“Fogo Contra Fogo” é um filme policial de quase 3 horas de duração. Para as ambições de Michael Mann, não poderia ser menos. Vejam, por exemplo, o personagem de Dennis Haysbert (desconhecido na época, hoje o David Palmer de “24 Horas”): aparece no filme em duas ou três cenas, sem qualquer relação com os demais personagens, para morrer logo quando finalmente faz parte da trama principal. Muitos diriam que não há uma “função narrativa”, mas com menos de 10 minutos de tela, Mann constrói uma pequena tragédia sobre um homem e suas escolhas e como estas afetam (e acabam) um relacionamento. Trama que se liga às demais por congruência.
Filme triste e melancólico, não há um único casal que sobrevive a esta história de homens obsessivos e obcecados pelo que fazem melhor. Absorvidos por suas atividades, os personagens de Pacino e De Niro se completam, ainda que estejam em lados distintos da lei (ou até por isso mesmo), e protagonizam esta obra que empolga como filme de gênero, mas que fascina mesmo pelos dramas dos personagens e como estes se desenvolvem a partir da decupagem precisa do diretor.
Cineasta do plano/contraplano, Mann utiliza a mais básica das técnicas com efeitos incríveis: quando estão estabelecendo uma ligação mais íntima, os personagens de De Niro e Brenneman são capturados por uma câmera que preenche o quadro com as luzes da cidade ao fundo. Promessa de um futuro ou o ambiente que os separará? Ao contrário, quando o policial de Al Pacino retorna para a esposa que o espera abandonada num restaurante vazio, o plano e contraplano de seus rostos são preenchidos por escuridão, num diálogo que claramente está marcando o fim de um casamento.
Mais do que com os textos (que são ótimos), os filmes de Michael Mann são fascinantes por contar suas histórias através da estética, fazendo do plano/contraplano um posicionamento ético. Pois é através da técnica que a já clássica sequência do encontro entre De Niro e Pacino se torna tão potente, ressaltando a ligação entre ambos de modo similar ao visto no recente “Inimigos Públicos”, onde o personagem de Johnny Depp se reconhece no personagem de Clark Gable do filme que vê no cinema.
Mann também cria sequências de ação com a mesma elegância e precisão com que filma seus personagens e traz aqui um longo tiroteio, que já marcou a história. É um filmaço por qualquer motivo que se queira assistir.
1 comentários:
Só fui conferir esse filme recentemente, e fiquei fascinado pelo desenvolvimento dos personagens, algo já esperado vindo de um Michael Mann.
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