quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sobre Cannes

Festival de Cannes passou e acabei não escrevendo nada aqui. Difícil comentar resultados já que, ao contrário do Oscar, não vimos filme nenhum. Mas é irresistível a torcida pelos cineastas que admiramos e, levando isso em conta, não me empolgou a Palma para o novo filme de Haneke. Admiro seus filmes, mas com certa distância, não houve nada dele até agora que me causasse impacto (talvez um pouco de choque com o Funny Games, mas este vi há uns 10 anos atrás, não sei como seria hoje).


De qualquer forma, Haneke já era um candidato forte antes mesmo de ter seu White Ribbon exibido: esteve muito perto por duas vezes (A Professora de Piano e Cachè), em outra foi prejudicado pela polêmica causada (o cineasta Nanni Moretti ameaçou se retirar do júri em 97, caso algum prêmio fosse dado a Funny Games) e a presidente do júri deste ano foi ninguém menos que Isabelle Huppert, a própria professora de piano (e que também fez Tempo de Lobos com ele), claramente defensora do cinema de Haneke. Com cheiro de marmelada, justiça seja feita: The White Ribbon foi bastante elogiado pela crítica, ainda que não tenha sido o mais admirado.


Para muitos, o maior choque foi o prêmio de diretor, dado ao filipino Brillante Mendoza por Kinatay, filme tido como extremamente violento e que teve algumas das piores críticas da Competição. Roger Ebert, o mais famoso crítico americano, chegou a escrever que tinha que pedir desculpas a Vincent Gallo por ter chamado The Brown Bunny o pior filme já exibido na história de Cannes após ver o filme de Mendoza. Mas não fiquei surpreso: críticos brasileiros que admiro, como Kleber Mendonça e Eduardo Valente, elogiaram bastante Kinatay, além de Quentin Tarantino que, em entrevista durante o Festival, disse que o filme filipino era o melhor que ele tinha visto na competição. Além do mais, o filme anterior de Mendoza, Serbis, causou mesma polêmica e péssimas críticas ano passado, e é ótimo. Huppert e seu júri, que anunciaram em coletiva defender projetos estéticos, certamente tem um olhar mais aberto e interessante para o cinema de todos os tipos. E que me desculpe Ebert, um crítico muito bom, mas Brown Bunny é ótimo e, portanto, Kinatay já é um dos filmes que mais aguardo para este ano.


O outro choque do ano foi o prêmio de melhor atriz para Charlotte Gainsbourg pela mais nova polêmica de Von Trier, "Anticristo". Dizem que na discussão final dos prêmios, boa parte do júri havia detestado o filme, que teve total suporte de Huppert. O cineasta James Gray teria chamado a atriz de "fascist bitch", o que não a impediu de garantir o prêmio de atuação para Gainsbourg que, dentre outras coisas, protagoniza no filme uma cena onde tem o clitóris cortado fora. A boa piada que saiu disso é a respeito da notícia de que "Anticristo" poderá ter duas versões, uma mais amena: a versão com cortes é justamente a que não mostrará o corte. Polêmicas à parte, não me interesso por Von Trier desde Manderlay (não vi mais que 15 minutos de O Grande Chefe) e sei que o dinamarquês gosta mesmo é de chamar a atenção para si. Talvez veja seu filme, dependendo do meu estado de humor.


De resto, não houve surpresas (talvez o prêmio de roteiro ir para o chinês Spring Fever, que quase ninguém se empolgou). Achei triste o prêmio especial para Alain Resnais, como se o júri se sentisse obrigado a premiar uma lenda viva do cinema, mesmo não achando que seu filme fosse merecedor de algo. Além de Kinatay e do filme de Resnais, aguardo ansioso pelo novo filme de Elia Suleiman, The Time that Remains, muito elogiado e acabou não levando nada. Minha expectativa é maior depois de ter revisto neste fim de semana seu absolutamente genial Intervenção Divina e seu divertido curta para o projeto A Cada um Seu Cinema. Os bastardos de Tarantino já era o filme que mais aguardava deste ano e, após as críticas, continua sendo. Segundo o crítico Eduardo Valente, o filme é excelente e deverá se beneficiar com os cortes que a produtora impôs a Tarantino, já que este teve apenas 2 meses para montar o filme para que ficasse pronto para Cannes. Quem sabe com os ajustes necessários, Bastardos Inglórios se torne a obra-prima que o diretor diz ter em mãos.


Agora é aguardar que os filmes cheguem por aqui. Aparentemente, já estão com distribuição garantida os filmes de Haneke, Suleiman, Tsai Ming-Liang, Resnais, Chan Wook Park, Von Trier, Loach, Audriard, Jane Campion, Tarantino, Almodovar e Ang Lee. Outros da competição que deram o que falar como Kinatay e o filme de Gaspar Noé ainda não foram garantidos. Espero estar lá na Mostra de SP deste ano pra conferir boa parte deles.

2 comentários:

Kamila disse...

O que eu achei mais interessante nos vencedores de Cannes foi que o júri deste ano foi muito eclético. Em cada categoria, tivemos um filme vencedor diferente. E acho isso muito bom!

Rafael Carvalho disse...

A vitória e os vários elogios que Haneke recebeu só aumentam minha vontade de ver o filme, gosto imensamento do cinema dele. E acho papo-furado essa coisa de marmelada tanto que a crítica internacional também concedeu o prêmio a Haneke, esnobando o favoritíssimo do evento, Un Prophète.

Não sou muito fã de Manderlay e acho O Grande Chefe terrivelmente péssimo, mas pra um cara que já fez Ondas do Destino, Dançando no Escuro e Dogville, qualquer novo filme dele vai sempre me despertar interesse.

No mais tenho muita curiosidade de ver os filmes do Mendonza e cada vez mais me dá vontade de conferir Intervenção Divina; tentarei locar nesse próximo fim de semana. No mais, muita coisa selecionado esse ano em Cannes me deixam com curioso.