, mas sempre apostando no perdão como forma de seguir adiante. O final de "Rosetta" (assim como nos outros filmes dos irmãos) é belíssimo e é uma catarse emocional bem diferente do que se costuma ver por aí, eficaz justamente pela oportunidade que tivemos em estar com a personagem o tempo todo do filme.


Infelizmente, "Rosetta" não existe em dvd no Brasil. O filme só chegou aqui por meio de festivais de cinema da época e vergonhosamente não foi comprado por nenhuma distribuidora. Os filmes seguintes dos diretores, no entanto, podem ser encontrados: "O Filho" saiu pela Warner, e "A Criança" saiu pela Imovision. Quem não conhece, recomendo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Melhores Filmes da Década de 90 - #8



8. Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodovar (1999)




Não lembro se vi “Tudo Sobre Minha Mãe” no cinema ou quando foi lançado em VHS. O fato é que isso foi há quase nove anos e ainda assim sua lembrança foi forte o suficiente para colocá-lo neste top 10. Revendo agora para escrever um pouco a respeito, só lamento de não tê-lo colocado numa posição melhor.


Pedro Almodovar já era um diretor admirado nos anos 80, quando era mais conhecido pela irreverência e escracho, associado a um cinema “kitsch” que primava pelo senso de humor debochado e situações e personagens inusitados, sempre com a sexualidade em questão. Mas nos anos 90, o diretor se destacou por uma mudança no tom: suas histórias se tornaram melodramas mais sérios, o deboche deu lugar a uma sensibilidade mais apurada, as cores, embora sem perder sua identidade latina, mais sóbrias.


“Tudo Sobre Minha Mãe” é o grande filme dessa sua fase “madura”, muito embora seus filmes anterior (“Carne Tremula”, que acho muito bom) e posterior (“Fale com Ela”, que acho obra-prima) a este, também tenham muitos admiradores. O feito maior do cineasta aqui talvez seja a incomparável capacidade de narrar uma trama pesada e cheia de ramificações quase apelativas (morte, doação de órgãos, prostituição, travestis, aborto, aids e drogas) numa síntese perfeita, longe do pieguismo, mas emocionalmente forte o suficiente para levar o espectador às lágrimas, característica essencial de todo bom melodrama.


Almodovar também é conhecido pelo seu talento em filmar mulheres e o universo feminino, e “Tudo Sobre Minha Mãe” é o seu ápice nesse sentido, numa homenagem à força da mulher com personagens femininos que sofrem durante todo o filme, mas que conseguem alguma dignidade e respeito através da união, compaixão e a vontade de viver e reafirmar a vida diante de tanto sofrimento. Uma das inúmeras qualidades do filme é não tentar despertar no espectador piedade por essas mulheres, posicionamento ético de Almodovar que ainda defende o perdão e o respeito às diferenças. É um filme que emociona até mesmo quando um personagem que fez tanto mal às protagonistas segura um bebê no colo, no que em outra obra poderia se tornar um acerto de contas dos mais vingativos.


Ajuda muito o elenco espetacular do filme, encabeçado por Cecilia Roth, uma das grandes atuações da década. Mas há espaço para todas as mulheres de Almodovar brilharem: a veterana Marisa Paredes, Penelope Cruz em início de carreira e a grande revelação Antonia San Juan, no papel do hilário travesti Agrado, que não perde o bom humor nem nas piores situações, resumindo um pouco algumas boas idéias do filme. É de Agrado, inclusive, uma das melhores frases do filme: “Você é mais autêntica quanto mais se parece com o que sonhou para si”.


“Tudo Sobre Minha Mãe” também se destaca pelo rigor técnico de Almodovar, sendo seu filme mais apurado até então. Da fotografia estupenda (com um vermelho dominante com função dramática no filme) à bela trilha sonora, tudo funciona numa unidade impressionante, que comprova o incrível domínio que o cineasta possui da linguagem cinematográfica.


Bom lembrar também como a trama se articula através da homenagem a outras obras de artes (algo com muito mais intensidade no filme seguinte, “Fale com Ela”), como a peça de Tenesse Williams “Um Bonde Chamado Desejo” e o clássico “A Malvada”, de onde Almodovar pega emprestado o título (“All About Eve” no original) e uma subtrama envolvendo o relacionamento entre as personagens de Roth e Paredes (antecipado pela bela imagem da foto acima).


Cinema de lágrimas da mais alta qualidade.


quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Filmes vistos em Julho

Um rápido intervalo no top 10 dos anos 90 para listar os filmes vistos no mês passado. Foram 25 filmes, número que só foi possível por conta das férias da faculdade. Mais ou menos em ordem de preferência:

As obras-primas

1. O Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami (1997)
2. O Vento nos Levará, de Abbas Kiarostami (1999)
3. Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson (1997)
4. Imitação da Vida, de Douglas Sirk (1959)
5. Paixões que Alucinam, de Samuel Fuller (1963)


Os grandes

6. Close-Up, de Abbas Kiarostami (1990)
7. Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson (2007)
8. Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan (2008)
9. A Questão Humana, de Nicolas Klotz (2007)
10. Vida e Nada Mais, de Abbas Kiarostami (1991)
11. ABC Africa, de Abbas Kiarostami (2001)
12. The Addiction, de Abel Ferrara (1995)
13. WALL-E, de Andrew Stanton (2008)
14. Five, de Abbas Kiarostami (2002)
15. O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley (1992)
16. O Tempo Que Resta, de François Ozon (2006)


Os legais


17. Onde Fica a Casa de Meu Amigo?, de Abbas Kiarostami (1987)
18. Fuga de Nova York, de John Carpenter (1981)
19. Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami (1994)
20. O Nevoeiro, de Frank Darabont (2007)
21. Hellboy, de Guillermo del Toro (2004)
22. Um Divã em Nova York, de Chantal Akerman (1996)


Os medíocres

23. Conversas com Meu Jardineiro, de Jean Becker (2007)
24. The Cutting Edge: The Magic of Movie Editing, de Wendy Apple (2004)
25. Jogo de Vida ou Morte, de Kenneth Branagh (2007)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Melhores Filmes da Década de 90 - #9


9. Trainspotting - Sem Limites, de Danny Boyle (1996)







Foi nos anos 90 que uma certa estética MTV chegou de vez no cinema, influenciando a linguagem narrativa de uma geração de cineastas, marcada por uma montagem acelerada, telas que congelam, malabarismos com a cronologia, estilização e outros truques moderninhos.


“Trainspotting” talvez seja o melhor exemplar dessa geração, justamente porque o universo que o filme de Danny Boyle aborda está intimamente ligado a essa linguagem moderna: são os jovens de classe média e o mundo das drogas, a falta de sentido em suas vidas preenchida pela diversão e experiências sem limites. Tudo sem julgamentos, filmado alegremente e sem moralismos, aspecto que incomodou um juiz brasileiro que, na época do lançamento do filme, quis proibir sua exibição no país, alegando que fazia apologia às drogas. Uma bobagem, obviamente.

A abertura de “Trainspotting” já dá o tom exato do que veremos, com a já clássica narração em off do protagonista, Mark Renton (Ewan McGregor já se estabelecendo como futuro astro), fazendo um inventário das coisas que atualmente nos tem definido como seres humanos: a casa, o carro, a porra de uma televisão gigante, etc. Choose Life.


O que vem em seguida é uma série de seqüências antológicas , desagradáveis e fascinantes, com as soluções visuais e de montagem mais divertidas e surpreendentes possíveis. Aliadas a uma trilha sonora que vai de Bach a Iggy Pop, formam um painel empolgante da juventude representada por Renton e seus amigos, que acompanhamos se drogando, passando pela fase de abstinência, tendo recaídas e, por fim, reinserindo-se na sociedade (modo de vida/viver que não deixa de ser alfinetado também).


Dentre as cenas memoráveis do filme, impossível não destacar a verdadeira viagem ao inferno de Renton em um vaso sanitário de um bar (culminando em alucinações e delírios incríveis) ou sua fase de abstinência com direito a um bebê andando pelo teto de seu quarto. O bebê, aliás, é responsável pela cena mais forte do filme, cuja narração de Renton respeita o impacto causado, mostrando que Boyle, apesar de fazer um filme divertido, sabe quando deve ser irônico e quando deve ser respeitoso, desnorteando o espectador que porventura possa não estar levando aquilo a sério. A AIDS também é um tema que surge, aparecendo sem muita justificativa, e o filme quase escorrega no moralismo, mas a rapidez dos eventos não permite maiores interpretações.


“Trainspotting” também se beneficia de personagens coadjuvantes bastante divertidos, como o amigo fanático por 007, o que não usa drogas mas é extremamente violento, o abobalhado um tanto “lerdo das idéias” e um traficante chamado Madre Teresa.


O cinema americano dos anos 90 foi marcado por uma série de filmes jovens que tentaram retratar sua própria época com olhares cínicos e irônicos para o estado das coisas atuais. O filme de Boyle certamente é um dos grandes nesse sentido, por dramatizar uma linguagem que em outras mãos serviria unicamente ao choque ou ao exibicionismo técnico. Danny Boyle já havia mostrado ser um grande diretor com seu filme anterior, “Cova Rasa” (inexplicavelmente não lançado em dvd no Brasil ainda), e com “Trainspotting” sedimentou de vez seu talento, muitas vezes bizarro (o que se seguiu foram filmes tão diferentes e estranhos quanto “Por uma Vida Menos Ordinária”, “A Praia”, “Extermínio”, “Caiu do Céu” e “Sunshine”), mas sempre de interesse. No entanto, seus dois primeiros filmes continuam sendo os melhores e mais vigorosos. “Trainspotting”, principalmente, acaba me fascinando por ser tão excitante e divertido. É um filme que também vi várias vezes na época de seu lançamento e eu não poderia deixar de fora da minha lista de melhores da década passada.

domingo, 3 de agosto de 2008

Melhores Filmes da Década de 90 - #10

A SBBC está divulgando a lista dos 10 melhores filmes da década de 90, em votação realizada entre os blogueiros que fazem parte do grupo. Listas de melhores do ano já não são muito fáceis de fazer, imagine selecionar dezfilmes de toda uma década. Como comparar obras muitas vezes tão diferentes entre si, com propostas tãodistintas? Qual critério a se utilizar? Os filmes que mais me afetaram ou que também transformaram a históriado cinema?

Como eu já disse em post anterior, listas só servem para cometermos injustiças com quem fica de fora, mas claro que não poderia deixar de participar da brincadeira. O top 10 que enviei talvez não faça justiça a outros grandes filmes da década ou mesmo a filmes que na época me afetaram mais do que estes que escolhi, mas tentei equilibrar entre grandes filmes de importância cinematográfica e de relevância pessoal (filmes, obviamente, que eu vi e que não correspondem a boa parte do que de importante foi realizado pelo mundo – mas sobre isso escrevo em outro post).

Vou tentar escrever sobre cada um dos meus eleitos, fazendo um post pra cada. Como dois diretores entraram na lista com dois filmes, escreverei sobre eles em um post só. Começando então pelo décimo lugar:

10. Todos Dizem Eu Te Amo, de Woody Allen (1996)



Foi no início dos anos 90 que Woody Allen se envolveu em um escândalo, quando sua esposa Mia Farrow descobriu seu caso com uma das filhas adotivas dela. Muitos acharam que seria o fim de uma carreira brilhante, que havia atingido seu ápice na década anterior com pérolas como “Hannah e suas Irmãs”, “A Rosa Púrpura do Cairo”, “A Era do Rádio” e “Crimes e Pecados”.
Ledo engano: o mestre novaiorquino continuou em grande forma nos anos que se seguiram, com sua incrível marca de um filme por ano e nos brindando com maravilhas como "Um Misterioso Assassinato em Manhattan", "Tiros na Broadway" e "Desconstruindo Harry".

É provável que muitos fãs de Allen considerem estes últimos bem superiores a "Todos Dizem Eu Te Amo", o primeiro (e até agora único) musical na carreira do diretor. Eu também acho que "Tiros na Broadway" e "Desconstruindo Harry" são mais complexos, inventivos e respeitáveis. Mas se é para reverenciar um dos meus cineastas prediletos (apesar de não gostar de sua atual fase), eu só poderia escolher este filme bobo, gracioso e quase desleixado que, na época do lançamento em VHS, eu vi várias vezes.

Muita gente condena Woody Allen pela "imoralidade" de trair sua esposa com a filha adotiva (que, dizem, chamava ele de pai), mas uma coisa é certa: "Todos Dizem Eu Te Amo" não poderia ter sido realizado se o diretor não estivesse completamente apaixonado por sua mais nova (nos dois sentidos) mulher. O filme exala este sentimento que deixa qualquer pessoa boba, sorrindo à toa e cantando descompromissadamente. Daí que mais do que apropriado um musical onde o grande elenco (Edward Norton, Julia Roberts, Alan Alda, Goldie Hawn, Drew Barrymoore, Tim Roth, Natalie Portman, o próprio Allen) canta e dança, em sua maioria sem talento algum para isso.
As canções são clássicos americanos, algumas com letras tolas que falam do amor e da alegria de viver e que Allen encena em seqüências surpreendentes, do mais puro desleixo (Norton comprando uma aliança para a namorada) ao tecnicamente impecável (a bela e poética dança de Allen e Hawn no final do filme, com direito a efeitos especiais), ou a junção das duas coisas (um velório em que fantasmas cantam para os vivos "aproveitarem enquanto é tempo").

Os personagens são apresentados pela narradora do filme (a atriz Natasha Lyonne que nunca mais fez algo expressivo), filha de família de classe alta que, logo de cara, nos informa que este não se trata de um musical comum. Todos tem suas particularidades: a socialyte que procura projetos sociais para passar o tempo (como clamar por prisões melhor decoradas); o marido cuja lamentação maior é ter um filho republicano (e a solução do conflito entre os dois é hilária); o ex-marido que não consegue manter uma esposa por muito tempo (a última, ninfomaníaca, tinha "um probleminha com fidelidade"); as filhas adolescentes que descobrirão um amor em comum; a filha mais velha que descobre um novo grande amor a cada esquina, etc.

O que esses e outros personagens têm em comum é o vírus do amor. Parece que uma epidemia toma conta do filme de Allen, e eles cantam, dançam, choram e até se recusam a amar novamente (a linda "I´m Thru With Love", algo como "cansei do amor", é cantada por metade do elenco). Tudo isso não só em meio a canções e seqüências musicais divertidas, mas com diálogos que só o humor ácido e inteligente de Allen pode criar. O diretor, inclusive, esbanja comentários sobre sua própria vida, como na hilária fala em que seu personagem aconselha a filha "It's better to be the leaver than the leavee, 'cause the leaver leaves you know, but the leavee is left, which is terrible". Na verdade, eu poderia listar inúmeras grandes falas e situações do filme que, pra mim, entram como grandes momentos de humor de toda a já absurdamente enorme carreira cômica de Woody Allen.
O roteiro também consegue amarrar todas as subtramas muito bem. O fato é que "Todos Dizem Eu Te Amo" transparece uma simplicidade e ingenuidade ímpar na carreira do diretor, mas mesmo o aparente desleixo tem por trás uma construção de roteiro e situações brilhante. Tudo isso para homenagear um gênero essencial do cinema americano que, na época, estava morto ("Evita" saiu no mesmo ano e só anos depois surgiriam "Moulin Rouge", "Chicago", "Hairspray", etc.) e que talvez seja a maior expressão do que significa estar "in love".

Mesmo tão pequeno, só um grande mestre em estado de graça poderia realizá-lo. Para mim, um filme inesquecível.