quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Comentário Geral e Melhores da Mostra de SP

Estou bastante atrasado com os comentários sobre os filmes vistos em São Paulo, já que a Mostra acabou faz quase uma semana (sem contar a repescagem) e só fiz mini resenhas de 41 obras - falta falar ainda sobre mais 31 sessões de cinema. Não é pra menos: a maratona lá foi pesada e, já em minha terra natal, há as maratonas de faculdade, séries de tv e, claro, mais filmes.


Peço desculpas pelos comentários curtos e superficiais, mas infelizmente não só falta tempo, mas também só faço anotações mentais quando vejo os filmes e tenho escrito apenas com o que puxo da memória de filmes vistos há dias. Em alguns casos, sem o acesso à net, nem acesso a ficha técnica do filme em questão eu tinha. Mas como prometi escrever sobre todos, ainda termino isso.


De qualquer forma, queria falar logo sobre como foi o evento, fazer um resumão e postar meus prediletos, esquema meio americano de premiação:


Em São Paulo, foram 72 sessões de cinema, sendo 66 filmes da Mostra e mais 4 filmes do circuito comercial. As outras duas sessões foram revisões de um filme da Mostra, e outro do circuito. Destes, apenas duas desistências: saí com mais da metade do filme visto ("Os Dispensáveis") e outro com apenas meia hora de projeção ("Síndrome de Pinocchio"). Também saí da sessão de "Belair", mas só fui vê-lo porque cobria o horário exato que eu tinha sobrando até o próximo filme. Infelizmente, um atraso de 20 minutos para seu início fez com que eu saísse antes do fim, ou perderia "Cabeça a Prêmio".


Da lista de prioridades que eu tinha, não consegui ver apenas "Polícia, Adjetivo". Quanto aos demais, a maioria correspondeu às expectativas, sendo que as grandes frustrações vieram do cinema nacional - nenhum entra para meu top 10 da Mostra.


Os prêmios dados pela organização foram bem estranhos: o público selecionou seus dez filmes prediletos (algo nunca confiável) e o júri, composto por gente que supostamente teria um gosto mais "apurado", iria selecionar o melhor dentre eles (só valiam filmes de diretores estreantes). Ganhou um coreano chamado "Voluntária Sexual", que não ouvi um único comentário elogioso de todas as pessoas boas que conheço, quando concorria também o belíssimo "A Família Wolberg". O filme que abandonei por estar achando desastroso, "Os Dispensáveis", ficou com prêmio de direção e ator. Já o prêmio da crítica (e eu nem sei que crítica é esta) considerou que o melhor longa-metragem estrangeiro, DE TODA A MOSTRA, foi o iraniano "Ninguém Sabe dos Gatos Persas", que é muito simpático (mas melhor?!) e o melhor longa-metragem nacional foi o meia-boca "O Sol do Meio-Dia".


Em relação à organização do evento, pareceu bastante pior em relação ao ano anterior. É verdade que presenciei poucos atrasos (o mais grave foi mesmo o de "Belair"), mas houve outros tantos problemas:


- Projeções ruins: muitas em dv-cam e, principalmente, o digital que matou um dos grandes filmes da Mostra - Ervas Daninhas;


- Alterações na programação: a maior palhaçada foi cancelar todas as exibições de Lebanon para fazê-lo o filme de encerramento - por que não pensaram nisso ANTES de programá-lo?


- Programação infeliz: havia dias em que os principais filmes passavam ao mesmo tempo, enquanto em outros somente desconhecidos já negativamente comentados. Os últimos dias de Mostra, então, foi um horror;


- Cabines para imprensa: este ano, consegui ver os filmes que eram exibidos para a imprensa pela manhã, o que permite ver mais obras durante o dia. Mas as escolhas foram horríveis e o único nome de peso que vi foi o filme do Manoel de Oliveira. Outros dois de importãncia foram desastrosos: Soul Kitchen, de Fatih Akin, teve sessão cancelada, enquanto o novo de Christophe Honoré, falado em francês, passou SEM LEGENDA NENHUMA, fazendo com que a maioria dos presentes se retirassem (o normal é que se o filme não tiver áudio em inglês, ao menos tenha as legendas);


- Yuki & Nina: Filme que eu havia escolhido para encerrar meu dia de Mostra, acabou tendo sessão cancelada, pois a cópia havia ficado presa no equipamento. Antes, nos fizeram esperar por quase uma hora, informando que uma nova cópia estava a caminho, para depois vir a informação que não havia outra cópia.


- Repescagem: a Mostra fez uma programação horrorosa para a repescagem. A intenção deveria ser exibir os principais filmes do evento, os mais requisitados e elogiados. O que vimos foi pouca coisa de interesse e eu, que esperava rever algumas coisas, acabei pegando apenas dois filmes.


E como este post já está bem grandinho, encerro com minha lista de melhores. Mais ou menos em ordem de preferência, porque não houve nada que tenha se destacado muito dos demais. Muita coisa excelente, num nível mais ou menos equivalente de qualidade. A preferência vai pelo momento em que escrevo e é bom lembrar que se trata apenas dos filmes QUE PARTICIPARAM DA MOSTRA, já que meu filme predileto que vi em São Paulo esteve fora dela (Bastardos Inglórios).


Melhor Filme

1. A Religiosa Portuguesa, de Eugéne Green
2. Morrer Como um Homem, de João Pedro Rodrigues
3. A Família Wolberg, de Axelle Ropert
4. O Que Resta do Tempo, de Elia Suleiman
5. Mother, de Bong Joon-Ho
6. Abraços Partidos, de Pedro Almodovar
7. Vício Frenético, de Werner Herzog
8. Shirin, de Abbas Kiarostami
9. Ervas Daninhas, de Alain Resnais
10. Vencer, de Marco Belocchio


Melhor Diretor

1. João Pedro Rodrigues, por Morrer Como um Homem
2. Eugéne Green, por A Religiosa Portuguesa
3. Elia Suleiman, por O Que Resta do Tempo
4. Alain Resnais, por Ervas Daninhas
5. Werner Herzog, por Vício Frenético


Melhor Ator

1. André Dussollier, por Ervas Daninhas
2. François Damiens, por A Família Wolberg
3. Filippo Timi, por Vencer
4. Alex Descas, por 35 Doses de Rum
5. Emmanuel Mouret, por Faça-me Feliz


Melhor Atriz

1. Leonor Baldaque, por A Religiosa Portuguesa
2. Krystyna Janda, por Alga Doce
3. Kim Hye-Ja, por Mother
4. Giovanna Mezzogiorno, por Vencer
5. Penelope Cruz, por Abraços Partidos


Melhor Roteiro

1. Mother
2. A Família Wolberg
3. O Dia da Transa
4. Vício Frenético
5. Ricky


Melhor Ator Coadjuvante

1. Gonçalo Ferreira de Almeida, por Morrer Como um Homem
2. Bin Won, por Mother
3. Ewan McGregor, por I Love You, Phillip Morris
4. Michael Fassbender, por Fish Tank
5. João Miguel, por Hotel Atlântico


Melhor Atriz Coadjuvante

1. Sabine Azéma, por Ervas Daninhas
2. Valérie Benguigui, por A Família Wolberg
3. Alycia Delmore, por O Dia da Transa
4. Alice Braga, por Cabeça a Prêmio
5. Imelda Staunton, por Aconteceu em Woodstock


Os Piores Filmes (apenas os vistos por completo)

1. Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan
2. Sedução, de Lone Scherfig
3. O Amor Segundo B. Schianberg, de Beto Brant
4. Insolação, de Felipe Hirsch e Daniella Thomas
5. Samson and Delilah, de Warwick Thornton
6. Os Famosos e os Duendes, de Esmir Filho
7. Lymelife, de Derick Martini
8. Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee
9. Perseguição, de Patrice Chéreau
10. Selvagens, de Lawrence Gough

Mostra de SP - Dia 8

36. A Oeste de Plutão, de Myriam Verreault e Henry Bernadet – O que Esmir Filho fez com um adolescente em “Os Famosos e os Duendes da Morte”, os canadenses estreantes Verreault e Bernadet fazem com uma dúzia deles neste filme menos metido a besta, mas igualmente desinteressante. Primeira parte do filme traz uma série de colagens de apresentações escolares dos adolescentes, que tinham como tarefa falar para seus colegas sobre qualquer tema que achassem interessante. É a forma encontrada pelos cineastas de apresentar seus personagens, onde vemos os jovens expressando suas opiniões e temores diante da vida, com o mais que obrigatório (e batido) não julgamento da câmera diante de falas ingênuas, engraçadas e tolas. Aos poucos, um enredo vai se formando, com uma típica loser dando uma festa em sua casa (aproveitando ausência dos pais) para agradar os colegas que a desprezam e, claro, nem tudo sai como deveria. A narrativa é frágil, há muitos personagens e as conexões entre eles não sustentam o filme, que é bem curtinho (95min) para toda sua pretensão. (Nota 3/10)


37. Adam, de Max Mayer – Comédia romântica bobinha sobre homem com Síndrome de Asperger (espécie de autismo que dificulta seu relacionamento com outras pessoas) que conhece nova vizinha, que lhe ensinará sobre o amor. Mas, claro, ela também irá aprender um bocado (é o que nos diz a narração no início do filme). Baseando-se todo na construção deste relacionamento, de forma leve e bem-humorada, o filme carece de boas piadas e até mesmo consistência na “condição” do protagonista, que vez ou outra parece não corresponder aos sintomas de sua síndrome, de acordo com a conveniência do roteiro. A dupla protagonista até se esforça: Hugh Dancy, meio afetado e engraçado tentando demonstrar as peculiaridades do Asperger, e Rose Byrne um pouco diferente de sua personagem de “Damages”, mas claramente uma atriz limitada. Coadjuvantes nesse tipo de filme costumam roubar a cena, mas são bem fracos, com exceção de Peter Gallagher, que me fez notar como gosto dele. Enfim, trama boba e nem sempre bem conduzida que se salva pelo final, que foge do lugar comum. (Nota 5/10)


38. Vencer, de Marco Belocchio – Aparentemente uma cinebio sobre Benito Mussolini, acabei surpreendido por se tratar de uma parte de sua vida que não consta da história oficial, protagonizada por Ida Dalser, mulher que Mussolini amou e com quem teve um filho, mas os renegou quando ascende ao poder. A primeira hora de “Vencer” é absolutamente espetacular, narrando esta história de amor com energia e força extraordinárias. Belocchio usa imagens de arquivo que se mesclam à sua narrativa, palavras impressas na tela e trilha sonora grandiosa dão um tom de ópera que realmente impressiona. Tudo tão vigoroso e estimulante como cinema, que acaba sendo um choque como a segunda parte surpreendentemente se transforma num determinado filme de gênero e, embora seja muito bom, já não tem a força vista anteriormente. A atriz Giovanna Mezzogiorno domina o filme do início ao fim e é uma pena que o mesmo não pode se aplicar a Filippo Timi, tão incrível e operístico inicialmente, como Mussolini. Ainda assim, um dos grandes filmes exibidos até aqui. (Nota 9/10)


39. O Que Resta do Tempo, de Elia Suleiman – Quem já conhece a obra-prima de Suleiman “Intervenção Divina” sabe que o cineasta faz um cinema político sobre os conflitos na Palestina de forma muito peculiar: carrega nos simbolismos e metáforas, de onde extrai humor irreverente, ácido e inteligente. Aqui, mais “comportado” que no filme anterior, Suleiman conta a história de sua própria família, com linha narrativa bem mais fácil de se acompanhar, narrando episódios cotidianos em momentos distintos da história do país. É um projeto de cinema lindo o de Suleiman, com câmera frontal e fixa, cortes secos e fazendo da forma um posicionamento ético e político diante de tema tão espinhoso. E ainda é engraçado. Vejam, por exemplo, como o diretor filma a falta de liberdade dos “árabes-israelenses”: um homem sai de casa para pegar o jornal; um tanque acompanha seu curto trajeto. É simples, silencioso, cheio de significado e hilário. Seu cinema é assim. No final, a beleza de um cineasta que observa a vida que segue, ao som de “Stayin´ Alive”. (Nota 9/10)


40. Irene, de Alain Cavalier – Tudo é memória nesta bela (e dificílima de se acompanhar) homenagem de Cavalier à sua esposa Irene, que faleceu há mais de 30 anos. O cineasta descobre os diários dela e resolve filmá-lo, visitando os locais que fizeram parte de suas vidas. Todo em primeira pessoa (o filme é Cavalier com câmera digital na mão, sob a perspectiva desta câmera unicamente), “Irene” deve ter sido o recordista em fazer o público dormir. Vi várias pessoas cochilando na sessão em que estive. Não é pra menos, porque a voz melancólica e entediante do diretor é onipresente, filmando objetos e lugares que, é inegável, são carregados de significado emocional para ele. Cabe a cada um sentir empatia ou não pelo seu projeto, que tem momentos mais interessantes que outros. (Nota 7/10)


41. O Dia da Transa, de Lynn Shelton – Um dos mais novos subgêneros criados pela comédia americana atual, o “bromance” é levado ao extremo neste muito simpático filme, que traz uma história aparentemente absurda (que, embora faça parte da sinopse, não conto aqui porque vi sem saber e fui surpreendido). Uma das enormes qualidades do filme é fazer com que esta história se torne verossímil, graças a um texto afiado e na forma como a diretora consegue captar a verdade de seus personagens via aproximação que os tornam bem reais para o espectador. É um filme delicioso de se ver e ouvir, especialmente porque não apresenta aquele ranço que os independentes americanos possuem quando o assunto é sexo. Infelizmente, o clímax deixa a desejar, menos pela resolução em si (que cabe boa discussão, mas não antes do filme estrear), e mais pelo fato de se prolongar, mas não necessariamente aumentar a tensão. Ainda assim, um pequeno grande filme. (Nota 8,5/10)

domingo, 8 de novembro de 2009

Mostra de SP - Dia 7

No final da primeira semana de Mostra, acabei não vendo filme algum do evento. O motivo foi justo: ir, pela primeira vez, ao Parque Antartica, ver o Palmeiras jogar. E não poderia ter sido melhor, com goleada em cima do Goiás. Como fui cedo para o estádio, acabei ficando no shopping ao lado. A intenção era conhecer a sala IMAX, mas passando "This is It", foi o jeito apenas conhecer uma projeção em 3D:



35. Up - Altas Aventuras, de Pete Docter - De fato, foi um pouco decepcionante este novo produto da Pixar, que funciona no modo “aventura engraçadinha” boa parte do tempo, e se assemelha mais a algo feito pela Dreamworks ou Fox, do que as imaginativas histórias da Pixar. O ponto de partida é lindo, aquela casa cheia de balões flerta com o fantástico e até parece que vai resultar em subtextos e fantasia rica e complexa. Infelizmente não chega a tanto e é apenas um filme simpático. Ainda assim, tem uma abertura magnífica: a narração de toda a história de vida do protagonista deve ser a coisa mais linda de todas as animações da produtora. Já como produto 3D, o filme não utiliza muito os recursos e fiquei com a impressão que o trailer de “Tá Chovendo Hamburguer” tinha muito mais efeitos que todo o filme “Up”. O que é uma coisa boa, já que a nova mania 3D pode acabar com o que realmente interessa nos filmes (contar bem uma história) em prol do maravilhamento com novas tecnologias. E confesso que ver um filme com aquele óculos me incomodou bastante. (Nota 7/10)


Mostra de SP - Dia 6

32. Os Dispensáveis, de Andreas Arnstedt – Caí na besteira de seguir recomendação de gente que não conheço (isso que dá ficar entrando em comunidades de Orkut) e fui ver este. Foi minha primeira desistência da Mostra. Saí com uma hora de filme, quando vi que nada mais fazia sentido – incluindo minha presença ali no cinema. Criança tenta esconder o corpo do pai, que morreu em casa, pra não ser enviado a orfanato. A mãe é alcoólatra e está internada. É, a vida dele é um inferno. E como se já não bastasse o tempo atual, vemos também em flashback o que aconteceu um pouco antes. Não há um único momento verdadeiro e lógico em todos os relacionamentos vistos no filme, que só existem para chegarmos na ideia principal do filme. Cansado (apesar do primeiro filme do dia), resolvi cair fora. (sem avaliação)

33. A Família Wolberg, de Axelle Ropert – Grande surpresa da Mostra, enfim um filme com família em crise e que está longe dos cacoetes mais que batidos do gênero. Pessoal que lança filme em Sundance deveria ver esta pequena pérola da estreante Ropert. Tal como “Lymelife”, o filme se passa em pequena comunidade, foca em uma família onde marido e mulher já não se amam, há traição e como isso tudo afeta os filhos. A grande diferença aqui é o enfoque nos pequenos detalhes, nos pequenos gestos e nas situações corriqueiras. Nada muito dramático e forçado, as coisas evoluem com naturalidade impressionante. A fotografia é belíssima (ocupando toda a largura da tela, algo cada vez mais difícil de se ver em tempos de digital), o elenco é muito bom e o texto é de qualidade e sensibilidade típica dos franceses ("Te amo, mas você me faz sofrer"). Um discurso de pai para filha é o momento mais lacrimoso da Mostra até aqui. (Nota 9/10)


34. Morrer Como um Homem, de João Pedro Rodrigues – Cineasta que descobri recentemente, o português Rodrigues me fascinou com seus dois primeiros filmes, “O Fantasma” e “Odete”, obras difíceis de acompanhar tanto pela narrativa extremamente lenta, quanto pelos personagens, cujas jornadas se relacionam a obsessões que os levam até as últimas conseqüências na realização (e compreensão) de seus desejos. Este terceiro filme é mais “convencional” (no sentido de que há mais dinamismo na narrativa e na relação entre personagens), mas não menos forte, ao contar a história da travesti Tonia (nome em homenagem a Tonia Carrero) que se vê num momento difícil de sua vida: sentindo o peso da idade, os receios em fazer uma operação completa de mudança de sexo, e a própria rejeição de seu corpo aos implantes de silicone, ainda tem que conviver com um namorado mais jovem envolvido em drogas, seu filho que a odeia e rivalidades profissionais. Tudo isso é contado com os planos mais lindos do mundo e Rodrigues não tem medo de prolongá-los ao máximo, criando momentos de extrema cumplicidade entre espectador e personagens. Dos muitos grandes momentos, é até óbvio citar o plano estático, sob filtro vermelho, em que os personagens estão imóveis ao som de "Calvary", mas deve ser a coisa mais bela vista até aqui. E é mais ou menos neste momento do filme que também surge uma personagem absurdamente hilária, que tira da obra aquela coisa sisuda sentida nas obras anteriores de Rodrigues. É um filme triste, pesado, mas poético e extremamente carinhoso com sua protagonista. Dos maiores do ano. (Nota 9,5/10)

sábado, 7 de novembro de 2009

Mostra de SP - Dia 5

26. Singularidades de Uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira – Cineasta mais velho em atividade (101 anos de idade), Oliveira impressiona pelo claro prazer e alegria que tem em filmar. É um autor que preciso conhecer mais: dele, só conhecia os belíssimos “Um Filme Falado” e “Sempre Bela”. “Singularidades...” não é tão forte quanto estes, e nem parece ser a intenção do diretor em fazer algo assim. Filma com economia (de gestos, de planos, de duração), com simplicidade e extremo cuidado na colocação da câmera e das coisas que capta. A trama é um conto moral, baseado em Eça de Queiroz. O moço se apaixona por rapariga loura que espia de sua janela. Pelas molduras que Oliveira cria, logo entende-se porquê. Apaixona-se a ponto de querer casar com ela. Passa por obstáculos pra conseguir isso e só depois descobrirá as tais singularidades da rapariga. É tudo muito simples, e a grande qualidade do filme é essa capacidade de extrair beleza de algo que parece ser tão pouco. A história de amor é contada em flashback, numa viagem de trem, do protagonista para uma desconhecida, e a gente sabe desde o início que é uma história que não deu certo. Como a história continua a partir daquela viagem de trem? O corte final parece áspero, mas é de uma perfeição, coerente demais com o tom da história contada. (Nota 8,5/10)


27. Travessia, de João Batista de Andrade – O diretor do já clássico “O Homem Que Virou Suco” traz um projeto simples, de provocação política, ao fazer uma série de entrevistas com pessoas que tiveram participação expressiva na ditadura militar. Depoimentos de intelectuais, artistas, sindicalistas, nomes do governo e até mesmo jovens que não viveram o período. Não há nada de novo, mas há um interesse político ao intercalar com entrevistas feitas com pessoas comuns que não tiveram participação ativa no processo e que, ou não se sentiram afetados pela ditadura, ou acreditam que naquela época “as coisas eram melhores”. A travessia de gerações encontra também vozes de jovens que não parecem conhecer o momento histórico ou tem opiniões simplistas sobre o período. O cineasta não condena, nem faz juízo de valor, mas ao terminar seu filme com uma opinião bem “controversa”, deixa o questionamento sobre a atuação política de nossa sociedade atual, que parece lamentar as coisas como estão, sem sequer pensar na sua história e se isentando na mediocridade de nossas vidas. A provocação é leve, mas surte algum efeito. (Nota 6,5/10)


28. Tokyo!, de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-Ho – Três histórias que se passam na capital japonesa, com uma única coisa em comum: são contos que flertam com o fantástico que, cada um a sua maneira, discutem aspectos da vida em sociedade. Achei o projeto bastante simpático e acabei gostando de todos, sendo que o mais bonito, de longe, é o de Joon-Ho, e o mais fraco é o do Gondry. Carax faz o mais curioso por não ter medo de se arriscar, de desagradar e até de incomodar. E é bem engraçado no seu formato “maluquete”. Gondry traz uma história bonitinha sobre mulher que não encontra seu lugar no mundo até o dia em que percebe que a felicidade vem da aceitação das coisas mais inusitadas. Joon-Ho, que já encantou nesta Mostra com “Mother”, traz uma bela história de amor num futuro em que as pessoas não suportam mais o contato com os outros. O que importa aqui são os silêncios e a delicadeza do diretor em planos precisos, de narrativa certeira. (Nota 7/10)


29. Independência, de Raya Martin – Com apenas 25 anos, o filipino Martin é o mais novo queridinho da crítica internacional, ao refletir em seus filmes a história política de seu país. Este novo filme lotou as sessões da Mostra e acredito que muitos tenham saído decepcionados. O diretor traz uma história minimalista ao extremo, em que mulher e filho fogem da Guerra (início do século XX) e se isolam numa floresta. Os planos são, em sua maioria, fixos e enquadram o mínimo de espaço possível. Filmado em preto e branco, a linguagem utilizada remonta aos primórdios do cinema (período que se passa a trama, inclusive), com direito até a cenários pintados. É esteticamente bonito, e o uso de som é fantástico, especialmente numa sequência com uma forte tempestade. Por algum motivo, senti uma frieza naquilo tudo que me distanciou do filme. Principalmente porque a floresta já foi um lugar mais fascinante em Naomi Kawase (A Floresta dos Lamentos) ou em Apichatpong Weerasethakul (Mal dos Trópicos). De qualquer forma, um projeto bem curioso e que me deu vontade de conhecer seus outros filmes. (Nota 7/10)


30. Lymelife, de Derick Martini – Mais um draminha independente americano sobre família se desintegrando. O que incomoda sempre é a falta de delicadeza e a existência de motivos altamente dramáticos para que os personagens se dêem mal ou que justifiquem seus atos. De positivo aqui, só mesmo os irmãos Culkin, Rory e Kieran, que me fizeram lamentar o pouco que os vejo no cinema. Grandes diretores poderiam arranjar trabalho pra eles, não? A trama envolve duas famílias que vivem numa comunidade atingida por um surto de doença de Lyme, causando paranóia em massa. O filho mais novo de uma família é amigo e apaixonado da filha única da outra família. Mas ele é um loser. Ela gosta de caras mais velhos e nem percebe como ele gosta dela. Já vimos isso antes, e nem incomodaria ver de novo, mas o filme segue os caminhos mais desinteressantes e fáceis, a ponto de sabermos exatamente os acontecimentos que vão encerrar o filme. Uma perda de tempo. (Nota 3/10)


31. Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan – Diretor estreante, de 20 anos de idade, fazendo filme sobre adolescente que odeia a mãe, onde ele mesmo protagoniza no roteiro que ele mesmo escreveu? Até poderia render algo bom, dependendo da carga pessoal que é impressa na obra. Mas se isso realmente aconteceu (eu não percebi), também é preciso ter talento atrás das câmeras. Filme canadense horroroso (selecionado para representar o país no Oscar de Filme Estrangeiro – é capaz até de ser indicado) em que Dolan é insuportável e histérico, resumindo-se a gritar e xingar a mãe a cada 20 minutos de projeção. A mãe, uma sonsa que nem se choca mais com o que ouve. A relação dos dois se resume às ofensas e a alguns carinhos que vem sempre quando o jovem quer algo da mãe. É uma sucessão de cenas tolas e irritantes, com verniz de filme de arte, porque tem o protagonista fazendo um vídeo, onde olha pra câmera e desabafa seus sentimentos sobre a mãe (porque não basta o que ele fala diretamente pra ela), frases supostamente poéticas impressas na tela, e relacionamento gay porque, claro, é um filme moderno. De qualquer forma, entra naquela lista de “pérolas” que a platéia parece cair de amores. Filme parece ter agradado por aqui. O que talvez seja até mais triste e terrível que o próprio filme. (Nota 0/10)

sábado, 31 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 4

22. Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho - Vencedor do Festival do Rio, o primeiro longa-metragem de Esmir Filho (de quem eu conhecia o simpático curta Saliva) acompanha a rotina diária de um adolescente em pequena cidade alemã no Rio Grande do Sul, cujo contato com o mundo vem, essencialmente, da internet, através de seu blog, fotolog e conversas via msn. Alguns mistérios rondam sua vida, como a presença fantasma de um amor perdido (ou ainda a se alcançar?) e um homem que vaga pela noite e que seu melhor amigo parece odiar. Não à toa, já li alguns comentários que diziam que o filme se trata de um "Reygadas emo". Eu diria que é mais emo do que Reygadas (cineasta que filma infinitamente mais bonito que este Esmir), numa afetação sem fim que torna o filme mais longo do que já é (101min). O diretor parece mais interessado na forma do que realmente fazer um retrato sincero da adolescência, e os planos e texto, supostamente poéticos, são dolorosos de ver, de tão vazios. Filme vindo do Sul sobre adolescentes, melhor ficar com o belo Houve Uma Vez Dois Verões, do Jorge Furtado. (Nota 2/10)
23. A Mulher do Lado, de François Truffaut - Um dos mais queridos filmes de Truffaut, finalmente pude conferir esta pérola realizada em 1981, três anos antes do cineasta falecer. Filme passou na Mostra em seleção que homenageia a atriz Fanny Ardant. No filme, senhora narra história de homem que reencontra seu grande amor do passado, quando esta se muda com o marido para a casa ao lado. Ambos parecem ter superado o passado, são bem casados, com belos filhos (de mesmo nome). As consequências deste encontro serão trágicas e Truffaut filma o amor como a coisa mais poderosa do mundo, com personagens que estão dispostos a morrer (e matar) em seu nome. Há uma irracionalidade fascinante nos personagens, que vai crescendo na mesma proporção em que os sentimentos vão aflorando e também nossa compreensão (apenas sentida) do que deve ter sido a vida destes dois juntos. Belíssimo. (Nota 9/10)
24. Abraços Partidos, de Pedro Almodovar - É bom ver um filme de um grande mestre quando só se ouve comentários de que se trata de uma obra menor dele. O prazer é ainda maior ao concluir que está longe de ser coisa pequena. Pois Almodovar conseguiu mais uma vez fazer melodrama engraçado, comovente e irônico, com trama aparentemente clichê (dentro do seu próprio cinema), mas que vai se desdobrando e se tornando uma linda homenagem ao cinema, que não ficaria deslocada de uma sessão dupla com Bastardos Inglórios. Algumas coisas são simples, mas encantadoras, a começar pelo fiapo de argumento irônico que surge no início: roteirista que quer fazer um filme em que filho abandonado pelo pai não guarda ressentimentos, e acaba recebendo na porta um jovem cineasta que quer fazer um filme para mostrar todo o seu desprezo pelo pai. Claro que há uma ligação entre os dois e a trama se desenvolve em flashback, com mais uma presença luminosa de Penelope Cruz, em história de amor louco e trágico, onde a arte é (mais uma vez, como em Fale com Ela) fundamental na vida das pessoas. O final é uma dessas maravilhas que te deixa entusiasmado e emocionado com um cineasta que não parece ter limites, conseguindo comentar sobre seu amor pelo fazer cinema de modo que tudo se encaixe, e com sequência hilária o suficiente para acreditarmos naquilo. (Nota 9/10)
25. Os Sorrisos do Destino, de Fernando Lopes - Meu primeiro contato com o cinema de Fernando Lopes, um dos mais veteranos cineastas portugueses (75 anos). Assim como Manoel de Oliveira, a impressão é que quanto mais velho, mais jovial são os filmes. Pois a trama deste envolve traição e infidelidade feminina. E, enquanto jovens cineastas do país como João Pedro Rodrigues e João Canijo talvez fossem fundo e causassem impacto com isso, Lopes faz uma comédia doce e agradável, com personagens se comportando de forma inusitada diante do que ocorre. Não soa como fantasia, mas como algo de alguém maduro o suficiente para encarar os acontecimentos numa postura ética e não moralista de se afirmar a vida e o prazer de se viver acima de todas as coisas. Lopes, que esteve presente na sessão, disse que o protagonista é seu alter-ego, e aproveita o filme para fazer comentários sarcásticos sobre novas tecnologias (homem avesso a eletrônicos descobre a traição da esposa através de SMS que ela recebe do amante). É bem simpático, embora nada especial. Infelizmente, a cópia estava horrível (dv-cam), o que resultou no momento mais constrangedor da Mostra: espectador perguntou a Lopes porque ele escolheu fazer seu filme com cores fracas e fotografia opaca. Diretor pareceu não entender ou fingiu que não entendeu a pergunta e apenas disse que foi seu primeiro filme em digital. Fora isso, debate com perguntas medíocres de sempre. (Nota 7/10)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 3



17. Vício Frenético, de Werner Herzog
- Era estranha a notícia de que um grande cineasta como Herzog ia refilmar uma obra recente de um outro grande nome como Abel Ferrara. Mas autores de verdade não fazem refilmagem. Fazem releituras. E, embora o filme de Ferrara continua sendo uma paulada sem igual, com Harvey Keitel dando uma das melhores atuações dos anos 90, o filme de Herzog tem seu brilhantismo, trazendo apenas algumas poucas semelhanças na estrutura do roteiro, mudando radicalmente na parte final. Uma visão do inferno bastante sedutora, Nicolas Cage está perfeitamente exagerado no papel do bad lieautenent que se afunda cada vez mais na sua dependência química, ao mesmo tempo que tenta levar um poderoso traficante para atrás das grades. Herzog nos coloca ao lado do protagonista em sua jornada. Tão ao lado, que quando ele vê iguanas em uma alucinação, em nenhum momento vemos o ponto de vista dos outros personagens. Envolvente, sujo e engraçado (o uso da autoridade de Cage para apreender droga de um casal é bem mais "contido" e hilário que a mesma desagradável sequência no filme de Ferrara), Herzog ainda arranja soluções maravilhosas para o ato final, fugindo como o diabo de qualquer tentativa moralizante da trama. Filme surpreendente. (Nota 8,5/10)



18. O Inferno de Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea - Documentário curioso sobre projeto inacabado do cineasta francês Henri-Georges Clouzot. O filme "Inferno" foi rodado por 3 semanas em 1964, com a estrela Romy Schneider, e interrompido após diversos problemas envolvendo a obsessão do diretor em fazer seu filme mais ambicioso. Os diretores Bromberg e Medrea recuperam o material rodado, sem áudio, e realizam um trabalho primoroso de edição, ao narrar os fatos, exibir o filme e preencher as lacunas com atores em estúdio lendo o roteiro. Clouzot queria usar em seu filme efeitos avançados para a época, na intenção de revelar os conflitos psicológicos dos personagens, e o documentário é muito feliz na demonstração dos propósitos do diretor (embora fique a sensação de que o filme do Clouzot sairia bem ruinzinho com esses efeitos). Apesar dos elogios, senti que o filme se alonga demais, mas confesso que o cansaço da maratona bateu exatamente durante esta sessão. Quem sabe um dia revejo. (Nota 7/10)



19. Ervas Daninhas, de Alain Resnais - Gostaria muito de retornar a este filme o mais breve possível. Primeiro, porque a cópia exibida tinha as laterais cortadas e fiquei incomodado durante toda a projeção, já que para este que é um dos maiores cineastas da história, todos os cantos da tela são relevantes. Segundo, porque é um filme que te deixa um tanto desnorteado, seguindo por caminhos inesperados, um humor desconcertante e, confesso, acabei ficando meio perdido (e tb o cansaço da sessão anterior ainda persistia). O que posso adiantar é o prazer enorme de Resnais em filmar encontros entre seres humanos peculiares, com diálogos e narração em off deliciosos, cujo passado se sente no presente, mas nunca é inteiramente revelado. Também não parece haver no cinema alguém que faça uso tão maravilhoso de cores, algo já muito sentido no anterior Medos Privados (que tentarei arranjar tempo aqui pra rever, 2 anos e meio em cartaz no HSBC Belas Artes). Filme leve, divertido, prazeroso e estranho. (plano final, uma graça). Para rever na projeção correta. (Nota 9/10)



20. Hotel Atlantico, de Suzana Amaral - Uma das sensações nacionais deste ano, um homem viaja sem rumo, vivendo inúmeras situações em encontros e acontecimentos inusitados. Filme interessante, mas não tão forte quanto imaginei. Ganha interesse quando há duas pessoas em tela (principalmente sequência no onibus, da pipoca e quando João Miguel entra em cena), e aí está o problema, já que boa parte se passa com o protagonista sozinho em sua jornada sem sentido. Isso por si só não seria algo ruim, e Lisandro Alonso já mostrou o cinema potente que pode sair daí (Los Muertos), mas pouco fica no caso deste filme de Amaral. Ao final da sessão, achei muito simpático da parte de João Miguel ter me pedido desculpas pela conversa durante o filme, quando o cumprimentei e parabenizei pelo trabalho: ele passou o tempo todo cochichando com o protagonista Júlio Andrade (coisa que nem me atrapalhou, na verdade). Longe de ser um filme ruim, só não é memorável. (Nota 6/10)



21. Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee - Grandíssimo fracasso de Ang Lee, fiquei indignado por ter sido o único filme até agora que recebeu aplausos da plateia (sem contar as sessões com presença do diretor, obviamente). Eu diria que é tolerável na sua primeira hora, embora claramente dispensável com seu humor rasteiro e os estereótipos de sempre para representar essa época já muito explorada pelo cinema. A coisa vai piorando gradativamente, com o acúmulo de personagens superficiais que não se desenvolvem em momento algum. É um péssimo roteiro e as soluções visuais de Lee são as mais precárias possíveis: o estilo de montagem já utilizado em Hulk, usando imagens de arquivo, não ganha força em momento algum, e as viagens alucinógenas ficam ainda mais pobres quando se vê o filme no mesmo dia que Vício Frenético. Imelda Staunton é o único nome a despontar, arrancando gargalhadas da plateia sempre quando entra em cena. Se o filme não evaporar por completo das premiações de fim de ano, esperem por uma indicação pra Staunton. (Nota 3/10)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 2



10. Vida em Bloco, de Alfredo Hueck e Carlos Caridad
- Drama venezuelano tentando seguir os passos de Alejandro Iñárritu, ao narrar o cotidiano de personagens que vivem em blocos residenciais populares. São basicamente dois média-metragens bem bobinhos e ingênuos, defendendo a ideia de que o ser humano é bom e, por mais que se foda, há sempre esperança. O filme se sabota a todo momento: quando você acha que aquilo vai render algo legal, vem o desastre em forma de soluções pouco criativas e forçadas, tanto em linguagem estilística quanto de roteiro. Alguns bons atores (em especial na primeira história), mas facilmente esquecível. (Nota 3/10)


11. Faça-Me Feliz, de Emmanuel Mouret - Agradabilíssima surpresa, mesmo sabendo que o Mouret é um cineasta de interesse. Aqui, ele faz seu "Um Convidado Bem Trapalhão" e arranca gargalhadas da plateia o tempo todo. Timing cômico impecável, Mouret é também ótimo ator, uma espécie de Woody Allen menos neurótico que, descaradamente, se rodeia de lindas mulheres durante todo o filme. Como diretor, filma com elegância e precisão, de modo que o excelente roteiro funcione em todas as surpresas e gags. Tipo de humor cada vez mais raro, é excelente pedida. (Nota: 8,5/10)


12. O Fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson - Não sou fã de animações (com exceção da Pixar, praticamente não vejo) e muito menos de Wes Anderson (embora ainda pretendo um dia rever seus filmes). Mas na falta do que fazer, fui conferir a primeira animação do cineasta, que traz uma família de raposas contra perigosos fazendeiros da região. A história é um tantinho só subversiva, porque na verdade os mocinhos roubam (patos, frangos e outras guloseimas) dos vilões que só querem punir os ladrões. O estilo de Anderson é visível nos enquadramentos, planos estáticos e uma ou outra sequência non-sense que cabe mais numa animação do que nos longas que dirigiu. De resto, mais uma história engraçadinha com animais falantes, sobre respeito às diferenças, superação e a união que faz a força. Eu não me empolgo. Mas fiquei curioso em saber como será a recepção das crianças. (Nota 5/10)


13. Sussurros ao Vento, de Sharahm Alidi - Interessante trama que se passa em região devastada pela guerra no Iraque, em que um senhor viaja pelas localidades gravando e transmitindo mensagens entre pessoas que, de outro modo, não teriam como se comunicar com seus familiares nas aldeias vizinhas. O filme começa muito bem, parece ter influência direta do cinema de Abbas Kiarostami, com longos silêncios e quase onipresença do vento, em belos e fortes planos, como aquele em que uma mensagem é escrita sobre a poeira de uma lona, para logo depois ser lavada pela chuva. Infelizmente, o filme vai perdendo sua força ao chamar demais a atenção para seus momentos mais dramáticos (Kiarostami nunca usaria câmera lenta, por exemplo), como se não acreditasse na potência de suas imagens. Filme de muita relevância política e social, mas que peca justamente por querer ser relevante demais. (Nota 5/10)


14. Mother, de Bong Joon-Ho - O cineasta Joon-Ho vem sedimentando seu nome no cinema internacional, mostrando talento indiscutível na arte da mise-en-scene e no domínio de uma narrativa quase clássica (no sentido americano do termo) do cinema de gênero, especialmente com Memórias de um Crime (filme policial) e O Hospedeiro (filme de monstro). Mother é mais um excelente acerto e desta vez transitando com extrema facilidade entre o melodrama, a comédia e o filme de investigação. A atriz principal está fantástica no papel-título, uma mãe especialíssima, daquelas que padecem no paraíso, cuja força dramática só se equipara ao Tudo Sobre Minha Mãe, do Almodovar. O roteiro é um primor, daqueles que faz questão de dar conta de todos os pequenos detalhes, que se encaixam no final. Gosto de tudo no filme, mas planos inicial e final elevam o filme a um patamar que nos joga pra fora do cinema admirando ainda mais o que viu. (Nota: 9/10)



15. A Mente Que Mente, de Sean McGinly - Mais um filme que vi apenas pra matar o tempo e nem foi ruim. Mas também não é algo pra se ver numa Mostra como esta: ou espere pelo circuito comercial, ou veja em casa mesmo. É a história de um mágico (ou mentalista, como prefere ser chamado) que já teve seu momento de glória (61 apresentações no Tonight Show do Jimmy Carson) e ainda vive disso quando só lhe resta apresentações em pequenas cidades para plateias cada vez menores. Acompanhamos pela ótica de seu assistente pessoal (Colin Hanks), jovem que desistiu da Faculdade de Direito porque se sentia infeliz e ainda não sabe seu lugar no mundo. É um filme meio bobo, mas que diverte graças a John Malkovich no papel do mentalista, pessoa sem um mínimo de noção de como faz papel de ridículo e que já não interessa a ninguém. Há algo de doce e triste na história, que comenta com certo respeito sobre o esquecimento de artistas que são esquecidos com o tempo (o filme é baseado em história real). Por outro lado, é totalmente desinteressante a busca de sentido do outro protagonista, que vive constantes conflitos com seu pai (da vida real também, Tom Hanks, produtor do filme), que investiu e deseja mais que tudo que o filho se torne advogado. Odeio dizer que um filme cumpre sua função, mas na ocasião em que vi, foi isso mesmo que aconteceu. (Nota 5,5/10)


16. Sedução, de Lone Scherfig - Sensação do último Festival de Sundance, Sedução é o atual queridinho da crítica americana, já construindo uma provável carreira bem sucedida de prêmios no final do ano. E, apesar de todo ano vermos esse tipo de coisa mesmo que os filmes não sejam grande coisa, sempre fico surpreso com a recepção a certas obras, infelizes em tudo. Sedução é um desses filmes, passando-se nos anos 60, sobre adolescente erudita que conhecerá homem mais velho que a mostrará um mundo mais fascinante do que os estudos podem lhe proporcionar. O roteiro é de um esquematismo que desde o início já mostra a mediocridade do projeto, com uma série de cenas que não deixa dúvidas sobre quem é quem e qual o papel de cada um nesta história: a menina inteligente e culta, colegas que não a acompanham na sabedoria, um pai severo e exigente (mas engraçado em sua autoridade - Alfred Molina em atuação provavelmente indicada a prêmios de Coadjuvante), uma mãe um tanto apagada, o tal homem mais velho (o mocinho) que travará diálogos "ixpertos" com a mocinha (e daí que vem o encanto), a moça burra (loira, obviamente) que namora o amigo intelectual do mocinho, etc. Tudo isso, na verdade, estabelece a linha reta que a protagonista seguirá no filme para o seu aprendizado. Carey Mulligan é a nova queridinha de Hollywood e alguns dirão que ela está adorável no filme. Para mim, a personagem é de uma estupidez absurda, comentando animadamente sobre cada obra de arte que vê pelos cantos e soltando frases em francês a todo momento, mas uma tola em todo o resto. Claro, podemos defender a imaturidade dela (uma adolescente, afinal de contas), mas o filme ao final deixa clara suas intenções, numa resolução incrivelmente careta e retrógrada, em especial após toda a ousadia em trazer uma trama em que menina de 16 anos tem um romance com homem de 30 e poucos. É um filme óbvio, irritante na sua mediocridade e covarde na sua resolução. (Nota 1/10)

domingo, 25 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 1

O primeiro dia de Mostra foi marcado por seis filmes: nenhuma bomba e uma sequência de quatro filmes curiosos e instigantes. Lástima do dia foi ter perdido o "Nova York, Eu Te Amo", simplesmente porque achei que merecia almoçar decentemente e com calma. Ontem vi um senhor reclamando que não tinha almoçado, e outro respondeu que isso durante a Mostra era um luxo. Concordo e que isso não se repita.


4. A Cozinha de Stella, de Dilip Mehta - Co-produção entre Canadá e Índia, comédia com momentos tão simpáticos quanto medíocres. A grande atração é a personagem que dá nome ao filme, cozinheira do Alto Comissariado Canadense em Nova Delhi, na Índia, e trambiqueira nas horas vagas, que rouba de seus patrões das formas mais inusitadas, cara-de-pau e divertidas. A atriz tem carisma enorme. O problema é todo o resto, uma história boba envolvendo conflitos de gênero entre o casal de patrões (ela, uma diplomata; ele, um chef desempregado), uma babá de bom coração e a tal cozinha da Stella, onde ela dará aulas de culinária ao patrão. Para fragmentar ainda mais a narrativa, um outro acontecimento na parte final do filme tentando juntar as partes. Bem comunzinho, com trilha sonora irritante nos momentos dramáticos, diverte quando a protagonista está em cena, mas é só. (Nota 4/10)


5. Ricky, de François Ozon - Primeira surpresa da Mostra, o novo filme de Ozon deve ser visto com o mínimo de informações possíveis. Basta dizer que o personagem-título é presença forte desde sua ausência, ainda no prólogo, numa crônica familiar com desdobramentos incríveis, inclusive na própria função do prólogo e uso da trilha sonora. É um filme incrivelmente leve e divertido, aliando seja lá o que for que ele tem pra aliar, de forma segura e corajosa. Não é uma obra-prima, mas encanta muito pelo que Ozon faz com o gênero, especialmente porque as reviravoltas que ocorrem não diminuem a força do que era visto até então. (Nota 8/10)


6. A Ressurreição de Adam, de Paul Schrader - Há filmes que dependem da aceitação do espectador às coisas que acontecem em tela, seja a lógica interna que a narrativa propõe para si, seja os comportamentos e escolhas incomuns dos personagens diante das situações em que se encontram. O filme de Schrader é um deles. Mais conhecido por seus roteiros (Taxi Driver e Touro Indomável, por ex.) do que por seu trabalho como cineasta (cujo mais famoso é Gigolô Americano, mas há também os bem interessantes Affliction e Auto-Focus), Schrader traz a história de Adam Stein (Jeff Goldblum), um entertainer judeu que divertia plateias de Berlim durante a II Guerra. Anos depois, encontra-se em um hospital psiquiátrico e sua história é contada, alternando-se com flashbacks de como viveu e sobreviveu ao Holocausto. Embora de estrutura simples e convencional (com direito a fotografia p&b para os flashbacks), o filme incomoda pela bizarrice dos fatos - ou, ao menos, o que entendemos como bizarro e inverossímil na relação entre personagens em uma trama supostamente realista. Para não estragar a experiência de quem vai ver, basta dizer que é uma forma curiosa e interessante de narrar a "ressurreição" de um judeu pós-holocausto, através de metáfora tão agressiva e até mesmo desagradável. Deve ser o melhor papel de Goldblum desde A Mosca e o filme peca um pouco pelo pieguismo final e por uma edição que não traz muito dinamismo à obra. (Nota 7/10)


7. Alga Doce, de Andrzej Wajda - Metalinguagem tem sido cada vez mais frequente no cinema e nem mesmo veteranos como o polonês Wajda escapam do uso quase abusivo do tipo que até mesmo interrompe o que se está vendo na tela para nos fazer lembrar da ficção. A grande diferença é que em Alga Doce, é forma essencial e apaixonada para o propósito do filme: ser dedicado ao diretor de fotografia Edward Klosinski, colaborador habitual do cineasta e marido da atriz Krystyna Janda, protagonista do filme. Alga Doce é uma obra a ser adaptada, sobre mulher de meia-idade ainda abalada pela perda dos filhos anos atrás, e que desconhece ter uma doença terminal, não revelada pelo seu marido. É neste contexto que ela começa a se aproximar de um jovem da região em que moram. Durante a produção deste filme, o marido de Janda morre prematuramente de câncer, e acompanhamos a realização da obra intercalada com um monólogo da atriz, que narra fatos e sentimentos sobre a perda. É um filme que bate forte, pela densidade e sinceridade com que aborda o tema, ao mesmo tempo que sua narrativa flui de forma muito orgânica. Em determinado momento, um personagem diz odiar descrições em livros e que tudo pode ser compreendido através de diálogos. Não sei se Wajda concorda com isso, mas fato é que as cenas em que Janda, excepcional, dialoga com a tela, são intensas e expressa toda a dor de um momento como este. É um filme emocionalmente forte e muito sensível na forma como vira homenagem sem se deixar perder no processo. (Nota 8,5/10)


8. A Fita Branca, de Michael Haneke - A Palma de Ouro em Cannes, talvez o mais belo dos filmes de Haneke, é também o mais problemático. A beleza vem de sua composição extremamente cuidadosa: a belíssima fotografia em p&b permite ao cineasta compor os mais belos enquadramentos e jogos de luzes. Sua narrativa, como não poderia deixar de ser, é conduzida à mão de ferro, e os 145min. de projeção passam voando. O problema está no argumento: uma aldeia alemã às vésperas da I Guerra e como a maldade é transmitida de uma geração à outra. Para o diretor, parece não haver fé no ser humano e o filme é pessimista até a medula. Ecos de Dogville são percebidos a todo momento. E faz todo o sentido, diante do contexto do filme, quando as bases para o nazismo estão sendo instalados. Mas incomoda como o filme quer parecer o tratado definitivo sobre o período, sisudo e solene até não mais poder. É obra que instiga, pra se ver e discutir novamente. (Nota 7/10)


9. 35 Doses de Rum, de Claire Denis - Talvez o máximo que a cineasta Denis pode chegar do que a gente pode chamar de filme convencional, um drama belo e lento sobre pessoas presas a uma rotina triste, onde só o trem se movimenta (pelos mesmos lugares). A base é um pai e uma filha, muito afeitos e cada um a razão de existir do outro. Supostamente, seria a refilmagem de "Pai e Filha" de Ozu, e os personagens até comem arroz juntos (além da presença do trem, claro). Há os coadjuvantes que transitam em torno destes protagonistas e acompanhamos um pouco da rotina de cada um. A segunda parte do filme é bem melhor, quando todos começam a se movimentar e algumas revelações são feitas, mas talvez só funcione graças ao desenvolvimento calmo e tranquilo feito na primeira parte. Filme bonito inclusive na justificativa do título, embora meio óbvio e fácil demais para os padrões da cineasta. Mas não dá pra criticar a diretora por se tornar acessível. (Nota 7,5/10)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Véspera da Mostra de SP

A Mostra começou um dia mais cedo pra mim, porque acabei pegando, de última hora, uma cabine pra imprensa. Foi a primeira vez que entrei numa sala de cinema sem saber a que assistiria, e dei de cara com um filme indiano que tive que pesquisar no site da mostra depois, pra saber o título (que me escapou nos coloridos créditos iniciais).


Depois, os obrigatórios filmes do circuito comercial. Era pra ter visto Chaser, filme coreano elogiado por muitos. Mas fiquei só com os dois que mais estava ansioso em ver e aproveitar o resto da noite pra fechar a programação da Mostra. Seguem os primeiros comentários:



1. Oye, Lucky! Lucky Oye!, de Dibakar Banerjee - Não sou familiarizado com o cinema de Bollywood, mas desde os créditos iniciais, passando por um Intermission no meio do filme, ao uso da trilha sonora, senti que estava vendo algo que fazia parte de um gênero (ou estilo) muito peculiar de cinema, que ia além da autoria. Baseado numa história real, a gente já viu isso antes: rapaz de periferia se aperfeiçoa na arte de roubar e se torna um dos homens mais procurados da Índia. A leveza dá o tom de comédia do filme, com o protagonista bom de lábia passando a perna nas pessoas que assalta, vez ou outra lembrando as peripécias de DiCaprio em Prenda-me Se For Capaz. O ator principal, Abhay Deo, tem cara de astro, é carismático e não duvido que pode, a qualquer momento, ser importado pelos americanos. De resto, os romances, as briguinhas entre amigos e traições beiram a ingenuidade, em um roteiro que não se sustenta, talvez por falta de conflito maior (tudo se resolve fácil demais). É visualmente interessante e esquisito, cheio de cores e montagem cafona, a música empolga (todas composições do diretor Banerjee), mas fica aquela sensação de narrativa frágil que não consegue acompanhar a estética. (Nota: 4/10)


2. Distrito 9, de Neill Blomkamp - Uma pena que a segunda parte do filme não seja tão empolgante quanto a primeira. Ainda assim, ficção científica surpreendente pela capacidade de fazer crítica social sem comprometer a diversão. O estilo documentário pra esse tipo de coisa tá ficando batido, mas o uso com trama tão original deu um ar inusitado ao filme, graças também a impecável trabalho de edição (alô, Oscar!). A ideia de extraterrestres amontoados em favelas, subjugados por população africana é tão boa, o protagonista é tão ignorante na sua maldade (grande sequência dos "abortos"), que é quase um desastre quando o filme muda o tom para A Mosca e, no final, Transformers. Mas o modo de filmar ETs nojentos, sangue, pus e humanos explodindo é tão desavergonhado que faz deste "quase" o Tropas Estelares dos anos 2000. (Nota: 7/10)


3. Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino - Muita gente tem associado a frase de Brad Pitt no filme ("acho que fiz minha obra-prima") ao próprio Tarantino. Não poderia discordar mais. Afinal, o homem já tinha feito, no mínimo, outras quatro obras-primas (Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill 1 e 2). Bastardos é "só" a mais nova - e, parafraseando Mia Wallace, fazer comparações de qual é a maior seria um mero exercício de futilidade. No caso deste, talvez o mais chama a atenção é que os diálogos nunca foram tão essenciais à narrativa. E olha que diálogos é uma das marcas mais peculiares do cineasta. Só que em Bastardos a função é de criar tensão absurda, e a sequência inicial e a que se passa na taverna são os exemplos máximos disso. Claro que não ficam apenas na palavra, porque Tarantino também filme como poucos, seja um homem simplesmente bebendo um copo de leite (que bem mais à frente no filme se transformará em novo diálogo causador de taquicardia na plateia), ou a capacidade ímpar do cineasta em fazer de suas atrizes as mulheres mais lindas do mundo. As duas sequências citadas mais a espetacular sequência final no cinema já fariam de Bastardos Inglórios o filme do ano, mas há muito mais, planos e cortes magníficos durante todo o filme, atores maravilhosos (o que é esse Christoph Waltz, pelamordedeus?) e um talento único de esticar sequências ao máximo, sem parecer desnecessário. A coisa mais incrível em Tarantino sempre foi usar seu imenso amor (e conhecimento) pelo cinema de forma que não pareça simples homenagem, reprocessando aquilo que lhe é caro em material novo, totalmente autoral. Mais: sua paixão contamina a plateia, que se vê em plena catarse em seus filmes. Em Bastardos, cinema é o combustível principal (literalmente também): salva, vira opção de vida e até reconstrói a história. A fé nesse poder do cinema só poderia vir de um apaixonado. E só os apaixonados se empolgam tanto. Há muito mais a se escrever sobre o filme e já penso seriamente em sacrificar alguma coisa da Mostra para revê-lo. (Nota: 10/10)