segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O Som ao Redor


O que "O Som ao Redor" faz, e que boa parte do cinema nacional não consegue (ou não se interessa), é falar tão claramente de um Brasil que se vive na pele, diariamente. O procedimento não é simples, mas Kleber Mendonça tem uma enorme sensibilidade para reprocessar a realidade que ele (e todos nós) sentimos, em forma cinematográfica, onde o som tem vital importância, mas não só.


Desde a primeira cena, após as fotos em preto-e-branco, em que acompanhamos uma criança de patins a se juntar com diversas outras no pátio de um prédio, há um processo de imersão nas ruas, prédios e casas daquele bairro que se alcança de diversas formas: a trilha cria um clima de tensão constante (mais sobre isso abaixo); os sons ambientes são ressaltados, inclusive com fins dramáticos; as conversas casuais entre personagens que não só revelam algo deles, mas também de relações historicamente construídas (há uma estranheza na "bondade" e na graça com que patrões se dirigem a empregadas domésticas, aqui perfeitamente captada nas cenas em que um dos protagonistas interage com a empregada e seus familiares); a câmera que observa e revela a intimidade e atos daquelas pessoas, do dia-a-dia da dona de casa entediada ao zoom nos adolescentes que se beijam num canto do prédio, passando pelo guardador de carros que se vinga da mulher que o destrata ou até mesmo o tempo dedicado a simplesmente olhar para a empregada que tira seu uniforme e se torna uma mulher desejável; e, claro, o registro da própria arquitetura do lugar, a verticalização da cidade, com seus prédios enormes e iguais (o "hermano" que se perde, em ótima sequência de humor), com seus apartamentos de portas reforçadas por grades, que engole a memória afetiva e individual (Sofia, personagem que tem a oportunidade de ver pela última vez o lugar em que morou e que será substituído por um prédio de 21 andares), as pessoas que transitam por ali, os "pegas", o carro suspeito que revela uma mulher vomitando por embriaguez.


Se, como diz Eric Rohmer, todo filme é um documentário sobre o seu tempo, "O Som ao Redor" ficará para a história como um dos maiores documentários de nossa época. É um catálogo fascinante de situações, relações, medos e angústias do que vivemos hoje em um país cheio de contradições, herdeiro de uma cultura escravocrata e de fazendeiros poderosos. Não à toa o filme começa com fotografias desta época e encerra com um acerto de contas envolvendo este passado, na única subtrama com "início, meio e fim": é o tipo de vingança cinematograficamente ligada ao western, gênero americano por excelência que mais fala sobre as raízes de uma nação.


Se está é a única trama redonda, todo o resto parece girar em torno da incerteza, da incompletude, que me parece casar perfeitamente com as intenções do diretor em não buscar respostas, mas sim criar uma obra que serve de comentário sobre um certo estado de coisas. Me chama a atenção, por exemplo, o fato de nunca sabermos se o porteiro do prédio é desleixado no trabalho propositalmente; ou se os seguranças são responsáveis por algum delito nas ruas como forma de "marketing". É que são situações possíveis, numa realidade em que há exploração e injustiças sociais, mas aqueles que estão por baixo arranjam formas de tentar "dobrar" ou se beneficiar de algum jeito dentro dessas relações cristalizadas. Há uma preocupação em não vitimizar ninguém, mas fica claro que há algo de muito errado nesta classe média/alta nossa, na forma egoísta como seguimos a vida. A excelente sequência da reunião de condomínio reflete bem isso, não só naqueles que propõem a demissão do porteiro ("vamos resolver logo isso porque preciso subir, tomar um banho e descansar"), mas até naqueles que o defendem - o protagonista "bonzinho" emite sua opinião, mas logo se retira, mais preocupado com a menina por quem se apaixonou.


O filme também é certeiro no clima que cria para si com aquela trilha que acompanha alguns personagens que andam à noite por aquelas ruas, criando uma atmosfera tensa que me parece falar muito diretamente a todo mundo que faz este tipo de percurso noturno em qualquer cidade do país: a desconfiança e o medo por sua própria integridade física, a tensão da possibilidade de ser assaltado, etc. A todo momento parece que alguma tragédia vai ocorrer. É um filme que se divide em capítulos com "guarda" nos títulos e a questão de segurança hoje no Brasil é tão tênue e frágil, que a aura de filme de terror que Kleber Mendonça constrói me parece bastante apropriada. Vendo o filme pela segunda vez, a cena que encerra o filme me lembrou também o plano final de "Intervenção Divina", onde uma panela de pressão serve de metáfora para as questões da Palestina. As coisas estão para explodir por aqui também...


Neste sentido, "O Som ao Redor" traz as duas sequências mais memoráveis do ano, perfeitas como cinema e comentário social: o momento em que um casal faz sexo em um lugar onde não deveriam fazer e, logo em seguida, o pesadelo de uma criança em que toda uma população indesejável toma sua sala de estar. Como cinema, porque são imagens fortes, no uso do som, do enquadramento e iluminação, daquelas que ficam na memória por bastante tempo (assustam também pelo estranhamento e o inusitado); como comentário social, porque são cenas de terror que ilustram perfeitamente os medos mais básicos de qualquer um que pertença a classe média/alta, que é o desconforto e pavor da "invasão" de pessoas que claramente estão em outro nível (certamente mais baixo), contaminando e violando espaços tão privados.


Há muito mais a se falar. Particularmente, adoro tudo que envolve a personagem de Maeve Jinkings (percebi que amaria o filme quando se dedicou a um longo close no rosto dela, chapada, ao som de "Crazy Little Thing Called Love", momento em que o cachorro volta a latir) e há tantos pequenos detalhes de composição de espaços e personagens (grande direção de atores) que certamente não lembraria de todos aqui - além de tantos outros que eu não devo ter percebido. É um grande filme de cinéfilo, de autor. De alguém que tem inquietações com a realidade em sua volta e que consegue traduzi-las em imagens e sons devidamente articulados num conjunto que empolga. Que venham mais filmes nacionais assim.

4 comentários:

Cecilia Barroso disse...

Realmente, O Som ao Redor é um filme diferenciado, que atingiu um patamar que não foi atingido ainda pelos novos realizadores.
Mesmo sendo ficção, ele é tão real, tão próximo e tão plausível. E não há meio de não se identificar.
Imperdível!

Anônimo disse...

filme,muito ruim,não acontece nada no filme,parece uma novela sem final nenhum

BRENNO BEZERRA disse...

Sucesso ao filme no Oscar

Anônimo disse...

eu não gostei do filme,eles pegaram as cenas mais triviais de um novela,cenas que passariam despercebidas e fizeram o filme e tiraram a história principal

o filme é cheio de pontos abertos e termina com o barulho de bombinhas de são joão

eu não entendo como alguém pode gostar de um filme desse