quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Chronicart - Melhores

A revista francesa Chronicart, em comemoração de seus dez anos, lançou um top 10 dos melhores filmes realizados entre 1997 e 2007. Ficou assim:


1. Cidade dos Sonhos, de David Lynch

2. De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

3. O Tempo e a Maré, de Tsui Hark

4. Tropas Estelares, de Paul Verhoeven

5. 2046, de Wong Kar Wai

6. Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul

7. Gerry, de Gus Van Sant

8. Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick

9. Inteligência Artificial, de Steven Spielberg

10. A Vila, de M. Night Shyamalan


Como se sabe, a crítica francesa tem uma percepção muito mais ampla de cinema, desde que críticos como Andre Bazin, Truffaut, Godard e filósofos como Gilles Deleuze, mostraram que a linguagem cinematográfica é arte complexa e mais cheia de possibilidades do que se pensava (ou do que muitos pensam até hoje). Só assim nomes como Alfred Hitchcock, Orson Welles, Howard Hawks, Samuel Fuller e John Cassavetes se tornaram os gênios que são reconhecidos hoje em dia.


A lista aí de cima me parece trazer este reconhecimento para os gênios de hoje, alguns bem incompreendidos e ignorados pela crítica "de massa". À exceção do filme de Lynch, meu top 10 certamente seria diferente, mas é bom ver o filme de Verhoeven lembrado como a obra-prima insana que é; e Shyamalan e Van Sant, que merecem estar em qualquer lista sensata desta década - no caso do indiano, não consigo escolher entre "A Vila", "Sinais" e "Corpo Fechado"; e como não vi "Gerry", "Elefante" seria minha escolha.


De Spielberg, acho "Munique" muito melhor, maior e intenso que "A.I."; adoro o filme de Malick e o de Kubrick só vi uma vez no cinema, acho que necessita de uma revisão.


E o cada vez mais cultuado e importante cinema oriental foi representado pelo tailandês de nome impronunciável (que prefere ser chamado de Joe no Ocidente), cuja obra infelizmente só chega no Brasil por meio de mostras e festivais ("Mal dos Trópicos" foi o único dele que vi e só posso dizer que não existe nada nesse mundo parecido), pelo chinês Hark que faz maravilhas com o cinema de ação em "O Tempo e a Maré" (filme que só vi recentemente, por conta desta lista) e pelo cultuado e odiado em iguais proporções Wong Kar Wai, cujo "2046" eu não vi.


O que eu acrescentaria? Não sei exatamente, mas além de "Cidade dos Sonhos", Elefante" e um Shyamalan, teria que ter "Kill Bill" completo, um Almodovar ("Tudo Sobre Minha Mãe" ou "Fale com Ela"), um dos Dardenne ("Rosetta" ou "O Filho"), um PTA (provavelmente "Boogie Nights") e um Kiarostami ("Gosto de Cereja", "O Vento nos Levará" ou "Dez"?! Céus!).


A revista também lançou seu top 10 deste ano, também uma seleção bem curiosa (e satisfatória pro meu gosto):


1. Two Lovers, de James Gray

2. Onde os Fracos Não Têm Vez, dos Irmãos Coen

3. Wall-E, de Andrew Stanton

4. Redacted, de Brian DePalma

5. A Troca, de Clint Eastwood

6. Trovão Tropical, de Ben Stiller

7. Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan

8. Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson

9. Na Guerra, de Bertrand Bonello

10. Speed Racer, dos irmãos Wachowski



O novo filme do James Gray só estreou em alguns países da Europa, não sendo (ainda) reconhecido pelos americanos como um dos grandes autores que existe por lá. Só mesmo os franceses... A inclusão dos filmes dos Coen, DePalma, Shyamalan e Eastwood parecem óbvias por serem autores fortes, que continuam expandindo seus universos de formas surpreendentes (exceto pelo "A Troca" que ainda não vi). Wes Anderson é outro autor, mas este ainda não consegui encarar, faltou química entre a gente. O filme do Bonello foi um dos mais elogiados no último Festival do Rio, o de Stiller é impossível ficar imune ao brilhantismo da sátira e da brincadeira, enquanto ao menos por lá a incrível linguagem "cine-game" dos Wachowski foi merecidamente reconhecida. E parece que nem os franceses resistiram ao encanto de Wall-E.

10 comentários:

jeff disse...

Achei maior furada esse top de melhores entre 1997 e 2007. hehe E pelos motivos que citou. Mas principalmente por não ter nenhum filme do PTA, que foi o que melhor apareceu no cinema nesse tempo.

E Fim dos Tempos no outro top?! Isso eu gostei. hehe

[]s!

Kamila disse...

Duas listas bem diferentes e que mostram o gosto único da revista francesa. Interessante ver "Gerry" citado entre os melhores filmes realizados entre 1997-2007. ODEIO este filme do Gus Van Sant!!!

e.fuzii disse...

"A.I." e "A Vila", essa é uma revista que eu definitivamente NÃO leria...
Tá, quem sabe a parte musical.

Mas peraí, duas vezes seguidas James Gray como melhor do ano? Cheira mutreta... :P

Hélio disse...

Pois é, Jeff, eu tb incluiria algo de PTA, mas acredita que muita gente boa que eu conheço nao gosta do diretor? Magnolia, especialmente, nao é muito admirado em alguns circulos...

Kamila, sou fã incondicional desta fase do Van Sant e vou correr atras do Gerry, coisa que ja deveria ter feito ha muito tempo.

Fuzii, Fuzii... nao me diga que vc tb nao gosta de A Vila?! Menino, o que vc anda tomando, hein? :P
Do A.I. eu nao vou discordar. Munique foi o melhor filme de Spielberg desde... sei la, o primeiro Indy?
De musica, vc sabe que nao entendo lhufas, mas quero ouvir alguma coisa da lista deles (assim como alguns dos livros - ja estava de olho no de Will Self).
A mutreta do James Gray nao tem jeito. Nao so a revista, a critica francesa adora o cara, seus filmes sempre vao pra mostra competitiva de Cannes, e eu nao posso discordar. É interessante como a ideia de "politica dos autores" da Cahiers du Cinema persiste entre os franceses: eles nao adoram filmes simplesmente, eles amam determinados autores.

Abraços!

e.fuzii disse...

Eu entendo até os critérios só não concordo. Essa discussão pode ser enorme (e sempre será), mas não acho possível julgar o trabalho de um diretor como totalmente autoral, como considerar por exemplo os trabalhos de um fotógrafo.

Acho "A Vila" bem irregular, tem uma das cenas mais aterrorizantes para mim (aquele e.t. passando na janela, no Brasil) ao mesmo tempo que o final é frustrante. Mas se tivesse de incluir Shyamalan colocaria "Corpo Fechado".
Spielberg não entraria na lista de jeito nenhum, pelo menos não nesse período. Aí concordo com você que falta um Dardenne e um Tarantino pelo menos.

Hélio disse...

Ei, moço, a cena do ET é em Sinais.

Concordo que a discussao é complicada, mas muitos diretores conseguem, sim, serem bastante autorais. Estes aí de cima, por exemplo (Gray, DePalma, Eastwood, Shyamalan) conseguem imprimir suas marcas, ha coerencia no que abordam (na forma, nos temas, na linguagem, na estetica) de filme pra filme, etc. Ha outros tantos que nao dá pra perceber, ou talvez ate sejam e nao conseguimos identificar. Mas acredito, sim, na autoria de muitos.

Mas eu tb acho que a coisa toda tb pode "desandar", ou seja, faltar algum elemento que faz do novo filme algo ruim, comparando-se com os anteriores. Quer dizer, nao gosto muito dessa coisa de elogiar tudo o que um cineasta faz, unicamente por conta de sua autoria. Daí que estou preparado pra condenar um filme do Shyamalan ou do Gray, caso façam algo ruim. Só que ate agora eles nao erraram. :P

Abraços!

e.fuzii disse...

HAHAHA!!!
Consegui me confundir todo. Mas a culpa toda é do Joaquin Phoenix, que como você pode perceber tem sido presença constante em nossas discussões. Aliás, espero pelo seu texto de "Os Donos da Noite", quem sabe dou nova chance.

Enfim, tanto faz... acho que 'A Vila' é ainda pior que 'Sinais'. E também acredito que os cineastas tem a possibilidade de deixar suas marcas nas produções, o que não concordo mesmo é julgar o filme pelo seu cineasta em primeiro lugar, como se manter essa coerência fosse o mais importante. Para não estender ainda mais a discussão, em algumas produções o estilo do diretor funciona, em outras não.

pseudo-autor disse...

Achei o Tempo e a Maré exagerado numa lista dessas. Concordo com vc quanto a A.I (também acho Munique muito melhor). Já 2046, Cidade dos Sonhos e Além da Linha Vermelha não podiam ficar de fora. Eu colocaria Perfume, do Tom Tykwer também.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Depois de ver essa lista atentei para a necessidade de rever Tropas Estelares. Acabei de fazê-lo, e o filme é mesmo uma pérola. Escrevi um pequeno texto sobre ele lá no blog, e até citei seu blog ...
De resto, concordo contigo. Há filmes do Spielberg melhores do A.I. (particularmente colocaria aí Munique ou Schindler) e do Van Sant deveria mesmo ser o Elefante. E falta mesmo o PTA.

Hélio disse...

Pseudo-autor, eu tb nao colocaria o Tempo e a Mare nem entre meus 20 favoritos, mas admiro muito o que o Tsui Hark faz com o cinema narrativo de ação neste filme, com direito a sacanagem pesada com o John Woo (em cena com dois personagens apontando a arma um para o outro, com resultados bem diferentes do que ocorre nos de Woo). Agora, eu nao gosto nada do Perfume...

Wallace, to passando la pra ler o texto. O Verhoeven é dos cineastas mais incompreendidos, inclusive gostei muito do Showgirls na epoca em que foi lançado. Infelizmente nao encontro o dvd para reve-lo.

Abraços!