domingo, 26 de outubro de 2008

São Paulo - Dia 7

Com a Mostra consumindo todo meu tempo, tá difícil atualizar isso aqui. Não sei como jornalistas e críticos conseguem se manter "online" com um evento como este.
Enfim, na quarta-feira troquei o novo filme do Majid Majidi por mais um tempinho de sono, então foi um dia de apenas quatro filme:


26. A Rotina Tem Seu Encanto, de Yasujiro Ozu - O primeiro filme que vejo de um dos cineastas mais importantes da história e o último feito por ele, que morreu no mesmo ano (1962). Ao menos por este filme, uma quase comédia sobre um homem que percebe que precisa casar sua filha para que esta não envelheça cuidando dele, não é um cineasta de difícil assimilação. Ozu filma com câmera fixa, um pouco abaixo da altura dos personagens, que quase sempre estão sozinhos no quadro, olhando por sobre a câmera quando conversam entre si. Mas o que parece rigidez é só aparência mesmo, porque a vida acontece o tempo todo na tela, personagens em constante movimento nas situações mais banais filmadas por Ozu. E é dessa banalidade que se constrói a narrativa, engraçada e sensível, até ingênua demais para os dias de hoje. O diretor capta momentos, e destes momentos se faz a vida. O título é mais do que apropriado. (Nota 4)


27. Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte - Fui ver esse nacional sem saber do que se tratava e se eu soubesse que era protagonizado por Cauã Reymond, novo "galã" da Globo, eu teria passado longe. Mas que sorte eu não ter visto isso antes! Inacreditável dizer isso, mas Reymond está muito bem em um filme maravilhoso, certamente o filme nacional do ano. É a história de gente fudida: Reymond interpreta jornalista que vive de bicos, quase sempre sem ser pago, com milhares de contas a pagar, cuida de uma mulher bulímica e seu filho pequeno, além de viver com a empregada, que não recebe salário há quatro meses e só continua com ele porque pelo menos lá ela tem um teto. Ele vai conhecer Macim, personagem absolutamente fascinante de Caroline Abras, que vive como um homem, e trafica pequenas quantidades de drogas. Juntam-se a eles um motorista de Taxi (vivido pelo onipresente João Miguel), sempre carregando uma arma e que anda tendo "pensamentos estranhos", e logo, quando nada mais der certo, o jeito é passar para o outro lado da lei. O filme impressiona o tempo todo, Belmonte foge de todos os estereótipos possíveis e faz uma crônica do brasileiro médio que cada vez mais perde as esperanças de ter um lugar ao sol nesta nossa sociedade tão maravilhosa. Os personagens não são meras vítimas, a crueldade dos acontecimentos não trazem um cinismo e pessimismo típico de um "Cronicamente Inviável", a direção é constantemente inventiva, a trilha sonora é usada com brilhantismo (um assalto ao som de Saltimbancos certamente ficará para a história), a criança não está lá para ser engraçadinha (sua busca pela última figurinha do álbum do campeonato brasileiro, um jogador que desafiou os cartolas do futebol, é a grande metáfora do filme) e até a narração em off do Cauã Reymond é muito boa. Pasmém! Foi meu choque da Mostra. (Nota 5)


28. Horas de Verão, de Olivier Assayas - O filme abre com crianças brincando numa enorme casa de campo, para logo vermos que se trata de uma comemoração do aniversário de 75 anos de uma senhora, viúva, com três filhos e dona da obra de um grande pintor falecido, parente de seu marido. Muito belo, o francês "Horas de Verão" vai trabalhar sempre neste trânsito entre o novo e o velho, após a senhora morrer e seus filhos começarem fazer a repartição dos bens. Dois deles moram muito longe (a filha, nos EUA; um dos filhos, na China), então é inviável manter todas as obras de artes e a casa de campo que sempre pertenceu a família, para tristeza do filho mais velho, economista que mora em Paris e para quem sua mãe pede, logo no início do filme, para que a família mantenha todos estes pertences. A câmera de Assayas é de uma elegância incrível, planos que dão a idéia de movimento que se instaura na narrativa. O filme é sobre a preservação da memória, sobre a transmissão de valores, mas é também sobre mudança, transformação, e o grande mérito de Assayas é não se apegar a um pessimismo que não aceita a renovação, o novo. É um filme "pra cima", os conflitos não alcançam um nível neurótico de uma possível disfunção e crise da família, com um final que retoma o início, na idéia de que as coisas mudam, não importam se para pior ou melhor. Não é intenção de Assayas discutir isso. Ainda bem. (Nota 5)


29. Perro Come Perro, de Carlos Moreno - Filme colombiano que o país selecionou para concorrer a uma das vagas ao Oscar de Filme Estrangeiro do ano que vem. Certamente não será escolhido: um filme policial, em que um bandido rouba dinheiro de poderosos criminosos e tenta entregá-lo para ex-mulher e filha. O problema é que o próprio criminoso que foi roubado, e que não sabe quem roubou, o convoca para procurar pelo dinheiro. Então passa seus dias num hotel vagabundo, ao lado de outro bandido, que por ter matado quem não devia começa a ser afetado por uma magia negra que lhe lançaram. Enquanto tenta se safar desta situação, nosso protagonista (pessoa nada agradável que tortura e mata sem problema nenhum) ainda tenta não se irritar com os constantes telefonemas de um homem que quer falar com uma tal Adele, que ninguém conhece. Filme de gênero divertido, chupa muito da tradição criada com "Amores Perros", onde a fotografia suja impera tanto quanto cães vira-latas que logo são associados a natureza humana dos personagens. Vale uma conferida. (Nota 3)

2 comentários:

Rafael Carvalho disse...

Ozu é outro cara que me persegue. Digo, eu é que devo perseguí-lo porque nunca vi nada dele. Mas está sempre em alta conta por todo lugar.

Esse filme do Belmonte ganhou como Melhor Filme no recém acabado Festival do Rio (Caroline Abras levou Melhor Atriz), daí já me empolguei com ele, mesmo não tendo gostado tanto de seu filme anterior, A Concepção. Esperarei (bastante) ansiosamente.

O nome do Assayas me soa sempre ben-vindo, embora eu só tenha visto (e gostado de) Clean.

Wally disse...

Não imaginava que o cinema de Assayas fosse tão bom. O curta dele para a coletiva "Paris, Eu Te Amo" não me agradou muito.

Ficam as dicas!

Ciao!