quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Chronicart - Melhores

A revista francesa Chronicart, em comemoração de seus dez anos, lançou um top 10 dos melhores filmes realizados entre 1997 e 2007. Ficou assim:


1. Cidade dos Sonhos, de David Lynch

2. De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

3. O Tempo e a Maré, de Tsui Hark

4. Tropas Estelares, de Paul Verhoeven

5. 2046, de Wong Kar Wai

6. Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul

7. Gerry, de Gus Van Sant

8. Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick

9. Inteligência Artificial, de Steven Spielberg

10. A Vila, de M. Night Shyamalan


Como se sabe, a crítica francesa tem uma percepção muito mais ampla de cinema, desde que críticos como Andre Bazin, Truffaut, Godard e filósofos como Gilles Deleuze, mostraram que a linguagem cinematográfica é arte complexa e mais cheia de possibilidades do que se pensava (ou do que muitos pensam até hoje). Só assim nomes como Alfred Hitchcock, Orson Welles, Howard Hawks, Samuel Fuller e John Cassavetes se tornaram os gênios que são reconhecidos hoje em dia.


A lista aí de cima me parece trazer este reconhecimento para os gênios de hoje, alguns bem incompreendidos e ignorados pela crítica "de massa". À exceção do filme de Lynch, meu top 10 certamente seria diferente, mas é bom ver o filme de Verhoeven lembrado como a obra-prima insana que é; e Shyamalan e Van Sant, que merecem estar em qualquer lista sensata desta década - no caso do indiano, não consigo escolher entre "A Vila", "Sinais" e "Corpo Fechado"; e como não vi "Gerry", "Elefante" seria minha escolha.


De Spielberg, acho "Munique" muito melhor, maior e intenso que "A.I."; adoro o filme de Malick e o de Kubrick só vi uma vez no cinema, acho que necessita de uma revisão.


E o cada vez mais cultuado e importante cinema oriental foi representado pelo tailandês de nome impronunciável (que prefere ser chamado de Joe no Ocidente), cuja obra infelizmente só chega no Brasil por meio de mostras e festivais ("Mal dos Trópicos" foi o único dele que vi e só posso dizer que não existe nada nesse mundo parecido), pelo chinês Hark que faz maravilhas com o cinema de ação em "O Tempo e a Maré" (filme que só vi recentemente, por conta desta lista) e pelo cultuado e odiado em iguais proporções Wong Kar Wai, cujo "2046" eu não vi.


O que eu acrescentaria? Não sei exatamente, mas além de "Cidade dos Sonhos", Elefante" e um Shyamalan, teria que ter "Kill Bill" completo, um Almodovar ("Tudo Sobre Minha Mãe" ou "Fale com Ela"), um dos Dardenne ("Rosetta" ou "O Filho"), um PTA (provavelmente "Boogie Nights") e um Kiarostami ("Gosto de Cereja", "O Vento nos Levará" ou "Dez"?! Céus!).


A revista também lançou seu top 10 deste ano, também uma seleção bem curiosa (e satisfatória pro meu gosto):


1. Two Lovers, de James Gray

2. Onde os Fracos Não Têm Vez, dos Irmãos Coen

3. Wall-E, de Andrew Stanton

4. Redacted, de Brian DePalma

5. A Troca, de Clint Eastwood

6. Trovão Tropical, de Ben Stiller

7. Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan

8. Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson

9. Na Guerra, de Bertrand Bonello

10. Speed Racer, dos irmãos Wachowski



O novo filme do James Gray só estreou em alguns países da Europa, não sendo (ainda) reconhecido pelos americanos como um dos grandes autores que existe por lá. Só mesmo os franceses... A inclusão dos filmes dos Coen, DePalma, Shyamalan e Eastwood parecem óbvias por serem autores fortes, que continuam expandindo seus universos de formas surpreendentes (exceto pelo "A Troca" que ainda não vi). Wes Anderson é outro autor, mas este ainda não consegui encarar, faltou química entre a gente. O filme do Bonello foi um dos mais elogiados no último Festival do Rio, o de Stiller é impossível ficar imune ao brilhantismo da sátira e da brincadeira, enquanto ao menos por lá a incrível linguagem "cine-game" dos Wachowski foi merecidamente reconhecida. E parece que nem os franceses resistiram ao encanto de Wall-E.

Gran Torino


Com as principais premiações do cinema americano chegando, todos os grandes concorrentes ganham cópias em dvd, os screeners, que jornalistas, críticos de cinema e membros da Academia recebem das distribuidoras, para que fique claro que todos tenham visto todas as obras. Como em sua maioria são filmes que dificilmente chegarão aos cinemas de minha cidade, é bom conhecer gente que ganha esses screeners.


Dito isso, "Gran Torino" é mais um belo filme de Clint Eastwood: a América complexa em sua teia de relações, o choque entre gerações, a violência no seio da sociedade. Enfim, tudo que interessa ao cineasta, não tão profundo quanto "Sobre Meninos e Lobos", mas com o coração de "Menina de Ouro". No fim, as inevitáveis lágrimas.


Certamente não será tão adorado. Já vejo gente falando que "não é nada demais", pois a estrutura, como sempre, é clássica, simples, pura. Mas com Clint Eastwood, o buraco é sempre mais embaixo. Para além da superfície, um dos grandes filmes do ano desde já. Não espero indicações ao Oscar de Melhor Filme e Diretor, mas que pecado excluí-lo de Melhor Ator!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Melhores de 2008

Cansado das listas de melhores dos críticos americanos, com os mesmos filmes de sempre, só mudando de posição entre eles?

Pois a revista Sight and Sound publicou uma compilação com mais de 50 críticos do mundo todo comentando rapidamente sobre os seus top 5 de 2008.

Ideal para um primeiro contato com filmes que passam longe da limitada percepção que os americanos têm de cinema. Há idiossincrasias, claro, mas quem não as têm?


Recomendo a leitura.



domingo, 21 de dezembro de 2008

Rapidinhas


- Finalmente "Jogo de Cena" saiu em dvd! A obra-prima de Coutinho é imperdível, levanta um monte de discussões acerca de representação e arte, altamente psicanalítico (reparem nos temas recorrentes das muitas histórias de vida) e ainda faz emocionar muito. Um dos melhores do mestre. Enfim pude saber com certeza quem era a atriz e quem não era na história da mãe que perdeu o filho num assalto. Filme incrível.


- Não tenho paciência para filmes como "O Escafandro e a Borboleta", que gritam POESIA! a cada plano, fugindo do pieguismo, mas buscando as soluções óbvias e superficiais das metáforas e narração poéticas para o sofrimento do protagonista, apoiadas em bela fotografia. Tudo é tão bonito e estéril que não há espaço para discussões mais profundas. Um saco. A história de vida (REAL), no entanto, é bonita. Vale a pena procurar pelo livro.


- "Hellboy 2" é mais um interessante filme que sai da mesmice, desta ótima safra do verão americano (Speed Racer, Hancock, Fim dos Tempos, Wall-E), onde até boa parte da mesmice foi acima da média (O Cavaleiro das Trevas, O Homem de Ferro, O Incrível Hulk). Mas só é o que é graças ao sucesso de O Labirinto do Fauno, que certamente permitiu a Guillermo Del Toro expandir seu universo fantástico nesta continuação. E que fantasia! Visualmente um deleite, cenas de ação ok, e as entrelinhas dão prosseguimento às idéias do diretor, buscando na fábula uma forma de falar sobre preconceitos, incompatibilidades, normalidade. Tão rico em monstros e criaturas de outros mundos, que este acaba sendo também um defeito. Podia ser mais contido, com um roteiro melhor elaborado e com mais sentido. De qualquer forma, um prazer em ver.


- As indicações ao SAG Awards (Sindicato dos Atores) saíram e é mais do mesmo, com poucas variações. A notar a exclusão de Leonardo DiCaprio, Clint Eastwood e Kristin Scott Thomas, provavelmente eliminando de vez suas chances no Oscar (a maior parcela de votantes no Oscar são de atores, que votam no SAG). Surpresa também na não indicação para "O Cavaleiro das Trevas" para Melhor Elenco, aumentando as chances de "Milk" e "Doubt". "O Curioso Caso de Benjamin Button", "Slumdog Millionaire" e "Frost/Nixon" praticamente garantiram suas vagas na categoria principal do Oscar. Só não são indicados por milagre. Pior mesmo foi nas categorias televisivas: nenhuma menção a In Treatment. O que esse povo tem na cabeça?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Globo de Ouro e Comédias

Acabei não comentando sobre as indicações ao Globo de Ouro, mas deixa eu registrar que acho que este ano será o verdadeiro teste para a imprensa estrangeira provar que o GG influencia os membros da Academia e as premiações ao Oscar. Porque eles optaram em indicar para Melhor Filme - Drama duas obras até então esnobadas pela crítica (Revolutionary Road e The Reader), ao invés de filmes que pareciam certos, como Milk e O Cavaleiro das Trevas. Também colocou em evidência atores como DiCaprio e Kristin Scott Thomas, quando ninguém ainda havia lembrado deles, e deixou de indicar Clint Eastwood, Josh Brolin ou Melissa Leo, antes favoritos. Ou seja, se a Academia fizer o mesmo, quem critica o Globo de Ouro terá que engolir que esse estranho grupo influencia sim o Oscar. Se essas indicações-surpresa não mudarem em nada o rumo das coisas, então só se confirma o porquê de o Globo de Ouro estar cada vez mais indo mal das pernas, perdendo em audiência e em credibilidade.



Entre as indicações nas categorias de TV, não poderia ter ficado mais contente com o reconhecimento que "In Treatment" teve e que o Emmy absurdamente ignorou: cinco indicações e, considerando que as duas categorias de coadjuvante englobam séries dramáticas, cômicas e os filmes para tv em uma disputa só, o fato de Blair Underwood, Melissa George e Dianne Wiest estarem lá mostra que a série tem tudo para ganhar boa parte dos prêmios.



Não foi dessa vez que deram o reconhecimento a "Battlestar Galactica" (ano que vem é a última chance!), e "Lost" ficou totalmente de fora. "Dexter" depois que fica ruim é indicada e "House" só pode estar lá por conta da quarta temporada, porque atualmente encontra-se no seu pior momento. Surpresa mesmo foi a indicação de "True Blood", que eu gosto, mas não era pra tanto (o final da temporada, aliás, foi péssimo). Entre as séries cômicas, uma pena Zachari Levi não ser lembrado por "Chuck", mas se a série continuar elevando seu nível, isso será questão de tempo. No mais, não houve grandes surpresas, exceto Kevin Connolly, indicado pela primeira vez por "Entourage", o que faz da série um grande obstáculo para "30 Rock".



Voltando ao cinema, a categoria Comédia/Musical é mais fácil de se comentar, já que vi quatro dos cinco filmes indicados a Melhor Filme. Quer dizer, hoje eu tentei ver "Mamma Mia!", mas não consegui passar da metade. Imagino que o filme só foi indicado pela pressão que é ter uma categoria para filmes musicais e não ter concorrentes. Só isso explica a inclusão de um filme tão estúpido, sem graça e totalmente sem imaginação. Outra indicação surpreendente foi a de "Na Mira do Chefe". Não por ser ruim, mas porque o humor do filme é secundário. A trama é bem pesada e as piadas politicamente incorretas parecem ter saído de um filme de Guy Ritchie, mas não chegam a tornar o todo mais "agradável". Um policial amargo - e um tanto sem sal.



Não tendo visto ainda o filme de Mike Leigh, "Happy Go Lucky", sobraram então como justas indicações os filmes de Woody Allen e dos irmãos Coen. Revi "Vicky Cristina Barcelona" ontem e o filme ficou ainda melhor. Acho que gosto mais dele do que de "Match Point". As quatro indicações o tornam um favorito e se vencer, não só seria justo, como poderia ser melhor beneficiado no Oscar do que se o filme do Leigh vencesse (uma indicação a Roteiro Original, além da óbvia para Penelope Cruz - pedir indicação para Diretor seria pedir demais). Já "Queime Depois de Ler" tem momentos de humor geniais (as duas seqüências com J. K. Simmons são das mais hilárias do ano), personagens muito interessantes e o melhor elenco entre os indicados. Gosto do Tom Cruise em "Trovão Tropical", mas roubou a vaga de Brad Pitt na categoria. Também não seria mal se vencesse.



De qualquer forma, uma lástima que três grandes comédias tenham sido ignoradas: a própria "Trovão Tropical", "Forgetting Sarah Marshall" e "Pineaple Express". É possível que os votantes do Globo de Ouro tenham gostado mais de "Mamma Mia!"?! Céus... Ao menos, James Franco foi lembrado. Por mim, ele iria para o Oscar. Mas os academicos não têm muito senso de humor. Que pena.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Temporada de Prêmios

Começou a temporada de prêmios nos EUA, aquela em que destaca os melhores filmes americanos do ano e que serão os principais candidatos ao Oscar. Claro, há muita injustiça e todos sabemos que a Academia quase nunca sai de seu lugar comum, muitas vezes premiando mediocridades. Mas é divertido acompanhar e tentar adivinhar o que as cabeças votantes de Hollywood irão escolher como os melhores do ano.


Semana passada, teve início aos destaques do ano com a National Board of Review, (NBR) a associação de críticos mais antiga dos EUA, elegendo seus prediletos. Não é dos "termômetros" mais precisos do Oscar: nos últimos 20 anos, apenas em 7 vezes o melhor filme acabou sendo também o melhor da Academia. Alguns célebres vencedores sequer acabaram ganhando indicação, como os ótimos "Contos Proibidos do Marquês de Sade" e "Deuses e Monstros".


De qualquer forma, a NBR é uma das poucas a divulgar um top 10 que, nos últimos anos, quase sempre tem incluso os 5 indicados a Melhor Filme. Exceções ilustres são Sangue Negro, Menina de Ouro e a trilogia O Senhor dos Anéis, provavelmente não lembrados pelo fato de terem seu lançamento em Dezembro e a associação normalmente vota em Novembro, e nem todos os integrantes podem ter visto tais filmes.


O melhor filme foi "Slumdog Millionaire", o pequeno filme de Danny Boyle que anda arrancando aplausos (e lágrimas) por onde passa. Já é um dos favoritos ao Oscar. O top 10, sem o filme de Boyle, foi o seguinte (em ordem alfabética):


Burn After Reading (Queime Depois de Ler)
Changeling (A Troca)
The Curious Case of Benjamin Button (O Curioso Caso de Benjamin Button)
The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas)
Defiance
Frost/Nixon
Gran Torino
Milk
WALL-E
The Wrestler


Dentre os outros prêmios, destaque para David Fincher como melhor diretor, confirmando seu filme "O Curioso Caso de Benjamin Button" como o outro favorito ao lado do de Boyle (ambos dividiram o prêmio de Roteiro Adaptado); Clint Eastwood que, além de emplacar seus dois filmes no top 10, Changeling e Gran Torino, ganhou o prêmio de melhor ator por este último (que também levou Roteiro Original); Anne Hathaway, melhor atriz por "O Casamento de Rachel",onde ela está realmente encantadora; Josh Brolin, como ator coadjuvante por Milk, superando o provável oscarizável Heath Ledger; e Penelope Cruz, melhor atriz coadjuvante por Vicky Cristina Barcelona, o primeiro de uma série de prêmios que a atriz vai levar.


Após os prêmios da NBR, outra associação, desta vez de críticos da TV e Rádio lançaram seus indicados. O Critics' Choice Award, da Broadcast Film Critic Association, é tão pomposo quanto o nome sugere. É uma tentativa clara de substituir o Globo de Ouro como a prévia oficial do Oscar, já que o GG vem tendo cada vez menos prestígio. A associação lança indicados em várias categorias, anuncia os vencedores numa festa ao vivo e, nos últimos anos, tem "coincidido" seus indicados e vencedores com os da Academia, na maioria das vezes. Mas a impressão que muitos têm é de que a escolha dos melhores é feita justamente na tentativa de se aproximar do que os membros da Academia estarão elegendo e, assim, ganharem mais fama e atenção no futuro. E estão conseguindo, de fato.


A categoria de Melhor Filme do Critics´ Choice também é composta de um top 10, que difere da lista da NBR apenas um pouco: Saem Queime Depois de Ler, Defiance, e Gran Torino e entram Doubt e The Reader. Se há algo de realmente relevante nessas listas, caso se confirmem como termômetro de Oscar, é a ausência em ambas de Revolutionary Road, o novo filme de Sam Mendes, com Leo DiCaprio e Kate Winslet.


O filme também ficou de fora das premiações dos dois principais prêmios da crítica, que saíram ontem e hoje: o círculo de críticos de Los Angeles e o de Nova York.


O Los Angeles Film Critics Association considerou Wall-E o melhor filme do ano. É a primeira vez que uma animação ganha esse prêmio, e parece fazer parte de uma campanha que muitos críticos vem fazendo desde o lançamento do filme da Pixar que é o de influenciar os membros da Academia a não limitarem Wall-E à categoria de Melhor Animação, indicando-o também na categoria principal. A título de curiosidade, nos 33 anos de premiação, apenas em seis vezes o melhor filme eleito por eles NÃO foi indicado pelo Oscar: Anti-Herói Americano (2003), As Confissões de Schmidt (2002), Despedida em Las Vegas (1995), Faça a Coisa Certa (1989), Little Dorrit (1988) e Brazil (1985).


Mais interessante ainda é ver que a segunda opção deles foi "O Cavaleiro das Trevas", colocando na briga dois filmes altamente comerciais para disputar os prêmios "sérios" do ano.


Já o New York Film Critics Circle optou por Milk, de Gus Van Sant, como melhor filme. Van Sant é um dos cineastas americanos mais interessantes (pra mim, "Elefante" entra facilmente num top 10 desta década) e que até hoje só foi lembrado pelo simpático, mas de encomenda, "Gênio Indomável". Agora, ele traz a história de Harvey Milk, o primeiro político assumidamente gay a ser eleito nos EUA, e já desponta como sério concorrente ao Oscar.


Com todas essas premiações, "Slumdog Millionaire" e "Milk" parecem ser os mais certeiros até agora. "O Curioso Caso de Benjamin Button" acabou sendo pouco lembrado (em especial os astros Brad Pitt e Cate Blanchett), mas as indicações ao Globo de Ouro amanhã devem mudar isso. Aos três, "O Cavaleiro das Trevas" e "Wall-E" poderiam completar a lista dos 5 principais concorrentes, caso outros nomes anteriormente fortes e esquecidos pela crítica (Revolutionary Road e Doubt, principalmente) também não impressionem a imprensa estrangeira do GG. Gran Torino, de Clint Eastwood, corre por fora por conta de reações extremas por parte da crítica - há quem odeie, há quem ame. O filme do mestre terá vaga garantida somente se as pessoas certas gostarem dele.


Nas outras categorias:

Melhor Ator - Sean Penn (Milk), com duas vitórias importantes (LA e NY) sai na frente, mas Clint Eastwood anunciou aposentadoria com Gran Torino (apenas como ator, deusnoslivre das demais funções!) e nunca venceu nesta categoria. Me parece que seria uma despedida mais do que apropriada se tivesse o Oscar em mãos. Mickey Rourke (The Wrestler) deve ser o outro nome certo entre os indicados, mas duvido que este retorno seja tão bem visto pela Academia.

Melhor Atriz - Sally Hawkins (Happy Go Lucky) também venceu dois prêmios importantes (LA e NY), mas este é um prêmio que vem sendo entregue à estrelas ou atrizes de muito prestígio. Neste quesito, talvez apenas Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) e Kate Winslet (Revolutionary Road) preencham as expectativas. Mas sempre há Meryl Streep, a eterna indicada que terá boas chances, a depender do amor da Academia por "Doubt". Melissa Leo (Frozen River) e a maravilhosa Kristin Scott Thomas (I´ve Loved You So Long) precisarão de enorme lobby do Globo de Ouro e Sindicato dos Atores.

Melhor Ator Coadjuvante - Enquanto ninguém duvida que este prêmio seja de Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas), Josh Brolin (Milk) já ganhou dois (NBR e NY). Independente de quem seja indicado, justiça nessa categoria só será feita caso Robert Downey Jr. seja lembrado por "Trovão Tropical".

Melhor Atriz Coadjuvante - Penelope Cruz (Vicky Critina Barcelona) vem se tornando favorita absoluta a cada premiação (única a ganhar NBR, LA e NY), mas esta é uma categoria das mais imprevisíveis do Oscar, com surpresas ou formas de consolação para filmes que não ganham em outras categorias (Tilda Swinton este ano, por exemplo). De qualquer forma, não se pode duvidar do poder de Woody Allen em dar Oscar para suas atrizes.


Com as indicações do Globo de Ouro, as coisas vão se definir melhor. Desta vez, o prêmio poderá ter sua chance de recuperar prestígio, já que os vencedores serão anunciados na véspera do último dia em que os membros da Academia devem enviar seus votos.


Mas a grande questão para nós é: estes filmes serão mesmo os melhores do ano?



sábado, 6 de dezembro de 2008

Filmes vistos em Novembro

Depois da farra do mês de Outubro, com quase 70 filmes vistos (60 deles só na segunda quinzena, graças à Mostra de SP), o mês de Novembro foi fraquíssimo. Além de final de semestre na faculdade, as séries de TV ocuparam o restante do tempo: meros 12 filmes vistos, sendo que quatro deles foram revisões. Não estou contando "24: Redemption", filme que antecede a sétima temporada de "24 Horas", porque eu considero como série também. A lista, então, é esta:


A obra-prima

1. Não Estou Lá, de Todd Haynes (2007)


Os grandes

2. Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan (2008)
3. Trovão Tropical, de Ben Stiller (2008)
4. Ressaca de Amor, de Nicholas Stoller (2008)
5. Juno, de Jason Reitman (2007)
6. Breaking News, de Johnnie To (2004)


Os legais

7. Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin (2004)
8. Léolo, de Jean-Claude Lauzon (1992)
9. O Grande Lebowski, de Joel e Ethan Coen (1998)
10. Hancock, de Peter Berg (2008)
11. Agente 86, de Peter Segal (2008)


O medíocre

12. Sex and the City - O Filme, de Michael Patrick King (2008)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O que é um filme ruim?

Não, eu não pretendo responder essa pergunta. Na verdade, minha intenção era escrever como minhas revisões de "Não Estou Lá" e "Fim dos Tempos" só os confirmaram como dois dos filmes mais incríveis do ano. Mas fala-se muito mal do filme do Shyamalan. E também de "Hancock", o outro filme "ruim" que está no meu top 20 do ano e que eu só vi recentemente (na verdade, com "Queime Depois de Ler" estreando, o blockbuster terá que dar lugar ao filme dos Coen). Então me veio essa pergunta em mente, mais como uma provocação para quem acha absurdo dois filmes tão terríveis serem admirados por alguém.


Na verdade, "Hancock" nem chega a ser um grande filme, como certamente "Fim dos Tempos" é. Só que é um blockbuster muito divertido, que busca no seu conteúdo um tratamento mais original e interessante nos subtextos. Só o fato de trazer uma seqüência de combate entre dois superpoderosos não com os motivos que já estamos cansados de ver (como em Homem de Ferro e O Incrível Hulk, só pra citar dois deste ano), mas como forma de externalizar neuroses e conflitos de um casal, já mostra que o filme quer mesmo sair do lugar comum. A virada do roteiro causa estranhamento, sim, mas dá contornos existencialistas ao filme que o tornam esse ser estranho entre os blockbusters de verão, e isso certamente conta pontos comigo. Gosto também das conseqüências no "mundo real" causadas pela presença de Hancock. Tudo filmado, editado e sonorizado com muita competência. Enfim, hollywood seria muito melhor se lançasse mais superproduções que causam desconforto e pegam o espectador de surpresa. Cansei das fórmulas de sucesso.


Falando nisso, "Fim dos Tempos" é o desconforto por excelência. A diferença é que isso não é Hollywood. É Shyamalan. Aos que me acusam de gostar do filme por ser fã de Shyamalan, só posso me defender dizendo que sou fã absoluto de Woody Allen e Pedro Almodovar, o que não me impede de abandonar pela metade "Igual a Tudo na Vida" ou me entediar com "Má Educação". Felizmente, Shyamalan ainda não fez seu filme ruim.


O problema está no que as pessoas esperam de um filme. Não só de um filme de Shyamalan (porque muita gente criou uma concepção do que seria um filme deste cineasta), mas do cinema em geral. E aí a pergunta do título me vêm à mente de novo. Porque Shyamalan claramente está em seu terreno autoral, mas as provocações que faz neste filme e o tipo de cinema que lhe interessa parece não bater com as expectativas do espectador que tem toda uma percepção codificada e - por que não dizer? - domesticada.


Ter revisto "Fim dos Tempos" no mesmo dia que revi "Não Estou Lá" foi curioso, porque o filme de Todd Haynes é sobre alguém que nunca se estabeleceu em parâmetros pré definidos, que sempre viu no desvio a possibilidade de renascer. Bob Dylan é como a "pedra que rola", se reinventando, não querendo para si o que a sociedade tenta lhe estigmatizar. Sair da norma, dos padrões (ou sequer fazer parte delas), é essencial para ter liberdade e capacidade de gerenciar a própria vida, e acompanhar a trajetória de Bob Dylan é nunca acostumar o olhar, ter uma percepção flutuante, aceitar a novidade, estar aberto ao diferente e ao inesperado.


"Fim dos Tempos" é este inesperado. Diferente porque o desenvolvimento, a narrativa, as atuações, as relações entre os personagens, tudo parece estar fora do lugar. E está mesmo. Fora do padrão, do normal. Mas assim como Bob Dylan é uma metamorfose ambulante que não deixa de ser Bob Dylan na sua essência, Shyamalan também não deixa de ser Shyamalan, e seu filme pode ser apreendido pelo que de essencial existe em toda sua obra: há elementos que permitem uma compreensão de seu filme, não só em seus filmes anteriores, mas também nos autores que deixaram sua marca no cinema e que lhe servem de influência (Hitchcock? Bresson? Sjöström? já li gente falando sobre estes e mais).


Enfim, o filme só pode ser apreciado quando visto com outros olhos. Não os olhos da normalidade, dos preconceitos de como deve ser um filme. Até porque estes preconceitos estão muito ligados a toda uma domesticação e padronização da linguagem cinematográfica. "Fim dos Tempos" nem exige um olhar novo. Ele pede por um olhar antigo, por um retorno ao que Bazin, Truffaut, Godard e companhia nos ensinou sobre um filme estar muito além do que seu conteúdo latente, a superficialidade. Essa superficialidade que é facilmente padronizada e engana o olhar.


Exemplo claro do filme é como as pessoas consideram ridículo ver personagens correndo do vento. É que ninguém quer ver o novo blockbuster da temporada tendo o vento como vilão. Bom mesmo é ver pessoas correndo do Hulk, hobbits correndo de criaturas monstruosas ou Harry Potter conversando com bichinhos engraçados. Só que as pessoas nesses filmes correm do nada, e o Hulk, as criaturas monstruosas e os bichinhos engraçados são acrescentados depois, digitalmente. Shyamalan expõe o artifício, joga na nossa cara o truque. Talvez teve a idéia depois de usar CGI em "A Dama na Água". O fato é que com isso ele propõe uma renovação na crença do poder das imagens. Ele busca um cinema sensorial, algo que praticamente inexiste no cinema americano.


Daí as interpretações fugirem do naturalismo. Acho interessante como muita gente coloca as atuações em "Fim dos Tempos" nas suas listas de queixas do filme. Será que nunca viram estes atores atuando antes? Se sim, sabem que não são apáticos como no filme. Então, por que estariam tão "ruins"? Porque a forma de atuar num filme não depende apenas do ator, mas é o autor quem dará as coordenadas, que vai definir o que ele quer pro seu projeto. Ou seja, há um propósito para aquilo. Qual seria? Apenas uma grande piada de Shyamalan? Obviamente que não. A trama do filme "naturalmente" é carregada de drama, não só o acontecimento do título, mas a própria desintegração de duas famílias ocorrendo na tela (na verdade, a destruição de uma fortalecerá a outra). Ao investir no minimalismo das atuações, novamente Shyamalan causa estranhamento buscando adesão do público não pela dramaticidade convencional, mas pelo sensorial.


O filme ainda traz uma quantidade enorme de seqüências memoráveis, costuradas por uma narrativa que, no todo, está atrelada ao conteúdo das "entrelinhas". A encenação de Shyamalan é toda voltada para reforçar as temáticas que lhe interessam. Seus filmes têm em comum a colisão de dois mundos distintos e como isso irá ajudar na aproximação e fortalecimento das relações familiares: em O Sexto Sentido, o mundo dos vivos e o dos mortos, a aproximação entre mãe e filho; em Corpo Fechado, o bem e mal, a aproximação entre pai e filho, marido e esposa; em Sinais, seres humanos e extraterrestres, a união de uma família e o resgate da fé; em A Vila, a vila e o mundo externo, o fortalecimento de uma mini sociedade; em A Dama na Água, uma pequena comunidade e os Scrunts (ou seria Story e os Scrunts?), e a união que faz a força.


Em "Fim dos Tempos", há uma diferença importante: os seres humanos e a natureza não seriam dois mundos distintos, mas uma coisa só. Daí que a mensagem ecológica não fica no mero discurso panfletário; daí que os personagens de Whalberg e Leguizamo constantemente nos lembram que o apego ao pensamento científico e matemático nos torna superiores mas separados de nossa natureza; daí que a seqüência com a velha não é deslocada e surge como comentário de que se isolar da sociedade não é uma solução; daí que nem o vento, nem as plantas assassinam ninguém, os próprios humanos tiram suas vidas; daí os closes de mãos entrelaçadas; daí cenas de diálogos com plano e contraplano que deixam personagens sozinhos no enquadramento quase que diretamente olhando para a câmera, dando sentido de isolamento e distância na comunicação; daí que o "acontecimento" acaba quando este problema de comunicação se resolve.


Shyamalan não quer simplesmente apontar o dedo para questões ambientais. Sua crença é na integridade das relações, homem-homem-natureza. Por isso uma das cenas mais lindas do filme é quando Whalberg está sentado parcialmente coberto por vegetação e a criança que cochicha quando tem medo, lhe abraça ao descobrir sobre seus pais. E a distância que a câmera mantêm desse momento é essencial. O cinema de Shyamalan é ético, a duração das imagens e o ponto onde a câmera se fixa são sempre pensados na sua relação com o conteúdo, com o que lhe interessa ao filmar humanos e objetos.


Isso faz dele um dos grandes nomes do cinema. E o mais corajoso a mexer com dinheiro de hollywood.