quarta-feira, 29 de julho de 2009

Grey Gardens




Grey Gardens (1975)




Em 1973, autoridades ameaçaram expulsar as moradoras de Grey Gardens, uma mansão decadente em East Hampton (próximo de New York), por falta de condições sanitárias. O fato ganhou os jornais americanos por se tratarem de Edith Bouvier Beale e sua filha Edie, ex-socialites, tia e prima de Jacqueline Kennedy Onassis. Morando sozinhas, com diversos gatos, e guaxinins correndo pelos buracos da casa, sem sair da mansão (de 28 cômodos) há mais de 20 anos, foram ajudadas pela própria ex-primeira dama e se mantiveram no local.


Dois anos depois, as moradoras permitiram aos irmãos Albert Maysles e David Maysles que filmassem seu cotidiano dentro de Grey Gardens. Prato cheio para os cineastas, representantes do cinema direto (espécie de gênero de documentário cuja intenção é "filmar a vida tal e qual ela é"), conhecidos pelos filmes "O Caixeiro Viajante" e "Gimme Shelter".


Surgiu, então, um documentário incrível, primeiramente pelo fato de que Big Edie e Little Edie, como eram conhecidas, são figuras interessantíssimas, parecem viver em um mundo particular, de excentricidades e memórias do passado rico e frustrante que tiveram. Travam diálogos que não demoram em deixar clara a relação de amor, ódio, dominação e dependência dessas duas. Little Edie, em especial, constantemente lamenta as não realizações, sempre culpando sua mãe, e a dinâmica dela com a câmera ou com a mãe, resulta nos momentos mais divertidos, dolorosos e sublimes do filme.


Há outros tantos aspectos impressionantes, engraçados, tristes e até mesmo assustadores: de gatos passeando e urinando em todos os cantos, a guaxinins entrando na casa pelos buracos na parede, sendo alimentados com pacotes inteiros de pão, passando pelas teorias de Little Edie. É um filme que forma uma dobradinha perfeita com nosso Estamira.


Depois, porque o cinema direto é perfeito para captar estas vidas e os irmãos Maysles conseguem isto sem se isentarem da participação que tiveram no cotidiano destas mulheres. Mãe e filha agem e muitas vezes atuam para a câmera, mas esta se torna tão onipresente que é impossível imaginar que elas tenham modos de viver diferentes daqueles vistos no filme.


Um dos (muitos) grandes momentos vem logo no início, quando Big Edie canta "Two for Tea", numa clara apresentação para os "holofotes" e, ao final, parece esquecer a câmera e por um breve momento seu olhar se perde, alguma memória vem e ficamos com aquela idosa mergulhada em seus pensamentos. Um cineasta cretino talvez cortasse a mágica do momento com um "O que você está pensando?". Felizmente não é o caso dos Maysles, que passam por várias situações engraçadas ou de constrangimento, seja pelos questionamentos de Little Edie, ou por se verem no centro de uma discussão ou ainda quando os seios de Big Edie ficam à mostra e a câmera tenta se desviar e focar em outra coisa o mais rápido possível.


"Grey Gardens" é um impressionante estudo de personagem, coloca em xeque as limitações do cinema como expressão da verdade e ainda diverte e emociona como todo bom cinema deve fazer.




Grey Gardens (2009)



E agora, em 2009, a HBO lança um telefilme de mesmo nome. "Grey Gardens" traz a vida das ex-socialites representadas por Jessica Lange e Drew Barrymore, partindo do momento em que é realizado o documentário, alternando com flashbacks que retratam o passado das duas. O filme é o grande indicado ao Emmy de seu gênero, com 17 indicações e deve ganhar vários destes prêmios.


A abertura do filme mostra algumas de suas intenções, e que deve ser a real razão de seu sucesso: vemos Barrymore representando aquela que é uma das mais memoráveis sequências do documentário, quando Little Edie faz seu número patriótico, dançando para a câmera com a bandeirola americana. É um início de filme que impressiona pelo perfeito mimetismo. Barrymore está absolutamente idêntica a personagem que vive, graças a um incrível trabalho de maquiagem e entonação de voz.


O problema é que o filme parece querer se resumir a isto. Quanto mais similar a realidade, mais se sente a vontade em representar o passado das personagens. E a beleza do documentário era imaginarmos o que aconteceu com aquelas duas senhoras, e que o cinema realmente não pode dar conta de explicar. Em alguns momentos (poucos, é verdade) vemos uma dramaticidade nas expressões de Barrymore e Lange que sabemos não condizer com aquelas mulheres que parecemos conhecer tão bem depois de visto o doc.


O telefilme, em suma, não ousa, não lança novos olhares ou perspectivas diferentes. Faz um recorte bem sintético de momentos específicos das vidas dos personagens (quem viu o documentário sabe que há tantos outros de importância para elas) e perde a oportunidade de enriquecer esta interessante história. É por isso que raramente vejo telefilmes, "Grey Gardens" me parece expressão perfeita das limitações deste gênero, capricham em aspectos técnicos assépticos, grandes atuações e dramas palatáveis para o grande público.


Ao final, ainda tenta dar dignidade às personagens. Se há o que se admirar, é a tentativa de não julgar ou explorar a excentricidade de suas protagonistas. Não é um filme que irrita, ele só poderia ser muito mais do que é. E se alguma emoção surge, é mais pela percepção de como o documentário é excelente ao retratar vidas tão interessantes e, ao mesmo tempo, tristes.

2 comentários:

Kamila disse...

Os dois filmes estão passando na HBO e pretendo assistí-los.

Mandy disse...

Estou com a refilmagem aqui, criando coragem p/ ver, eu já não sou muito amiga de documentários sabe...