sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Meu País, Trabalhar Cansa, Melancolia, Contra o Tempo, A Alegria

Quando fui para a Mostra de São Paulo vi estes 5 filmes antes do evento começar e, sem nada pra fazer, rabisquei umas primeiras impressões:


Comecei com dois filmes nacionais bastante comentados: Meu País foi o grande vencedor do último Festival de Brasília, com 5 prêmios (Montagem, Trilha Sonora, Ator, Diretor e Filme) e conta com os galãs (e bons atores) Rodrigo Santoro e Cauã Reymond como protagonistas. Trabalhar Cansa foi lançado no último Festival de Cannes com muitas críticas positivas. Têm em comum o fato de abordarem famílias enfrentando problemas pessoais, mas não poderiam ser mais opostos: o primeiro trabalha na chave do melodrama, com a já tradicional história de irmãos bem diferentes reconciliados por uma tragédia; o segundo faz comentário e crítica social de maneira inusitada, flertando com o fantástico e o sobrenatural.


Mas o que me fez amar "Trabalhar Cansa" e achar "Meu País" um filme bem decepcionante não é o fato de um ser mais original que o outro. A priori, um melodrama cheio de clichês pode ser muito bom e uma trama incomum pode acabar sendo vítima de sua própria originalidade. O que importa é como a narrativa se desenvolve, como a história é contada através do que é próprio do cinema (o uso da câmera, a montagem, a fotografia, etc). O filme de Ristum me parece muito fraco nesse sentido. Santoro é um bem sucedido homem de negócios na Itália que volta ao Brasil ao saber da morte do pai e reencontra seu irmão mais novo (Reymond), irresponsável e viciado em jogos de azar, além de descobrir que tem uma irmã com problemas mentais (Débora Falabella), fruto de um relacionamento obscuro de seu pai. Infelizmente, os personagens só existem em cena para sabermos quem eles são dentro de um estereótipo, não há espaço para um desenvolvimento maior ou interessante; espaço, aliás, é outro problema, já que a encenação em sua maior parte é de planos fechados, closes e dificilmente podemos ver o que está em volta ou sentir os personagens e o peso daquela casa e dos objetos sobre eles (e o filme é basicamente sobre a tentativa de reconciliação com o passado e a possibilidade de seguir em frente). É tudo muito bem intencionado, será (está sendo) um sucesso, mas não me conquistou.


"Trabalhar Cansa", ao contrário, me empolgou do início ao fim. A trama é simples: mulher aluga um galpão para montar um pequeno mercado enquanto seu marido é demitido e tem dificuldades de arranjar um novo emprego. Novos personagens surgem aos poucos: uma empregada em casa, os funcionários do mercado, e o mistério que há (coisas estranhas acontecem/aparecem no mercado) surge aos poucos e discretamente, e quando se revela impressiona pelo quanto é contido (e pode frustrar muitos nas poucas respostas). E tudo que "Meu País" falha, este resolve lindamente: a câmera é generosa, temos espaço e tempo para observar os personagens; estes são ricos e cheios de nuances, mesmo os mais periféricos. O comentário social funciona porque, embora sob a sombra do fantástico, as relações que vemos no filme são muito próximas da realidade, a tensão entre empregador e empregado e as dificuldades do mercado de trabalho são muito bem trabalhadas, transitando com eficiência entre o humor, a ironia e o carinho pelos personagens. Grande filme.


Já "Melancolia", de Lars Von Trier, não é fácil de se comentar. Principalmente porque é muito fácil desprezar o filme pela forma como ele ilustra seu drama, da mesma maneira que na visão de outros seria muito fácil elogiar pelos mesmos motivos. Explico: o prólogo do filme, por exemplo, basicamente resume e informa o que acontecerá no fim, através de simbolismos e imagens em câmera lenta, compostas como pinturas, ao som de música clássica, mais ou menos a forma que Trier já se utilizou no seu filme anterior, "Anticristo". Para muitos, é pura beleza. "Poesia em imagens". Para outros, fácil dispensar algumas dessas imagens como "bregas" ou a crença de que "beleza em excesso" atrapalha um filme que se pretende narrar uma história de tristeza, depressão e, no fim das contas, o apocalipse. O mesmo vale para o que se segue depois, a parte 1 do filme (que é dividido em 2 partes), que traz a festa de recepção do casamento entre Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgard, de True Blood) com câmera na mão e tremida, um retorno de Von Trier à época do Dogma 95. Algumas pessoas podem gostar desta opção estética do cineasta, alegando que a instabilidade da câmera ilustra bem o nervosismo da situação, uma festa que vai se afundando cada vez mais por conta das relações familiares e do estado emocional da protagonista (o que lembra o filme mais famoso do movimento criado por Von Trier, "Festa de Família"). No meu caso, acho profundamente irritante uma câmera que não para, que não se interessa pelos personagens (e nem pelos atores), que não cria tensão e nem constrói o drama que não seja pela histeria da montagem. Von Trier também cria personagens devidamente asquerosos ou patéticos, o que me distancia de um envolvimento mais emocional. E o filme é justamente essa tentativa de nos narrar o fim do mundo através de duas mulheres tão diferentes (a depressiva Justine e a controlada Claire, protagonista da parte 2, e vivida por Charlotte Gainsbourg de "Anticristo") e como elas reagem diante daqueles que as cercam e são importantes em suas vidas, e diante da melancolia (nome também do planeta que se aproxima da Terra, metáfora mais grosseira impossível) que as consome. Não consegui me importar com o que acontecia justamente pela estética adotada por Von Trier. E isso mata qualquer filme.


Sobre "Contra o Tempo" não tenho muito o que falar. Principalmente porque vi sem saber do que se tratava (evito ler sinopses, e fui por indicação de alguns amigos, sugiro que façam o mesmo) e o filme é estruturado de forma que a trama se revele aos poucos, tanto para nós quanto para o protagonista vivido por Jake Gyllenhall, que acorda em um trem com uma mulher conversando como se fossem grandes amigos e ele não tem ideia de como e porque foi parar ali. Basta dizer que é uma aventura de ficção divertida e agitada, apesar de uma premissa que não faz o menor sentido e que, aposto, comoverá várias pessoas ao final. Não gostei muito, mas recomendo.


"A Alegria" é um filme nacional curioso. Ou pelo menos fico com a curiosidade em saber como está sendo a recepção dele por um público menos cinéfilo ou que não conhece as referências que os cineastas tiveram. Porque é um filme que tenta emular, homenagear e é altamente influenciado por um certo cinema contemporâneo que faz bastante sucesso em festivais e circuito "de arte", mas pouquíssimo conhecido pelo grande público. Me refiro mais exatamente ao cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul, cineasta que tem uma obra incomum e desconcertante, parecida com nada mais que se vê hoje e que acabou ganhando mais visibilidade após seu último filme, "Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", vencer a Palma de Ouro em Cannes no ano passado. "A Alegria" bebe nessa fonte, até descaradamente, buscando uma atmosfera onírica, misteriosa e por vezes assustadora que envolve seus personagens (adolescentes insatisfeitos com as coisas como elas são em fábula bizarra de super-heróis) através dos mesmos elementos usados pelo tailandês: o uso do som (muitas vezes ambiente, especialmente no meio da "natureza"), da câmera (ou planos estáticos ou travellings) e de relações inusitadas entre corpo e ambiente que causam estranhamento e fascínio. Mas no final das contas me desagrada porque toda essa fabulação parece destoar do discurso panfletário, das frases de efeito e da afetação generalizada. Especialmente para quem conhece as referências importantes para este filme, é possível perceber com maior evidência sua fraqueza, se preocupando em estruturar algo (politicamente ou em gênero, como é o caso do "filme de super-herói") como o cinema de Apichatpong, que foge de qualquer tipo de estruturação. De qualquer forma, vale a experiência para quem busca um cinema nacional diferente e ousado.

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