quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Comentário Geral e Melhores da Mostra de SP

Estou bastante atrasado com os comentários sobre os filmes vistos em São Paulo, já que a Mostra acabou faz quase uma semana (sem contar a repescagem) e só fiz mini resenhas de 41 obras - falta falar ainda sobre mais 31 sessões de cinema. Não é pra menos: a maratona lá foi pesada e, já em minha terra natal, há as maratonas de faculdade, séries de tv e, claro, mais filmes.


Peço desculpas pelos comentários curtos e superficiais, mas infelizmente não só falta tempo, mas também só faço anotações mentais quando vejo os filmes e tenho escrito apenas com o que puxo da memória de filmes vistos há dias. Em alguns casos, sem o acesso à net, nem acesso a ficha técnica do filme em questão eu tinha. Mas como prometi escrever sobre todos, ainda termino isso.


De qualquer forma, queria falar logo sobre como foi o evento, fazer um resumão e postar meus prediletos, esquema meio americano de premiação:


Em São Paulo, foram 72 sessões de cinema, sendo 66 filmes da Mostra e mais 4 filmes do circuito comercial. As outras duas sessões foram revisões de um filme da Mostra, e outro do circuito. Destes, apenas duas desistências: saí com mais da metade do filme visto ("Os Dispensáveis") e outro com apenas meia hora de projeção ("Síndrome de Pinocchio"). Também saí da sessão de "Belair", mas só fui vê-lo porque cobria o horário exato que eu tinha sobrando até o próximo filme. Infelizmente, um atraso de 20 minutos para seu início fez com que eu saísse antes do fim, ou perderia "Cabeça a Prêmio".


Da lista de prioridades que eu tinha, não consegui ver apenas "Polícia, Adjetivo". Quanto aos demais, a maioria correspondeu às expectativas, sendo que as grandes frustrações vieram do cinema nacional - nenhum entra para meu top 10 da Mostra.


Os prêmios dados pela organização foram bem estranhos: o público selecionou seus dez filmes prediletos (algo nunca confiável) e o júri, composto por gente que supostamente teria um gosto mais "apurado", iria selecionar o melhor dentre eles (só valiam filmes de diretores estreantes). Ganhou um coreano chamado "Voluntária Sexual", que não ouvi um único comentário elogioso de todas as pessoas boas que conheço, quando concorria também o belíssimo "A Família Wolberg". O filme que abandonei por estar achando desastroso, "Os Dispensáveis", ficou com prêmio de direção e ator. Já o prêmio da crítica (e eu nem sei que crítica é esta) considerou que o melhor longa-metragem estrangeiro, DE TODA A MOSTRA, foi o iraniano "Ninguém Sabe dos Gatos Persas", que é muito simpático (mas melhor?!) e o melhor longa-metragem nacional foi o meia-boca "O Sol do Meio-Dia".


Em relação à organização do evento, pareceu bastante pior em relação ao ano anterior. É verdade que presenciei poucos atrasos (o mais grave foi mesmo o de "Belair"), mas houve outros tantos problemas:


- Projeções ruins: muitas em dv-cam e, principalmente, o digital que matou um dos grandes filmes da Mostra - Ervas Daninhas;


- Alterações na programação: a maior palhaçada foi cancelar todas as exibições de Lebanon para fazê-lo o filme de encerramento - por que não pensaram nisso ANTES de programá-lo?


- Programação infeliz: havia dias em que os principais filmes passavam ao mesmo tempo, enquanto em outros somente desconhecidos já negativamente comentados. Os últimos dias de Mostra, então, foi um horror;


- Cabines para imprensa: este ano, consegui ver os filmes que eram exibidos para a imprensa pela manhã, o que permite ver mais obras durante o dia. Mas as escolhas foram horríveis e o único nome de peso que vi foi o filme do Manoel de Oliveira. Outros dois de importãncia foram desastrosos: Soul Kitchen, de Fatih Akin, teve sessão cancelada, enquanto o novo de Christophe Honoré, falado em francês, passou SEM LEGENDA NENHUMA, fazendo com que a maioria dos presentes se retirassem (o normal é que se o filme não tiver áudio em inglês, ao menos tenha as legendas);


- Yuki & Nina: Filme que eu havia escolhido para encerrar meu dia de Mostra, acabou tendo sessão cancelada, pois a cópia havia ficado presa no equipamento. Antes, nos fizeram esperar por quase uma hora, informando que uma nova cópia estava a caminho, para depois vir a informação que não havia outra cópia.


- Repescagem: a Mostra fez uma programação horrorosa para a repescagem. A intenção deveria ser exibir os principais filmes do evento, os mais requisitados e elogiados. O que vimos foi pouca coisa de interesse e eu, que esperava rever algumas coisas, acabei pegando apenas dois filmes.


E como este post já está bem grandinho, encerro com minha lista de melhores. Mais ou menos em ordem de preferência, porque não houve nada que tenha se destacado muito dos demais. Muita coisa excelente, num nível mais ou menos equivalente de qualidade. A preferência vai pelo momento em que escrevo e é bom lembrar que se trata apenas dos filmes QUE PARTICIPARAM DA MOSTRA, já que meu filme predileto que vi em São Paulo esteve fora dela (Bastardos Inglórios).


Melhor Filme

1. A Religiosa Portuguesa, de Eugéne Green
2. Morrer Como um Homem, de João Pedro Rodrigues
3. A Família Wolberg, de Axelle Ropert
4. O Que Resta do Tempo, de Elia Suleiman
5. Mother, de Bong Joon-Ho
6. Abraços Partidos, de Pedro Almodovar
7. Vício Frenético, de Werner Herzog
8. Shirin, de Abbas Kiarostami
9. Ervas Daninhas, de Alain Resnais
10. Vencer, de Marco Belocchio


Melhor Diretor

1. João Pedro Rodrigues, por Morrer Como um Homem
2. Eugéne Green, por A Religiosa Portuguesa
3. Elia Suleiman, por O Que Resta do Tempo
4. Alain Resnais, por Ervas Daninhas
5. Werner Herzog, por Vício Frenético


Melhor Ator

1. André Dussollier, por Ervas Daninhas
2. François Damiens, por A Família Wolberg
3. Filippo Timi, por Vencer
4. Alex Descas, por 35 Doses de Rum
5. Emmanuel Mouret, por Faça-me Feliz


Melhor Atriz

1. Leonor Baldaque, por A Religiosa Portuguesa
2. Krystyna Janda, por Alga Doce
3. Kim Hye-Ja, por Mother
4. Giovanna Mezzogiorno, por Vencer
5. Penelope Cruz, por Abraços Partidos


Melhor Roteiro

1. Mother
2. A Família Wolberg
3. O Dia da Transa
4. Vício Frenético
5. Ricky


Melhor Ator Coadjuvante

1. Gonçalo Ferreira de Almeida, por Morrer Como um Homem
2. Bin Won, por Mother
3. Ewan McGregor, por I Love You, Phillip Morris
4. Michael Fassbender, por Fish Tank
5. João Miguel, por Hotel Atlântico


Melhor Atriz Coadjuvante

1. Sabine Azéma, por Ervas Daninhas
2. Valérie Benguigui, por A Família Wolberg
3. Alycia Delmore, por O Dia da Transa
4. Alice Braga, por Cabeça a Prêmio
5. Imelda Staunton, por Aconteceu em Woodstock


Os Piores Filmes (apenas os vistos por completo)

1. Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan
2. Sedução, de Lone Scherfig
3. O Amor Segundo B. Schianberg, de Beto Brant
4. Insolação, de Felipe Hirsch e Daniella Thomas
5. Samson and Delilah, de Warwick Thornton
6. Os Famosos e os Duendes, de Esmir Filho
7. Lymelife, de Derick Martini
8. Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee
9. Perseguição, de Patrice Chéreau
10. Selvagens, de Lawrence Gough

Mostra de SP - Dia 8

36. A Oeste de Plutão, de Myriam Verreault e Henry Bernadet – O que Esmir Filho fez com um adolescente em “Os Famosos e os Duendes da Morte”, os canadenses estreantes Verreault e Bernadet fazem com uma dúzia deles neste filme menos metido a besta, mas igualmente desinteressante. Primeira parte do filme traz uma série de colagens de apresentações escolares dos adolescentes, que tinham como tarefa falar para seus colegas sobre qualquer tema que achassem interessante. É a forma encontrada pelos cineastas de apresentar seus personagens, onde vemos os jovens expressando suas opiniões e temores diante da vida, com o mais que obrigatório (e batido) não julgamento da câmera diante de falas ingênuas, engraçadas e tolas. Aos poucos, um enredo vai se formando, com uma típica loser dando uma festa em sua casa (aproveitando ausência dos pais) para agradar os colegas que a desprezam e, claro, nem tudo sai como deveria. A narrativa é frágil, há muitos personagens e as conexões entre eles não sustentam o filme, que é bem curtinho (95min) para toda sua pretensão. (Nota 3/10)


37. Adam, de Max Mayer – Comédia romântica bobinha sobre homem com Síndrome de Asperger (espécie de autismo que dificulta seu relacionamento com outras pessoas) que conhece nova vizinha, que lhe ensinará sobre o amor. Mas, claro, ela também irá aprender um bocado (é o que nos diz a narração no início do filme). Baseando-se todo na construção deste relacionamento, de forma leve e bem-humorada, o filme carece de boas piadas e até mesmo consistência na “condição” do protagonista, que vez ou outra parece não corresponder aos sintomas de sua síndrome, de acordo com a conveniência do roteiro. A dupla protagonista até se esforça: Hugh Dancy, meio afetado e engraçado tentando demonstrar as peculiaridades do Asperger, e Rose Byrne um pouco diferente de sua personagem de “Damages”, mas claramente uma atriz limitada. Coadjuvantes nesse tipo de filme costumam roubar a cena, mas são bem fracos, com exceção de Peter Gallagher, que me fez notar como gosto dele. Enfim, trama boba e nem sempre bem conduzida que se salva pelo final, que foge do lugar comum. (Nota 5/10)


38. Vencer, de Marco Belocchio – Aparentemente uma cinebio sobre Benito Mussolini, acabei surpreendido por se tratar de uma parte de sua vida que não consta da história oficial, protagonizada por Ida Dalser, mulher que Mussolini amou e com quem teve um filho, mas os renegou quando ascende ao poder. A primeira hora de “Vencer” é absolutamente espetacular, narrando esta história de amor com energia e força extraordinárias. Belocchio usa imagens de arquivo que se mesclam à sua narrativa, palavras impressas na tela e trilha sonora grandiosa dão um tom de ópera que realmente impressiona. Tudo tão vigoroso e estimulante como cinema, que acaba sendo um choque como a segunda parte surpreendentemente se transforma num determinado filme de gênero e, embora seja muito bom, já não tem a força vista anteriormente. A atriz Giovanna Mezzogiorno domina o filme do início ao fim e é uma pena que o mesmo não pode se aplicar a Filippo Timi, tão incrível e operístico inicialmente, como Mussolini. Ainda assim, um dos grandes filmes exibidos até aqui. (Nota 9/10)


39. O Que Resta do Tempo, de Elia Suleiman – Quem já conhece a obra-prima de Suleiman “Intervenção Divina” sabe que o cineasta faz um cinema político sobre os conflitos na Palestina de forma muito peculiar: carrega nos simbolismos e metáforas, de onde extrai humor irreverente, ácido e inteligente. Aqui, mais “comportado” que no filme anterior, Suleiman conta a história de sua própria família, com linha narrativa bem mais fácil de se acompanhar, narrando episódios cotidianos em momentos distintos da história do país. É um projeto de cinema lindo o de Suleiman, com câmera frontal e fixa, cortes secos e fazendo da forma um posicionamento ético e político diante de tema tão espinhoso. E ainda é engraçado. Vejam, por exemplo, como o diretor filma a falta de liberdade dos “árabes-israelenses”: um homem sai de casa para pegar o jornal; um tanque acompanha seu curto trajeto. É simples, silencioso, cheio de significado e hilário. Seu cinema é assim. No final, a beleza de um cineasta que observa a vida que segue, ao som de “Stayin´ Alive”. (Nota 9/10)


40. Irene, de Alain Cavalier – Tudo é memória nesta bela (e dificílima de se acompanhar) homenagem de Cavalier à sua esposa Irene, que faleceu há mais de 30 anos. O cineasta descobre os diários dela e resolve filmá-lo, visitando os locais que fizeram parte de suas vidas. Todo em primeira pessoa (o filme é Cavalier com câmera digital na mão, sob a perspectiva desta câmera unicamente), “Irene” deve ter sido o recordista em fazer o público dormir. Vi várias pessoas cochilando na sessão em que estive. Não é pra menos, porque a voz melancólica e entediante do diretor é onipresente, filmando objetos e lugares que, é inegável, são carregados de significado emocional para ele. Cabe a cada um sentir empatia ou não pelo seu projeto, que tem momentos mais interessantes que outros. (Nota 7/10)


41. O Dia da Transa, de Lynn Shelton – Um dos mais novos subgêneros criados pela comédia americana atual, o “bromance” é levado ao extremo neste muito simpático filme, que traz uma história aparentemente absurda (que, embora faça parte da sinopse, não conto aqui porque vi sem saber e fui surpreendido). Uma das enormes qualidades do filme é fazer com que esta história se torne verossímil, graças a um texto afiado e na forma como a diretora consegue captar a verdade de seus personagens via aproximação que os tornam bem reais para o espectador. É um filme delicioso de se ver e ouvir, especialmente porque não apresenta aquele ranço que os independentes americanos possuem quando o assunto é sexo. Infelizmente, o clímax deixa a desejar, menos pela resolução em si (que cabe boa discussão, mas não antes do filme estrear), e mais pelo fato de se prolongar, mas não necessariamente aumentar a tensão. Ainda assim, um pequeno grande filme. (Nota 8,5/10)

domingo, 8 de novembro de 2009

Mostra de SP - Dia 7

No final da primeira semana de Mostra, acabei não vendo filme algum do evento. O motivo foi justo: ir, pela primeira vez, ao Parque Antartica, ver o Palmeiras jogar. E não poderia ter sido melhor, com goleada em cima do Goiás. Como fui cedo para o estádio, acabei ficando no shopping ao lado. A intenção era conhecer a sala IMAX, mas passando "This is It", foi o jeito apenas conhecer uma projeção em 3D:



35. Up - Altas Aventuras, de Pete Docter - De fato, foi um pouco decepcionante este novo produto da Pixar, que funciona no modo “aventura engraçadinha” boa parte do tempo, e se assemelha mais a algo feito pela Dreamworks ou Fox, do que as imaginativas histórias da Pixar. O ponto de partida é lindo, aquela casa cheia de balões flerta com o fantástico e até parece que vai resultar em subtextos e fantasia rica e complexa. Infelizmente não chega a tanto e é apenas um filme simpático. Ainda assim, tem uma abertura magnífica: a narração de toda a história de vida do protagonista deve ser a coisa mais linda de todas as animações da produtora. Já como produto 3D, o filme não utiliza muito os recursos e fiquei com a impressão que o trailer de “Tá Chovendo Hamburguer” tinha muito mais efeitos que todo o filme “Up”. O que é uma coisa boa, já que a nova mania 3D pode acabar com o que realmente interessa nos filmes (contar bem uma história) em prol do maravilhamento com novas tecnologias. E confesso que ver um filme com aquele óculos me incomodou bastante. (Nota 7/10)


Mostra de SP - Dia 6

32. Os Dispensáveis, de Andreas Arnstedt – Caí na besteira de seguir recomendação de gente que não conheço (isso que dá ficar entrando em comunidades de Orkut) e fui ver este. Foi minha primeira desistência da Mostra. Saí com uma hora de filme, quando vi que nada mais fazia sentido – incluindo minha presença ali no cinema. Criança tenta esconder o corpo do pai, que morreu em casa, pra não ser enviado a orfanato. A mãe é alcoólatra e está internada. É, a vida dele é um inferno. E como se já não bastasse o tempo atual, vemos também em flashback o que aconteceu um pouco antes. Não há um único momento verdadeiro e lógico em todos os relacionamentos vistos no filme, que só existem para chegarmos na ideia principal do filme. Cansado (apesar do primeiro filme do dia), resolvi cair fora. (sem avaliação)

33. A Família Wolberg, de Axelle Ropert – Grande surpresa da Mostra, enfim um filme com família em crise e que está longe dos cacoetes mais que batidos do gênero. Pessoal que lança filme em Sundance deveria ver esta pequena pérola da estreante Ropert. Tal como “Lymelife”, o filme se passa em pequena comunidade, foca em uma família onde marido e mulher já não se amam, há traição e como isso tudo afeta os filhos. A grande diferença aqui é o enfoque nos pequenos detalhes, nos pequenos gestos e nas situações corriqueiras. Nada muito dramático e forçado, as coisas evoluem com naturalidade impressionante. A fotografia é belíssima (ocupando toda a largura da tela, algo cada vez mais difícil de se ver em tempos de digital), o elenco é muito bom e o texto é de qualidade e sensibilidade típica dos franceses ("Te amo, mas você me faz sofrer"). Um discurso de pai para filha é o momento mais lacrimoso da Mostra até aqui. (Nota 9/10)


34. Morrer Como um Homem, de João Pedro Rodrigues – Cineasta que descobri recentemente, o português Rodrigues me fascinou com seus dois primeiros filmes, “O Fantasma” e “Odete”, obras difíceis de acompanhar tanto pela narrativa extremamente lenta, quanto pelos personagens, cujas jornadas se relacionam a obsessões que os levam até as últimas conseqüências na realização (e compreensão) de seus desejos. Este terceiro filme é mais “convencional” (no sentido de que há mais dinamismo na narrativa e na relação entre personagens), mas não menos forte, ao contar a história da travesti Tonia (nome em homenagem a Tonia Carrero) que se vê num momento difícil de sua vida: sentindo o peso da idade, os receios em fazer uma operação completa de mudança de sexo, e a própria rejeição de seu corpo aos implantes de silicone, ainda tem que conviver com um namorado mais jovem envolvido em drogas, seu filho que a odeia e rivalidades profissionais. Tudo isso é contado com os planos mais lindos do mundo e Rodrigues não tem medo de prolongá-los ao máximo, criando momentos de extrema cumplicidade entre espectador e personagens. Dos muitos grandes momentos, é até óbvio citar o plano estático, sob filtro vermelho, em que os personagens estão imóveis ao som de "Calvary", mas deve ser a coisa mais bela vista até aqui. E é mais ou menos neste momento do filme que também surge uma personagem absurdamente hilária, que tira da obra aquela coisa sisuda sentida nas obras anteriores de Rodrigues. É um filme triste, pesado, mas poético e extremamente carinhoso com sua protagonista. Dos maiores do ano. (Nota 9,5/10)

sábado, 7 de novembro de 2009

Mostra de SP - Dia 5

26. Singularidades de Uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira – Cineasta mais velho em atividade (101 anos de idade), Oliveira impressiona pelo claro prazer e alegria que tem em filmar. É um autor que preciso conhecer mais: dele, só conhecia os belíssimos “Um Filme Falado” e “Sempre Bela”. “Singularidades...” não é tão forte quanto estes, e nem parece ser a intenção do diretor em fazer algo assim. Filma com economia (de gestos, de planos, de duração), com simplicidade e extremo cuidado na colocação da câmera e das coisas que capta. A trama é um conto moral, baseado em Eça de Queiroz. O moço se apaixona por rapariga loura que espia de sua janela. Pelas molduras que Oliveira cria, logo entende-se porquê. Apaixona-se a ponto de querer casar com ela. Passa por obstáculos pra conseguir isso e só depois descobrirá as tais singularidades da rapariga. É tudo muito simples, e a grande qualidade do filme é essa capacidade de extrair beleza de algo que parece ser tão pouco. A história de amor é contada em flashback, numa viagem de trem, do protagonista para uma desconhecida, e a gente sabe desde o início que é uma história que não deu certo. Como a história continua a partir daquela viagem de trem? O corte final parece áspero, mas é de uma perfeição, coerente demais com o tom da história contada. (Nota 8,5/10)


27. Travessia, de João Batista de Andrade – O diretor do já clássico “O Homem Que Virou Suco” traz um projeto simples, de provocação política, ao fazer uma série de entrevistas com pessoas que tiveram participação expressiva na ditadura militar. Depoimentos de intelectuais, artistas, sindicalistas, nomes do governo e até mesmo jovens que não viveram o período. Não há nada de novo, mas há um interesse político ao intercalar com entrevistas feitas com pessoas comuns que não tiveram participação ativa no processo e que, ou não se sentiram afetados pela ditadura, ou acreditam que naquela época “as coisas eram melhores”. A travessia de gerações encontra também vozes de jovens que não parecem conhecer o momento histórico ou tem opiniões simplistas sobre o período. O cineasta não condena, nem faz juízo de valor, mas ao terminar seu filme com uma opinião bem “controversa”, deixa o questionamento sobre a atuação política de nossa sociedade atual, que parece lamentar as coisas como estão, sem sequer pensar na sua história e se isentando na mediocridade de nossas vidas. A provocação é leve, mas surte algum efeito. (Nota 6,5/10)


28. Tokyo!, de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-Ho – Três histórias que se passam na capital japonesa, com uma única coisa em comum: são contos que flertam com o fantástico que, cada um a sua maneira, discutem aspectos da vida em sociedade. Achei o projeto bastante simpático e acabei gostando de todos, sendo que o mais bonito, de longe, é o de Joon-Ho, e o mais fraco é o do Gondry. Carax faz o mais curioso por não ter medo de se arriscar, de desagradar e até de incomodar. E é bem engraçado no seu formato “maluquete”. Gondry traz uma história bonitinha sobre mulher que não encontra seu lugar no mundo até o dia em que percebe que a felicidade vem da aceitação das coisas mais inusitadas. Joon-Ho, que já encantou nesta Mostra com “Mother”, traz uma bela história de amor num futuro em que as pessoas não suportam mais o contato com os outros. O que importa aqui são os silêncios e a delicadeza do diretor em planos precisos, de narrativa certeira. (Nota 7/10)


29. Independência, de Raya Martin – Com apenas 25 anos, o filipino Martin é o mais novo queridinho da crítica internacional, ao refletir em seus filmes a história política de seu país. Este novo filme lotou as sessões da Mostra e acredito que muitos tenham saído decepcionados. O diretor traz uma história minimalista ao extremo, em que mulher e filho fogem da Guerra (início do século XX) e se isolam numa floresta. Os planos são, em sua maioria, fixos e enquadram o mínimo de espaço possível. Filmado em preto e branco, a linguagem utilizada remonta aos primórdios do cinema (período que se passa a trama, inclusive), com direito até a cenários pintados. É esteticamente bonito, e o uso de som é fantástico, especialmente numa sequência com uma forte tempestade. Por algum motivo, senti uma frieza naquilo tudo que me distanciou do filme. Principalmente porque a floresta já foi um lugar mais fascinante em Naomi Kawase (A Floresta dos Lamentos) ou em Apichatpong Weerasethakul (Mal dos Trópicos). De qualquer forma, um projeto bem curioso e que me deu vontade de conhecer seus outros filmes. (Nota 7/10)


30. Lymelife, de Derick Martini – Mais um draminha independente americano sobre família se desintegrando. O que incomoda sempre é a falta de delicadeza e a existência de motivos altamente dramáticos para que os personagens se dêem mal ou que justifiquem seus atos. De positivo aqui, só mesmo os irmãos Culkin, Rory e Kieran, que me fizeram lamentar o pouco que os vejo no cinema. Grandes diretores poderiam arranjar trabalho pra eles, não? A trama envolve duas famílias que vivem numa comunidade atingida por um surto de doença de Lyme, causando paranóia em massa. O filho mais novo de uma família é amigo e apaixonado da filha única da outra família. Mas ele é um loser. Ela gosta de caras mais velhos e nem percebe como ele gosta dela. Já vimos isso antes, e nem incomodaria ver de novo, mas o filme segue os caminhos mais desinteressantes e fáceis, a ponto de sabermos exatamente os acontecimentos que vão encerrar o filme. Uma perda de tempo. (Nota 3/10)


31. Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan – Diretor estreante, de 20 anos de idade, fazendo filme sobre adolescente que odeia a mãe, onde ele mesmo protagoniza no roteiro que ele mesmo escreveu? Até poderia render algo bom, dependendo da carga pessoal que é impressa na obra. Mas se isso realmente aconteceu (eu não percebi), também é preciso ter talento atrás das câmeras. Filme canadense horroroso (selecionado para representar o país no Oscar de Filme Estrangeiro – é capaz até de ser indicado) em que Dolan é insuportável e histérico, resumindo-se a gritar e xingar a mãe a cada 20 minutos de projeção. A mãe, uma sonsa que nem se choca mais com o que ouve. A relação dos dois se resume às ofensas e a alguns carinhos que vem sempre quando o jovem quer algo da mãe. É uma sucessão de cenas tolas e irritantes, com verniz de filme de arte, porque tem o protagonista fazendo um vídeo, onde olha pra câmera e desabafa seus sentimentos sobre a mãe (porque não basta o que ele fala diretamente pra ela), frases supostamente poéticas impressas na tela, e relacionamento gay porque, claro, é um filme moderno. De qualquer forma, entra naquela lista de “pérolas” que a platéia parece cair de amores. Filme parece ter agradado por aqui. O que talvez seja até mais triste e terrível que o próprio filme. (Nota 0/10)