A Mostra começou um dia mais cedo pra mim, porque acabei pegando, de última hora, uma cabine pra imprensa. Foi a primeira vez que entrei numa sala de cinema sem saber a que assistiria, e dei de cara com um filme indiano que tive que pesquisar no site da mostra depois, pra saber o título (que me escapou nos coloridos créditos iniciais).
Depois, os obrigatórios filmes do circuito comercial. Era pra ter visto Chaser, filme coreano elogiado por muitos. Mas fiquei só com os dois que mais estava ansioso em ver e aproveitar o resto da noite pra fechar a programação da Mostra. Seguem os primeiros comentários:
1. Oye, Lucky! Lucky Oye!, de Dibakar Banerjee - Não sou familiarizado com o cinema de Bollywood, mas desde os créditos iniciais, passando por um Intermission no meio do filme, ao uso da trilha sonora, senti que estava vendo algo que fazia parte de um gênero (ou estilo) muito peculiar de cinema, que ia além da autoria. Baseado numa história real, a gente já viu isso antes: rapaz de periferia se aperfeiçoa na arte de roubar e se torna um dos homens mais procurados da Índia. A leveza dá o tom de comédia do filme, com o protagonista bom de lábia passando a perna nas pessoas que assalta, vez ou outra lembrando as peripécias de DiCaprio em Prenda-me Se For Capaz. O ator principal, Abhay Deo, tem cara de astro, é carismático e não duvido que pode, a qualquer momento, ser importado pelos americanos. De resto, os romances, as briguinhas entre amigos e traições beiram a ingenuidade, em um roteiro que não se sustenta, talvez por falta de conflito maior (tudo se resolve fácil demais). É visualmente interessante e esquisito, cheio de cores e montagem cafona, a música empolga (todas composições do diretor Banerjee), mas fica aquela sensação de narrativa frágil que não consegue acompanhar a estética. (Nota: 4/10)
2. Distrito 9, de Neill Blomkamp - Uma pena que a segunda parte do filme não seja tão empolgante quanto a primeira. Ainda assim, ficção científica surpreendente pela capacidade de fazer crítica social sem comprometer a diversão. O estilo documentário pra esse tipo de coisa tá ficando batido, mas o uso com trama tão original deu um ar inusitado ao filme, graças também a impecável trabalho de edição (alô, Oscar!). A ideia de extraterrestres amontoados em favelas, subjugados por população africana é tão boa, o protagonista é tão ignorante na sua maldade (grande sequência dos "abortos"), que é quase um desastre quando o filme muda o tom para A Mosca e, no final, Transformers. Mas o modo de filmar ETs nojentos, sangue, pus e humanos explodindo é tão desavergonhado que faz deste "quase" o Tropas Estelares dos anos 2000. (Nota: 7/10)
3. Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino - Muita gente tem associado a frase de Brad Pitt no filme ("acho que fiz minha obra-prima") ao próprio Tarantino. Não poderia discordar mais. Afinal, o homem já tinha feito, no mínimo, outras quatro obras-primas (Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill 1 e 2). Bastardos é "só" a mais nova - e, parafraseando Mia Wallace, fazer comparações de qual é a maior seria um mero exercício de futilidade. No caso deste, talvez o mais chama a atenção é que os diálogos nunca foram tão essenciais à narrativa. E olha que diálogos é uma das marcas mais peculiares do cineasta. Só que em Bastardos a função é de criar tensão absurda, e a sequência inicial e a que se passa na taverna são os exemplos máximos disso. Claro que não ficam apenas na palavra, porque Tarantino também filme como poucos, seja um homem simplesmente bebendo um copo de leite (que bem mais à frente no filme se transformará em novo diálogo causador de taquicardia na plateia), ou a capacidade ímpar do cineasta em fazer de suas atrizes as mulheres mais lindas do mundo. As duas sequências citadas mais a espetacular sequência final no cinema já fariam de Bastardos Inglórios o filme do ano, mas há muito mais, planos e cortes magníficos durante todo o filme, atores maravilhosos (o que é esse Christoph Waltz, pelamordedeus?) e um talento único de esticar sequências ao máximo, sem parecer desnecessário. A coisa mais incrível em Tarantino sempre foi usar seu imenso amor (e conhecimento) pelo cinema de forma que não pareça simples homenagem, reprocessando aquilo que lhe é caro em material novo, totalmente autoral. Mais: sua paixão contamina a plateia, que se vê em plena catarse em seus filmes. Em Bastardos, cinema é o combustível principal (literalmente também): salva, vira opção de vida e até reconstrói a história. A fé nesse poder do cinema só poderia vir de um apaixonado. E só os apaixonados se empolgam tanto. Há muito mais a se escrever sobre o filme e já penso seriamente em sacrificar alguma coisa da Mostra para revê-lo. (Nota: 10/10)
Depois, os obrigatórios filmes do circuito comercial. Era pra ter visto Chaser, filme coreano elogiado por muitos. Mas fiquei só com os dois que mais estava ansioso em ver e aproveitar o resto da noite pra fechar a programação da Mostra. Seguem os primeiros comentários:
1. Oye, Lucky! Lucky Oye!, de Dibakar Banerjee - Não sou familiarizado com o cinema de Bollywood, mas desde os créditos iniciais, passando por um Intermission no meio do filme, ao uso da trilha sonora, senti que estava vendo algo que fazia parte de um gênero (ou estilo) muito peculiar de cinema, que ia além da autoria. Baseado numa história real, a gente já viu isso antes: rapaz de periferia se aperfeiçoa na arte de roubar e se torna um dos homens mais procurados da Índia. A leveza dá o tom de comédia do filme, com o protagonista bom de lábia passando a perna nas pessoas que assalta, vez ou outra lembrando as peripécias de DiCaprio em Prenda-me Se For Capaz. O ator principal, Abhay Deo, tem cara de astro, é carismático e não duvido que pode, a qualquer momento, ser importado pelos americanos. De resto, os romances, as briguinhas entre amigos e traições beiram a ingenuidade, em um roteiro que não se sustenta, talvez por falta de conflito maior (tudo se resolve fácil demais). É visualmente interessante e esquisito, cheio de cores e montagem cafona, a música empolga (todas composições do diretor Banerjee), mas fica aquela sensação de narrativa frágil que não consegue acompanhar a estética. (Nota: 4/10)
2. Distrito 9, de Neill Blomkamp - Uma pena que a segunda parte do filme não seja tão empolgante quanto a primeira. Ainda assim, ficção científica surpreendente pela capacidade de fazer crítica social sem comprometer a diversão. O estilo documentário pra esse tipo de coisa tá ficando batido, mas o uso com trama tão original deu um ar inusitado ao filme, graças também a impecável trabalho de edição (alô, Oscar!). A ideia de extraterrestres amontoados em favelas, subjugados por população africana é tão boa, o protagonista é tão ignorante na sua maldade (grande sequência dos "abortos"), que é quase um desastre quando o filme muda o tom para A Mosca e, no final, Transformers. Mas o modo de filmar ETs nojentos, sangue, pus e humanos explodindo é tão desavergonhado que faz deste "quase" o Tropas Estelares dos anos 2000. (Nota: 7/10)
3. Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino - Muita gente tem associado a frase de Brad Pitt no filme ("acho que fiz minha obra-prima") ao próprio Tarantino. Não poderia discordar mais. Afinal, o homem já tinha feito, no mínimo, outras quatro obras-primas (Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill 1 e 2). Bastardos é "só" a mais nova - e, parafraseando Mia Wallace, fazer comparações de qual é a maior seria um mero exercício de futilidade. No caso deste, talvez o mais chama a atenção é que os diálogos nunca foram tão essenciais à narrativa. E olha que diálogos é uma das marcas mais peculiares do cineasta. Só que em Bastardos a função é de criar tensão absurda, e a sequência inicial e a que se passa na taverna são os exemplos máximos disso. Claro que não ficam apenas na palavra, porque Tarantino também filme como poucos, seja um homem simplesmente bebendo um copo de leite (que bem mais à frente no filme se transformará em novo diálogo causador de taquicardia na plateia), ou a capacidade ímpar do cineasta em fazer de suas atrizes as mulheres mais lindas do mundo. As duas sequências citadas mais a espetacular sequência final no cinema já fariam de Bastardos Inglórios o filme do ano, mas há muito mais, planos e cortes magníficos durante todo o filme, atores maravilhosos (o que é esse Christoph Waltz, pelamordedeus?) e um talento único de esticar sequências ao máximo, sem parecer desnecessário. A coisa mais incrível em Tarantino sempre foi usar seu imenso amor (e conhecimento) pelo cinema de forma que não pareça simples homenagem, reprocessando aquilo que lhe é caro em material novo, totalmente autoral. Mais: sua paixão contamina a plateia, que se vê em plena catarse em seus filmes. Em Bastardos, cinema é o combustível principal (literalmente também): salva, vira opção de vida e até reconstrói a história. A fé nesse poder do cinema só poderia vir de um apaixonado. E só os apaixonados se empolgam tanto. Há muito mais a se escrever sobre o filme e já penso seriamente em sacrificar alguma coisa da Mostra para revê-lo. (Nota: 10/10)
1 comentários:
Bastardos é mesmo maravilhoso. E que belo texto sobre o filme vc escreveu, Hélio - mas eu acho que o Tarantino fala através do Pitt na cena final sim, mas quer saber? O que importa isso? O filme é excepcional, tem momentos brilhantes e eu, assim como vc, penso em rever.
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