sábado, 25 de abril de 2009

Cannes e Susan Boyle

Sem a mínima inspiração pra escrever para o blog neste mês, duas coisinhas desta última semana:


Cannes 2009


A lista oficial saiu ontem e a promessa é de que seja uma das melhores edições dos últimos anos. Embora sejam os suspeitos de sempre, a diferença é que quase todos resolveram lançar suas novas pérolas no mesmo ano: Tarantino, Von Trier, Almodovar, Haneke, Loach, Ang Lee, Gaspar Noe, Resnais (provavelmente o grande nome da competição), Belocchio, Suleiman, Campion, Tsai Ming Liang, Johnnie To... um grupo impressionante. Resta saber quantos cumprirão as expectativas. Gostei de ver a inclusão do novo do filipino Brillante Mendoza, que ano passado competiu com o ótimo "Serbis" e que foi destruído pela maior parte da crítica. Ou seja, os organizadores do festival não dão muita bola pra esse tipo de gente.


Uma das coisas divertidas antes da premiação é ficar imaginando quais serão os favoritos baseando-se na figura do presidente do júri. No caso deste ano, a maravilhosa atriz Isabelle Huppert. Uma coisa já pode se supor: nada de prêmios para "Bastardos Inglórios", uma vez que Huppert já declarou que não gosta do cinema de Tarantino. Como a boa professora de piano, muita gente já deve estar pensando em Haneke, enquanto o fato do júri ser composto por mulheres em sua maioria, outros tantos estão pensando em Almodovar. Ambos são queridinhos do festival que nunca ganharam a Palma de Melhor Filme.


O Brasil estará presente com o novo de Heitor Dhalia (argh!), "À Deriva", na mostra paralela "Um Certo Olhar", e com o curta-metragem "SuperBarroco", de Renata Pinheiro.



O fenômeno Susan Boyle


Não costumo dar importância pra esse tipo de coisa, mas o tal vídeo da Susan Boyle já encheu o saco. Esta semana já dei de cara com isso umas quatro vezes em locais diferentes.


O vídeo é de uma cretinice enorme por dois motivos: a manipulação barata e a ideologia triste por trás.


Primeiro, a manipulação. Coisa comum, claro, mas parece que as pessoas não percebem e nem querem perceber. Coloca-se alguém no palco que está longe dos padrões que aceitamos de "sucesso": não é bonita, nem jovem, sozinha, nunca namorou, etc. Mas claro que tem uma voz linda - coisa que os produtores do programa obviamente sabem, talvez até mesmo os jurados. E aí prepara-se o circo, dando a entender que estamos diante de mais um freak ou loser. Mas aí ela canta. E é lindo. A platéia enlouquece, os closes nos jurados são fundamentais: afinal, eles são os detentores do conhecimento e se eles se impressionam, como nós meros mortais não iremos nos impressionar? Tudo é orquestrado para o público se emocionar ao máximo. E, claro, as pessoas choram, se arrepiam, indicam para os amigos.


O triste desta história é a perpetuação de uma idéia horrorosa. Dizem que este é um ótimo exemplo contra uma sociedade que valoriza ideais de beleza e se importa muito com aparências. Mas não é nada disso. Porque Susan Boyle tem algo que se enquadra no que nossa sociedade valoriza: uma bela voz. Imaginem se ela não cantasse bem. Seria mais uma das várias pessoas que são avacalhadas nesse tipo de programa.


Sorte, então, que ela canta bem. Nossa sociedade é altamente excludente, celebra o individualismo e, no processo, diminui a "potência de vida" (só pra usar os termos de um professor) de todos que não possuem uma qualidade extraordinária, como a aparência física, uma bela voz, uma aptidão especial para esportes, um talento ou algum tipo de trabalho super valorizado e de destaque no mercado. E se vivemos num lugar assim, é claro que vamos nos emocionar quando descobrimos que uma aparente zé-ninguém (tendo essa imagem potencializada pela manipulação da linguagem televisiva) se mostra dotada de uma qualidade especial. É catártico. Realizamos nossas fantasias através dela. E ainda fingimos que isso é uma cutucada nos valores indecentes da sociedade! "Tá vendo? Ela é feia, velha e sozinha, mas tem um dom!"


Tadinhos dos que não tem...


Mas como eu disse lá no início, normalmente evito me importar com esse tipo de coisa. Triste mesmo é quando isso invade o meio acadêmico: ano passado, uma professora nos mostrou o vídeo do gordinho e tímido Paul Potts, o "Susan Boyle 2007". E alguns colegas assistiam com aquela cara de choro e admiração. E eu apenas desejando ter um talento parecido e impressionar a professora a ponto de ela me liberar do restante da disciplina. Infelizmente não foi o caso.

6 comentários:

Wally disse...

A seleção de Cannes ta mesmo recheada...impecável.

Ainda não vi o vídeo dessa Susan.

Ciao!

Michele do Carmo disse...

Não assisti Susan Boyle como um fenomeno e nem me emocionei com o contexto da vida dela. Simplesmente achei a musica legal, o jeito dela engraçadinho e o fato do video ser campeao em audiencia no youtube. Algumas coisas vistas não podem ser pensadas com as lentes da intelectualidade, se sempre for assim é melhor dar adeus à esse mundo. E todos nós vemos e gostamos coisas mediocres, não é? O problema é a quantidade disso na sua vida.

Agora vc tem razão: ver despretensiosamente é uma coisa, usar na faculdade é outra.
Fora que esses efeitos de camera, edição, etc, nem vem ao caso. Todo mundo sabe como funciona esses programas...

Rafael Carvalho disse...

É a seleção tá recheada de grandes nomes, muito embora sejam em sua maioria figurinhas carimbadas, os mesmos de sempre. Mas muita coisa promete. Na verdade, fica expectativas pela imensa maioria dos filme, mas minha maior curiosidade talvez seja o filme de vampiros de Park Chan-wook.

Sobre o caso Susan Boyle, a questão não é se emocionar ou não com o vídeo, mas se você sabe porque está se emocuonando, se entende como tudo aquilo é feito para alcançar esse efeito. Assim, você pode perceber a manipulação, mas ao mesmo tempo se impressionar com a voz daquela mulher.

Kamila disse...

Gostei de seu texto lúcido sobre a Susan Boyle.

E adorei a lista de participantes do festival de Cannes, que, neste ano, promete!!!

Alex Gonçalves disse...

Eu discordo de muito que foi dito sobre o caso Susan Boyle. Eu fui um dos que se emocionaram com o vídeo. Mas o que causa o efeito não é toda a manipulação por trás do programa, mas como a história dela representa aquela coisa que muitos acham piegas de um sonho sendo realizado e tudo mais. O que é legal no caso de Boyle é que por trás de sua aparência e por todas as coisas que ela teve que superar (a perda da mãe, o fato de nunca ter se relacionado com alguém) existia dentro de si uma mulher singular com a sua voz poderosa.

Hélio disse...

Eu nao duvido que muitas pessoas tenham se emocionado com a voz dela, unicamente por ser uma bela voz: afinal, a boa arte tem este poder sobre a gente. Mas é obvio que o fenomeno so existe por conta de toda essa manipulaçao e a ideia de que uma pessoa "daquele jeito" nao poderia cantar daquele jeito.

Imaginem se aquele canto viesse de uma mulher bonita e bem sucedida na vida... certamente nao teria a repercussao que teve.

E acho que nao basta reconhecer a trucagem por tras do vídeo. É preciso entender que é dessa forma que se alimenta os ideais que prezam pela beleza (fisica, artistica, o que seja) e que aumentam a diferenciação e exclusão daqueles que "não podem".


Abços!