sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Guerreiro

Guerreiro chegará ao Brasil diretamente em DVD e Blu-ray em Janeiro, sem uma chance de ser visto nos cinemas. Uma pena, porque se trata de um surpreendente “filme de luta” (no caso, o já famoso entre nós UFC), em que um drama familiar batido é narrado de forma econômica e segura, dando uma sustentação bastante eficaz para as cenas de lutas mais bem filmadas em muito tempo.

O Vencedor, de David O. Russell, consegue criar personagens bem mais interessantes, mas vez ou outra as cenas de boxe me incomodaram por eu não conseguir enxergar o que acontecia. “Guerreiro” é melhor neste sentido, usando a agressividade das lutas para criar tensão a partir de uma câmera que não é trêmula, que enquadra os lutadores, que nos deixa sentir a emoção que esse tipo de esporte estimula nos seus apreciadores.

E mesmo se você não é fã, poderá apreciar não apenas por ser um belo trabalho de câmera, montagem e sonorização, mas por nos importarmos com os personagens, dois irmãos que tomaram rumos diferentes em conseqüência de um pai alcoólatra e abusivo e que, por motivos diversos, participam de um torneio milionário de MMA (Mixed Martial Arts ou “vale-tudo”). Não há muitas firulas (exceto talvez o treinamento dos protagonistas com uso de split screen), e os ressentimentos e problemas de ambos são perfeitamente compreensíveis, não havendo mocinho e bandido nesta família, o que ainda gera o suspense sobre quem vencerá o torneio, quando se dará o confronto entre eles (se é que haverá), como um deles, que é considerado “zebra”, chegará tão longe.

Gavin O’Connor, diretor e roteirista que ainda não tinha nada de expressivo na sua carreira, resolve tudo isso muito bem, inclusive com uma curiosa opção de não usar os narradores televisivos na última luta do filme. Por outro lado, abusa do velho clichê de usar vários coadjuvantes torcendo, vibrando e pulando, que assistem ao evento pela televisão.

Todos os atores estão bem em cena, com Tom Hardy (o Bane do novo Batman de Nolan) impressionando com um tipo silencioso que quando sobe na arena é realmente assustador. Nick Nolte é o único que vem recebendo alguma atenção dos prêmios de final de ano, sendo inclusive indicado como Coadjuvante pelo Sindicato dos Atores, o que lhe dá boas chances de chegar ao Oscar. Não é nada especial, no papel do pai dos protagonistas que está arrependido de seu passado e que é chamado por Hardy para ser seu treinador, mas Nolte tem uma daquelas famosas explosões em cena em que o sangue em sua cabeça parece que vai entrar em ebulição. Ele é sempre bom nisso, mas é uma cena rápida e sua participação muito se resume a um olhar bondoso e carente de perdão, torcendo pelos filhos.

Meu País, Trabalhar Cansa, Melancolia, Contra o Tempo, A Alegria

Quando fui para a Mostra de São Paulo vi estes 5 filmes antes do evento começar e, sem nada pra fazer, rabisquei umas primeiras impressões:


Comecei com dois filmes nacionais bastante comentados: Meu País foi o grande vencedor do último Festival de Brasília, com 5 prêmios (Montagem, Trilha Sonora, Ator, Diretor e Filme) e conta com os galãs (e bons atores) Rodrigo Santoro e Cauã Reymond como protagonistas. Trabalhar Cansa foi lançado no último Festival de Cannes com muitas críticas positivas. Têm em comum o fato de abordarem famílias enfrentando problemas pessoais, mas não poderiam ser mais opostos: o primeiro trabalha na chave do melodrama, com a já tradicional história de irmãos bem diferentes reconciliados por uma tragédia; o segundo faz comentário e crítica social de maneira inusitada, flertando com o fantástico e o sobrenatural.


Mas o que me fez amar "Trabalhar Cansa" e achar "Meu País" um filme bem decepcionante não é o fato de um ser mais original que o outro. A priori, um melodrama cheio de clichês pode ser muito bom e uma trama incomum pode acabar sendo vítima de sua própria originalidade. O que importa é como a narrativa se desenvolve, como a história é contada através do que é próprio do cinema (o uso da câmera, a montagem, a fotografia, etc). O filme de Ristum me parece muito fraco nesse sentido. Santoro é um bem sucedido homem de negócios na Itália que volta ao Brasil ao saber da morte do pai e reencontra seu irmão mais novo (Reymond), irresponsável e viciado em jogos de azar, além de descobrir que tem uma irmã com problemas mentais (Débora Falabella), fruto de um relacionamento obscuro de seu pai. Infelizmente, os personagens só existem em cena para sabermos quem eles são dentro de um estereótipo, não há espaço para um desenvolvimento maior ou interessante; espaço, aliás, é outro problema, já que a encenação em sua maior parte é de planos fechados, closes e dificilmente podemos ver o que está em volta ou sentir os personagens e o peso daquela casa e dos objetos sobre eles (e o filme é basicamente sobre a tentativa de reconciliação com o passado e a possibilidade de seguir em frente). É tudo muito bem intencionado, será (está sendo) um sucesso, mas não me conquistou.


"Trabalhar Cansa", ao contrário, me empolgou do início ao fim. A trama é simples: mulher aluga um galpão para montar um pequeno mercado enquanto seu marido é demitido e tem dificuldades de arranjar um novo emprego. Novos personagens surgem aos poucos: uma empregada em casa, os funcionários do mercado, e o mistério que há (coisas estranhas acontecem/aparecem no mercado) surge aos poucos e discretamente, e quando se revela impressiona pelo quanto é contido (e pode frustrar muitos nas poucas respostas). E tudo que "Meu País" falha, este resolve lindamente: a câmera é generosa, temos espaço e tempo para observar os personagens; estes são ricos e cheios de nuances, mesmo os mais periféricos. O comentário social funciona porque, embora sob a sombra do fantástico, as relações que vemos no filme são muito próximas da realidade, a tensão entre empregador e empregado e as dificuldades do mercado de trabalho são muito bem trabalhadas, transitando com eficiência entre o humor, a ironia e o carinho pelos personagens. Grande filme.


Já "Melancolia", de Lars Von Trier, não é fácil de se comentar. Principalmente porque é muito fácil desprezar o filme pela forma como ele ilustra seu drama, da mesma maneira que na visão de outros seria muito fácil elogiar pelos mesmos motivos. Explico: o prólogo do filme, por exemplo, basicamente resume e informa o que acontecerá no fim, através de simbolismos e imagens em câmera lenta, compostas como pinturas, ao som de música clássica, mais ou menos a forma que Trier já se utilizou no seu filme anterior, "Anticristo". Para muitos, é pura beleza. "Poesia em imagens". Para outros, fácil dispensar algumas dessas imagens como "bregas" ou a crença de que "beleza em excesso" atrapalha um filme que se pretende narrar uma história de tristeza, depressão e, no fim das contas, o apocalipse. O mesmo vale para o que se segue depois, a parte 1 do filme (que é dividido em 2 partes), que traz a festa de recepção do casamento entre Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgard, de True Blood) com câmera na mão e tremida, um retorno de Von Trier à época do Dogma 95. Algumas pessoas podem gostar desta opção estética do cineasta, alegando que a instabilidade da câmera ilustra bem o nervosismo da situação, uma festa que vai se afundando cada vez mais por conta das relações familiares e do estado emocional da protagonista (o que lembra o filme mais famoso do movimento criado por Von Trier, "Festa de Família"). No meu caso, acho profundamente irritante uma câmera que não para, que não se interessa pelos personagens (e nem pelos atores), que não cria tensão e nem constrói o drama que não seja pela histeria da montagem. Von Trier também cria personagens devidamente asquerosos ou patéticos, o que me distancia de um envolvimento mais emocional. E o filme é justamente essa tentativa de nos narrar o fim do mundo através de duas mulheres tão diferentes (a depressiva Justine e a controlada Claire, protagonista da parte 2, e vivida por Charlotte Gainsbourg de "Anticristo") e como elas reagem diante daqueles que as cercam e são importantes em suas vidas, e diante da melancolia (nome também do planeta que se aproxima da Terra, metáfora mais grosseira impossível) que as consome. Não consegui me importar com o que acontecia justamente pela estética adotada por Von Trier. E isso mata qualquer filme.


Sobre "Contra o Tempo" não tenho muito o que falar. Principalmente porque vi sem saber do que se tratava (evito ler sinopses, e fui por indicação de alguns amigos, sugiro que façam o mesmo) e o filme é estruturado de forma que a trama se revele aos poucos, tanto para nós quanto para o protagonista vivido por Jake Gyllenhall, que acorda em um trem com uma mulher conversando como se fossem grandes amigos e ele não tem ideia de como e porque foi parar ali. Basta dizer que é uma aventura de ficção divertida e agitada, apesar de uma premissa que não faz o menor sentido e que, aposto, comoverá várias pessoas ao final. Não gostei muito, mas recomendo.


"A Alegria" é um filme nacional curioso. Ou pelo menos fico com a curiosidade em saber como está sendo a recepção dele por um público menos cinéfilo ou que não conhece as referências que os cineastas tiveram. Porque é um filme que tenta emular, homenagear e é altamente influenciado por um certo cinema contemporâneo que faz bastante sucesso em festivais e circuito "de arte", mas pouquíssimo conhecido pelo grande público. Me refiro mais exatamente ao cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul, cineasta que tem uma obra incomum e desconcertante, parecida com nada mais que se vê hoje e que acabou ganhando mais visibilidade após seu último filme, "Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", vencer a Palma de Ouro em Cannes no ano passado. "A Alegria" bebe nessa fonte, até descaradamente, buscando uma atmosfera onírica, misteriosa e por vezes assustadora que envolve seus personagens (adolescentes insatisfeitos com as coisas como elas são em fábula bizarra de super-heróis) através dos mesmos elementos usados pelo tailandês: o uso do som (muitas vezes ambiente, especialmente no meio da "natureza"), da câmera (ou planos estáticos ou travellings) e de relações inusitadas entre corpo e ambiente que causam estranhamento e fascínio. Mas no final das contas me desagrada porque toda essa fabulação parece destoar do discurso panfletário, das frases de efeito e da afetação generalizada. Especialmente para quem conhece as referências importantes para este filme, é possível perceber com maior evidência sua fraqueza, se preocupando em estruturar algo (politicamente ou em gênero, como é o caso do "filme de super-herói") como o cinema de Apichatpong, que foge de qualquer tipo de estruturação. De qualquer forma, vale a experiência para quem busca um cinema nacional diferente e ousado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Os Melhores da 35ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Top 10 - Novos Filmes
1. Habemus Papam, de Nanni Moretti * * * * 1/2
2. The Day He Arrives, de Hang Sang-Soo * * * * 1/2
3. Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, Júlia Murat * * * *
4. Era Uma Vez na Anatolia, de Nuri Bilge Ceylan * * * *
5. Tudo Pelo Poder, de George Clooney * * * *
6. Isto Não É um Filme, de Jafar Panahi * * * *
7. Les Géants, de Bouli Lanners * * * 1/2
8. As Canções, de Eduardo Coutinho * * * 1/2
9. O Homem Que Não Dormia, de Edgard Navarro * * * 1/2
10. Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio * * * 1/2


Restrospectiva Elia Kazan
1. Rio Violento (1960) * * * * *
2. Laços Humanos (1945) * * * * *
3. Clamor do Sexo (1961) * * * * 1/2
4. Uma Rua Chamada Pecado (1951) * * * * 1/2
5. Vidas Amargas (1955) * * * *
6. Um Rosto na Multidão (1957) * * * *
7. Terra de Um Sonho Distante (1963) * * * 1/2
8. Sindicato de Ladrões (1954) * * * 1/2

Não visto: O Justiceiro (1947)


Clássicos Restaurados
1. O Leopardo, de LuchinoVisconti (1963) * * * * *
2. Cabra Marcado Para Morrer (1985) * * * * *
3. La Dolce Vita, de Federico Fellini (1960) * * * * 1/2
4. Taxi Driver (1976) * * * * 1/2
5. Despair, de R. W. Fassbinder (1978) * * * *