domingo, 25 de outubro de 2009

Mostra de SP - Dia 1

O primeiro dia de Mostra foi marcado por seis filmes: nenhuma bomba e uma sequência de quatro filmes curiosos e instigantes. Lástima do dia foi ter perdido o "Nova York, Eu Te Amo", simplesmente porque achei que merecia almoçar decentemente e com calma. Ontem vi um senhor reclamando que não tinha almoçado, e outro respondeu que isso durante a Mostra era um luxo. Concordo e que isso não se repita.


4. A Cozinha de Stella, de Dilip Mehta - Co-produção entre Canadá e Índia, comédia com momentos tão simpáticos quanto medíocres. A grande atração é a personagem que dá nome ao filme, cozinheira do Alto Comissariado Canadense em Nova Delhi, na Índia, e trambiqueira nas horas vagas, que rouba de seus patrões das formas mais inusitadas, cara-de-pau e divertidas. A atriz tem carisma enorme. O problema é todo o resto, uma história boba envolvendo conflitos de gênero entre o casal de patrões (ela, uma diplomata; ele, um chef desempregado), uma babá de bom coração e a tal cozinha da Stella, onde ela dará aulas de culinária ao patrão. Para fragmentar ainda mais a narrativa, um outro acontecimento na parte final do filme tentando juntar as partes. Bem comunzinho, com trilha sonora irritante nos momentos dramáticos, diverte quando a protagonista está em cena, mas é só. (Nota 4/10)


5. Ricky, de François Ozon - Primeira surpresa da Mostra, o novo filme de Ozon deve ser visto com o mínimo de informações possíveis. Basta dizer que o personagem-título é presença forte desde sua ausência, ainda no prólogo, numa crônica familiar com desdobramentos incríveis, inclusive na própria função do prólogo e uso da trilha sonora. É um filme incrivelmente leve e divertido, aliando seja lá o que for que ele tem pra aliar, de forma segura e corajosa. Não é uma obra-prima, mas encanta muito pelo que Ozon faz com o gênero, especialmente porque as reviravoltas que ocorrem não diminuem a força do que era visto até então. (Nota 8/10)


6. A Ressurreição de Adam, de Paul Schrader - Há filmes que dependem da aceitação do espectador às coisas que acontecem em tela, seja a lógica interna que a narrativa propõe para si, seja os comportamentos e escolhas incomuns dos personagens diante das situações em que se encontram. O filme de Schrader é um deles. Mais conhecido por seus roteiros (Taxi Driver e Touro Indomável, por ex.) do que por seu trabalho como cineasta (cujo mais famoso é Gigolô Americano, mas há também os bem interessantes Affliction e Auto-Focus), Schrader traz a história de Adam Stein (Jeff Goldblum), um entertainer judeu que divertia plateias de Berlim durante a II Guerra. Anos depois, encontra-se em um hospital psiquiátrico e sua história é contada, alternando-se com flashbacks de como viveu e sobreviveu ao Holocausto. Embora de estrutura simples e convencional (com direito a fotografia p&b para os flashbacks), o filme incomoda pela bizarrice dos fatos - ou, ao menos, o que entendemos como bizarro e inverossímil na relação entre personagens em uma trama supostamente realista. Para não estragar a experiência de quem vai ver, basta dizer que é uma forma curiosa e interessante de narrar a "ressurreição" de um judeu pós-holocausto, através de metáfora tão agressiva e até mesmo desagradável. Deve ser o melhor papel de Goldblum desde A Mosca e o filme peca um pouco pelo pieguismo final e por uma edição que não traz muito dinamismo à obra. (Nota 7/10)


7. Alga Doce, de Andrzej Wajda - Metalinguagem tem sido cada vez mais frequente no cinema e nem mesmo veteranos como o polonês Wajda escapam do uso quase abusivo do tipo que até mesmo interrompe o que se está vendo na tela para nos fazer lembrar da ficção. A grande diferença é que em Alga Doce, é forma essencial e apaixonada para o propósito do filme: ser dedicado ao diretor de fotografia Edward Klosinski, colaborador habitual do cineasta e marido da atriz Krystyna Janda, protagonista do filme. Alga Doce é uma obra a ser adaptada, sobre mulher de meia-idade ainda abalada pela perda dos filhos anos atrás, e que desconhece ter uma doença terminal, não revelada pelo seu marido. É neste contexto que ela começa a se aproximar de um jovem da região em que moram. Durante a produção deste filme, o marido de Janda morre prematuramente de câncer, e acompanhamos a realização da obra intercalada com um monólogo da atriz, que narra fatos e sentimentos sobre a perda. É um filme que bate forte, pela densidade e sinceridade com que aborda o tema, ao mesmo tempo que sua narrativa flui de forma muito orgânica. Em determinado momento, um personagem diz odiar descrições em livros e que tudo pode ser compreendido através de diálogos. Não sei se Wajda concorda com isso, mas fato é que as cenas em que Janda, excepcional, dialoga com a tela, são intensas e expressa toda a dor de um momento como este. É um filme emocionalmente forte e muito sensível na forma como vira homenagem sem se deixar perder no processo. (Nota 8,5/10)


8. A Fita Branca, de Michael Haneke - A Palma de Ouro em Cannes, talvez o mais belo dos filmes de Haneke, é também o mais problemático. A beleza vem de sua composição extremamente cuidadosa: a belíssima fotografia em p&b permite ao cineasta compor os mais belos enquadramentos e jogos de luzes. Sua narrativa, como não poderia deixar de ser, é conduzida à mão de ferro, e os 145min. de projeção passam voando. O problema está no argumento: uma aldeia alemã às vésperas da I Guerra e como a maldade é transmitida de uma geração à outra. Para o diretor, parece não haver fé no ser humano e o filme é pessimista até a medula. Ecos de Dogville são percebidos a todo momento. E faz todo o sentido, diante do contexto do filme, quando as bases para o nazismo estão sendo instalados. Mas incomoda como o filme quer parecer o tratado definitivo sobre o período, sisudo e solene até não mais poder. É obra que instiga, pra se ver e discutir novamente. (Nota 7/10)


9. 35 Doses de Rum, de Claire Denis - Talvez o máximo que a cineasta Denis pode chegar do que a gente pode chamar de filme convencional, um drama belo e lento sobre pessoas presas a uma rotina triste, onde só o trem se movimenta (pelos mesmos lugares). A base é um pai e uma filha, muito afeitos e cada um a razão de existir do outro. Supostamente, seria a refilmagem de "Pai e Filha" de Ozu, e os personagens até comem arroz juntos (além da presença do trem, claro). Há os coadjuvantes que transitam em torno destes protagonistas e acompanhamos um pouco da rotina de cada um. A segunda parte do filme é bem melhor, quando todos começam a se movimentar e algumas revelações são feitas, mas talvez só funcione graças ao desenvolvimento calmo e tranquilo feito na primeira parte. Filme bonito inclusive na justificativa do título, embora meio óbvio e fácil demais para os padrões da cineasta. Mas não dá pra criticar a diretora por se tornar acessível. (Nota 7,5/10)

1 comentários:

Wallace Andrioli Guedes disse...

Eu adorei A Fita Branca, e quero revê-lo. Gosto mais de outros trabalhos do Haneke, como A Professora de Piano e Caché, mas acho esse aqui primoroso também. E a História tem um peso tremendo na sua narrativa, a meu ver.