quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Curtas

Uma ou duas coisas sobre os últimos filmes vistos:


O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher - Quando vejo as descabidas comparações do filme de Fincher com "Forrest Gump", fico imaginando se as pessoas não conseguem enxergar nos filmes algo mais além de um roteiro. Porque fora alguns elementos de roteiro, não sobra nada do medíocre filme de Zemeckis: enquanto em Gump, vemos a história de um idiota alheio aos acontecimentos de sua própria vida e uma apologia à ignorância (quem tenta algo, como sua namoradinha, só se fode), o que interessa a Fincher é o efeito do tempo sobre o ser humano (algo já trabalhado em "Zodíaco", com maior intensidade psicológica). Seu filme atribui responsabilidade aos personagens por suas próprias vidas, que devem seguir adiante, não só frente à passagem do tempo, mas também diante das forças da natureza: o acaso (bela sequência a do atropelamento), os raios que por sete vezes já atingiram um homem, o Katrina em New Orleans. Eu queria ter gostado mais do filme, que é bem bonito, mas Fincher quase perde as estribeiras, encantado com os brinquedinhos tecnológicos de seu filme (efeitos, maquiagem e fotografia espetaculares) que quase sufocam a narrativa. É tudo muito over, eu já estava temendo que a Julia Ormond aparecesse envelhecida (deram um jeito até para Tilda Swinton), e aquela sequência final com cara de propaganda dos funcionários do Banco do Brasil é pavorosa. Mas o todo flui muito bem, Brad Pitt se sobressai no elenco, especialmente quando velho, e há mais belos momentos do que ruins.


A Troca, de Clint Eastwood - O grande filme deste início de ano. Recomendo enfaticamente as três críticas do filme publicadas na Revista Cinética, abordando muitos dos aspectos que fazem este filme de Eastwood tão especial. Do meu lado, fico com aquela primeira parte excepcional, uma aula de concisão, de como estabelecer uma relação com tamanha elegância de planos e montagem, como dizer tanto com simples movimentações e posicionamentos de câmera; fico com a facilidade com que Eastwood transita pelos gêneros, como torna assustadora a presença da criança trocada, como o horror vem de um serial killer, de um delegado, de um hospício; fico com a igualmente assustadora obsessão da protagonista, brilhantemente retratada numa sequência próxima ao final onde ela é enquadrada pela câmera como se estivesse atrás das grades; fico com todo o primor técnico do filme que nos leva a uma Los Angeles mítica; enfim, fico com Clint Eastwood, esse gênio que conta um melodrama como ninguém, e que no processo continua seus questionamentos sobre violência institucionalizada, sobre o mal que está presente na sociedade, mas que não sabemos ao certo de onde surgiu. Tudo de forma elegante, fina, nos lembrando que uma história bem contada em cinema significa saber até quando se continua um plano, o momento certo de se cortar, o local ideal para uma câmera e seus movimentos.


Rio Congelado, de Courtney Hunt - Com 15 minutos de "Frozen River", eu já sabia exatamente o tipo de filme que me esperava: o típico "cinema independente americano", a mais fiel cria de Sundance. E realmente é algo como "família savage no gelo", com personagens ordinários em situações banais de conflitos familiares e a visão condescendente da diretora, passando a mão na cabeça de todos e esvaindo qualquer possibilidade de complexidade. Nem mesmo o distante e isolado local onde se passa o filme tem utilidade para a câmera, nunca se tornando um espaço realmente interessante, e o filme poderia ter se passado na ensolarada Miami, que daria no mesmo. Se alguém enxerga nesse tipo de cinema algo de bom (e com certeza enxergam, duas indicações ao Oscar comprovam isso), vai adorar "Rio Congelado". Eu não tenho mais paciência pra esse tipo de coisa e vou pensar dez vezes antes de me arriscar por outro projeto com o selo de qualidade Sundance.

9 comentários:

Kamila disse...

Hélio, eu gostei do filme do Fincher, mas discordo de você em um aspecto: não gostei da performance do Brad Pitt. Acho que ele foi muito frio em sua abordagem do personagem título do longa.

A sua opinião sobre "A Troca" é a mais entusiasmada que li, até agora.

Fiquei curiosa para saber o que você achou da performance da Melissa Leo, em "Frozen River".

Rafael Carvalho disse...

Concordo totalmente com a Kamila: não acho o trabalho do Brad Pitt tão bom assim nesse filme, embora ele tente parecer bem discreto. Acabou ficando muito frio. Mas o filme é bem bonito mesmo, peca por tentar emocionar em todos os momentos, muitas vezes isso é bem genuíno, mas em outras acaba ficando no meio termo. Quanto a A Troca não vejo tanto essa qualidade toda que faz do filme especial, mas concordo que a primeira parte é melhor. O final estraga muita coisa. E a atuação da Melissa Leo em Rio Congelado, é o que salva no filme?

e.fuzii disse...

Preciso ver Changeling...

Sinceramente, acho essa história do Katrina em Button completamente desnecessária e até pouco elegante.
E como já disse, minha maior crítica é conferir a todos esses momentos vividos por Button e as figuras que ele encontra com pesos iguais, tirando um pouco o foco de Daisy. O que claro é o que confere a mais óbvia comparação com Forrest Gump. Você pode negar, mas que esse é mais um exemplar de "aulas de roteiro" do Eric Roth, isso é:
http://www.funnyordie.com/videos/1d76506803/the-curious-case-of-forrest-gump-from-fgump44

Também ouvi falar bem da atuaçnao de Melissa Leo. Espero conferir em breve.

Graziele disse...

Mas onde vc está assistindo esses filmes???

Michele do carmo disse...

Pra mim,

Button é apenas legal.
A troca é chocante.
Rio Congelado é enfadonho.

Brad Pitt está bem.
Jolie está ótima.
Melissa está normal.

Eis o comentário mais inteligente que já fiz!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Não acho as comparações tão descabidas: têm enormes semelhanças apenas de roteiro, como você disse, mas mesmo assim são semelhanças. Não vejo mal em comparar ... e em nenhum outro lugar vi comentários comparando outras coisas dos dois filmes além do roteiro.
Mas minha opinião sobre o filme é muito parecida com a sua: gosto bastante, mas queria ter gostado mais.
Sobre A Troca, tenho a impressão de que vou gostar bastante, e após esse seu texto essa impressão só aumentou.
Abraço!

Denis Torres disse...

Olá Hélio, criei um blog sobre cinema e gostaria de incluí-lo na minha lista de links. O endereço é http://thecinemaniaco.wordpress.com/. Depois me dê um retorno aprovando a inclusão de seu link e fazendo uma visita ao blog. Abs!

Hélio disse...

Resumindo sobre os comentarios aí de cima:

- Acho o Brad Pitt muito bom, exatamente por nao estar tao emotivo e contido. Suas qualidades tb estao nos pequenos detalhes. Quando bem velho, por exemplo, ele tem aquele olhar curioso e de novidade sobre as coisas, como uma criança. Acho a melhor atuaçao do filme, de longe.

- Eu reconheço todas essas semelhanças que tem no video que o Fuzii postou, mas como eu disse apenas pq o roteirista quis repetir a formula de sucesso. Mas acho que nao ha necessidade alguma de citar Gump, pq sao propostas distintas, sentimentalismos, tematicas, modos de filmar e tratar os personagens, TUDO diferente. Querer enxergar semelhanças é se prender ao mais superficial que existe no filme do Fincher.

- A Melissa Leo é como o proprio filme: padrao Sundance de qualidade. Ou sandice de qualidade... Nao vi nada demais.

Abraços!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Pois é, mas "querer repetir a fórmula do sucesso" pode ser um problema, e algo que não é coerente com o cinema de Fincher. Ah, e ainda não parei para assistir ao tal vídeo, reconheci as semelhanças durante a exibição do filme ... e acho que, se um filme tem semelhanças no roteiro com outro filme, do mesmo roteirista, não há problema em citá-las, e mesmo criticá-las, mesmo reconhecendo as diferenças que vc apontou ...