22. Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho - Vencedor do Festival do Rio, o primeiro longa-metragem de Esmir Filho (de quem eu conhecia o simpático curta Saliva) acompanha a rotina diária de um adolescente em pequena cidade alemã no Rio Grande do Sul, cujo contato com o mundo vem, essencialmente, da internet, através de seu blog, fotolog e conversas via msn. Alguns mistérios rondam sua vida, como a presença fantasma de um amor perdido (ou ainda a se alcançar?) e um homem que vaga pela noite e que seu melhor amigo parece odiar. Não à toa, já li alguns comentários que diziam que o filme se trata de um "Reygadas emo". Eu diria que é mais emo do que Reygadas (cineasta que filma infinitamente mais bonito que este Esmir), numa afetação sem fim que torna o filme mais longo do que já é (101min). O diretor parece mais interessado na forma do que realmente fazer um retrato sincero da adolescência, e os planos e texto, supostamente poéticos, são dolorosos de ver, de tão vazios. Filme vindo do Sul sobre adolescentes, melhor ficar com o belo Houve Uma Vez Dois Verões, do Jorge Furtado. (Nota 2/10)
23. A Mulher do Lado, de François Truffaut - Um dos mais queridos filmes de Truffaut, finalmente pude conferir esta pérola realizada em 1981, três anos antes do cineasta falecer. Filme passou na Mostra em seleção que homenageia a atriz Fanny Ardant. No filme, senhora narra história de homem que reencontra seu grande amor do passado, quando esta se muda com o marido para a casa ao lado. Ambos parecem ter superado o passado, são bem casados, com belos filhos (de mesmo nome). As consequências deste encontro serão trágicas e Truffaut filma o amor como a coisa mais poderosa do mundo, com personagens que estão dispostos a morrer (e matar) em seu nome. Há uma irracionalidade fascinante nos personagens, que vai crescendo na mesma proporção em que os sentimentos vão aflorando e também nossa compreensão (apenas sentida) do que deve ter sido a vida destes dois juntos. Belíssimo. (Nota 9/10)
24. Abraços Partidos, de Pedro Almodovar - É bom ver um filme de um grande mestre quando só se ouve comentários de que se trata de uma obra menor dele. O prazer é ainda maior ao concluir que está longe de ser coisa pequena. Pois Almodovar conseguiu mais uma vez fazer melodrama engraçado, comovente e irônico, com trama aparentemente clichê (dentro do seu próprio cinema), mas que vai se desdobrando e se tornando uma linda homenagem ao cinema, que não ficaria deslocada de uma sessão dupla com Bastardos Inglórios. Algumas coisas são simples, mas encantadoras, a começar pelo fiapo de argumento irônico que surge no início: roteirista que quer fazer um filme em que filho abandonado pelo pai não guarda ressentimentos, e acaba recebendo na porta um jovem cineasta que quer fazer um filme para mostrar todo o seu desprezo pelo pai. Claro que há uma ligação entre os dois e a trama se desenvolve em flashback, com mais uma presença luminosa de Penelope Cruz, em história de amor louco e trágico, onde a arte é (mais uma vez, como em Fale com Ela) fundamental na vida das pessoas. O final é uma dessas maravilhas que te deixa entusiasmado e emocionado com um cineasta que não parece ter limites, conseguindo comentar sobre seu amor pelo fazer cinema de modo que tudo se encaixe, e com sequência hilária o suficiente para acreditarmos naquilo. (Nota 9/10)
25. Os Sorrisos do Destino, de Fernando Lopes - Meu primeiro contato com o cinema de Fernando Lopes, um dos mais veteranos cineastas portugueses (75 anos). Assim como Manoel de Oliveira, a impressão é que quanto mais velho, mais jovial são os filmes. Pois a trama deste envolve traição e infidelidade feminina. E, enquanto jovens cineastas do país como João Pedro Rodrigues e João Canijo talvez fossem fundo e causassem impacto com isso, Lopes faz uma comédia doce e agradável, com personagens se comportando de forma inusitada diante do que ocorre. Não soa como fantasia, mas como algo de alguém maduro o suficiente para encarar os acontecimentos numa postura ética e não moralista de se afirmar a vida e o prazer de se viver acima de todas as coisas. Lopes, que esteve presente na sessão, disse que o protagonista é seu alter-ego, e aproveita o filme para fazer comentários sarcásticos sobre novas tecnologias (homem avesso a eletrônicos descobre a traição da esposa através de SMS que ela recebe do amante). É bem simpático, embora nada especial. Infelizmente, a cópia estava horrível (dv-cam), o que resultou no momento mais constrangedor da Mostra: espectador perguntou a Lopes porque ele escolheu fazer seu filme com cores fracas e fotografia opaca. Diretor pareceu não entender ou fingiu que não entendeu a pergunta e apenas disse que foi seu primeiro filme em digital. Fora isso, debate com perguntas medíocres de sempre. (Nota 7/10)
2 comentários:
Pelo visto o senhor anda curtindo bastante a Mostra, né? Bom, este "Os Famosos e os Duendes da Morte" eu não espero muita coisa, ainda mais depois do seu comentário. Mas é um filme que colheu muitos elogios em sua passagem pelo Rio de Janeiro. Então verei. E ao contrário do que muitos diziam, parece que Pedro Almodóvar acertou mais uma vez, assim como a sua musa Penélope Cruz. Estou com muita vontade de assistir "Abraços Partidos".
Nossa, agora fiquei até desanimado com o filme do Esmir Filho, que ganhou o Festival do Rio - mas que não consegui assistir. Enfim, chamar um filme de emo é algo que me desanima profundamente em relação a ele. hehehe.
Sobre o do Almodóvar, eu acho que é o menor filme dele dessa década, mas isso não significa que seja um filme desinteressante. Pelo contrário. Tem algumas coisas muito bonitas mesmo (o final, definitivamente, é uma delas), e Penélope está novamente esplendorosa.
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