segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A 34ª Mostra de SP em números, desastres e momentos inesquecíveis

O blog está inativo há nove meses e queria retornar com um desabafo sobre alguns dos motivos para isto, que incluem uma crise e insatisfação pessoal com a forma que se vê filmes, a crítica cinematográfica de um modo geral e a cultura de blogs que domina a internet. Mas falar sobre a Mostra é irresistível, então deixa isso pra depois.


Uma série de posts sobre a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


Números, desastres, momentos inesquecíveis

Este ano foram vistos 64 filmes do evento. Somando os 5 que vi do circuito comercial (algo que tenho que fazer em São Paulo, por não ter cinema decente em minha cidade), ainda são 3 filmes a menos que 2009. Em termos de quantidade, uma decepção, já que a intenção era superar a marca do ano passado. Claro, as 4 horas e 30min do belo "Mistérios de Lisboa" de Raul Ruiz diminui o número de filmes em um dia; e abandonei as mais de 5 horas de "Carlos" com 20min. de péssima projeção e saí com amigos, ao invés de ver uns 3 filmes que poderia ter encaixado. Mas o motivo pra não ter visto tantos filmes como achei que veria diz respeito aos tais desastres desta Mostra.

A 34ª Mostra será marcada, dentre outras coisas, pelo espantoso número de críticas negativas que podem ser feitas: uma seleção fraca, cópias digitais horríveis, desorganização que provocou todo tipo de problemas, alterações e cancelamentos na programação em quantidade que talvez seja recorde.

Pela primeira vez tive problemas em montar uma programação não pelo choque de horários entre filmes que gostaria de ver, mas pela falta de obras de interesse. Nunca arrisquei tanto ao entrar numa sessão, e infelizmente na maioria das vezes dava de cara com algo ruim. Pra se ter uma ideia, houve um dia que, até às 15:00, eu já havia desistido de TRÊS filmes, antes que chegassem na metade da duração.

Também abandonei sessões pela qualidade da cópia projetada e este, sem dúvida, foi o problema mais grave da Mostra. Impressiona a quantidade de filmes exibidos em digital ruim. Ao final da sessão que vi do japonês "Caterpillar" (prêmio de Melhor Atriz em Berlim), uma pessoa gritou insatisfeita "Isso deve ser VHS Rip!". De fato, o incrível filme de Kôji Wakamatsu teve uma das piores cópias que eu vi da Mostra, juntamente com outros dois vencedores em Berlim, o romeno "Se Eu Quiser Assobiar, Eu Assobio" (Grande Prêmio do Júri) e o chinês "Distantes Juntos" (Melhor Roteiro). Chega a ser ofensivo pensar que um evento como este exibe filmes novos e consagrados em qualidade inferior àquela que teremos, caso façamos download da obra. E ainda cobra ingresso por isto!

Pra piorar, além de digitais ruins, o "maior festival de cinema da América Latina" não tem estrutura técnica para melhor exibição de alguns filmes. Foi o caso de "Carlos", um dos filmes mais prestigiados do ano, épico de Olivier Assayas sobre o terrorista Carlos, o Chacal. O filme teve exibição impecável no Festival do Rio, enquanto em São Paulo foi um desastre. Isso porque a Mostra não dispõe de um projetor digital 2k para suportar a maior resolução do filme do Assayas. Como se não bastasse, a sessão em que estive teve projeção do filme na janela errada (imagem um pouco esticada) e quando uma pessoa saiu para reclamar, recebeu a informação de que o próprio diretor havia testado e aprovado aquela projeção! E como todos sabemos, Olivier Assayas não esteve em São Paulo...

Problemas de cópias não páram por aí. Além de outros tantos filmes que vi em qualidade inferior, houve outros casos graves de que só ouvi falar: o novo filme de Takeshi Kitano, "O Ultraje", também veio com cópia lamentável; enquanto homenageados pela Mostra, e que estavam presentes, tiveram exibições porcas de seus filmes, como "Asas do Desejo" de Wim Wenders, e "O Expresso da Meia Noite" de Alan Parker. Além de "China", de Michelangelo Antonioni, que teve exibição especial, com a presença de Carlo Di Carlo, crítico, pesquisador e amigo do cineasta italiano.

Houve também muitos problemas com legendas, atrasos, alterações e cancelamentos na programação. Óbvio que em um evento grandioso como este, sempre ocorrem imprevistos. Mas eis uma lista de inconvenientes tão extensa que já não se trata de "problemas acontecem", mas de uma incrível desorganização da Mostra. E estes são apenas alguns dos que presenciei, fiquei sabendo e me recordo:


- Em várias sessões em que a projeção era em película, o projetor digital ficava ligado, deixando um pouco de luminosidade na parte inferior da tela. Houve sessão em que uma pessoa foi pedir pra desligar, POR TRÊS VEZES, sem sucesso.

- Informações erradas de que alguns filmes já possuíam legenda em português gerou vários inconvenientes, pois necessitavam de legendas eletrônicas, ocasionando atrasos. Com isto, um filme alemão sem legendas no início do dia fez com que todas as sessões posteriores atrasassem, fazendo com que "Um Lugar Qualquer" de Sofia Coppola começasse 40 minutos após o programado e, com isto, frustrando quem foi ver o filme e que tinha outra sessão pra ver em outro cinema. O mesmo vale para os russos "Almas Silenciosas" (atraso de 20 minutos) e "Minha Felicidade", filme aclamado em Cannes, que teve sua primeira sessão cancelada por falta de legenda. Conheci uma mulher na sessão de "Almas Silenciosas" que desistiu de ver o filme porque o atraso a faria perder "Minha Felicidade". Imagino a frustração dela que, com esta decisão, acabou perdendo os dois filmes...

- Com cinco minutos de "Distantes Juntos" (cópia ruim, como já dito), vazaram o áudio das vinhetas que antecedem os filmes. O filme continuou passando, ao som das instruções de segurança, recomendações para desligar aparelhos celulares, a propaganda da Petrobrás, a vinheta da Mostra... Foram quase 10 minutos assim, até desligarem e retornarem o filme, com a cópia horrível sendo "rebobinada", e tivemos que ver os 15 min de filme de trás pra frente.

- Outras sessões também tiveram problemas semelhantes, como "Armadillo" que teve início projetado sem áudio, questões técnicas que se resolveram logo depois e responsáveis pelas legendas eletrônicas que pareciam dormir ou simplesmente não entender o que estava acontecendo no filme, com legendas ou adiantadas ou atrasadas demais.

- Muitos cancelamentos e alterações, por conta de filmes que não chegaram a tempo. É algo que ocorre todo ano, mas que parece ter batido algum recorde nesta edição. Basta entrar na comunidade da Mostra no Orkut, onde o tópico de alterações tem 44 posts, quase todos da funcionária do evento que informava sobre as mudanças na programação. O pior é que isso ocorreu com muitos filmes aguardados com ansiedade pelos cinéfilos. Alguns ficaram presos na alfândega, como os esperados "Gainsbourg" e "Submarino"; outros não se deram ao trabalho de dar alguma explicação. O caso mais grave foi do francês "Homens e Deuses", Grande Prêmio em Cannes e um dos favoritos ao Oscar de Filme Estrangeiro no próximo ano, teve suas primeiras sessões canceladas e confirmado para o penúltimo dia apenas uma hora antes da exibição, deixando muitos cinéfilos sem ver. Teve uma segunda sessão no último dia em cinema distante e no mesmo horário em que muitos já haviam programado outros filmes, como o de encerramento, "A Rede Social". A expectativa é que filme fosse exibido na repescagem da Mostra, algo bastante comum para filmes que chegam ao evento com atraso. Surpreendentemente, ficou de fora. De minha parte, perdi "Howl" e lamentei não poder conferir "A Vala", primeiro longa de ficção do chinês Wang Bing.

Com tudo isto, houve vários momentos que pensei seriamente na possibilidade de não mais prestigiar a Mostra. Mas também houve, pra mim, os momentos inesquecíveis, como a histórica sessão de "Um Dia Na Vida", de Eduardo Coutinho (primeira e única sessão do filme, que não poderá nem constar como extra de DVD), ou a possibilidade de ver, pela primeira vez na tela grande e em película, um filme de Godard ou do Apichatpong Weerasethakul, além de sessões incríveis de películas restauradas de filmes do John Ford em telão ao ar livre no Masp.

São experiências que fazem valer todos os transtornos que a Mostra trouxe (embora é preciso que os organizadores reflitam sobre todas estas questões). Mas sobre estes momentos, eu deixo pra outro post.