
O crítico português Vasco Câmara escreveu um artigo com questões pertinentes a “Slumdog Millionaire”, sob o título “Telelixo”, ressaltando seu aspecto televisivo a partir das críticas que o filme tem recebido na Índia por glamourizar e romantizar a pobreza da região vista no filme. É o que muitos tem chamado de “cosmética da fome” ou “pornografia da pobreza”: um tratamento estético que exalta e embeleza o que seria feio e miserável, no caso específico aqui, tornar atraente e consumível a triste realidade de uma população pobre em Mumbai, Índia.
Já vimos essa discussão antes com o nosso “Cidade de Deus”, de quem muitos, fãs e detratores de “Slumdog Millionaire”, admitem que Boyle teria sido influenciado. Para além da controvérsia, Câmara ainda chama a atenção para a linguagem televisiva do filme, em que Boyle se apóia para construir sua narrativa, que para mim foi totalmente desinteressante.
Segundo o crítico, “não há razão para começar a gostar agora do cinema de Danny Boyle. Que continua incorrigivelmente superficial, capaz de sacrificar a própria mãe (qualquer possibilidade de atribuir nobreza às personagens; qualquer hipótese de deixar a realidade mostrar-se) por um efeito. Ele quer gritar "pop" e fazer-se ao ar do tempo, multiculturalismo, mistura, "sujidade". Mas... isso é o quê? Mergulhar uma personagem num poço de excrementos e conseguir com isso provocar gargalhadas? É ter M.I.A. na banda sonora?”
E mais: “A relação que "Slumdog Millionaire" tem com a realidade (...) é a mesma de um concurso televisivo. Ou seja: ideias feitas que se pintam com ligeireza, facilidades redentoras que se simulam, vidas que se espremem no tempo de um espectáculo e para dar espectáculo. Passou a ser essa a fantasia da nossa existência: já não é o cinema, agora é a televisão. Danny Boyle atraca-se a isso como um parasita. E assim "Slumdog Millionaire" é uma apoteose. É muito "hoje". Torna-se significativo. “
Este é um dos problemas do filme. Com trucagens moderninhas, cortes rápidos e outros artifícios nada criativos, “Slumdog Millionaire” é mais influenciado por televisão do que pelo cinema. Não há um momento que seja essencialmente cinematográfico, exceto talvez pela sequência musical no fim do filme, homenagem clara aos musicais de Bollywood (indústria cinematográfica indiana).
Claro que as duas linguagens (televisiva e cinematográfica) são intercambiáveis, e nada é categoricamente definido. Mas a televisão depende muito mais de um bom roteiro do que o cinema. E aí o filme de Boyle falha miseravelmente, pois o roteiro é de uma estupidez, superficialidade e artifícios baratos que realmente para mim é incompreensível que o filme seja o sucesso que é.
Eu sempre tive problemas com relatos em flashback. O passado não surge involuntariamente na tela, como em “Lost” ou “Damages” (para citar televisão de boa qualidade). Ele é evocado, relatado pelo protagonista. Muitas vezes a situação é inconveniente para que a pessoa conte toda sua história de vida. É o caso de “Slumdog”: Jamal é torturado pela polícia, por suspeita de estar fraudando sua participação em “Quem Quer Ser um Milionário?”, onde falta acertar apenas mais uma pergunta para ser o maior vencedor da história do programa. Aí vem a brilhante idéia do torturado em relatar sua infância e adolescência para explicar porque acertou a resposta de todas as perguntas feitas até aquele momento.
Relevando este pretexto, até parece uma boa sacada relacionar as respostas com fatos da vida de Jamal. Mas o roteiro vai repisar nisto até o final do filme, apostando na simpatia do protagonista (o típico herói sofrido, nobre, que só quer conquistar seu grande amor) e em soluções “criativas” para cada pergunta feita e cada resposta dada. É aí que entra a tal “cosmética da fome”, onde roteiro e direção exploram a pobreza da região onde vive Jamal, tocando em assuntos delicados como a exploração de crianças e prostituição, mas com um distanciamento crítico, necessário para que o espectador apenas sofra e torça pelos personagens principais.
Mas o fundo do poço é mesmo o final do filme. E aqui aviso que quem não viu o filme, NÃO LEIA POR CONTER ALGUNS SPOILERS. Fiquei horrorizado em ter adivinhado, desde a metade do filme, qual seria a última pergunta do programa. Não só pela obviedade, mas pelo próprio contexto: num programa como este, a tendência é que o nível de dificuldade das perguntas seja cada vez maior. No caso, a questão além de ser ridícula, o protagonista acerta por um simples chute, evidenciando a pobreza do roteiro que sequer foi capaz de uma solução criativa para a tensão criada. O fato é que Slumdog Millionaire faz uma pergunta logo no seu início e a resposta (que só vem no final do filme) é o pretexto ideal para a série de coincidências vistas que torna o roteiro simplório de soluções facéis.
O elenco é apenas ok, já que não precisa se esforçar muito para o tipo de coisa exigida por Boyle. Na verdade, eu já não gostava muito de Dev Patel, que fazia o papel de Anwar, o único personagem insuportável da série britânica “Skins”. Sua cara de coitado continua a mesma em “Slumdog”. Na verdade, este aspecto “coitado” se reflete na própria visão deplorável do filme sobre uma suposta nobreza e integridade do protagonista: Jamal sofre o diabo na infância e adolescência, é injustamente torturado pela polícia, humilhado pelo apresentador do programa, mas resiste a tudo humildemente, tendo como único interesse conquistar a bela menina por quem sempre foi apaixonado.
Num ano em que concorre também ao Oscar um filme sobre um ativista político que fez de sua luta pelos direitos dos homossexuais um exemplo de como o ser humano pode transformar a ordem vigente, a passividade de Jamal diante da realidade é algo irritante e a se lamentar.
Como eu disse no post anterior... viva a mediocridade.
8 comentários:
Esta é uma opinião muito bem fundamentada sobre "Slumdog Millionaire". Ainda não conferi o filme, mas, diante de tantos prêmios, é inevitável a curiosidade para assisti-lo.
Que bom que publicou a crítica, estava curioso por saber porque não gostou do filme. E é o primeiro texto que leio sobre ele.
Bem, como não vi Slumdog ainda, não tenho como concordar ou discordar de vc, mas adianto que sou um pouco resistente a essa discussão da "cosmética da fome", que, se não me engano, foi iniciada pela Ivana Bentes (a quem admiro, inclusive uso um livro dela em meus estudos) por conta do Cidade de Deus. Acho que essa discussão se enraiza muito em uma visão preconceituosa em relação a determinados tipos de cinema, com os quais, segundo tais pressupostos, o cinema brasileiro não poderia se misturar. Acho purista e sectarista. Mas, enfim, não vem tanto ao caso. Quando eu assistir a Slumdog, quem sabe retomo o tema ...
Abraço!
"[…] realmente para mim é incompreensível que o filme seja o sucesso que é."
Só tenho de concordar.
Acho que a principal diferença entre Slumdog e Cidade de Deus é que embora Meirelles soubesse delimitar exatamente o "caminho do bem", ele nunca forçou isso no espectador. Você não é obrigado a sentir dó do Padev e torcer por (ou ser obrigado a engolir) esse final feliz.
É apelativo justamente por se apoiar nas maiores injustiças da humanidade em cada uma das perguntas, desde conflitos religiosos até a exploração da pobreza. É como digo, me sinto trocando de canais entre o Show do Milhão e o Linha Direta (e agora, um pouco do Caminho das Índias também).
Em relação à última pergunta, o que achei mais absurdo -- porque não era de esperar àquela altura alguma dificuldade -- é deixar o rapaz ir ao banheiro numa boa e ainda ter contato com qualquer pessoa da produção. Ora, a pergunta vale um milhão, minha gente!
Bom, chega. Só pra avisar, revivi meu blog pessoal. E viva a mediocridade. :)
Assistam o filme, sem ler o que os críticos tem a dizer. Muito bom, adorei,não vai mudar o sentido da sua vida, mas o filme é EXCELENTE. Recomendo a todos.
Obrigado, Kamila! E certamente a curiosidade fará milhoes assistirem ao filme. E boa parte desses milhoes ira gostar...
Wallace, foi a Ivana Bentes mesmo. Mas nem me importei muito com essa discussao em relaçao ao filme. É ruim por tantos outros motivos.
Aleluia, Fuzii!
Caique, nem precisa recomendar. Todos irao ver o filme, por conta dos premios. E eu sempre sugiro que as pessoas vejam qualquer filme sem ler o que os criticos tem a dizer...
Abraços!
Depois de tantos comentários acerca do filme, fui assisti-lo ontem... Entre as opiniões colocadas aqui, devo concordar com algumas: o roteiro, que traz até o final do filme em flashbacks com o final água com açucar (eu adoro finais assim, rs, desde que "combinem" com todo o restante do filme) e a exploração das mazelas do país para obter a compaixão de quem assiste. Forçou a barra...
Lembrei de Cidade de Deus na sequencia inicial,(SPOILER) quando a mãe deles morre.
Na pergunta final, não achei a pergunta ridicula, é algo simples que muita gente não sabe mesmo. O que eu achei ridiculo é ser tão óbvia, com a pretensão de dar um grande final no jogo intercalado com a vida dele. Ele ter acertado no chute foi um artificio para mostrar que talvez se não fosse também pela sorte durante as "aventuras" vividas, ele não estaria ali. Ele teve sorte ao acertar assim como teve sorte em espacar da morte várias vezes.
Não achei, de todo ruim, até gostei, a história é emocionante mas foi colocada com tantos recursos apelativos que perdeu a magia. No entanto, os outros que eu assisti indicados ao Oscar, Button e Milk, são bem mais interessantes.
Lembrei de Crash, com tantas coisas desnecesárias foi o favorito e levou a estatueta.
Cara, indiquei seu blog para um selo. Dá uma olhadinha nas regras lá no meu blog ...
Abraço!
Interessante sua opinião, mais ainda por não ser a que a maioria está tendo. Fiquei mais curioso agora pelo filme. Espero que estreie aqui em breve.
Ciao!
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