terça-feira, 5 de agosto de 2008

Melhores Filmes da Década de 90 - #9


9. Trainspotting - Sem Limites, de Danny Boyle (1996)







Foi nos anos 90 que uma certa estética MTV chegou de vez no cinema, influenciando a linguagem narrativa de uma geração de cineastas, marcada por uma montagem acelerada, telas que congelam, malabarismos com a cronologia, estilização e outros truques moderninhos.


“Trainspotting” talvez seja o melhor exemplar dessa geração, justamente porque o universo que o filme de Danny Boyle aborda está intimamente ligado a essa linguagem moderna: são os jovens de classe média e o mundo das drogas, a falta de sentido em suas vidas preenchida pela diversão e experiências sem limites. Tudo sem julgamentos, filmado alegremente e sem moralismos, aspecto que incomodou um juiz brasileiro que, na época do lançamento do filme, quis proibir sua exibição no país, alegando que fazia apologia às drogas. Uma bobagem, obviamente.

A abertura de “Trainspotting” já dá o tom exato do que veremos, com a já clássica narração em off do protagonista, Mark Renton (Ewan McGregor já se estabelecendo como futuro astro), fazendo um inventário das coisas que atualmente nos tem definido como seres humanos: a casa, o carro, a porra de uma televisão gigante, etc. Choose Life.


O que vem em seguida é uma série de seqüências antológicas , desagradáveis e fascinantes, com as soluções visuais e de montagem mais divertidas e surpreendentes possíveis. Aliadas a uma trilha sonora que vai de Bach a Iggy Pop, formam um painel empolgante da juventude representada por Renton e seus amigos, que acompanhamos se drogando, passando pela fase de abstinência, tendo recaídas e, por fim, reinserindo-se na sociedade (modo de vida/viver que não deixa de ser alfinetado também).


Dentre as cenas memoráveis do filme, impossível não destacar a verdadeira viagem ao inferno de Renton em um vaso sanitário de um bar (culminando em alucinações e delírios incríveis) ou sua fase de abstinência com direito a um bebê andando pelo teto de seu quarto. O bebê, aliás, é responsável pela cena mais forte do filme, cuja narração de Renton respeita o impacto causado, mostrando que Boyle, apesar de fazer um filme divertido, sabe quando deve ser irônico e quando deve ser respeitoso, desnorteando o espectador que porventura possa não estar levando aquilo a sério. A AIDS também é um tema que surge, aparecendo sem muita justificativa, e o filme quase escorrega no moralismo, mas a rapidez dos eventos não permite maiores interpretações.


“Trainspotting” também se beneficia de personagens coadjuvantes bastante divertidos, como o amigo fanático por 007, o que não usa drogas mas é extremamente violento, o abobalhado um tanto “lerdo das idéias” e um traficante chamado Madre Teresa.


O cinema americano dos anos 90 foi marcado por uma série de filmes jovens que tentaram retratar sua própria época com olhares cínicos e irônicos para o estado das coisas atuais. O filme de Boyle certamente é um dos grandes nesse sentido, por dramatizar uma linguagem que em outras mãos serviria unicamente ao choque ou ao exibicionismo técnico. Danny Boyle já havia mostrado ser um grande diretor com seu filme anterior, “Cova Rasa” (inexplicavelmente não lançado em dvd no Brasil ainda), e com “Trainspotting” sedimentou de vez seu talento, muitas vezes bizarro (o que se seguiu foram filmes tão diferentes e estranhos quanto “Por uma Vida Menos Ordinária”, “A Praia”, “Extermínio”, “Caiu do Céu” e “Sunshine”), mas sempre de interesse. No entanto, seus dois primeiros filmes continuam sendo os melhores e mais vigorosos. “Trainspotting”, principalmente, acaba me fascinando por ser tão excitante e divertido. É um filme que também vi várias vezes na época de seu lançamento e eu não poderia deixar de fora da minha lista de melhores da década passada.

2 comentários:

Rafael Carvalho disse...

Faz tanto tempo que eu vi Trainspotting que nem me lembro direito da história e não tenho recordações sólidas do filme. Não sei nem dizer se gostei ou não na época. Preciso revê-lo urgentemente e sei o quanto muita gente adora esse filme. E também gosto de alguns outros trabalhos do Boyle. Cova Rasa é bem pop, Extermínio é eletrizante e Sunshine me deixou deslumbrado. E não sei se é uma coisa só minha, mas eu não consigo gostar de Caiu do Céu, acho por demais infantil. A Praia é uma piada. É isso, valeu Hélio!!!

Wally disse...

Um dos melhores filmes sobre o submundo das drogas. É um filmaço intenso, provocativo e subersivo. Original, ácido e entretenimento forte. Adoro cada segundo e cada atuação. Muito bom mesmo! E Cova Rosa também, sensacional!

Ciao!