quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Slumpop no Brasil

Às vésperas da estréia nacional de "Slumdog Millionaire", alguns de nossos melhores críticos já começaram a fazer análises pertinentes sobre a (má) qualidade do mais novo fenômeno que a mídia global tem nos vendido. Como já dei minha opinião aqui, acho importante ressaltar essas boas vozes da nossa crítica, que parecem tão distantes dessa onda americana que caiu de quatro pelo filme de Danny Boyle.


Kléber Mendonça Filho, do Jornal do Comércio, escreveu um ácido e engraçado texto que pode ser lido na íntegra no blog do Cinemascópio, aqui. Recomendo a leitura por bater numa tecla importante sobre os perigos deste tipo de meciodridade.


O grande André Setaro, de Salvador, também alfineta o filme com um breve comentário em seu blog pessoal.


Por último, um dos principais críticos do Brasil, Inácio Araújo, detona o filme com muita propriedade numa crítica publicada na Ilustrada da Folha de São Paulo do dia 20 de Fevereiro. Como o acesso ao material do jornal é restrito, colo aqui o texto completo. O grifo é meu, por achar que se trata de um dos problemas essenciais do filme:




Crítica/"Quem Quer Ser um Milionário?"

Boyle força a mão e transforma a Índia em esgoto a céu aberto

Indicado a dez Oscars, incluindo filme e diretor, longa vai mal desde a premissa inicial

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Depois de ver "O Leitor" era justo imaginar que nada pior poderia acontecer. Engano. Depois havia ainda "Quem Quer Ser um Milionário?", como a mostrar que o Oscar 2009 busca ser a pior edição de todos os tempos.


Soube-se que Danny Boyle, promessa do cinema há pouco mais de dez anos, quando se esforçava para parecer um Gus van Sant inglês, ficou ofendido ao ver seu filme comparado com "Cidade de Deus". Mas o que há de melhor no novo Boyle é uma distante lembrança do filme de Fernando Meirelles.


Com efeito, logo no início há a favela, a criançada, as perseguições, a fotografia metálica, a câmera nervosa. Estamos na Índia, ex-colônia britânica. Seria possível dizer que mais valia cineastas ingleses tratarem das mazelas inglesas, que não são poucas, como a permissão para a polícia meter bala em brasileiros impunemente.


O fato é que em "Quem Quer Ser" não estamos em Londres, mas em Mumbai. Estamos às voltas com Jamal, o garoto do chá de um serviço de televendas, que se inscreve num programa de perguntas e respostas famoso por derrubar os mais cultos da Índia. Para surpresa geral, ele começa a ganhar prêmios.


Então a polícia intervém: Jamal é preso e torturado para confessar que fraude pratica. Depois de muita tortura, saberemos, nós e o policial que torturava (subitamente convertido em ouvinte atento do rapaz), que cada resposta foi aprendida ao longo da vida.



Fossa sanitária
Esse é o começo, e a coisa já é horrível. Para que Jamal ganhe mil rúpias ou algo assim seremos submetidos a uma das cenas mais desagradáveis da história do cinema: o menino que ficou trancado numa fossa sanitária percebe que a única possibilidade de ver seu ídolo, um cantor ou algo assim que acaba de chegar, é pular nas fezes acumuladas embaixo dele. Ele não pensa duas vezes: pouco depois chega triunfal perto do cantor, coberto de fezes até a cabeça, pedindo um autógrafo.


Daí sabemos que é bom ficar preparado: a cada resposta corresponderá um episódio do tipo -e a coisa vai a 20 milhões de rúpias ou, pior, duas longas horas de filme. Nesse intervalo veremos a mãe de Jamal pegar fogo; Jamal, o irmão e a amiguinha serem recolhidos por um gângster, que faz crianças pedirem esmola; um desses meninos ter os olhos arrancados para comover os passantes. Vista por Boyle, a Índia é um esgoto a céu aberto, moralmente inclusive. Nesse lodo viceja a alma pura de Jamal, uma mistura do estoicismo do dr. Kimble de "O Fugitivo" com a ingenuidade de Forrest Gump. Com ele entramos no terreno do prodígio. Jamal é puro, bom e forte o bastante para sobreviver. O que o torna assim? Algo de sua natureza, ou da ordem do destino. Ou seja, embora use a mão pesada para os problemas indianos, a explicação do caráter de seu herói é metafísica. Jamal passa incólume por tudo, como esse mundo infame em que vive não o afetasse.


Para fechar esse abacaxi, ocorreu a alguém transformar tudo em musical (é como o filme termina -e não há problema em saber, não tem nada a ver com a história): é como se a inconsequência final livrasse o filme da infâmia. Não livra.


QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Produção: Inglaterra, 2008
Direção: Danny Boyle
Com: Dev Patel, Anil Kapoor
Onde: pré-estreias neste final de semana em 28 salas de São Paulo
Classificação: não indicado a menores de 16 anos
Avaliação: péssimo





5 comentários:

Kamila disse...

Interessante ver que "Slumdog Millionaire" não é bem recebido no Brasil, ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos. Acho que o filme não tem ressonância alguma com nosso momento atual, ao contrário do que ocorre na terra do Tio Sam.

Bom final de semana!

Wally disse...

Concordo com a Kamila sobre a tal ressonância, mas ainda verei o filme confiante, pois admiro imensamente o cinema de Boyle.

Ciao!

cineresenhas disse...

Gostei dessa análise aqui publicada. Eu não acho "Quem Quer Ser Um Milionário" essa bomba e muito menos o interpreto da mesma forma do Inácio. Mas não há duvidas de que se trata de um longa superestimado pelo público americano, como bem colocado por Miguel Barbieri Jr. na Veja São Paulo.

Rafael Carvalho disse...

Estava conversando com uma amiga e ela defendia o filme pois dizia que aquilo era uma reprodução de bollywood. Engraçado como as pessoas têm a tendência de achar tudo muito legal e excitante sem o mínimo de reflexão sobre a forma como o filme é feito e que tipo de intenção está contida na construção da história. Ou, na verdade, o que não está contido aí, o que foi "esquecido" pelo roteiro. Um desperdício aquele tanto de Oscar. Mas pensando bem é mesmo o tipo de filme que a Academia adora. Não é mistério nenhum pra mim.

Johnny Strangelove disse...

Rapaz, vi esse filme antes do buzz e pensei ... poxa, é bom e tal, mas ganhar o GG foi muito exagero. Depois vi com mainha e ela manteve a minha opinião, mas após a vitória do Oscar, consegui ver com os meus proprios olhos um filme muito abaixo do esperado ganhar vários premios. Alguns extremamente ridiculos, principalmente como melhor filme, roteiro e canção.

Não precisa refletir por muito tempo para perceber que os melhores filmes foram deixados de lado (O Lutador é o melhor filme que vi desses indicados no Oscar) e vimos a glorificação de um filme extremamente mediano ...

E ainda tem gente que reclama de Crash ...

Abraços