sábado, 29 de novembro de 2008

Melhores de 2008 (parcial)

Lista aí do lado atualizada. Valendo apenas os filmes lançados comercialmente no Brasil (cinema ou dvd), ficando de fora, por exemplo, algumas grandes obras que vi na Mostra de São Paulo.

Tem coisas aí que cresceram muito com o tempo, outras foram perdendo a empolgação que tive na época em que vi. Nada definitivo, ilustra apenas a memória afetiva do momento.

sábado, 22 de novembro de 2008

Damages




Semana passada vi a 1ª temporada completa de Damages, uma das séries mais cultuadas de 2007 e que retorna para sua 2ª temporada em Janeiro. Gostei muito do que vi. A série traz um roteiro bem simples, mas executado de forma que haja reviravoltas a cada episódio, mantendo o espectador tenso e curioso o tempo todo.


Patty Hewes é uma brilhante e famosa advogada que está processando um poderoso milionário, cuja empresa faliu e deixou mais de 5 mil pessoas desempregadas. Há indícios de fraude e que o empresário teria vendido suas ações uma semana antes de ter decretado falência. Ellen Parsons é a jovem advogada que consegue o emprego dos sonhos, ao ser contratada por Patty. A série gira em torno deste caso, cujos desdobramentos afetarão a vida de todos os envolvidos para sempre.


A grande vantagem de Damages é que toda a temporada foi previamente pensada e filmada, sem passar pelo filtro da audiência, funcionando mais como uma mini-série, com começo, meio e fim já estabelecidos.


A engenhosidade da trama é ser narrada em flashback: o piloto da série tem início com Ellen fugindo de um prédio, coberta de sangue. Logo saberemos que há, no mínimo, uma pessoa morta e ela pode ou não ter cometido o crime. Os eventos que levaram a este incidente ocorreram seis meses antes e é quando se passa a maior parte da série.


De maneira 100% eficaz, as informações são dadas de forma com que o que sabemos do antes e depois do ocorrido se complementem, gerando surpresas, uma atrás da outra. Os roteiristas sabem exatamente o que revelar, no momento certo e qual efeito querem causar. Mais importante: nada soa inverossímil e, vista em retrospecto, não parece haver furos na trama (eu não achei).


Só por isso, Damages já seria um programa divertido e de qualidade, ao não subestimar nossa inteligência. Mas o interesse do telespectador é mantido também com o desenvolvimento de bons personagens e suas histórias pessoais se confundem com a trama central, seja como pretexto para mais mistérios, seja como conseqüência direta da ambição e jogos de poder envolvidos - além, claro, de ter combustível suficiente para sustentar uma temporada de 13 episódios.


Os conflitos, aliás, têm o pé firme na realidade: em Damages, a morte de um ser humano é pensada, pesada, dolorosa. O assassinato é um crime hediondo, e que vai se instalando e se tornando algo "natural" apenas com o desenvolvimento da trama, quando a lama vai se acumulando e afundando os envolvidos. Neste sentido, é só vermos o personagem de Ted Danson, o inescrupuloso empresário Arthur Frobisher, que se horroriza e recusa mandar matar uma importante testemunha do caso, ainda no início da série, e acompanharmos sua gradual transformação com o decorrer dos eventos.


Danson, a propósito, é um ator que não gosto, mas sua atuação é cheia de sutilezas, sem exageros para demonstrar todo o desespero que seu personagem passa para esconder os crimes que cometeu. O elenco de Damages, inclusive, é mais um dos motivos para se ver a série. Claro que Glenn Close (Emmy de melhor atriz) não poderia ser menos do que incrível, e a personagem de Patty Hewes é perfeita para esta brilhante atriz que já fez tantos papéis de má, mas que nunca se repetiu. As intenções da protagonista nunca são claras, e mesmo que saibamos que Hewes está sempre um passo à frente dos demais personagens, acabamos sendo pegos de surpresa pelo roteiro. E Close dá a ambigüidade necessária a personagem, com a câmera sempre exaltando seus olhares e silêncios capazes de gelar e amendrontar todos em cena.


O outro grande destaque do elenco é o ator sloveno Zeljko Ivanek, que também ganhou um Emmy, de ator coadjuvante, pelo papel do advogado de Frobisher. Ivanek começa a série com uma atuação discreta, vivendo um personagem que nunca demonstra ser uma verdadeira ameaça, mas que aos poucos vai ganhando em complexidade, e também espaço em tela. Seu Ray Fiske é um contraponto perfeito para o desespero e irresponsabilidades de Frobisher, e algumas nuances do personagem podem ser sentidas antes mesmo do tempo certo, graças à coerência do trabalho de Ivanek. Não acho que tenha merecido o Emmy (meu preferido, Blair Underwood por In Treatment sequer foi indicado, sem falar que todos que assistem a Lost certamente torciam para Michael Emmerson), mas é um ator que vem ganhando cada vez mais destaque na televisão. Completando o elenco principal, a jovem Rose Byrne no papel da outra protagonista, Ellen Parsons, e Tate Donovan, como o braço direito de Patty. Ambos não chegam a brilhar, mas também não comprometem.



Entretenimento de alta qualidade, Damages funciona muito bem dentro de sua lógica "Não confie em ninguém", abordando um universo de pessoas ambiciosas, inteligentes e engolidas pelos interesses e estratégias das grandes organizações políticas, jurídicas e administrativas, num salve-se quem puder tenso e interessante. A temporada fecha com uma conclusão nada menos que empolgante, alimentando a curiosidade pela série, mesmo que a trama do 1º ano tenha sido concluída. Um cliffhanger inteligente e excitante.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Séries de TV

Atualmente vejo oito séries que estão com temporadas inéditas sendo exibidas na tv americana. O número já foi maior, mas desisti de umas (Prison Break), abandonei temporariamente outras (Ugly Betty), e ainda há as que já encerraram o ano (Weeds, In Treatment), as que estou muito atrasado ou me iniciando (Boston Legal, How I Met Your Mother) e as que só estrearão no início de 2009 (Damages, Lost, 24 Horas, Battlestar Galactica). Do que estou vendo hoje, a qualidade varia entre o muito ruim e o muito bom.


A ordem é por dia de exibição nos EUA:





A série anda na corda bamba o tempo todo. A desenvoltura para se falar de sexo e drogas beira o exibicionismo gratuito e é muito melhor e mais engraçada quando foca nas relações entre os personagens: o quarto episódio desta 2ª temporada ("The Raw & The Cooked") se passando durante um jantar com todos os personagens é um excelente exemplo de que a série não precisa abusar da censura 18 anos para ser hilária. Ganha pontos também quando mostra sensibilidade no relacionamento entre Hank e sua filha Becca.






Apenas visto dois episódios desta 3ª temporada, já pensei até mesmo em abandoná-la. A série está se tornando enfadonha, a narração em OFF do protagonista na maioria das vezes é só para ilustrar o que já estamos vendo e percebendo, e o roteiro, além de óbvio, está domesticando Dexter que, se na 1ª temporada tentava se adaptar à sociedade ainda ficando à margem dela, agora está cada vez mais "normatizado", distante da sociopatia e premissa inicial da série. E amigos têm me dito que a coisa só piora...






Nova sensação da HBO, escrevi sobre esta curiosa série de vampiros para o blog Comentários em Série (post aqui), episódio por episódio dos dez primeiros da 1ª temporada. Alan Ball (vencedor do Oscar pelo roteiro de "Beleza Americana; criador da genial "A Sete Palmos") parece ter acertado mais uma vez. Seus párias da sociedade continuam interessantes. E desta vez têm presas.






De longe, a série mais medíocre que já vi. No entanto, eu continuo assistindo. Por quê? Não faço idéia, mas talvez haja algum divertimento (masoquista, que seja) em ver os incríveis absurdos de lógica e (in)congruência dos roteiristas mais incompetentes da TV. Os diálogos são sofríveis (a narração de Mohinder é um caso a parte) e do elenco quase ninguém se salva. A presença de Robert Forster ("Jackie Brown") melhora muito este quesito (ele faz frases ruins soarem boas) e eu teria um prazer enorme se a série fosse toda concentrada em Arthur e Angela Petrelli. Mas acho que vamos continuar acompanhando o excesso de personagens e as estúpidas e constantes mudanças nos protagonistas (Peter, Claire, Hiro e Sylar) até acertarem a mão. Ou até a série acabar de vez.





A série nerd por excelência conseguiu o equilíbrio certo nesta 2ª temporada, ao dosar os comportamentos obsessivos compulsivos de Sheldon (um tanto irritantes em boa parte da 1ª temporada) com as "nerdices" típicas de todo o grupo. Dar mais espaço para os coadjuvantes também resultou em muitos momentos engraçados, como as rixas entre Sheldon e Leslie, ou o episódio em que Koothrappali foi o destaque, ao sair na revista People. Adorei também quando os roteiristas colocaram em questão a sexualidade de Sheldon (algo que com certeza os fãs já haviam especulado) e a idéia de que ele se reproduziria por mitose foi genial. Só sinto falta da mãe dele, uma cristã fundamentalista que, com uma única participação, protagonizou um dos melhores episódios da série ("The Luminous Fish Effect", quarto episódio da 1ª temporada).






"House" sempre teve elementos que são um enorme desafio para os roteiristas manterem a atenção do telespectador (em especial porque a série é uma campeã de audiência): a necessidade de inovar a estrutura narrativa, como lidar com os coadjuvantes (principalmente a partir da 4ª temporada), como tornar House mais "humano" (e muita ênfase nessas aspas, por favor). E inevitavelmente esta 5ª temporada têm demonstrado sinais de cansaço por parte deste brilhante time de escritores. Continuam com diálogos hilários e inteligentes, e os casos ainda muito interessantes. Mas não sabem o que fazer com toda aquela enorme equipe médica, e House aos poucos vai se tornando mais frágil - só nesta temporada, o médico já se desesperou (a sua maneira, claro) para retornar sua amizade com Wilson, e já atacou Cuddy, num beijo muito aguardado pelos fãs. Isso tudo desvia do que a série tem de melhor: a lógica insuperável de House, sua ética e seu sarcasmo. Ainda assim, continua sendo uma das melhores.




A ex "melhor série cômica da atualidade" teve, pra mim, uma péssima 4ª temporada, com poucos momentos de brilhantismo em meio a um humor muito fora do tom a que estamos acostumados. Esta 5ª temporada tem retornado a algumas das melhores qualidades da série: os eventos no trabalho e toda a dinâmica interna, com os constrangimentos e idéias malucas de Michael; a presença da câmera servindo como elemento cômico; Jim sacaneando Dwight, etc. Felizmente, mesmo nos seus piores momentos, "The Office" nunca desvirtua as características básicas de cada personagem, dando espaço para todo o elenco brilhar, mesmo em pequenas participações. Isso mais este retorno à "velha forma" está fazendo a série voltar aos geniais tempos das duas primeiras temporadas.






O fenômeno que esta série se tornou certamente vai continuar por, no mínimo, mais este ano. Até agora foram apenas três episódios desta 3ª temporada, mas a metralhadora de piadas que vai do besteirol ao nonsense absoluto, passando por humor sutil e inteligente, continua a toda. O que torna a série ainda mais atraente é que tudo no cotidiano americano pode ser referenciado, os modismos, a indústria do entretenimento, a política, etc. Até o beijo que Adrian Brody deu em Halle Berry no Oscar é motivo de sarro com as lutas das minorias. Tina Fey merece todo o sucesso que está tendo, embora como atriz ela só seja uma escada para Alec Baldwin e cia. brilharem. Pontos altos do ano até agora: a meteórica escalada de Jack Donaghy ao poder, as farsas nas Olimpíadas (não existe tênis coletivo, nem corrida sincronizada!!) e as participações especiais de Oprah e Jennifer Aniston.

domingo, 16 de novembro de 2008

Juno




Semana passada, tive a oportunidade de rever “Juno”, filme que eu vi na época do lançamento e sempre tive a vontade de vê-lo novamente. Na revisão continua tão bom quanto antes. O melhor do filme é como ele consegue fugir de caminhos óbvios e dramaticamente mais irresistíveis. Dois deles parecem inevitáveis: um relacionamento amoroso entre Juno e Mark, o futuro pai adotivo de seu filho; e a desistência da adoção, com Juno decidindo amar e criar seu filho.


Felizmente nada disso acontece. O que parece interessar mais a roteirista Diablo Cody e o diretor Jason Reitman é acompanhar Juno em seu percurso de maturidade e as decisões que ela toma para si, distanciando-se de um olhar moralista ou mesmo piedoso. A gravidez de Juno nunca é vista como um erro e a sua jornada não é de redenção: estamos diante de uma adolescente que trata o bebê que carrega como “coisa”, que basta expulsá-lo de sua barriga e entregá-lo a um casal que viu no Classificados de um jornal. A visão de mundo de Juno parece ser bem irresponsável, mas pelo contrário, ela sabe bem o que quer, faz dos obstáculos não algo a se lamentar, mas algo a se driblar com soluções práticas pautadas numa vontade de viver e na crença de que se está fazendo o melhor possível.


Porque o filme é sobre isso: fazer o melhor possível, eticamente. Não moralmente. Se Juno decide não abortar, é menos por uma suposta bandeira levantada pelo filme contra o aborto e mais por uma decisão que lhe pertence e que deve ser feita longe do que a sociedade considera certo ou errado. Da mesma forma, sua família lida muito bem com a gravidez, novamente pela vontade de se fazer o que é possível para não transformar os acontecimentos em um fardo, em tristeza e em problema para todos.


O brilhantismo em “Juno”, então, é ver como os clichês são driblados, como o filme resiste à idéia de codificar e normatizar a protagonista através do pieguismo, da moral, do que o espectador possa pensar que é certo ou errado para ela. Mas isso sem esquecer que se trata de uma adolescente, daí sua ingenuidade diante das intenções de Mark. Este, por sua vez, tem uma relação com a esposa Vanessa muito bem construída pelo filme, que consegue através dos pequenos detalhes mostrar ao espectador a dinâmica do casal e a conseqüente separação. São coadjuvantes de características muito fortes e aqui quero ressaltar não só a bela atuação de Jennifer Garner, como a forma que o filme trata sua personagem.


Vanessa é uma mulher que só quer ser mãe e sua fragilidade e desespero beira o patético, algo para ser criticado e ridicularizado pela melhor amiga de Juno, mas não por Juno ou pelo filme. Há uma “esperteza” e cinismo no tal cinema independente americano que costuma tratar personagens como essa de Garner com certo descaso e deboche, ou então, bem ao contrário, com piedade e sentimentalismo exagerado. Em “Juno”, a protagonista a olha com curiosidade e até admiração pela importância que ela dá a algo que Juno ainda não consegue compreender. A seqüência em que Vanessa toca a barriga de Juno no shopping é linda justamente por este respeito que o filme tem por seus personagens. Não há superioridade de valores de um sobre o outro. E o maravilhoso final é só a conclusão deste olhar tão ético sobre pessoas que só querem tirar da convivência com o outro a alegria de viver.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Resumo da Mostra

Primeiro quero agradecer aos amigos blogueiros que deixaram comentários nos posts sobre a Mostra e que, na correria do evento, nem tive a decência de responder. Também fiquei sem visitar os blogs dos colegas, erro que estou reparando agora, já em casa e com mais calma.


Queria resumir minha experiência com a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo falando de dois aspectos: da qualidade dos filmes selecionados e da organização do evento.


Do primeiro aspecto, parece consenso que foi uma Mostra fraca de grandes filmes, com pouca coisa realmente recomendável e que faça a diferença. É só comparar com o ano passado, que teve bem mais obras-primas (ou, no mínimo, filmes muito mais comentados, adorados e causadores de discussões): Nao Estou Lá, Imperio dos Sonhos, Jogo de Cena, A Questão Humana, Na Cidade de Sylvia, A Viagem do Balão Vermelho, A Prova de Morte. Este ano, só posso colocar dois filmes no nível destes anteriores: Tulpan e Aquele Querido Mes de Agosto. O primeiro, aliás, lidera minha lista de melhores do ano apenas porque não tive a oportunidade de rever o filme português, que acredito crescer muito numa revisão.


É de se lamentar também a falta que fez algumas obras que sumiram da programação, quando pareciam presenças certas: o vencedor da Palma em Cannes, Entre os Muros, o novo da Lucrecia Martel (A Mulher Sem Cabeça, que foi exibido no Festival do Rio), Garapa de Jose Padilha (que nao ficou pronto a tempo), o novo do mestre Kiarostami (Shirin) ou mesmo o campeao de Veneza, The Wrestler (mesmo que eu nao seja fã de Aronofski).


No quesito "Organização", a Mostra deixou muito a desejar em vários aspectos, mas o principal deles sem duvida foram os constantes atrasos para inicio das sessoes, em especial no Arteplex, principal local de exibição dos filmes. Para quem programava filmes em diferentes salas baseando-se no horario do termino da sessao anterior, corria o risco de chegar atrasado ou mesmo perder o filme, já que as vezes havia atrasos de até 20 minutos. Pior demonstração de desrespeito que presenciei: a estreia do filme "Cançao de Baal" (no Espaço Unibanco) teve a presença da diretora Helena Ignez que falou na abertura da sessão por meia hora, atrasando o inicio de "Segurando as Pontas". Para quem viu o filme de Ignez e iria para outra sala depois, certamente perdeu a sessão. Aconteceu comigo na sessão de "A Festa da Menina Morta", quando juntou atraso mais fala do diretor Nachtergaele. Quinze minutos preciosos que me fizeram perder o polêmico documentário "Ninguém é Perfeito".



Mas voltando aos filmes, nos quinze dias em São Paulo, foram 56 filmes da Mostra vistos por inteiro, mais uma revisão (o cazaque "Tulpan"), uma desistência (o turco "Las Meninas"), uma boa sessão de sono (o bósnio "Neve") e dois filmes vistos do circuito comercial ("Cegueira" e "Linha de Passe"). Considerando os filmes da Mostra, minhas notas nas cédulas de votação (que iam de 1 a 5) foram oito notas 1, dez notas 2, quinze notas 3, quatorze notas 4 e nove notas 5, numa média final de 3,1.


Pensando agora, em retrospecto, algumas notas talvez não façam jus aos filmes, alguns bem melhores que outros mas com a mesma nota, ou até pior. Um filme como "Natal Bagunçado" (Nota 2) com certeza é inferior a "Che - Guerrilha" (Nota 1), mas usei critérios diferentes de avaliação, pessoais ou referentes às pretensões do cineasta - que não deixa de ser uma opinião muito pessoal também.


Seja como for, faço meu top da Mostra:


Fora de Competição: O Poderoso Chefão



Os 10 Melhores da Mostra:

1. Tulpan
2. Aquele Querido Mês de Agosto
3. Leonera
4. Segurando as Pontas
5. Se Nada Mais Der Certo
6. Horas de Verão
7. Sonata de Tokio
8. Lições Particulares
9. Encarnación
10. Acne



Os 5 piores da Mostra:

1. Tedium
2. Los Demonios del Eden
3. Liverpool
4. Eu Quero Ver
5. Sinédoque Nova York



As 3 boas surpresas que recomendo:

1. Serbis
2. Deixa Ela Entrar
3. Romance



As 3 grandes decepções:

1. O Silêncio de Lorna
2. A Festa da Menina Morta
3. Che (os dois filmes)

domingo, 2 de novembro de 2008

São Paulo - Dia 15

Último dia de Mostra. Dois filmes longos o suficiente para não me permitir ver mais nada. Ou melhor, três filmes, já que a saga de Che Guevara pode ser considerada duas obras bem distintas (com estréias programadas no Brasil para fevereiro e março). Não foi uma despedida das melhores, com a sessão de "Che" tendo atrasos (uma produtora do filme, Rodrigo Santoro e Benicio del Toro marcaram presença só para demorar mais ainda) e problemas na projeção. Sem falar no tédio que são os filmes:



58. Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin - Obra pomposa e auto-indulgente desse cineasta francês que tem acumulado fãs a cada filme (o anterior "Reis e Rainha" talvez o mais badalado). A história de uma família que beira o disfuncional, que irá se reunir no natal e cuja matriarca (Catherine Deneuve) tem um câncer e precisa que seus filhos e netos façam testes para descobrir um doador de medula que seja compatível. "Um Conto de Natal" sem dúvida tem sua elegância, e Desplechin costura sua narrativa das formas mais diversas possíveis, usando elementos do teatro, narrações em off, personagens falando para a câmera, legendas que nos apresentam os personagens. A introdução, aliás, é vertiginosa, me lembrando um pouco (não em estilo) a empolgação de Paul Thomas Anderson apresentando seus personagens em "Magnolia". O problema é que Desplechin parece muito consciente da importância de cada palavra, de cada gesto, tornando toda sequência uma afetação intelectual, faltando espaço para a construção de relações que sejam mais próximas do humano. É divertido ver o filho odiado e a mãe se alfinetando, mas fica nisso. Sem falar na longa duração do filme: 150 minutos provam o quanto Desplechin acredita estar fazendo um tratado das relações familiares, quando na verdade está fazendo uma crônica, na melhor das hipóteses, engraçada, mas que não tem fôlego para tanto tempo de película. (Nota 3)



59. Che - O Argentino, de Steven Soderbergh - A primeira reação que se tem ao ver "Che" é: "Caralho! Isso é digital?!" Soderbergh filmou a saga de Che Guevara em digital com uma câmera especial e o resultado é de um realismo impressionante. Infelizmente é a única coisa que impressiona em filme extremamente simplório e comum, relatando o envolvimento de Che na Revolução Cubana que levou Fidel Castro a tomada de poder. A revolução é narrada em paralelo a uma entrevista (em lindo p&b) de Che, anos depois, nos EUA. É a única parte do filme falada em inglês, uma das dificuldades em a obra fazer sucesso entre os americanos. A outra é a crítica sóbria feita aos EUA. Mas de modo geral, é só mais do mesmo que qualquer livro de história nos relata. Os discursos revolucionários e socialistas hoje parecem datados e não há nada de novo no olhar para os fatos. Surpreendente é notar a pouca habilidade de Soderbergh em filmar cenas de ação: a tomada da cidade de Santa Clara tem seqüências que me fizeram rir dos corpos caindo por conta de explosões, dos mortos a tiro, etc., tudo muito mal encenado. No mais, antes do filme começar Santoro disse que "Che" era sobre o homem e não o mito. Acho que ele estava se referindo a outro filme, porque não há nada de humano em Che, no que diz respeito a questionamentos, vida pessoal, conflitos internos. É só a máquina revolucionária de frases de efeito que termina o filme com um gesto anti-materialista. Que óbvio. (Nota 2)



60. Che - Guerrilha, de Steven Soderbergh - A segunda parte desta saga tem uma mudança de tom drástica: é a tentativa de Che em instaurar a revolução na Bolívia e o conseqüente fracasso. Tudo que era vitorioso no filme anterior, vemos agora fracassando. Soderbergh filma até em outro formato (a tela fica menor) para deixar bem claro o caráter mais intimista deste segundo filme. E o que já era chato, torna-se pior. Este até permite vermos uma maior movimentação do inimigo (o governo boliviano), algo que não vimos no segmento que se passa em Cuba, mas também não sai da obviedade do discurso revolucionário. Um tédio que nem me inspira a fazer maiores comentários. (Nota 1)

São Paulo - Dia 14

A Mostra chegando ao fim e o cansaço batendo, o jeito foi diminuir o ritmo. A quarta-feira foi de apenas três filmes, desistindo dos filmes das pontas (primeiro e último do dia): o documentário dos Titãs e um norueguês chamado "O´Horten".




55. O Primeiro a Chegar, de Jacques Doillon - Filme francês de difícil digestão sobre uma moça que conhece um malandro, ambos tem um caso que começa de forma violenta (mas nunca sabemos exatamente o que aconteceu) e, ao ser dispensada por ele, resolve procurá-lo em sua cidade, onde acaba por se envolver com um policial local, amigo de infância do primeiro e amante de sua ex-esposa. Obra curiosa essa, onde o espectador precisa abandonar qualquer preceito e concepção que tenha de como seres humanos deveriam agir em determinadas situações, porque as coisas que ocorrem no filme são quase inacreditáveis, personagens agindo de forma estranha e impetuosa, pelo menos no que a gente considera estranho e impetuoso se julgarmos por padrões "normais" ou caso queiramos "psicologizar" os protagonistas. Aceitando o que acontece, ainda há de se admirar o trabalho de câmera que pega os personagens se movimentando constantemente em meio a diálogos engraçados em espaços amplos e abertos onde não parece haver mais ninguém, apenas eles. Um tanto teatral e estranho. (Nota 3)



56. Lições Particulares, de Joachim Lafosse - Uma das melhores surpresas da Mostra, essa produção belga foi uma das mais comentadas do evento, pela discussão moral que incita ao final da projeção. Na sessão em que estive, enquanto as pessoas em silêncio (talvez chocadas e perturbadas com o que viram) levantavam da cadeira quando a luz se acendeu, uma senhora desceu as escadas falando muito alto sobre a organização da Mostra precisar ter mais critérios para não ficar exibindo "tamanha porcaria". Pela reação do público, que riu, vaiou e gritou "Por que ficou até o final, então?", essa senhora está em minoria. E o diretor Lafosse conseguiu o que queria: instigar e deixar o espectador refletindo sobre um filme que é dedicado "aos nossos limites". A história: Jonas é um adolescente com problemas na escola e precisa de aulas particulares, caso não queira ser mandado para uma escola técnica. Filho de pais separados, vai morar numa casa com três adultos (que nunca sabemos se são amigos muito próximos ou têm algum parentesco com sua mãe), sendo que um deles irá lhe dar aulas para passar num importante exame que lhe garantirá um futuro na universidade. Acontece que Jonas também está descobrindo o amor e o sexo, e as aulas acabarão se estendendo para esta área de sua vida... O filme foca o tempo todo em Jonas, com seqüências mostrando seu dia a dia, praticando tênis, indo a festas, estudando, perdendo a virgindade. A câmera ama o personagem, e isso é essencial para que o espectador fique incomodado com o que gradualmente vai se configurando na sua relação com os demais personagens. O que no início poderia parecer implausível vai ganhando sustentação para que a história se torne perfeitamente crível e mais importante, sem julgamentos, deixando espaço para a ambigüidade. Discutir o que acontece é entregar o principal do filme. Basta dizer que Lafosse tem o espectador na mão e só depende dos valores morais deste para que considere o filme uma obra de interesse ou recusá-la como uma porcaria. Como a senhora que esteve na minha sessão. Grande filme. (Nota 5)



57. Appaloosa - Uma Cidade Sem Lei, de Ed Harris - Nunca vi "Pollock", a estréia do ator Ed Harris na direção. Mas a julgar por este seu segundo longa, um faroeste "à moda antiga", prefiro continuar sem conhecer. Western filmado de forma clássica, "Appaloosa" é sobre dois amigos pistoleiros (Harris e Viggo Mortensen) que chegam a uma cidade onde o xerife foi assassinado por um perigoso bandido local (Jeremy Irons). A população pede ajuda e eles, em troca do controle total da cidade, tornam-se xerife e auxiliar que irão botar ordem no lugar. O filme é um desastre, recheado de humor rasteiro e sem ritmo que auxilie a trama. Harris pode até tentar ser "clássico", mas parece não saber que a decupagem de um filme assim depende de uma duração dos planos que permita que as imagens tenham ressonância, que fiquem na retina por mais tempo. A construção é toda capenga, assim como o roteiro não é dos melhores, embora a relação entre Mortensen e Harris parece sempre querer se tornar interessante, o que infelizmente nunca acontece. O curioso é que a melhor personagem é a de Renée Zellweger, atriz que eu não gosto e fisicamente cada vez mais estranha, no papel de uma viúva que chega na localidade e logo se envolve com o personagem de Harris. A dubiedade das suas atitudes e a concepção de "amor" que ela tem é bem melhor que o filme como um todo. Mas não é o suficiente para eu recomendar "Appaloosa". (Nota 2)

São Paulo - Dia 13

Terça-feira fraca de filmes - em qualidade e quantidade. Com a informação do crítico Eduardo Valente de que o novo filme de Raul Rouiz estreou no dia anterior em cópia péssima, foi o jeito mudar a programação de última hora, encaixando o novo filme de Errol Morris (que estreou neste fim de semana em algumas capitais) no lugar. Como se não bastasse, a sessão de "A Festa da Menina Morta" teve apresentação do diretor Matheus Nachtergaele, provocando um atraso que me fez perder o último filme da noite, o documentário "Ninguém é Perfeito". Pela infelicidade das escolhas, vou ser mais breve:



51. Eu Quero Ver, de Khalil Joreige e Joana Hadjithomas - Mais um documentário ruim nesta Mostra. Uma co-produção entre França e Líbano, os diretores acompanham a visita que a atriz Catherine Deneuve resolve fazer ao sul do Líbano, sendo guiada por um famoso ator local, para conhecer alguns dos horrores da guerra. A fotografia é belíssima, mas o resto me cheirou a falsidade, com a câmera muito bem posicionada para registrar supostos acontecimentos "imprevisíveis" da viagem, como a possibilidade da atriz passar por um campo minado ou passar por locais que era proibido filmar. Filme panfletário (aqui vendendo a imagem de Deneuve, a boa samaritana) que quer o espectador horrorizado e consciente do que ocorre no Líbano, mas sem a mínima sutileza para isso. (Nota 1)



52. Procedimento Operacional Padrão, de Errol Morris - Documentário que registra uma série de entrevistas que dá luz aos acontecimentos na prisão de Abu Ghraib, quando em 2004 o mundo viu horrorizado a 12 fotos que mostravam prisioneiros iraquianos sendo humilhados e torturados por soldados americanos. O filme de Morris tem o mesmo serviço de utilidade pública visto em outros documentários por aqui, com a diferença que se trata da produção de um esteta, ou seja, temos aqui uma obra bem acabada, com encenações que beiram o artístico. É o pior do filme: se um soldado diz que encontrou um prisioneiro amarrado com sangue saindo pelos ouvidos e boca, logo vemos um close em um rosto com sangue escorrendo em câmera lenta, de maneira bem estilizada. São várias cenas assim, em 120 minutos que também esgotam o espectador com tanta informação. Ainda assim, é um filme que merece ser visto, não só pela temática (porque aí eu teria que defender outros péssimos documentários), mas por algumas boas discussões que traz, infelizmente já na parte final do filme, como a maturidade dos soldados envolvidos, seus discursos sobre as atrocidades cometidas, o poder de uma imagem, as deturpações que esta mesma imagem pode sofrer, e o que numa guerra pode ser considerado "procedimento operacional padrão". (Nota 3)



53. Natal Bagunçado, de Vanessa Jopp - Comédia alemã sobre mulher que convida seus ex-maridos com respectivas esposas para a ceia de Natal, para a infelicidade de seu atual marido que mora com ela e todos os filhos das relações anteriores. A melhor coisa do filme foi tê-lo visto ao lado de Pablo Villaça, cujas reações durante a projeção me fizeram rir mais do que com todo o filme. Mas ao contrário dele, não odiei essa tentativa de fazer humor focando em uma noite onde as relações de vários personagens vão se amontoando e criando situações das mais bizarras. Na verdade, não consigo defender o filme em nenhum aspecto, mas é assistível e talvez dependendo da boa vontade do espectador, é possível rir aqui e ali com a simpatia do elenco. (Nota 2)



54. A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele - Perto do final do filme, já estava decidido em marcar uma nota 2 na minha cédula de votação. Foi o que fiz, mas foi quando eu percebi que Nachtergaele estava ali sentado no chão vendo seu filme (único diretor que vi fazendo isso, os outros não ficavam para rever seus filmes), olhos arregalados e às vezes abrindo a boca, parecendo uma criança maravilhada, sem dúvida orgulhoso de seu próprio trabalho. Fiquei pensando no direito que temos em julgar o trabalho dos outros quando, ao menos neste caso, o cineasta fez o filme que lhe interessou fazer. Mas enfim, foi algo que veio e passou. Assim como Selton Mello, a estréia de Nachtergaele é promissora, revelando um talento que ainda parece não ter identidade própria, já que "A Festa da Menina Morta" grita a todo instante "Cláudio Assis!", como referência essencial para a obra. Assis, aliás, estava na mesma fileira que eu e o vi bocejando e com cara amarrada, mas pode ser característica natural do rapaz. Quanto ao filme, é a história de um evento que ocorre num pequeno lugarejo no interior do Amazonas, que está indo para seu 20º aniversário: é a festa da menina morta, comemoração que relembra uma menina que morreu, mas que ao longo destes anos faz aparições para Santinho (Daniel de Oliveira, espetacular), médium do local que fica responsável por transmitir as palavras da Menina Morta. O filme é sobre Santinho, seu pai alcoolátra, o irmão da menina morta que passa a duvidar das supostas aparições da irmã, e mais alguns habitantes do local. Nachtergaele cria planos seqüências lindos para captar o cotidiano daquelas pessoas, que infelizmente parecem estar num palco, diálogos muitas vezes destoando das possíveis pretensões de se filmar gente de verdade em algum lugar desconhecido do Brasil. A beleza da técnica serve apenas para enfatizar o olhar exótico do diretor para seus personagens. Prova disso é que uma das melhores seqüências do filme nada tem a ver com a trama: durante a Festa da Menina Morta, a câmera se desloca para acompanhar quatro rapazes dançando. É quando o filme respira, no meio de tanta afetação, para se aproximar de verdade da vida daquelas pessoas. Pena que isso ocorre tão pouco. (Nota 2)

São Paulo - Dia 12

Nos últimos dias de Mostra, restam poucos filmes mais populares e conhecidos, com poucas estréias badaladas. O jeito então é arriscar mais, atrás daquele grande filme que está escondido ou seguir as dicas de amigos e críticos confiáveis. Na segunda-feira, apenas o filme de Woody Allen era garantia de ser visto. O restante foi na base do "vamos arriscar", com resultados diferentes:


46. A Vida Moderna, de Raymond Depardon - Documentário em que o cineasta acompanha a vida de camponeses no interior da França, mostrando seus modos de vida, não a partir de seu cotidiano, mas através de seus rostos, suas expressões, seus discursos. Depardon filma quase sempre com câmera parada, com seqüências que se alongam pelo tempo que for necessário, fazendo perguntas, ouvindo pequenos relatos sobre a vida dessas pessoas que o cineasta já vem acompanhando há mais de 15 anos. É o registro de uma forma de viver que está se acabando e como esses camponeses têm se adaptado as mudanças que insistem em invadir suas fazendas. É um filme que me lembrou um pouco o cinema de Coutinho, com o diretor sendo personagem ativo da narrativa, com a diferença que Depardon não é tão bom entrevistador quanto o brasileiro, muitas vezes guiando as conversas para o que é de seu interesse. Ainda assim, um filme muito respeitoso, carinhoso e sempre interessante. (Nota 4)


47. Encarnación, de Anahí Berneri - Arrisquei neste filme argentino sem informação alguma e foi uma agradável surpresa. A história de Erni, uma atriz de cinema que fez razoável sucesso no passado, quando mais jovem, e retorna a sua cidade natal para o aniversário de 15 anos da sobrinha. O filme de Berneri segue uma tendência do atual cinema argentino, como o de Trapero e Martel, que é a de acompanhar bem de perto seus protagonistas, com o pé firme na realidade. Como Martel, é um cinema de sensações, onde ficamos o tempo todo com os corpos das protagonistas, Erni e sua sobrinha, esta última exalando sexualidade por todos os poros. Há vários elementos no filme que poderiam resultar em situações dramáticas: a família de Erni não gosta dela (exceto a sobrinha que vê na tia uma referência de feminilidade), uma suposta má influência que a protagonista poderia exercer na sobrinha, sua decadência como atriz, um interesse amoroso que surge na viagem. Mas o roteiro se desvia de tudo isso, com um olhar atencioso para essa mulher madura que sabe driblar os percalços da vida com muita dignidade. E é curioso, porque é quase possível que sintamos pena da personagem, que vive pesquisando seu nome no Google, aceitando fazer comerciais que mais ninguém quer, ouvindo comentários jocosos sobre sua pessoa. Mas a diretora nunca torna isto motivo de piedade, e foca na alegria de viver da sua protagonista. Um filme que quanto mais eu penso, mais fico admirado. (Nota 4)


48. Los Demonios del Eden, de Alejandra Islas - Documentário que acompanha a trajetória de uma jornalista do México que, ao publicar um livro denunciando o abuso sexual de crianças, se tornou alvo de empresários e políticos inescrupulosos, que chegaram a mandar para a cadeia. O velho filme-denúncia, que certamente tem sua relevância por mostrar relações criminosas da alta sociedade do México, mas se resume a uma reportagem porcamente realizada, com trilha sonora horrorosa e edição de imagens dignas de um Globo Repórter. De boas intenções, mas cinematograficamente um desinteresse total. (Nota 1)


49. O Estranho em Mim, de Emily Atef
- Filme alemão com tema pouco explorado pelo cinema: depressão pós-parto. Ao ouvir a própria diretora apresentando seu filme, dizendo que muitas pessoas a procuram por se identificar com a situação vivida pela protagonista, já fiquei receoso, porque não há nada pior que filmes "de relevância", para mostrar uma realidade dura que algumas pessoas sofrem. Vendo o filme, o receio se tornou verdadeiro em parte: é a história de um jovem casal esperando o seu primeiro filho, mas quando este nasce, a mãe não sente o amor esperado, e aos poucos começa a rejeitar o bebê chegando a se tornar uma ameaça para a vida do filho. O filme começa muito bem, todo o desenvolvimento do estranhamento da mãe com seu filho é muito bem filmado, criando tensão que me fez achar que estaria vendo uma espécie de continuação de O Bebê de Rosemary. Mas aos poucos o que se sobressai é o próprio estranhamento do espectador com o filme: há cenas misteriosas que se revelam ser um esquisito flashforward que nada acrescenta à trama (nem mesmo em termos de surpresa), além da própria trajetória da protagonista e o que a diretora realmente quis expressar. Em certos momentos, parecia se tratar de uma crítica a forma como o afeto é substituído pela ciência (a personagem aprendendo com um vídeo como segurar o filho, mãe e "professora" discutindo em frente a tv, com o bebê abandonado ao fundo), mas em outros parece mesmo querer fazer um filme-guia, com o passo a passo para pessoas nesta situação resolverem seus problemas. Da forma como acaba, o segundo caso parece mais próximo das intenções de Atef. Uma pena, porque ela parece ser uma cineasta, do ponto de vista estético, bem interessante. (Nota 3)


50. Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen - Impressionante o prestígio de Woody Allen: a estréia de seu filme na Mostra foi a sessão mais concorrida que eu presenciei. Poltronas lotadas, com muitas pessoas sentadas no chão. E pelo visto não decepcionou o público, que ria durante todo o filme. Não é pra menos, porque se trata da melhor comédia de Allen em 10 anos. Para os fãs do novaiorquino, fica aquela sensação de dejávu, com seu estilo habitual de filmar e escrever diálogos e personagens. Não é nada de novo, já se sabe exatamente o que esperar. Mas parece que para Allen é questão de estar num bom dia, de bem com a vida. Porque em "Vicky Cristina Barcelona" dá tudo certo, o riso sai fácil. No filme, temos as duas protagonistas do título, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) passando as férias de verão em Barcelona. Vicky, prestes a casar e estudando a cultura catalã; Cristina, buscando novos ares após mais um fracasso amoroso e um curta-metragem que dirigiu e atuou e que detestou. As duas irão conhecer um pintor boêmio (Javier Bardem), que acaba de terminar um casamento de forma violenta, mas que ainda ama a ex-mulher (Penelope Cruz). É a relação destes quatro personagens que iremos acompanhar, que se desdobra em situações inesperadas, com Allen amarrando as pontas incluindo ainda o futuro marido de Vicky e o casal que hospeda as duas em Barcelona. É o roteiro de Woody Allen o grande acerto do filme, que constrói personagens perfeitamente neuróticos (e como mais seriam?), buscando o ingrediente que dará equilíbrio a suas vidas amorosas, em diálogos pomposos e engraçados (o jargão "Speak in english!" de Bardem é quase tão bom quanto o clássico "Don´t Speak!" de Dianne Wiest em "Tiros na Broadway"). Junta-se a isto uma Barcelona filmada com o prazer de um turista rico e intelectual (assim como o diretor já havia feito com Veneza e Paris em "Todos Dizem Eu Te Amo") e um beijo caliente entre Johansson e Cruz e pronto: não há motivos para fazer cara feia pra o "mais do mesmo" do mestre. (Nota 4)