segunda-feira, 20 de outubro de 2008

São Paulo - Dia 4

Depois do fraco sábado, veio um glorioso domingo na Mostra, com três muito bons e uma obra-prima que dispensa maiores apresentações.



12. Amigos de Risco, de Daniel Bandeira - Arrisquei ver este filme pernambucano apenas por sua sinopse (dois amigos na madrugada de Recife tentando carregar um terceiro amigo em overdose para um hospital), que é algo que só vai acontecer na metade da trama. Foi uma grata surpresa, ainda que não tenha sido possível vê-lo na cópia oficial. O diretor apresentou o filme pedindo desculpas pelo extravio da cópia e que estaríamos vendo a "cópia zero", com a imagem um pouco inferior. Não fez mal. "Amigos de Risco" é o tipo de filme que eu gostaria de ver mais vezes no nosso cinema nacional. É um filme de gênero, pois o percurso dos protagonistas é recheado de ação e suspense, mas com a realidade brasileira pulsando na tela o tempo todo. Ou seja, não se pretende denunciar nada nos impondo uma visão da sociedade, e nem é algo que maqueia a realidade. É divertido, há discussões morais e éticas, mas não chama a atenção para si ou para o discurso. Os atores estão bem, embora no início parece não haver um despojamento, com atuações que estão longe da naturalidade tão explorada em "Feliz Natal", por exemplo. Mas o que cativa mesmo está nos detalhes: clonagem de cartão, pedintes que "guardam" o carro, bordéis com putas nada confiáveis, greve de ônibus, a atividade noturna de uma capital... Tudo funciona de maneira orgânica a serviço de um roteiro que explora os limites de uma amizade. Não alcança os níveis de brilhantismo e relevância de "O Invasor", mas vale a pena uma conferida. (Nota 4)


13. Chove em Nosso Amor, de Ingmar Bergman - Meu primeiro e talvez único filme de Bergman na Mostra (os horários e distância dos cinemas são infelizes). É um dos primeiros de sua carreira e desta fase eu só havia visto "Monika e o Desejo". Ambos têm em comum o fato de girarem em torno de casais que idealizam um futuro perfeito, mas que constantemente são atravessados pela dura realidade. A chuva do título na verdade é uma verdadeira tempestade que assola os protagonistas, dois estranhos que após um encontro no trem se relacionam e resolvem morar juntos, cada um com seu passado misterioso. É um filme agradável e gostoso de se ver, bem distante das pancadas que são filmes como Sonata de Outono ou Gritos e Sussurros. Começa de forma parecida com as comédias americanas dos anos 30 para terminar de forma parecida com um filme de Frank Capra (daí ter gostado menos da parte final). Há um carinho pelos personagens que eu nunca havia visto nas obras do sueco. (Nota 4)


14. O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola - E lá estava eu em uma sessão para toda a vida. Uma tela gigante, sessão lotada com pessoas deitadas no corredor e eu muito bem posicionado em uma poltrona no meio da sala para ver uma das maiores obras de artes do século passado. O filme me faz arrepiar e emocionar desde a tela escura que dá início a saga, com a trilha de Nino Rota de fundo, título aparecendo e um "I believe in America", ainda na tela preta, pronunciado por Bonasera, homem que vai pedir um favor a Don Vito Corleone no dia do casamento de sua filha. A partir daí, um festival de seqüências inesquecíveis que ficaram para a história: a câmera que lentamente vai se afastando de Bonasera para mostrar parcialmente as costas do Don culminando naquele corte magnífico que nos revela um Marlon Brando preenchendo toda a tela; a exuberância do casamento de Connie que nos familiariza com os negócios e as relações da família; Michael explicando para Kay como seu pai conseguiu algo de alguém com "uma proposta que ele não pode recusar"; a cabeça de um cavalo; o atentado a Vito Corleone; Michael se fingindo de guarda-costas e descobrindo que suas mãos não tremem como as de Enzo, o padeiro; o atentado elaborado por Michael, com a câmera o enquadrando pela primeira vez como o futuro chefe da família; o atentado em si; a fuga para Itália; etc; etc; etc... Tudo é grandioso neste filme, a trajetória de Michael Corleone é impressionante, os valores morais de uma sociedade sendo corrompidos (a chegada do tráfico de drogas), a família como valor maior, tantos atores que brilham com atuações que acabaram deixando marcas nos seus trabalhos futuros (James Caan, Robert Duvall e, claro, Al Pacino). Ver essa restauração lindíssima numa tela gigante como a do Cinesesc já valeu toda a viagem. Só lamentei profundamente ter deixado para ver esta que foi a segunda e última sessão do filme na Mostra. Eu devia ter visto também a primeira, no dia anterior. (Nota... ãnh... sério?)
15. Alexandra, de Alexander Sokurov - Lição aprendida na Mostra: após uma maratona de filmes, nunca termine o dia com um filme de Sokurov. Embora nunca tinha visto um filme do cineasta russo, sabia que não era coisa fácil, mas lá fui eu ver sua última obra absolutamente exausto, com sono (já alguns dias tendo em média 5 a 6 horas de sono), e emocionalmente arrasado (sério, o filme do Coppola acaba comigo sempre). O resultado é que gostei muito do que vi, mas fiquei com a impressão que teria apreciado muito mais, se tivesse assistido em melhores condições. O filme exige bastante do espectador: seus primeiros 15 minutos são basicamente preenchidos pela protagonista Alexandra chegando a um acampamento militar na Chechênia. Alexandra é idosa, anda lentamente, os soldados precisam ajudá-la a subir em um trem, colocá-la dentro de veículos militares. Só depois descobrimos que esta senhora está indo visitar seu neto, soldado instalado nessa base. É possível que muita gente ache maçante, mas só a presença física desta senhora em um lugar que naturalmente não lhe pertence já é imagem forte o suficiente para sustentar o olhar. E o que se segue são as pequenas mudanças que vemos por conta desta presença estranha, sua conversa com os soldados, discussões sobre o sentido da guerra, sua bela relação com o neto. É fácil associar Alexandra com a pátria mãe (ou melhor, avó) Rússia, mas alegorias políticas vão além da minha capacidade de análise pelo estado em que me encontrava. É um filme que gostaria de rever, mas ficará para outra oportunidade (os horários são ruins). Foi o primeiro filme que vi por aqui que recebeu modestos aplausos no final, puxados por um espectador bastante empolgado. Aplaudir parece não ser característica do público da Mostra. (Nota 4)

3 comentários:

Kamila disse...

Hélio, que sorte a sua de estar na Mostra de SP, hein? Estou vendo que assistiu a excelentes filmes. Continue na maratona e boas sessões!!!

Wally disse...

Poxa, que grande impulsionada na mostra! Só por ter visto Godfather já me mata de inveja...boas sessões!

Ciao!

Rafael Carvalho disse...

Só não me esranha tanto esse tratamento mais leve e soft no filme do Bergman porque dessa fase inicial eu já vi justamente o primeiro fime dirigido por ele, Crise, e sei que essa sua fase é um tanto light (Chove em Nosso Amor, se não me engano, é o segundo dele).

E imagino a sesação de se assistir a O Poderoso Chefão no cinema em cópia restaurada. Nem posso pensar nisso que fico todo arrepiado.

E eu nunca vi nada do Sokurov. Nem os filmes da série sobre estadistas importantes, nem a trilogia sobre família (parece que se fecha com Alexandra), nem A Arca Russa, todo em plano-sequência. Talvez comece por esse Alexandra.