sábado, 25 de julho de 2009

Showgirls

O que é um filme ruim?


Em dezembro, escrevi aqui no blog sobre "Fim dos Tempos", fazendo esta pergunta. Claro que não respondi. E nos últimos dias, revi dois filmes que gosto muito e que facilmente se encaixam no padrão de ruindade estipulado pelo senso comum: "Showgirls", de Paul Verhoeven e "As Panteras: Detonando", de McG. Claro que volto a essa discussão.






Showgirls teve uma das recepções mais negativas que um filme teve nos anos 90. Em 1996, venceu o Framboesa de Ouro de Pior Filme e outros tantos da premiação (incluindo o engraçado Pior Dupla, para qualquer combinação entre duas pessoas na tela ou duas partes de corpo). Em 2000, o Framboesa de pior da década, e em 2005 foi indicado como Pior Drama dos 25 anos de premiação.


Exagero? Certamente. O filme é ruim? Longe disso. Verhoeven fez uma obra ácida sobre o sonho americano, tão bom quanto outras obras da década que trataram do tema, embora cada um com enfoque e em registro e interesses distintos: Safe, Felicidade, Beleza Americana, De Olhos Bem Fechados. No caso em questão, a história de uma jovem que busca em Las Vegas seu sonho de ser dançarina e se vê em um mundo imoral e traiçoeiro, onde sobreviver sempre depende de passar a perna em alguém.


E por que tanta repercussão negativa? Porque o filme traz todos os elementos ditos ruins: as atuações são exageradas, os diálogos soam falsos, a dramaturgia é de mau gosto. A trama é simples e parece ser a desculpa perfeita para vermos mulheres nuas em danças supostamente sensuais. Os seios expostos das atrizes são quase onipresentes no filme. Enfim, uma tragédia.


A grande questão é que todos estes aspectos, a priori, não necessariamente resultam em um filme ruim, mas servem ao propósito do cineasta, que constrói um curioso painel de relações artificiais em um mundo artificial. O cinema de Verhoeven sempre me pareceu visualmente forte (a violência de Robocop, o futuro de O Vingador do Futuro, o sexo de Instinto Selvagem) e falar em hipocrisia, como parece ser um dos temas de Showgirls, não poderia ser diferente: toda a ambientação do filme parece cafona, beira o grotesco; não há nada de sexy nas danças, os movimentos dos corpos são exagerados; há muito sexo simulado (a lap dance) e o único consentido (porque o outro é um estupro) se passa numa piscina onde o casal carrega na falsidade do orgasmo.


Quando a protagonista deixa a "ralé" (um bar de strippers, onde os homens a assediavam e fazia lap dances até o cliente gozar) e vai ser dançarina em um hotel luxuoso, um personagem diz que ao menos antes as intenções de todos eram claras. Verhoeven chega a fazer uma defesa daquele "antro" de promiscuidade, dando um ar família e de respeito mútuo via os personagens do cafetão e da dançarina gorda e desbocada, deixando claro que o luxo almejado pela protagonista envolve prostituição e "baixeza" muito maior.


O novo e prestigiado ambiente da personagem parece simbolizar qualquer mercado de trabalho que se diga honesto: a fama e o sucesso não vêm sem a traição, a ganância, o individualismo, a derrubada do outro. É um filme desesperançoso, porque a mocinha não é nada ingênua, nem aprende uma lição ao fim da jornada. E todos parecem ter consciência de seu papel nos jogos de poder envolvidos.


Será por isso que incomoda tanto? Porque é tão mais fácil gostar de uma crítica de costumes quando o verniz é intelectual (Beleza Americana) do que quando a obra se serve de outros meios.


Deixo o filme do McG pra outro post.

7 comentários:

Gustavo H.R. disse...

Quando um filme utiliza-se de caminhos não convencionais para passar o que tem que passar, decerto irá desagradar uma parte do público, que afinal têm resistência ao diferente. Pelo que li do seu texto, SHOWGIRLS se encaixa nisso, mas apesar de todos os "prêmios" negativos que ganhou, tem alguns defensores ardorosos, poucos, mas tem.
Taí um filme que preciso ver, conheço tão pouco o Verhoeven.

Cumps.

Alex Gonçalves disse...

Hélio, ainda não vi "Showgirls" (está no computador, mas estou com uma preguiça danada de ajustar as legendas), mas eu tenho que parabenizá-lo pelo seu texto. O que poderia ser uma análise que só destacasse o filme pela nudez e alguma indecência vista na tela se transformou em algo curioso, que passa longe das críticas preguiçosas que li sobre o filme até então. É fato a péssima recepção que é conferido à fita até hoje, mas não acho que Paul Verhoeven tenha armado esse filme somente de brincadeira. Em momentos altos ou baixos, Verhoeven nunca é pouca coisa.

E eu quero ler o que você tem a dizer sobre "As Panteras - Detonando", uma aventura de ação que gosto bastante!

Marcelle* disse...

Bela crítica, Hélio!
Não assisti esse filme, mas confesso que fiquei com vontade. Estou mesmo a procura de filmes nao convencionais, como o cara de cima disse.

RENATO SILVEIRA disse...

"Showgirls" é um filme que eu simplesmente saltei, justamente pela influência das críticas negativas à época. Seu texto colocou o filme de volta à minha lista de espera, Hélio. Revi alguns dos Verhoeven ultimamente e concordo plenamente que o cara tem um cinema no mínimo forte. []s.

Mandy disse...

Kra, faz tanto tempo q eu vi, que nem lembro + direito...

Evandro Ribeiro disse...

Caramba!! Showgirls é uma obra de arte... um tapa na cara da hipocrisia americana, claro! TODOS falam mal, parece uma síndrome, mas qdo se começa assistir, é como Chaves, nâo dá p parar! Isso aconteceu com TODOS os meus amigos q começavam a assistir, e eis q de repente, eles tavam hipnotizados! É mto engraçado ouvir uma critica repetitiva. Ele foge totalmente da moral e bons costumes q estamos acostumados! O filme foi detonado pela crítica americana pq a mocinha não têm o menor pudor em "dar" pra pessoa certa p subir, pq ela cede ao lesbianismo, pq na beira do óbvio, ela ^não cede ao cachê pra voltar a fazer programas, ela tem uma meta! A meta? Ser a estrela do Stardust, e pra isso, não mede esforços em entrar no jogo da sacanagem, se deixar seduzir pela grande estrela, ganhar a confiança e depois a sangue-frio, acabar com a carreira dela, já q seria a substituta! O filme segue à risca do q a gente gostaria de ver. O melhor de tudo fica pelo vestido da Versace, e ela pobre q só, reproduz como "Verceice"!! Cai no chão de rir!! Virou jargão entre os amigos!! hehe E tb não esquecendo claro, a cena de vingança, onde ela se pinta até os seios pra acertar as contas com o superastro q estuprou até quase a morte sua melhor amiga! Tudo isso é o mal-fadado Showgirls! Uma delícia p rir dos clichês, mas q prendem pela discrepância e maus-modos! Vale muito à pena ver... acreditem!!!!

Aderson disse...

Foi amor a primeira assistida, lá nos anos 90. Adoro esse filme. Pena que não tem em DVD.