sábado, 31 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 4

22. Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho - Vencedor do Festival do Rio, o primeiro longa-metragem de Esmir Filho (de quem eu conhecia o simpático curta Saliva) acompanha a rotina diária de um adolescente em pequena cidade alemã no Rio Grande do Sul, cujo contato com o mundo vem, essencialmente, da internet, através de seu blog, fotolog e conversas via msn. Alguns mistérios rondam sua vida, como a presença fantasma de um amor perdido (ou ainda a se alcançar?) e um homem que vaga pela noite e que seu melhor amigo parece odiar. Não à toa, já li alguns comentários que diziam que o filme se trata de um "Reygadas emo". Eu diria que é mais emo do que Reygadas (cineasta que filma infinitamente mais bonito que este Esmir), numa afetação sem fim que torna o filme mais longo do que já é (101min). O diretor parece mais interessado na forma do que realmente fazer um retrato sincero da adolescência, e os planos e texto, supostamente poéticos, são dolorosos de ver, de tão vazios. Filme vindo do Sul sobre adolescentes, melhor ficar com o belo Houve Uma Vez Dois Verões, do Jorge Furtado. (Nota 2/10)
23. A Mulher do Lado, de François Truffaut - Um dos mais queridos filmes de Truffaut, finalmente pude conferir esta pérola realizada em 1981, três anos antes do cineasta falecer. Filme passou na Mostra em seleção que homenageia a atriz Fanny Ardant. No filme, senhora narra história de homem que reencontra seu grande amor do passado, quando esta se muda com o marido para a casa ao lado. Ambos parecem ter superado o passado, são bem casados, com belos filhos (de mesmo nome). As consequências deste encontro serão trágicas e Truffaut filma o amor como a coisa mais poderosa do mundo, com personagens que estão dispostos a morrer (e matar) em seu nome. Há uma irracionalidade fascinante nos personagens, que vai crescendo na mesma proporção em que os sentimentos vão aflorando e também nossa compreensão (apenas sentida) do que deve ter sido a vida destes dois juntos. Belíssimo. (Nota 9/10)
24. Abraços Partidos, de Pedro Almodovar - É bom ver um filme de um grande mestre quando só se ouve comentários de que se trata de uma obra menor dele. O prazer é ainda maior ao concluir que está longe de ser coisa pequena. Pois Almodovar conseguiu mais uma vez fazer melodrama engraçado, comovente e irônico, com trama aparentemente clichê (dentro do seu próprio cinema), mas que vai se desdobrando e se tornando uma linda homenagem ao cinema, que não ficaria deslocada de uma sessão dupla com Bastardos Inglórios. Algumas coisas são simples, mas encantadoras, a começar pelo fiapo de argumento irônico que surge no início: roteirista que quer fazer um filme em que filho abandonado pelo pai não guarda ressentimentos, e acaba recebendo na porta um jovem cineasta que quer fazer um filme para mostrar todo o seu desprezo pelo pai. Claro que há uma ligação entre os dois e a trama se desenvolve em flashback, com mais uma presença luminosa de Penelope Cruz, em história de amor louco e trágico, onde a arte é (mais uma vez, como em Fale com Ela) fundamental na vida das pessoas. O final é uma dessas maravilhas que te deixa entusiasmado e emocionado com um cineasta que não parece ter limites, conseguindo comentar sobre seu amor pelo fazer cinema de modo que tudo se encaixe, e com sequência hilária o suficiente para acreditarmos naquilo. (Nota 9/10)
25. Os Sorrisos do Destino, de Fernando Lopes - Meu primeiro contato com o cinema de Fernando Lopes, um dos mais veteranos cineastas portugueses (75 anos). Assim como Manoel de Oliveira, a impressão é que quanto mais velho, mais jovial são os filmes. Pois a trama deste envolve traição e infidelidade feminina. E, enquanto jovens cineastas do país como João Pedro Rodrigues e João Canijo talvez fossem fundo e causassem impacto com isso, Lopes faz uma comédia doce e agradável, com personagens se comportando de forma inusitada diante do que ocorre. Não soa como fantasia, mas como algo de alguém maduro o suficiente para encarar os acontecimentos numa postura ética e não moralista de se afirmar a vida e o prazer de se viver acima de todas as coisas. Lopes, que esteve presente na sessão, disse que o protagonista é seu alter-ego, e aproveita o filme para fazer comentários sarcásticos sobre novas tecnologias (homem avesso a eletrônicos descobre a traição da esposa através de SMS que ela recebe do amante). É bem simpático, embora nada especial. Infelizmente, a cópia estava horrível (dv-cam), o que resultou no momento mais constrangedor da Mostra: espectador perguntou a Lopes porque ele escolheu fazer seu filme com cores fracas e fotografia opaca. Diretor pareceu não entender ou fingiu que não entendeu a pergunta e apenas disse que foi seu primeiro filme em digital. Fora isso, debate com perguntas medíocres de sempre. (Nota 7/10)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 3



17. Vício Frenético, de Werner Herzog
- Era estranha a notícia de que um grande cineasta como Herzog ia refilmar uma obra recente de um outro grande nome como Abel Ferrara. Mas autores de verdade não fazem refilmagem. Fazem releituras. E, embora o filme de Ferrara continua sendo uma paulada sem igual, com Harvey Keitel dando uma das melhores atuações dos anos 90, o filme de Herzog tem seu brilhantismo, trazendo apenas algumas poucas semelhanças na estrutura do roteiro, mudando radicalmente na parte final. Uma visão do inferno bastante sedutora, Nicolas Cage está perfeitamente exagerado no papel do bad lieautenent que se afunda cada vez mais na sua dependência química, ao mesmo tempo que tenta levar um poderoso traficante para atrás das grades. Herzog nos coloca ao lado do protagonista em sua jornada. Tão ao lado, que quando ele vê iguanas em uma alucinação, em nenhum momento vemos o ponto de vista dos outros personagens. Envolvente, sujo e engraçado (o uso da autoridade de Cage para apreender droga de um casal é bem mais "contido" e hilário que a mesma desagradável sequência no filme de Ferrara), Herzog ainda arranja soluções maravilhosas para o ato final, fugindo como o diabo de qualquer tentativa moralizante da trama. Filme surpreendente. (Nota 8,5/10)



18. O Inferno de Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea - Documentário curioso sobre projeto inacabado do cineasta francês Henri-Georges Clouzot. O filme "Inferno" foi rodado por 3 semanas em 1964, com a estrela Romy Schneider, e interrompido após diversos problemas envolvendo a obsessão do diretor em fazer seu filme mais ambicioso. Os diretores Bromberg e Medrea recuperam o material rodado, sem áudio, e realizam um trabalho primoroso de edição, ao narrar os fatos, exibir o filme e preencher as lacunas com atores em estúdio lendo o roteiro. Clouzot queria usar em seu filme efeitos avançados para a época, na intenção de revelar os conflitos psicológicos dos personagens, e o documentário é muito feliz na demonstração dos propósitos do diretor (embora fique a sensação de que o filme do Clouzot sairia bem ruinzinho com esses efeitos). Apesar dos elogios, senti que o filme se alonga demais, mas confesso que o cansaço da maratona bateu exatamente durante esta sessão. Quem sabe um dia revejo. (Nota 7/10)



19. Ervas Daninhas, de Alain Resnais - Gostaria muito de retornar a este filme o mais breve possível. Primeiro, porque a cópia exibida tinha as laterais cortadas e fiquei incomodado durante toda a projeção, já que para este que é um dos maiores cineastas da história, todos os cantos da tela são relevantes. Segundo, porque é um filme que te deixa um tanto desnorteado, seguindo por caminhos inesperados, um humor desconcertante e, confesso, acabei ficando meio perdido (e tb o cansaço da sessão anterior ainda persistia). O que posso adiantar é o prazer enorme de Resnais em filmar encontros entre seres humanos peculiares, com diálogos e narração em off deliciosos, cujo passado se sente no presente, mas nunca é inteiramente revelado. Também não parece haver no cinema alguém que faça uso tão maravilhoso de cores, algo já muito sentido no anterior Medos Privados (que tentarei arranjar tempo aqui pra rever, 2 anos e meio em cartaz no HSBC Belas Artes). Filme leve, divertido, prazeroso e estranho. (plano final, uma graça). Para rever na projeção correta. (Nota 9/10)



20. Hotel Atlantico, de Suzana Amaral - Uma das sensações nacionais deste ano, um homem viaja sem rumo, vivendo inúmeras situações em encontros e acontecimentos inusitados. Filme interessante, mas não tão forte quanto imaginei. Ganha interesse quando há duas pessoas em tela (principalmente sequência no onibus, da pipoca e quando João Miguel entra em cena), e aí está o problema, já que boa parte se passa com o protagonista sozinho em sua jornada sem sentido. Isso por si só não seria algo ruim, e Lisandro Alonso já mostrou o cinema potente que pode sair daí (Los Muertos), mas pouco fica no caso deste filme de Amaral. Ao final da sessão, achei muito simpático da parte de João Miguel ter me pedido desculpas pela conversa durante o filme, quando o cumprimentei e parabenizei pelo trabalho: ele passou o tempo todo cochichando com o protagonista Júlio Andrade (coisa que nem me atrapalhou, na verdade). Longe de ser um filme ruim, só não é memorável. (Nota 6/10)



21. Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee - Grandíssimo fracasso de Ang Lee, fiquei indignado por ter sido o único filme até agora que recebeu aplausos da plateia (sem contar as sessões com presença do diretor, obviamente). Eu diria que é tolerável na sua primeira hora, embora claramente dispensável com seu humor rasteiro e os estereótipos de sempre para representar essa época já muito explorada pelo cinema. A coisa vai piorando gradativamente, com o acúmulo de personagens superficiais que não se desenvolvem em momento algum. É um péssimo roteiro e as soluções visuais de Lee são as mais precárias possíveis: o estilo de montagem já utilizado em Hulk, usando imagens de arquivo, não ganha força em momento algum, e as viagens alucinógenas ficam ainda mais pobres quando se vê o filme no mesmo dia que Vício Frenético. Imelda Staunton é o único nome a despontar, arrancando gargalhadas da plateia sempre quando entra em cena. Se o filme não evaporar por completo das premiações de fim de ano, esperem por uma indicação pra Staunton. (Nota 3/10)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 2



10. Vida em Bloco, de Alfredo Hueck e Carlos Caridad
- Drama venezuelano tentando seguir os passos de Alejandro Iñárritu, ao narrar o cotidiano de personagens que vivem em blocos residenciais populares. São basicamente dois média-metragens bem bobinhos e ingênuos, defendendo a ideia de que o ser humano é bom e, por mais que se foda, há sempre esperança. O filme se sabota a todo momento: quando você acha que aquilo vai render algo legal, vem o desastre em forma de soluções pouco criativas e forçadas, tanto em linguagem estilística quanto de roteiro. Alguns bons atores (em especial na primeira história), mas facilmente esquecível. (Nota 3/10)


11. Faça-Me Feliz, de Emmanuel Mouret - Agradabilíssima surpresa, mesmo sabendo que o Mouret é um cineasta de interesse. Aqui, ele faz seu "Um Convidado Bem Trapalhão" e arranca gargalhadas da plateia o tempo todo. Timing cômico impecável, Mouret é também ótimo ator, uma espécie de Woody Allen menos neurótico que, descaradamente, se rodeia de lindas mulheres durante todo o filme. Como diretor, filma com elegância e precisão, de modo que o excelente roteiro funcione em todas as surpresas e gags. Tipo de humor cada vez mais raro, é excelente pedida. (Nota: 8,5/10)


12. O Fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson - Não sou fã de animações (com exceção da Pixar, praticamente não vejo) e muito menos de Wes Anderson (embora ainda pretendo um dia rever seus filmes). Mas na falta do que fazer, fui conferir a primeira animação do cineasta, que traz uma família de raposas contra perigosos fazendeiros da região. A história é um tantinho só subversiva, porque na verdade os mocinhos roubam (patos, frangos e outras guloseimas) dos vilões que só querem punir os ladrões. O estilo de Anderson é visível nos enquadramentos, planos estáticos e uma ou outra sequência non-sense que cabe mais numa animação do que nos longas que dirigiu. De resto, mais uma história engraçadinha com animais falantes, sobre respeito às diferenças, superação e a união que faz a força. Eu não me empolgo. Mas fiquei curioso em saber como será a recepção das crianças. (Nota 5/10)


13. Sussurros ao Vento, de Sharahm Alidi - Interessante trama que se passa em região devastada pela guerra no Iraque, em que um senhor viaja pelas localidades gravando e transmitindo mensagens entre pessoas que, de outro modo, não teriam como se comunicar com seus familiares nas aldeias vizinhas. O filme começa muito bem, parece ter influência direta do cinema de Abbas Kiarostami, com longos silêncios e quase onipresença do vento, em belos e fortes planos, como aquele em que uma mensagem é escrita sobre a poeira de uma lona, para logo depois ser lavada pela chuva. Infelizmente, o filme vai perdendo sua força ao chamar demais a atenção para seus momentos mais dramáticos (Kiarostami nunca usaria câmera lenta, por exemplo), como se não acreditasse na potência de suas imagens. Filme de muita relevância política e social, mas que peca justamente por querer ser relevante demais. (Nota 5/10)


14. Mother, de Bong Joon-Ho - O cineasta Joon-Ho vem sedimentando seu nome no cinema internacional, mostrando talento indiscutível na arte da mise-en-scene e no domínio de uma narrativa quase clássica (no sentido americano do termo) do cinema de gênero, especialmente com Memórias de um Crime (filme policial) e O Hospedeiro (filme de monstro). Mother é mais um excelente acerto e desta vez transitando com extrema facilidade entre o melodrama, a comédia e o filme de investigação. A atriz principal está fantástica no papel-título, uma mãe especialíssima, daquelas que padecem no paraíso, cuja força dramática só se equipara ao Tudo Sobre Minha Mãe, do Almodovar. O roteiro é um primor, daqueles que faz questão de dar conta de todos os pequenos detalhes, que se encaixam no final. Gosto de tudo no filme, mas planos inicial e final elevam o filme a um patamar que nos joga pra fora do cinema admirando ainda mais o que viu. (Nota: 9/10)



15. A Mente Que Mente, de Sean McGinly - Mais um filme que vi apenas pra matar o tempo e nem foi ruim. Mas também não é algo pra se ver numa Mostra como esta: ou espere pelo circuito comercial, ou veja em casa mesmo. É a história de um mágico (ou mentalista, como prefere ser chamado) que já teve seu momento de glória (61 apresentações no Tonight Show do Jimmy Carson) e ainda vive disso quando só lhe resta apresentações em pequenas cidades para plateias cada vez menores. Acompanhamos pela ótica de seu assistente pessoal (Colin Hanks), jovem que desistiu da Faculdade de Direito porque se sentia infeliz e ainda não sabe seu lugar no mundo. É um filme meio bobo, mas que diverte graças a John Malkovich no papel do mentalista, pessoa sem um mínimo de noção de como faz papel de ridículo e que já não interessa a ninguém. Há algo de doce e triste na história, que comenta com certo respeito sobre o esquecimento de artistas que são esquecidos com o tempo (o filme é baseado em história real). Por outro lado, é totalmente desinteressante a busca de sentido do outro protagonista, que vive constantes conflitos com seu pai (da vida real também, Tom Hanks, produtor do filme), que investiu e deseja mais que tudo que o filho se torne advogado. Odeio dizer que um filme cumpre sua função, mas na ocasião em que vi, foi isso mesmo que aconteceu. (Nota 5,5/10)


16. Sedução, de Lone Scherfig - Sensação do último Festival de Sundance, Sedução é o atual queridinho da crítica americana, já construindo uma provável carreira bem sucedida de prêmios no final do ano. E, apesar de todo ano vermos esse tipo de coisa mesmo que os filmes não sejam grande coisa, sempre fico surpreso com a recepção a certas obras, infelizes em tudo. Sedução é um desses filmes, passando-se nos anos 60, sobre adolescente erudita que conhecerá homem mais velho que a mostrará um mundo mais fascinante do que os estudos podem lhe proporcionar. O roteiro é de um esquematismo que desde o início já mostra a mediocridade do projeto, com uma série de cenas que não deixa dúvidas sobre quem é quem e qual o papel de cada um nesta história: a menina inteligente e culta, colegas que não a acompanham na sabedoria, um pai severo e exigente (mas engraçado em sua autoridade - Alfred Molina em atuação provavelmente indicada a prêmios de Coadjuvante), uma mãe um tanto apagada, o tal homem mais velho (o mocinho) que travará diálogos "ixpertos" com a mocinha (e daí que vem o encanto), a moça burra (loira, obviamente) que namora o amigo intelectual do mocinho, etc. Tudo isso, na verdade, estabelece a linha reta que a protagonista seguirá no filme para o seu aprendizado. Carey Mulligan é a nova queridinha de Hollywood e alguns dirão que ela está adorável no filme. Para mim, a personagem é de uma estupidez absurda, comentando animadamente sobre cada obra de arte que vê pelos cantos e soltando frases em francês a todo momento, mas uma tola em todo o resto. Claro, podemos defender a imaturidade dela (uma adolescente, afinal de contas), mas o filme ao final deixa clara suas intenções, numa resolução incrivelmente careta e retrógrada, em especial após toda a ousadia em trazer uma trama em que menina de 16 anos tem um romance com homem de 30 e poucos. É um filme óbvio, irritante na sua mediocridade e covarde na sua resolução. (Nota 1/10)

domingo, 25 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 1

O primeiro dia de Mostra foi marcado por seis filmes: nenhuma bomba e uma sequência de quatro filmes curiosos e instigantes. Lástima do dia foi ter perdido o "Nova York, Eu Te Amo", simplesmente porque achei que merecia almoçar decentemente e com calma. Ontem vi um senhor reclamando que não tinha almoçado, e outro respondeu que isso durante a Mostra era um luxo. Concordo e que isso não se repita.


4. A Cozinha de Stella, de Dilip Mehta - Co-produção entre Canadá e Índia, comédia com momentos tão simpáticos quanto medíocres. A grande atração é a personagem que dá nome ao filme, cozinheira do Alto Comissariado Canadense em Nova Delhi, na Índia, e trambiqueira nas horas vagas, que rouba de seus patrões das formas mais inusitadas, cara-de-pau e divertidas. A atriz tem carisma enorme. O problema é todo o resto, uma história boba envolvendo conflitos de gênero entre o casal de patrões (ela, uma diplomata; ele, um chef desempregado), uma babá de bom coração e a tal cozinha da Stella, onde ela dará aulas de culinária ao patrão. Para fragmentar ainda mais a narrativa, um outro acontecimento na parte final do filme tentando juntar as partes. Bem comunzinho, com trilha sonora irritante nos momentos dramáticos, diverte quando a protagonista está em cena, mas é só. (Nota 4/10)


5. Ricky, de François Ozon - Primeira surpresa da Mostra, o novo filme de Ozon deve ser visto com o mínimo de informações possíveis. Basta dizer que o personagem-título é presença forte desde sua ausência, ainda no prólogo, numa crônica familiar com desdobramentos incríveis, inclusive na própria função do prólogo e uso da trilha sonora. É um filme incrivelmente leve e divertido, aliando seja lá o que for que ele tem pra aliar, de forma segura e corajosa. Não é uma obra-prima, mas encanta muito pelo que Ozon faz com o gênero, especialmente porque as reviravoltas que ocorrem não diminuem a força do que era visto até então. (Nota 8/10)


6. A Ressurreição de Adam, de Paul Schrader - Há filmes que dependem da aceitação do espectador às coisas que acontecem em tela, seja a lógica interna que a narrativa propõe para si, seja os comportamentos e escolhas incomuns dos personagens diante das situações em que se encontram. O filme de Schrader é um deles. Mais conhecido por seus roteiros (Taxi Driver e Touro Indomável, por ex.) do que por seu trabalho como cineasta (cujo mais famoso é Gigolô Americano, mas há também os bem interessantes Affliction e Auto-Focus), Schrader traz a história de Adam Stein (Jeff Goldblum), um entertainer judeu que divertia plateias de Berlim durante a II Guerra. Anos depois, encontra-se em um hospital psiquiátrico e sua história é contada, alternando-se com flashbacks de como viveu e sobreviveu ao Holocausto. Embora de estrutura simples e convencional (com direito a fotografia p&b para os flashbacks), o filme incomoda pela bizarrice dos fatos - ou, ao menos, o que entendemos como bizarro e inverossímil na relação entre personagens em uma trama supostamente realista. Para não estragar a experiência de quem vai ver, basta dizer que é uma forma curiosa e interessante de narrar a "ressurreição" de um judeu pós-holocausto, através de metáfora tão agressiva e até mesmo desagradável. Deve ser o melhor papel de Goldblum desde A Mosca e o filme peca um pouco pelo pieguismo final e por uma edição que não traz muito dinamismo à obra. (Nota 7/10)


7. Alga Doce, de Andrzej Wajda - Metalinguagem tem sido cada vez mais frequente no cinema e nem mesmo veteranos como o polonês Wajda escapam do uso quase abusivo do tipo que até mesmo interrompe o que se está vendo na tela para nos fazer lembrar da ficção. A grande diferença é que em Alga Doce, é forma essencial e apaixonada para o propósito do filme: ser dedicado ao diretor de fotografia Edward Klosinski, colaborador habitual do cineasta e marido da atriz Krystyna Janda, protagonista do filme. Alga Doce é uma obra a ser adaptada, sobre mulher de meia-idade ainda abalada pela perda dos filhos anos atrás, e que desconhece ter uma doença terminal, não revelada pelo seu marido. É neste contexto que ela começa a se aproximar de um jovem da região em que moram. Durante a produção deste filme, o marido de Janda morre prematuramente de câncer, e acompanhamos a realização da obra intercalada com um monólogo da atriz, que narra fatos e sentimentos sobre a perda. É um filme que bate forte, pela densidade e sinceridade com que aborda o tema, ao mesmo tempo que sua narrativa flui de forma muito orgânica. Em determinado momento, um personagem diz odiar descrições em livros e que tudo pode ser compreendido através de diálogos. Não sei se Wajda concorda com isso, mas fato é que as cenas em que Janda, excepcional, dialoga com a tela, são intensas e expressa toda a dor de um momento como este. É um filme emocionalmente forte e muito sensível na forma como vira homenagem sem se deixar perder no processo. (Nota 8,5/10)


8. A Fita Branca, de Michael Haneke - A Palma de Ouro em Cannes, talvez o mais belo dos filmes de Haneke, é também o mais problemático. A beleza vem de sua composição extremamente cuidadosa: a belíssima fotografia em p&b permite ao cineasta compor os mais belos enquadramentos e jogos de luzes. Sua narrativa, como não poderia deixar de ser, é conduzida à mão de ferro, e os 145min. de projeção passam voando. O problema está no argumento: uma aldeia alemã às vésperas da I Guerra e como a maldade é transmitida de uma geração à outra. Para o diretor, parece não haver fé no ser humano e o filme é pessimista até a medula. Ecos de Dogville são percebidos a todo momento. E faz todo o sentido, diante do contexto do filme, quando as bases para o nazismo estão sendo instalados. Mas incomoda como o filme quer parecer o tratado definitivo sobre o período, sisudo e solene até não mais poder. É obra que instiga, pra se ver e discutir novamente. (Nota 7/10)


9. 35 Doses de Rum, de Claire Denis - Talvez o máximo que a cineasta Denis pode chegar do que a gente pode chamar de filme convencional, um drama belo e lento sobre pessoas presas a uma rotina triste, onde só o trem se movimenta (pelos mesmos lugares). A base é um pai e uma filha, muito afeitos e cada um a razão de existir do outro. Supostamente, seria a refilmagem de "Pai e Filha" de Ozu, e os personagens até comem arroz juntos (além da presença do trem, claro). Há os coadjuvantes que transitam em torno destes protagonistas e acompanhamos um pouco da rotina de cada um. A segunda parte do filme é bem melhor, quando todos começam a se movimentar e algumas revelações são feitas, mas talvez só funcione graças ao desenvolvimento calmo e tranquilo feito na primeira parte. Filme bonito inclusive na justificativa do título, embora meio óbvio e fácil demais para os padrões da cineasta. Mas não dá pra criticar a diretora por se tornar acessível. (Nota 7,5/10)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Véspera da Mostra de SP

A Mostra começou um dia mais cedo pra mim, porque acabei pegando, de última hora, uma cabine pra imprensa. Foi a primeira vez que entrei numa sala de cinema sem saber a que assistiria, e dei de cara com um filme indiano que tive que pesquisar no site da mostra depois, pra saber o título (que me escapou nos coloridos créditos iniciais).


Depois, os obrigatórios filmes do circuito comercial. Era pra ter visto Chaser, filme coreano elogiado por muitos. Mas fiquei só com os dois que mais estava ansioso em ver e aproveitar o resto da noite pra fechar a programação da Mostra. Seguem os primeiros comentários:



1. Oye, Lucky! Lucky Oye!, de Dibakar Banerjee - Não sou familiarizado com o cinema de Bollywood, mas desde os créditos iniciais, passando por um Intermission no meio do filme, ao uso da trilha sonora, senti que estava vendo algo que fazia parte de um gênero (ou estilo) muito peculiar de cinema, que ia além da autoria. Baseado numa história real, a gente já viu isso antes: rapaz de periferia se aperfeiçoa na arte de roubar e se torna um dos homens mais procurados da Índia. A leveza dá o tom de comédia do filme, com o protagonista bom de lábia passando a perna nas pessoas que assalta, vez ou outra lembrando as peripécias de DiCaprio em Prenda-me Se For Capaz. O ator principal, Abhay Deo, tem cara de astro, é carismático e não duvido que pode, a qualquer momento, ser importado pelos americanos. De resto, os romances, as briguinhas entre amigos e traições beiram a ingenuidade, em um roteiro que não se sustenta, talvez por falta de conflito maior (tudo se resolve fácil demais). É visualmente interessante e esquisito, cheio de cores e montagem cafona, a música empolga (todas composições do diretor Banerjee), mas fica aquela sensação de narrativa frágil que não consegue acompanhar a estética. (Nota: 4/10)


2. Distrito 9, de Neill Blomkamp - Uma pena que a segunda parte do filme não seja tão empolgante quanto a primeira. Ainda assim, ficção científica surpreendente pela capacidade de fazer crítica social sem comprometer a diversão. O estilo documentário pra esse tipo de coisa tá ficando batido, mas o uso com trama tão original deu um ar inusitado ao filme, graças também a impecável trabalho de edição (alô, Oscar!). A ideia de extraterrestres amontoados em favelas, subjugados por população africana é tão boa, o protagonista é tão ignorante na sua maldade (grande sequência dos "abortos"), que é quase um desastre quando o filme muda o tom para A Mosca e, no final, Transformers. Mas o modo de filmar ETs nojentos, sangue, pus e humanos explodindo é tão desavergonhado que faz deste "quase" o Tropas Estelares dos anos 2000. (Nota: 7/10)


3. Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino - Muita gente tem associado a frase de Brad Pitt no filme ("acho que fiz minha obra-prima") ao próprio Tarantino. Não poderia discordar mais. Afinal, o homem já tinha feito, no mínimo, outras quatro obras-primas (Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill 1 e 2). Bastardos é "só" a mais nova - e, parafraseando Mia Wallace, fazer comparações de qual é a maior seria um mero exercício de futilidade. No caso deste, talvez o mais chama a atenção é que os diálogos nunca foram tão essenciais à narrativa. E olha que diálogos é uma das marcas mais peculiares do cineasta. Só que em Bastardos a função é de criar tensão absurda, e a sequência inicial e a que se passa na taverna são os exemplos máximos disso. Claro que não ficam apenas na palavra, porque Tarantino também filme como poucos, seja um homem simplesmente bebendo um copo de leite (que bem mais à frente no filme se transformará em novo diálogo causador de taquicardia na plateia), ou a capacidade ímpar do cineasta em fazer de suas atrizes as mulheres mais lindas do mundo. As duas sequências citadas mais a espetacular sequência final no cinema já fariam de Bastardos Inglórios o filme do ano, mas há muito mais, planos e cortes magníficos durante todo o filme, atores maravilhosos (o que é esse Christoph Waltz, pelamordedeus?) e um talento único de esticar sequências ao máximo, sem parecer desnecessário. A coisa mais incrível em Tarantino sempre foi usar seu imenso amor (e conhecimento) pelo cinema de forma que não pareça simples homenagem, reprocessando aquilo que lhe é caro em material novo, totalmente autoral. Mais: sua paixão contamina a plateia, que se vê em plena catarse em seus filmes. Em Bastardos, cinema é o combustível principal (literalmente também): salva, vira opção de vida e até reconstrói a história. A fé nesse poder do cinema só poderia vir de um apaixonado. E só os apaixonados se empolgam tanto. Há muito mais a se escrever sobre o filme e já penso seriamente em sacrificar alguma coisa da Mostra para revê-lo. (Nota: 10/10)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Filmes vistos em Outubro (Antecipado)

Embarco daqui a pouco pra São Paulo e, a partir de amanhã, a maratona cinematográfica começa, com filmes do circuito e, claro, a Mostra Internacional de Cinema de SP a partir de sexta-feira.


Como a intenção é comentar todos os filmes vistos por lá, antecipo a listinha do que foi visto até agora no mês de Outubro. Se tudo der certo, próxima postagem (e com mais frequência, mesmo tendo que ir em lan house) já será da capitar paulista.


Dia desses postei no twitter que estava descobrindo, tardiamente, que o melhor cinema do mundo era de Portugal. Exagero, talvez, mas o fato é que dos 17 filmes vistos, os melhores vieram de lá. Espero ver mais pérolas na Mostra (pelo menos quatro já estão agendados):



As obras-primas

1. Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes (2008)
2. Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro (1989)
3. Odete, de João Pedro Rodrigues (2005)
4. Noite Escura, de João Canijo (2004)
5. O Desprezo, de Jean Luc Godard (1963)



Os grandes

6. Horas de Verão, de Olivier Assayas (2008)
7. O Fantasma, de João Pedro Rodrigues (2000)
8. Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei (2009)
9. Stroszek, de Werner Herzog (1977)



Os legais

10. Um Beijo, Por Favor, de Emmanuel Mouret (2007)
11. Desejo e Perigo, de Ang Lee (2007)
12. Old Boy, de Chan-Wook Park (2003)
13. Marcas da Vida, de Andrea Arnold (2006)
14. A Teta Assustada, de Claudia Llosa (2009)



Os medíocres

15. Loki: Arnaldo Batista, de Paulo Henrique Fontenelle (2008)
16. Apenas o Fim, de Matheus Souza (2008)
17. Contra a Parede, de Fatih Akin (2004)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Filmes da Mostra de SP

A 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo tem início no próximo dia 23 e, como no ano anterior, tentarei comentar todos os filmes que verei.


A lista dos filmes confirmados você encontra aqui.


Já fiz uma relação de mais ou menos 60 filmes que quero ver (quantidade que vi ano passado), mas sempre ocorrem imprevistos. Isso sem falar nas obras desconhecidas que se revelam surpresas que o boca-a-boca nos obriga a conferir. Mas, se alguém que lê este blog está a procura de dicas, minhas 20 prioridades são essas:



As 15 Prioridades Internacionais (mais ou menos em ordem de preferência)

1. Shirin, de Abbas Kiarostami
2. Abraços Partidos, de Pedro Almodovar
3. Ervas Daninhas, de Alain Resnais
4. Morrer Como um Homem, de Joao Pedro Rodrigues
5. Mother, de Bong Joon-Ho
6. I Love You, Phillip Morris, de Glenn Ficarra e John Requa
7. O Tempo Que Resta, de Elia Suleiman
8. Independencia, de Raya Martin
9. A Fita Branca, de Michael Haneke
10. Singularidades de uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira
11. Sedução (An Education), de Lone Scherfig
12. O Dia da Transa (Humpday), de Lynn Shelton
13. Vincere, de Marco Bellocchio
14. 35 Doses de Rum, de Claire Denis
15. Police, Adjective, de Corneliu Porumboiu



As 5 Prioridades Nacionais

1. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Marcelo Gomes e Karim Ainouz
2. Cabeça a Premio, de Marco Ricca
3. Hotel Atlantico, de Suzana Amaral
4. O Sol do Meio-Dia, de Eliane Caffé
5. O Amor Segundo B. Schianberg, de Beto Brant


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Mostra Cinema Conquista - Ano 5



É admirável que tenhamos aqui em Vitória da Conquista uma Mostra de cinema que permite a população ver alguns dos grandes filmes do ano, que normalmente ficam restritos ao circuito "de arte" de apenas algumas capitais do país.


A Mostra Cinema Conquista teve sua quinta edição na semana passada, com exibição de aclamados longas nacionais e internacionais, produções lançadas recentemente em dvd exibidos em praça pública, diversos curtas-metragens nacionais (muitos premiados em festivais ao redor do mundo) e oficinas e seminários sobre a produção audiovisual. Minha participação se limita às sessões dos longas, que pela primeira vez chegaram aqui com projeção digital, da RAIN. Por um lado, imagem e som superiores ao que estávamos acostumados (projetores aqui nunca foram boa coisa). Por outro, a RAIN corta as laterais das produções em 35mm, exibindo-os em formatos errados.


De modo geral, só posso louvar a iniciativa do projeto e agradecer pela oportunidade de ver certos filmes. Quanto à organização do evento e participação da população, é uma verdadeira lástima: as pessoas não prestigiam, as que estão lá são desrespeitosas, o espaço vira um circo, mais um evento onde o que interessa é aparecer, ser in. Houve sessões em que havia mais gente no saguão do Centro de Cultura do que dentro da sala de cinema. Ver o filme é só um detalhe.


Claro que não é o caso de todos que estão lá, mas é o que acontece quando a organização tem a "brilhante" ideia de encerrar as exibições dos filmes com shows de rock. O cinema é só uma parte do grandioso evento. Prova disso é o descaso com o próprio ato de ver um filme: do absurdo de ter fotógrafos profissionais tirando fotos COM FLASHES durante as sessões, à irritante e desnecessária narração das sinopses dos filmes antes do início das projeções. O cúmulo foi eu ter sido impedido de entrar na sala por um indivíduo, até que ele se certificasse que era permitido entrar com garrafa de água na mão (sim, tirar fotos durante o filme pode; comer e beber, não).


Mas chega de reclamações. Fiquei de elaborar um e-mail desaforado e direcionar a quem é de direito. O espaço aqui é para falar sobre os filmes vistos:



Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal



Assim como "O Equilibrista", "Simonal" se beneficia de ter em mãos uma história incrível, que precisava ser contada. Mas assim como o documentário americano vencedor do Oscar, este não é seu único mérito. Porque não basta uma história dessas: é preciso saber contá-la, que eventos narrar, quem deve contá-la, em que ordem, etc. Em todos estes aspectos, o filme é muito feliz. A começar pelos efeitos videográficos, que dão uma boa dinâmica às, já muito boas, entrevistas (de Chico Anysio, Nelson Motta, Ziraldo, etc) que se alternam com as sempre necessárias (para corroborar o que se diz) imagens de arquivo. É fácil acusar o filme de apenas fazer uma defesa apaixonada do seu "documentado", mas o arquivo é irresistível (porque Simonal era realmente grandioso) e sua segunda parte, com a decadência do cantor, mostra a que veio: resgatar uma história que se perdeu por uma série de motivos que foram se avolumando, que transformaram Simonal em um monstro a ser esquecido. Um dos momentos que torna o documentário especial é aquele em que um dos entrevistados faz brincadeira com a história do contador que Simonal supostamente teria mandado torturar ("Vai que ele mereceu, né?" seguido de risadas que banalizam o caso). O corte nos leva diretamente ao tal contador, que dará sua versão da história. Sem esse depoimento, o filme correria o risco de ser simplista. Felizmente não é, e é de se parabenizar à equipe pela seleção de entrevistados, há um bom número de falas e opiniões que só engrandecem a discussão sobre o que aconteceu, sem se preocupar em correr atrás dos fatos, demonizar ou glorificar o Simonal. Belo, apaixonado e divertido filme.



Horas de Verão, de Olivier Assayas


Visto pela primeira vez na Mostra de SP do ano passado. Na ocasião, fiz um breve comentário aqui, dizendo isso:


"O filme abre com crianças brincando numa enorme casa de campo, para logo vermos que se trata de uma comemoração do aniversário de 75 anos de uma senhora, viúva, com três filhos e dona da obra de um grande pintor falecido, parente de seu marido. Muito belo, o francês "Horas de Verão" vai trabalhar sempre neste trânsito entre o novo e o velho, após a senhora morrer e seus filhos começarem fazer a repartição dos bens. Dois deles moram muito longe (a filha, nos EUA; um dos filhos, na China), então é inviável manter todas as obras de artes e a casa de campo que sempre pertenceu a família, para tristeza do filho mais velho, economista que mora em Paris e para quem sua mãe pede, logo no início do filme, para que a família mantenha todos estes pertences. A câmera de Assayas é de uma elegância incrível, planos que dão a idéia de movimento que se instaura na narrativa. O filme é sobre a preservação da memória, sobre a transmissão de valores, mas é também sobre mudança, transformação, e o grande mérito de Assayas é não se apegar a um pessimismo que não aceita a renovação, o novo. É um filme "pra cima", os conflitos não alcançam um nível neurótico de uma possível disfunção e crise da família, com um final que retoma o início, na idéia de que as coisas mudam, não importam se para pior ou melhor. Não é intenção de Assayas discutir isso. Ainda bem. "



O filme continua tão bom quanto da primeira vez. Me chama a atenção uma linda sequência já no fim com as adolescentes dançando. Em outro filme (me lembro agora de As Invasões Bárbaras), aquela casa sendo invadida por adolescentes seria motivo de tristeza, pessimismo, lamentação. Mas Assayas brinda à vida, há alegria e renovação naquela festa. É preciso ter contato físico, fazer dos objetos lembranças ligadas a uma experiência concreta, com o corpo. É assim que se transmite a memória. E não com a apreciação em um museu. "Horas de Verão" não foi muito apreciado pela plateia: vi várias pessoas abandonando a sessão e outras, ao final, dizendo como era chato e/ou lento. Parece que falta paciência em acompanhar histórias sem coisas extraordinárias acontecendo. Viva Syd Field!




Apenas o Fim, de Matheus Souza


A referência óbvia aqui são os filmes de Richard Linklater, Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol. Afinal, são dois jovens discutindo o relacionamento durante toda a projeção (e a parte em preto&branco, na cama, lembra os personagens de Ethan Hawke e Julie Delpy em Waking Life, também na cama). O problema é que Souza não deve ter entendido que o grande mérito dos filmes de Linklater é que o que cria identificação com o público é a construção cuidadosa de um relacionamento amoroso, e não apenas os diálogos espertinhos. Isso se faz com bons personagens, mas também com sensibilidade e, acho, maturidade - tanto de vida quanto técnica. Apenas o Fim se resume a um casal disparando referências da cultura pop e de suas vivências, meio ao estilo Domingos de Oliveira ou o que Selton Mello anda fazendo com alguns de seus personagens (no filme que ele dirigiu também). Ela é bela; Ele tem jeitão Woody Allen; mas fica nisso, porque ambos são mal construídos, só servem aos diálogos "ixpertos". Ela, por exemplo, adora Bergman e Godard, mas reclama que no curta-metragem dele "nada acontece, parece teatro"(!!); Ele diz que é clichê dizer que é clichê falar de amor e às vezes tenta falar da relação, mas às vezes é somente o cara que usa o humor pra não falar de seus sentimentos. Vai entender... Com personagens tão ruins, chega a ser tosco colocar uma sequência em que ele chora no banheiro e ela chora enquanto o espera - dá pra acreditar naquilo? E, ao final, a montagem ultra adocicada pra fechar com chave de ouro. É possível achar graça em alguns diálogos (sacanagem pesada com Itabuna!), o ator Gregório Duvivier é bom, mas o todo é tão artificial, que foi difícil aguentar até o fim.



A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele


Este eu não revi. Mas como tinha comentado sobre ele aqui, quando o vi na Mostra de SP, reproduzo o que escrevi na época:


"Perto do final do filme, já estava decidido em marcar uma nota 2 na minha cédula de votação. Foi o que fiz, mas foi quando eu percebi que Nachtergaele estava ali sentado no chão vendo seu filme (único diretor que vi fazendo isso, os outros não ficavam para rever seus filmes), olhos arregalados e às vezes abrindo a boca, parecendo uma criança maravilhada, sem dúvida orgulhoso de seu próprio trabalho. Fiquei pensando no direito que temos em julgar o trabalho dos outros quando, ao menos neste caso, o cineasta fez o filme que lhe interessou fazer. Mas enfim, foi algo que veio e passou. Assim como Selton Mello, a estréia de Nachtergaele é promissora, revelando um talento que ainda parece não ter identidade própria, já que "A Festa da Menina Morta" grita a todo instante "Cláudio Assis!", como referência essencial para a obra. Assis, aliás, estava na mesma fileira que eu, e o vi bocejando e com cara amarrada, mas pode ser característica natural do rapaz. Quanto ao filme, é a história de um evento que ocorre num pequeno lugarejo no interior do Amazonas, que está indo para seu 20º aniversário: é a festa da menina morta, comemoração que relembra uma menina que morreu, mas que ao longo destes anos faz aparições para Santinho (Daniel de Oliveira, espetacular), médium do local que fica responsável por transmitir as palavras da Menina Morta. O filme é sobre Santinho, seu pai alcoolátra, o irmão da menina morta que passa a duvidar das supostas aparições da irmã, e mais alguns habitantes do local. Nachtergaele cria planos seqüências lindos para captar o cotidiano daquelas pessoas, que infelizmente parecem estar num palco, diálogos muitas vezes destoando das possíveis pretensões de se filmar gente de verdade em algum lugar desconhecido do Brasil. A beleza da técnica serve apenas para enfatizar o olhar exótico do diretor para seus personagens. Prova disso é que uma das melhores seqüências do filme nada tem a ver com a trama: durante a Festa da Menina Morta, a câmera se desloca para acompanhar quatro rapazes dançando. É quando o filme respira, no meio de tanta afetação, para se aproximar de verdade da vida daquelas pessoas. Pena que isso ocorre tão pouco."



Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte


Outro também visto em SP, e também não revi. Mas desta vez porque não pude, afinal o filme de Belmonte foi uma das grandes surpresas que tive na ocasião. Segue o que escrevi aqui na época:


"Fui ver esse nacional sem saber do que se tratava e se eu soubesse que era protagonizado por Cauã Reymond, novo "galã" da Globo, eu teria passado longe. Mas que sorte eu não ter visto isso antes! Inacreditável dizer isso, mas Reymond está muito bem em um filme maravilhoso, certamente o filme nacional do ano. É a história de gente fudida: Reymond interpreta jornalista que vive de bicos, quase sempre sem ser pago, com milhares de contas a pagar, cuida de uma mulher bulímica e seu filho pequeno, além de viver com a empregada, que não recebe salário há quatro meses e só continua com ele porque pelo menos lá ela tem um teto. Ele vai conhecer Macim, personagem absolutamente fascinante de Caroline Abras, que vive como um homem, e trafica pequenas quantidades de drogas. Juntam-se a eles um motorista de Taxi (vivido pelo onipresente João Miguel), sempre carregando uma arma e que anda tendo "pensamentos estranhos", e logo, quando nada mais der certo, o jeito é passar para o outro lado da lei. O filme impressiona o tempo todo, Belmonte foge de todos os estereótipos possíveis e faz uma crônica do brasileiro médio que cada vez mais perde as esperanças de ter um lugar ao sol nesta nossa sociedade tão maravilhosa. Os personagens não são meras vítimas, a crueldade dos acontecimentos não trazem um cinismo e pessimismo típico de um "Cronicamente Inviável", a direção é constantemente inventiva, a trilha sonora é usada com brilhantismo (um assalto ao som de Saltimbancos certamente ficará para a história), a criança não está lá para ser engraçadinha (sua busca pela última figurinha do álbum do campeonato brasileiro, um jogador que desafiou os cartolas do futebol, é a grande metáfora do filme) e até a narração em off do Cauã Reymond é muito boa. Pasmém! Foi meu choque da Mostra."



Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes


Mais uma revisão. Na época, escrevi isso:


"Dificilmente teremos algo mais original e inventivo nesta Mostra. É um documentário, e é uma ficção. E não é nem uma coisa, nem outra. Filme surpreendentemente engraçado, se passa na região de Arganil, em Portugal, e capta as festividades do local no mês de agosto, além do cotidiano dos moradores. Só que isso não é feito de maneira comum, a metalinguagem está presente no filme todo, que é dividido em duas partes: a primeira, em estilo documentário; a segunda, aparentemente uma ficção, mas que discute o tempo todo a sua própria realização. Pontuado sempre por ótimas canções portuguesas, o filme é riquíssimo na sua aproximação do local, ao mesmo tempo que se fala do prazer de fazer cinema. É um filme em que vemos diretor e técnico do som conversando, tendo divergências. É também filme complexo que merece uma revisão, pois elementos da ficção acabam fazendo referência a outros da parte "documentário". Tenho certeza que não peguei nem metade das sutilezas da obra numa única sessão. Infelizmente não dá pra encaixá-lo novamente na programação sem sacrificar dois filmes no processo. Mas é o mais recomendado da Mostra, pela sua originalidade."


Rever o filme após um ano foi quase como se estivesse vendo pela primeira vez. Quase tudo do "documentário" está presente na "ficção" e é um exercício gostoso ficar atento a esse impecável trabalho de roteiro e edição. Mas mais que isso, a forma como Gomes nos aproxima de uma cultura, de um povo, é apaixonante. O cara discute e mostra os procedimentos de se fazer cinema (há longas sequencias na primeira parte que parece preparação para como realizar certas cenas da segunda parte), ao mesmo tempo que documenta figuras e modos de viver interessantes. O marido que "bloqueia" a imagem da esposa no plano; os inúmeros acidentes de Paulo "Moleiro"; as pessoas que invadem uma casa com muita música na parte ficcional (e sabemos o porquê graças à parte documental); o choro/riso da atriz/personagem que sintetiza muitas ideias do filme; e, claro, o uso do som e belas e engraçadas canções que causam estranhamento por estarem deslocados dos igualmente belos planos (que leva a fantástica discussão final). Um filme anormal, sem dúvida. Surpreende a todo momento (eu ria muito, como se nunca tivesse visto o filme) e encanta.


Há ainda aquela absurda fusão, em que os atores que farão o par romântico na parte ficcional se conhecem. A fusão é com um plano sequência exibido antes e que voltará a um momento essencial da ficção. Aliado a música, é lindo demais. O melhor comentário sobre essa cena foi feito pelo crítico Ronaldo Passarinho. Segundo ele, Ozu não usava fusão em seus filmes porque considerava que Chaplin já havia esgotado a técnica em "Casamento ou Luxo", de 1923. E que se isso fosse verdade, "Aquele Querido Mês de Agosto" trazia o melhor uso de fusão desde 23. Talvez não seja exagero.



A Teta Assustada, de Claudia Llosa


Filme peruano que venceu o Festival de Berlim deste ano me deu a impressão que seria uma obra-prima, tamanha a força de sua sequencia de abertura. Mas vai caindo de qualidade, embora não perca o interesse. É um filme político sem o ser (o que sempre é bom), trabalhando muito na metáfora e no simbolismo, ao contar a história de violência que passa de mãe para filha. Esta usa uma batata na vagina, para evitar ser estuprada, o que quase gera um humor involuntário: primeiro, porque ao contrário de uma estética popularizada pelos irmãos Dardenne, de câmera na nuca do protagonista, Llosa filma de frente sua protagonista, que está sempre com cara de dor, de coitada, de tristeza, com biquinho (e pensar no que ela tem no meio das pernas, entende-se porquê); segundo, porque a batata cria raízes e quando são cortadas, os planos pra mostrar isso são grosseiros. É interessante como estão sempre incluídos na trama as diversas crendices da região (como a que dá título ao filme) e a vontade de filmar a alegria desse povo. Mas há um tom solene demais, com explicações demais, que elimina toda a poesia e realismo fantástico que se anunciou na abertura. Pior a incongruência de roteiro, quando a jovem (que morre de medo de andar sozinha) é largada à noite, no meio da rua, e seu medo é simplesmente deixado de lado. Vale a pena ser visto, mas não esperem muito.



Loki: Arnaldo Batista, de Paulo Henrique Fontenelle


Loki faz par perfeito com Simonal, dois documentários que buscam fazer justiça a dois gênios que a história mostrou ingratidão. A diferença é que Fontenelle faz uma defesa apaixonada, mas sem criatividade, de seu gênio. De estrutura convencional e com entrevistados que se limitam a dizer o quanto Arnaldo Batista é genial, o filme mais parece um "Arquivo Confidencial" estendido. Não há sequer coerência nas entrevistas: se num momento, todos falam como Arnaldo era TUDO nos Mutantes (ele era o cara mais engraçado, o cara mais sério, o líder, o autor de tudo, blablabla), em outro, sobre a saída de Rita Lee da banda, todos já estão falando que os três membros eram importantes e que aquilo não funcionaria sem um deles. A coisa é repetitiva e irritante, com poucos comentários inteligentes. Quando se fala do disco que dá nome ao filme, por exemplo, todos só repetem a mesma coisa, que Loki é um dos maiores discos da música brasileira. Não há argumentação (pouca de um deles, a bem da verdade), não há trabalho audiovisual com as canções, nada. O filme espera conquistar o público apenas com a babação de ovo de "autoridades musicais". Enquanto via o filme, fiquei irritado também com a ausência de Rita Lee, figura essencial que deveria ser ouvida. Depois, descobri que ela se recusou a participar. Com essa informação, acho até que Fontenelle se saiu bem na forma como trata a cantora, mas na sequencia em que se discute a saída dela da banda, foi apenas um disse-me-disse dos que estavam em volta, enquanto Arnaldo fugiu do assunto de maneira sutil (cá pra nós, pra ela se recusar até hoje a falar sobre o assunto, algo muito grave aconteceu). E como se não bastasse a exaltação completa que se seguia cena após cena, ainda foram buscar confirmação em vozes de importância internacional que só fizeram comparações dos Mutantes aos Beatles (e, claro, os Mutantes eram melhores que os Beatles). O cúmulo foi uma sequencia constrangedora com fã inglês esbarrando "casualmente" em Arnaldo nas ruas de Londres e dizendo o quanto o admirava. Loki traz suas melhores imagens no final, todas de arquivo, com o retorno triunfal da banda (sem Rita), e a ênfase de que seu "documentado" pode muito mais. É bonito, mas é muito pouco. Para um filme, não me interessa que seja um gênio a pessoa de quem se fala (e não se duvida que Arnaldo Batista seja). Mas o que se fala e como se fala deve ser, no mínimo, inteligente. E Loki não é.

Filmes vistos em Setembro

Com férias do trabalho a partir desta semana, espero voltar a atualizar isso aqui com mais frequência. Era pra ter escrito algo sobre James Gray, que com "Amantes" comprovou ser um dos maiores cineastas americanos da atualidade. Também queria fazer um resumão sobre as 18 séries que estou acompanhando neste fall season. Não deu em nada.



Em relação aos seriados, estou escrevendo no blog Comentários em Série sobre House e algumas comédias. Mas lá tem de tudo, a equipe voltou bem animada pra esta nova temporada. Viciados, passem por lá.



Sobre cinema, preciso me aquecer na escrita, pra fazer a cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa daqui a 11 dias. Tentarei escrever, até amanhã, sobre os filmes que vi aqui na Mostra Cinema Conquista, que trouxe à cidade algumas belas obras deste ano, cuja exibições geralmente se restringem a algumas poucas capitais.



Em Setembro, foram 18 filmes vistos. Uma marca até boa, considerando o retorno de tantas séries. Com direito até mesmo a uma maratona John Hughes, relembrando a obra deste grande cineasta que faleceu dois meses atrás. O choque fica por conta dos filmes da Claire Denis, enigmas fascinantes que causam desconforto e estranhamento, necessitando de revisões pra apreender melhor.



A lista ficou mais ou menos assim:



As obras primas
1. Amantes, de James Gray (2008)
2. Curtindo a Vida Adoidado, de John Hughes (1986)
3. O Clube dos Cinco, de John Hughes (1985)



Os grandes
4. Sempre Bela, de Manoel de Oliveira (2006)
5. Antes Só Que Mal Acompanhado, de John Hughes (1987)
6. O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter (1982)
7. Gatinhas e Gatões, de John Hughes (1984)
8. Desejo e Obsessão, de Claire Denis (2001)



Os legais
9. Bom Trabalho, de Claire Denis (1999)
10. Na Guerra, de Bertrand Bonello (2008)
11. Querô, de Carlos Cortez (2007)
12. Arraste-me Para o Inferno, de Sam Raimi (2009)
13. Mulher Nota 1000, de John Hughes (1985)
14. Zona de Risco, de Park Chan-Wook (2000)



Os medíocres
15. De Tanto Bater Meu Coração Parou, de Jacques Audiard (2005)
16. Sobre Meus Lábios, de Jacques Audiard (2001)
17. O Solista, de Joe Wright (2009)
18. O Grupo Baader Meinhof, de Uli Edel (2008)